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Curiosidades 21. 1. 2021

I kissed myself and Iiked it | Mirror issue

by Sara Andrade

 

Se nos olhássemos ao espelho, se verdadeiramente nos olhássemos ao espelho, gostaríamos desse reflexo? Ficaríamos assim tão apaixonados pela imagem que ele nos devolve? E se o século XXI se olhasse ao espelho, seria narcisista? Fotografia de Arnaud Ele.

Era uma vez um senhor chamado Narciso. Chega-nos da mitologia grega, em fábulas e histórias de poetas como o romano Ovídio. Caçador originário de Téspias, Beócia [Grécia], Narciso era um herói famoso pela sua beleza inigualável e orgulho em igual medida. Filho de Cefiso, deus do rio, e da ninfa Liríope, diz-se que o vidente Tirésias decretou, quando nasceu, que viveria uma longa vida, desde que jamais contemplasse a sua própria imagem. Narciso era de tal forma belo que despertava paixões sem olhar a géneros e igualmente arrogante ao ponto de achar que nenhum desses pretendentes, homem ou mulher, eram equiparáveis à sua excelência, recusando frequentemente os seus afetos. Esta prepotência desmesurada fez com que os apaixonados não correspondidos pedissem aos deuses para os vingar. Caso de Eco, uma ninfa da floresta que se apaixonou perdidamente pelo jovem, mas este desprezou-a. O coração partido da ninfa tornou-a desgostosa até não restar mais nada a não ser o seu eco. Como castigo, Némesis, deusa da retribuição e da vingança e, aqui, uma espécie de alter ego de Afrodite, condenou Narciso a apaixonar-se pelo próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua própria imagem, Narciso deitou-se à beira da água e definhou enquanto se admirava a si próprio. As nuances do mito variam: em algumas, diz-se que se suicida ao realizar que não consegue ter o seu reflexo como cara-metade. Outras dizem que foi o jovem Aminias que se suicidou à porta de Narciso, pedindo aos deuses que o castigassem. Noutra hipótese ainda, por Pausânias, Narciso apaixona-se não pelo seu reflexo, mas pela sua irmã gémea, e olhar para a sua imagem era a maneira de se consolar após a morte da irmã, vendo-a nas suas feições desenhadas na água. Em qualquer uma das variantes, o fim é sempre o seu trágico desaparecimento, consequência da obsessão pela própria beleza (há quem defenda que surge da antiga superstição grega que advogava ser fatal, e um azar, ver-se ao espelho). Depois da sua morte, Afrodite transformou Narciso numa flor que nasce então no local onde a personagem perece.

Era uma vez um senhor chamado Narciso. Só que não “era uma vez”, continua a ser. A personagem de Narciso continua a viver não só através das inúmeras representações na Arte, mas também de uma patologia que lhe rouba o nome e a arrogância, mas não tanto a beleza. Narciso mostra a sua cara mais feia quando o narcisismo se manifesta de forma exagerada: “O narcisismo corresponde ao amor-próprio e, como tal, não só é uma dimensão natural como também desejável; afinal, é importante e necessário gostarmos de nós próprios, investirmos e cuidarmos de nós nas várias dimensões da nossa vida (cuidarmos da nossa aparência, saúde física, emocional…)”, começa por explicar-nos Filipe Albuquerque, psicólogo clínico. “Claro que (...) as suas manifestações mais exacerbadas podem corresponder a aspetos não tão saudáveis. Estamos habituados a ouvir as palavras ‘narcisismo’ e ‘narcísico' e a atribuir-lhes conotações predominantemente negativas; isto porque alguns traços ditos narcísicos podem, em algumas pessoas, corresponder a manifestações mais ou menos consolidadas como traços de carácter e de expressão predominantemente negativa que, nas formas mais graves, se enquadram na Perturbação de Personalidade Narcísica. Falamos aqui de pessoas que apresentam um padrão global de grandiosidade, manifestado no seu próprio comportamento ou nas fantasias que constroem a respeito de si mesmos, que têm uma necessidade constante de admiração, desvalorizando constantemente os outros, que tratam frequentemente com arrogância e desprezo (mas de quem, no fundo, sentem uma inveja intensa). São pessoas incapazes de estabelecer relações de qualidade, pela incapacidade em se colocarem no lugar do outro e perceberem as necessidades e sentimentos alheios (são incapazes de empatia) e vivem as relações numa base de superficialidade e funcionalidade, ou seja, servem-se dos outros para aquilo que lhes interessa (para atingir determinado objetivo, para obterem admiração, etc.).”

