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Tendências 29. 3. 2019

No Poo ou como nunca mais lavar o cabelo na vida

by Patrícia Domingues

 

“Quando é que foi a última vez que lavei o cabelo, ah, deixem-me pensar... Há seis, sete anos?"

© Getty Images

Aviso à navegação: a jornalista que assina este texto não assina esta primeira frase. Aliás, a jornalista que assina este texto começou a lavar o cabelo dia sim dia não há cerca de dois meses, após uma vida de espumosos banhos diários, recusando-se a render-se às maravilhas do maravilhoso champô seco, até que as maravilhosas horas de sono a mais na cama que ganhava com ele acabaram por compensar. Por tudo isso, e porque mesmo depois de toda esta pesquisa talvez ainda lhe seja difícil acreditar que um cabelo que não é lavado sem champô não cheira mal, a jornalista que assina este texto retira-se, deixando este assunto nas mãos livres de sulfatos das No Poo (Poo, de shampoo, e não de outras coisas, como aconteceu a vários espectadores induzidos em erro num vídeo da youtuber de Beleza, Olivia Flocco) e dos especialistas capilares. Zou Bisou Bisou. Over and out 

Serena Lee é a imagem instagramável do ideal de vida moderno. A sua vida monocromaticamente irrepreensível faz-se de taças de jantar a transbordar de saúde verde, momentos familiares vividos com conjugações de outfits entre mãe e filha, passeios e abraços com o adorável poodle cor de café Mango, sugestões de roupa eco-friendly que são efetivamente giras e o cabelo comprido mais bonito de que há memória. Estaria quase a roçar o demasiado idílico (e irritante) para continuar a seguir (@imserenalee), se ela não fosse genuinamente amorosa, sensível, com um discurso honesto e livre de julgamentos do tipo “sou melhor do que tu porque sou vegan/amamento/faço ioga/recuperei do pós-parto em três dias” e qualquer outro feito que faça de uma influencer o epítome da perfeição humana (oposto direto de qualquer ser humano que não seja vegan/não amamente/ não faça desporto há três meses/não recupere do pós-parto nunca). Até porque esta representante da turma das redes sociais tem coisas bastante “anti-like-comum” para dizer, como assumir que fez um piercing no umbigo por pressão de um ex-namorado, ter decidido não partilhar fotografias com o rosto da sua bebé Zara, a sua relação de desleixo com a depilação e o facto de não lavar o cabelo com champô há quatro anos. [Espaço para reações estilo ewwwww]. Já passou? Ok. Se já visitou a página da instrutora de ioga (what else?), verá que o cabelo dela em nada se assemelha ao de Bob Marley. Aliás, há um post no blogue de Serena que demonstra através de provas irrefutáveis (a.k.a imagens antes e depois de um cabelo um pouco seco e crespo em 2014 para algo digno de anúncios de marcas de champô caso ela os usasse) que o seu cabelo só beneficiou com o riscar do champô da lista do supermercado (os da Aussie eram os seus favoritos).

“Levou cerca de um mês até o meu cabelo se habituar."

Dos produtos embalados Serena partiu primeiramente para o “Refrigerante de Maçã” (uma mistura de bicarbonato com vinagre de cidra de maçã) e só depois para o champô atual, ryepoo (uma mistura de farinha de centeio com vinagre). Os resultados foram descritos num “It’s been amazing”, em caps, e “life changing”, com uma média de lavagens de uma vez por semana, mesmo praticando exercício quase diariamente (imaginem o decréscimo na conta da água). Também deixou de usar secadores (menos na da luz) e o único extra é o óleo de amêndoa, que veio substituir o de coco, porque o cabeleireiro lhe disse recentemente que o primeiro era mais leve e mais indicado para o seu tipo de cabelo ondulado e grosso. Parece quase um conto de fadas (que tipo de lavagem capilar aplicaria Rapunzel nos seus 21 metros de cabelo, tão fortes que eram capazes de suster o peso de um corpo humano? Disney, exigimos respostas), bastante diferente dos horrores que li e vi (esta jornalista viu muita coisa assustadora) em muitos fóruns online sobre o processo de deixar de lavar tradicionalmente o cabelo. 

“Levou cerca de um mês até o meu cabelo se habituar”, conta Serena à Vogue. “Durante esse mês, todas as semanas durante uns dias o meu escalpe parecia estar a escamar uma camada.” Nos piores dias, usava o cabelo apanhado, mas, garante, tudo valeu a pena. “Quando me tornei vegan, há cinco anos, os produtos de beleza foram das últimas coisas que demorei a mudar para cruelty-free, porque é um mundo muito confuso. Uma forma de ter a certeza de que os meus cuidados de cabelo estavam de acordo com a minha filosofia de vida foi começar a fazê-los eu mesma.” Nem todos os adeptos do No Poo Movement o fazem por questões morais ou ambientais. Muitos desamigam o champô porque alguém lhes contou que os químicos prejudicam mais do que ajudam. Passam a relacionar-se apenas com água ou substâncias naturais (atenção: não confundir com usar apenas condicionador, pois aí entramos no território do co-wash, mais aconselhado para melenas encaracoladas) e deixar os óleos naturais do cabelo fazer o “trabalho sujo”. E depois, há também o Low Poo, uma redução ao máximo do número de lavagens com champô, utilizando preferencialmente um que não seja composto por sulfatos (tanto num como noutro método deve tentar abolir-se as más companhias dos petrolatos, óleos minerais, silicones e parafinas). É o caso de Érica Cunha e Alves, e das suas duas filhas, que são chamadas “à receção” durante a nossa conversa para uma confirmação de que os seus cabelos, passada uma semana, “não cheiram a nada”.

