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Tendências 29. 8. 2019

Monogramas: bom ou mau gosto? [Inserir iniciais aqui]

by Sara Andrade

 

Sejam as suas, sejam as de uma marca, há quem não consiga viver sem um monograma que seja. Mas qual é a linha que separa a identificação da ostentação? Há um limite para se vestir a logótipos? E um limite para reclamar propriedade com um par de letrinhas apenas?

© Getty Images

"As pessoas que monogramam os seus pertences estão a um passo de ser ditadoras”, dizia-me uma colega de profissão, num jantar de trabalho há um par de meses. É certo que a opinião hiperbolada pode ter sido para o efeito da discussão, tanto quanto não é inconcebível que o uso inadequado desta forma de reclamação de propriedade possa ter um travo de mau gosto, mas daí a ser criminoso? É verdade que Bernie Maddoff (responsável pelo esquema de pirâmide Ponzi), na sua luxuosa penthouse em Nova Iorque, tinha uns slippers monogramados com as suas iniciais (leiloados juntamente com o restante e valioso recheio da casa), mas, quer dizer, podia ter só receio que os outros membros da sua classe financeira tivessem uns iguais e quisesse distingui-los. Não? Como os nossos pais faziam com os nossos livros da escola. A pergunta premente, aqui, parece-me óbvia: de usar monogramas ao ato de monogramar, é coisa para dar direito a cadeia?

A Fashion Police que responda: reunimos especialistas na área da Moda, Lifestyle e Psicologia para perceber se há mão criminosa quando ela é usada para bordar as iniciais numa peça de vestuário ou de casa ou simplesmente para pegar num acessório que grita griffe. Logótipos, brasões, carraças e cães de caça, isso é tudo família da mesma raça… do mau gosto? “Há uns anos, diria de imediato: mau gosto”, começa Ana Caracol, editora de Moda da Vogue Portugal. “Hoje, depois de me passarem pelos olhos muitos logos e monogramas [de marcas], respondo: depende. Depende da peça, do material, do propósito e da mensagem que é passada.” E continua: “é um detalhe muito subjetivo que, a meu ver, quando usado de uma forma discreta, quase como uma piscadela, ou de uma forma assumida, criativa, artística, com uma mensagem divertida, provocatória ou informativa, já é outro assunto.” Alba Melendo, stylist e colaboradora assídua da Vogue, partilha da opinião: “Tudo na vida é uma questão de como e não o quê. Há uma linha que separa o bom do mau gosto e o mais importante é não a ultrapassar. Encontrar o equilíbrio é o mais importante”. Então, isto afinal está longe de ser crime — e até de ser mau gosto? “Hoje em dia, o bom e o mau gosto são relativos”, explica-nos Gracinha Viterbo, designer de interiores, aplicando o seu vasto CV de conhecimento na ótica do lifestyle à ideia desta colocação de iniciais numa peça de decoração. “Existe um indivíduo, uma história, uma atitude com as quais se dá vida ao que se leva e aonde se vive. O que pode parecer de mau gosto, com uma certa curadoria, ganha pinta e atitude usado de outra forma e com outra atitude”, opina, reforçando a ideia do equilíbrio acima referida. E continua: “Por isso, essa pergunta [se há uma linha que separa o monograma do bom gosto] não pode ter uma resposta concreta, posso talvez pensar num excesso de vários monogramas em conjunto como um elemento que me vai poluir um momento ou baralhar uma mensagem de identidade que se queira passar. Penso que, como em tudo, o equilíbrio passa pela mensagem ou identidade que se quer construir e a curadoria de elementos que se conjugam para o efeito. Se chocar ou ser um disruptive element for a intenção, então o exagero não é um elemento negativo. Se se quiser ser politicamente correto, chique, discreto, mas mostrar ou construir um certo status, então a abordagem será completamente diferente. Tudo é comunicação duma mensagem, duma identidade, e os monogramas têm uma história antiga e consistente no que diz respeito a identidades de marcas ou de indivíduos/pessoas, pessoalmente.”