Uma descrição que confere com a personagem mitológica que permanece nestes traços até aos dias de hoje. Com origem etimológica em narke, que significa “entorpecido” (e de onde, além de narciso e narcisismo, também vem a palavra “narcótico"), Narciso simbolizava para os gregos a vaidade e a insensibilidade, uma vez que era completamente indiferente aos avanços daqueles que se apaixonavam pela sua beleza. Uma das consequências deste comportamento à la Narciso não se prende apenas com uma arrogância extrema, inevitavelmente ligada a uma insatisfação porque nada ao redor parece corresponder às exigências de quem é exacerbadamente narcisista, mas também com um isolamento progressivo da pessoa – mas não total, uma vez que precisa da sua dose diária de bajulação: “A pessoa narcísica precisa sempre de outros”, corrige Filipe. “Para insuflar um ego sempre com avidez em ser elogiado e admirado, para atingir determinados objetivos que tenha, para gratificar as suas próprias necessidades (por isso as relações que estabelece são sempre de uma tendência de exploração dos outros), precisa dos outros para os desvalorizar e assim se sentir mais importante... agora, de um ponto de vista afetivo, são indivíduos muito sós, pois não têm a capacidade de estabelecer relações de amor plenas, de respeito pelo outro, de envolvência afetiva. Têm uma verdadeira incapacidade em amar; os outros são só objetos e rapidamente descartados, daí que o indivíduo narcísico tenha dificuldade em manter relacionamentos longos, pois mal as vontades próprias e o lugar do outro começam a ganhar ou a exigir mais espaço, a relação é descartada.” Mesmo que o isolamento físico não seja total, o emocional é-o. Sempre mascarado pelo modo como busca a admiração e aplauso dos demais.

"NARCISO OLHAVA PARA O SEU REFLEXO NA ÁGUA, ADMIRANDO-SE. ESTAVA, PORTANTO, ALGO FECHADO SOBRE SI MESMO. AGORA PODEMOS OLHAR PARA UM ECRÃ PARA APRECIAR, CAPTAR E PARTILHAR A NOSSA IMAGEM E ESTE ÚLTIMO ASPETO PARECE-ME RELEVANTE, POIS A PARTILHA ATRAVÉS DAS REDES SOCIAIS DO QUE SE TEM, CONQUISTA OU SE EXIBE É UMA FORMA DE OSTENTAÇÃO EM RELAÇÃO AOS OUTROS.” - FILIPE ALBUQUERQUE