Erica diz que faz tudo parte do seu estilo de vida mais voltado para uma corrente “naturalista”, do sítio onde mora à alimentação e a outros cuidados de corpo e rosto (há anos que a tradutora da Vogue usa apenas água para lavar a cara e se vissem fotografias dela iam perceber porque é que esta jornalista olhou duas vezes antes de usar o seu gel de limpeza esta noite). O seu produto de eleição é um champô sólido da marca Lush, feito com ingredientes naturais, perfumados, que fazem espuma e não são testados em animais, mas este fim de semana decide pôr a cabeça, e a das filhas, à experiência. Com 1/3 de bicarbonato, 2/3 de água e uma gota de óleo essencial de hortelã “tudo já para o banho”, para depois enxaguar com água morna e vinagre de sidra. “As miúdas ficaram impecáveis. Limpo, maleável e brilhante”, é o veredicto que recebo por WhatsApp. 

Tudo corria a pratos limpos no vale encantado do self-cleaning (há uma dezena de livros que atestam estes dois testemunhos, além de múltiplos relatos em blogues e vídeos do YouTube), quando recebo as respostas dos dois dermatologistas contactados por email. Sabem quando a botija do gás acaba a meio do banho? É mais ou menos esse o efeito da opinião idêntica de Rui Oliveira Soares, dermatologista especializado em Tricologia, e Helena Toda Brito, dermatologista. “De uma forma geral, e do ponto de vista prático, de estética e de controlo de algumas doenças do couro cabeludo, não vejo grande vantagem em deixar de usar champô”, escreve Rui, para quem os champôs representam um “avanço”. Para as da tribo yes-Poo, a especialista recomenda escolher um champô suave e adequado ao tipo de cabelo, concentrar a sua utilização no couro cabeludo, enxaguar a cabeça com água morna e adaptar a frequência das lavagens às necessidades individuais (“o cabelo deve ser lavado com a frequência necessária para se manter limpo”). Estava a meio do seu cozinhado de bicarbonato com vinagre de maçã e fez parar a Bimby? Bom, no champô, tal como em tudo o resto, cada cabeça sua sentença. Na China antiga as mulheres lavavam os cabelos acetinados com água de arroz fermentada, na Grécia e na Roma antiga há relatos do uso de gordura animal e até cinzas (agora sim: ewwww) e no livro The American Frugal Housewife: Dedicated to Those Who Are Not Ashamed of Economy, de 1832, o rum e o brandy eram aconselhados para fortalecer as raízes.

“Mas porquê esta conversa toda sobre cabelo?”

O champô como o conhecemos nos anúncios da Herbal Essences que tornavam constrangedor qualquer jantar de família só chegou no fim dos anos 20 do século XX, derivado de uma palavra Hindi que significa “massagear”, mas ainda em 1909 o New York Times publicava artigos que sugeriam lavar o cabelo com sabonete num intervalo de duas a seis semanas, até porque antes da Segunda Guerra Mundial os chuveiros eram uma raridade e lavar a cabeça envolvia todo uma trabalheira que nos fazia desistir a meio (era de uma pessoa ficar pelos cabelos). Hoje não imaginamos a nossa vida sem champô tanto quanto nos tentamos livrar dele, tal como fazemos com o glúten, a lactose e as calças de cintura descaída. “Mas porquê esta conversa toda sobre cabelo?”, revoltam-se os demasiado ocupados para lidar com questões que nunca lhes poriam os cabelos em pé. Não há um lado certo da banheira para se ficar, porque segundo diz o autor do meu método Poo, “algumas pessoas preocupam-se demais... acho que é amor”, e quão bonito é termos esta quantidade de cuidado por uma parte de nós, que anda connosco todos os dias, desde a nascença, nasce e renasce, dá-nos alertas sobre o nosso estado de saúde e ainda tem o poder de arruinar ou aprimorar a nossa aparência? Esta jornalista é adepta do método-Poo, mas de um que não envolva sulfatos ou bicarbonatos, e em que está tudo bem com o nosso cabelo e com a forma como decidimos lavá-lo ou não com champô. Chama-se Winnie the Poh. Deviam experimentar.

 

Artigo originalmente publicado na edição de março de 2019 da Vogue Portugal.

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