Não é por isso de estranhar que se possa fazer um paralelismo entre os tempos que correm, numa era de redes sociais e de likes, e a propensão para manifestar essa personalidade narcisista. Vivemos numa sociedade que gosta do escrutínio e onde os social media o promovem, dando-nos uma janela para mostrar tanto as nossas conquistas como fraquezas, mesmo inadvertidamente: “Sem dúvida, é uma sociedade assente num registo competitivo muito marcado, na qual o que conta é ser bem sucedido, ser o melhor, muitas vezes à conta do insucesso e da exploração dos outros”, confirma o psicólogo. “É uma sociedade que não assenta em princípios de cooperação e entreajuda, à qual só interessam os resultados (sejam eles económicos, desportivos, números de likes e visualizações nas redes sociais...) e que se satisfaz pelo superficial em detrimento do que é substancial e tem conteúdo. Vive-se muito numa certa superficialidade, com todas as implicações e consequências que isso tem nas relações que se estabelecem, às quais muitas vezes falta uma vivência mais profunda, de verdadeira ligação, de preocupação e genuíno interesse e amor pelo outro. A ostentação predomina e as redes sociais e o fenómeno das selfies são prova e consequência disso. O que importa é mostrar-se, os sítios para onde se viajou, as compras que se fizeram... Narciso olhava para o seu reflexo na água, admirando-se. Estava, portanto, algo fechado sobre si mesmo. Agora podemos olhar para um ecrã para apreciar, captar e partilhar a nossa imagem e este último aspeto parece-me relevante, pois a partilha através das redes sociais do que se tem, conquista ou se exibe é uma forma de ostentação em relação aos outros, para suscitar a admiração e até a inveja dos outros. Sentir-se admirado e invejado na sua suposta grandiosidade é o objetivo do narcísico.” Mas, ressalva Albuquerque, as redes sociais não são a raiz de todos os males: “Por outro lado, é importante refletir também sobre a forma como os pais e a sociedade organizam a vida das crianças. Desde muito cedo que são formatadas no registo competitivo, quer em contexto escolar, quer nas múltiplas atividades em que se encontram inseridas no seu dia a dia, e muitas vezes estão com o seu tempo excessivamente preenchido, porque ser bom não basta, é preciso ser o melhor. (...) Falta o essencial: mais tempo de qualidade com os pares, com os pais, a vivência de experiências no exterior, o contacto com a natureza, a disponibilidade afetiva dos pais e das figuras significativas, o genuíno reconhecimento destas pelas conquistas das crianças, a aceitação serena das suas dificuldades e limitações....”

Então, somos criados para sermos – ou tentarmos ser – os melhores, muitas vezes a níveis doentios que tornam essa ambição desajustada numa situação de comunidade? Talvez. Mas também é possível combater esse exagero, ou não? "De um ponto de vista clínico, uma pessoa com traços narcísicos patológicos, beneficiaria de um apoio psicoterapêutico especializado. A um nível mais genérico, a cultura predominantemente narcísica da nossa sociedade teria de sofrer transformações substanciais, criando um espaço de maior tolerância e aceitação das fragilidades, limitações e imperfeições, tornando-se mais cooperativa do que competitiva e não somente preocupada com os lucros, resultados, sucessos... (...) Se pensarmos que, no fundo, a grande problemática do narcísico (e dos aspetos narcisistas da sociedade, em geral) é a sua tremenda insegurança e fragilidade e incapacidade em amar em plenitude, a ‘cura’ passaria sempre pelo amor genuíno, pelo respeito, interesse e empatia pelo outro, pela disponibilidade e aceitação das fragilidade, limites e imperfeições, pela capacidade de mergulhar na profundidade das coisas, ao invés de se deter somente na sua superfície”, opina o psicólogo. O ideal é crescer a gostarmos de nós próprios, mas dos outros também, acrescentamos nós.

Talvez sejamos criados para gostarmos do eu e para vencer, e isso não é necessariamente mau, desde que não o façamos a qualquer custo (leia-se, à custa dos outros). Talvez, tal como de génio e de louco, de Narciso todos tenhamos um pouco. E ter um pouco de Narciso não é forçosamente negativo. “Do mesmo modo [que investimos e cuidamos de nós nas várias dimensões da nossa vida], valorizarmos as nossas competências e realizações com agrado e satisfação converge, igualmente, no estabelecimento de uma auto-estima positiva, que também depende, igualmente, de uma capacidade salutar de gostarmos de nós próprios” – sublinhe-se salutar nesta resposta de Filipe Albuquerque. “Um outro aspeto importante é que, somente gostando de nós mesmos seremos capazes de gostar genuinamente dos outros, de amar, e de sermos capazes de estabelecer relações (de amizade, amorosas, familiares...) de boa qualidade, de partilha e investimento genuínos, com capacidade de suportar e superar as ambivalências que natural e inevitavelmente as relações trazem, de, no fundo, viver com a plenitude necessária as relações que estabelecemos com os outros, numa mutualidade saudável.” Reitere-se: ter um pouco de Narciso não é um conceito louco. “Como em tudo, no equilíbrio está a virtude", remata Albuquerque. Era uma vez um senhor chamado Narciso que viveu feliz para sempre em doses pequenas no amor-próprio de cada um de nós. E é assim que nos olhamos ao espelho e gostamos do que vemos. Mas não vivemos obcecados com o nosso reflexo.