"Tudo é comunicação duma mensagem, duma identidade, e os monogramas têm uma história antiga e consistente no que diz respeito a identidades de marcas ou de indivíduos/pessoas, pessoalmente.” Gracinha Viterbo, designer de interiores

A questão de status não é aqui algo inadvertido: está intrinsecamente ligada à origem dos monogramas — de família, de aristocratas, reis, imperadores —, que eram colocados em moedas e medalhas. Remontam à Grécia antiga, onde a moeda local teria as iniciais da cidade e, mais tarde, do governante. Posteriormente, na Idade Média, os mercadores e artesãos monogramavam o seu trabalho como uma espécie de assinatura, mas foi na época Vitoriana, com a emergência da burguesia, que a moda parece ter atingido o apogeu: a nova classe monogramava tudo, desde a roupa de cama às camisas, medalhões, até carruagens. O Appletons’s Journal de 1871, inclusivamente, catalogou a tendência de epidemia e rotulou os seus adeptos de monogramaníacos. Ora, ainda bem que entramos aqui no foro da medicina, porque depois de ter ouvido falar em maníacos e ditadores, não faria sentido continuar esta discussão sem envolver o campo da psicologia. Joana Canha, psicóloga clínica, também só fala em gravidade quando a coisa se torna excessiva: “como em quase tudo na vida, o exagero não anda de mão dada com o equilíbrio. Esta é uma das várias situações em que, vivenciada de forma exagerada, é um sintoma de que algo não está bem internamente/emocionalmente”, começa, quando se fala no gosto — obsessão? — em colocar as iniciais em tudo e mais um par de botas. “De uma forma alargada, a maioria das pessoas não percebe a ligação entre os comportamentos e motivações internas. Aquilo que as leva a agir de determinada forma, algo que aparentemente é só um gosto pessoal, tem um propósito, um objetivo. Pode ser, por exemplo, a redução da ansiedade, quando as pessoas têm uma necessidade extrema de organização, porque as faz sentir, interna ou emocionalmente, mais organizadas. Neste tipo de situação, tudo tem um sítio específico e a própria organização segue determinadas regras (cores, tamanhos ou até monogramas de peças pessoais)”. Então, pode ser uma obsessão? “Em determinadas circunstâncias, sim”, explica Canha. “Quando o não utilizar monogramas gera uma enorme ansiedade ou agitação, ou até mesmo impossibilita o uso de determinadas peças de roupa (por exemplo), a fronteira foi ultrapassada. Aqui, já não estamos a falar de gosto pessoal, mas sim de um sintoma de algo; nunca a causa, mas sim um sintoma.” E continua: “Pensando no uso exagerado de monogramas (por exemplo, ser incapaz de ter uma toalha só branca em casa), e admitindo enquanto sintoma, isoladamente não é suficiente para ‘fazer diagnósticos’. Contudo, se isso afetar a vida do próprio ou daqueles que o rodeiam, é muito provável que esteja ligado a outras questões emocionais. A ansiedade, como já foi referido, mas também a necessidade de marcar algum território, tornando clara a sua presença ou até mesmo a vontade de mostrar ao outro a sua identidade (estou a pensar na questão do status) são algumas razões que podem levar algumas pessoas a exibirem monogramas.” Então, a minha colega de profissão não estava completamente errada quanto à questão do ditador?! “Seria interessante perceber que ditadores tinham uma fixação por monogramas em específico”, retorna a psicóloga, entre risos com a pergunta. “Percebo o raciocínio. Se extrapolarmos, podemos admitir a possibilidade de isso se tornar uma imposição aos outros e, nesse sentido, sem margem para fazer diferente, mas daí a fazer essa ligação parece-me um bocadinho exagerado.”

Também me começa a parecer uma ilação exacerbada, até porque os monogramas não são os vilões da moda — muito menos criminosos. Pelo contrário: quando usados e/ou aplicados, de forma temperada, são uma forma de tornar um item ou decoração únicos: “Monogramas para mim levam-me para um passado oh-so-chic do último par de séculos, com memórias de vários tipos de monogramas bordados em lençóis, guardanapos, inseridos em lacres que fechavam cartas e mensagens secretas.” A descrição de Gracinha Viterbo volta a colocar a luz na essência dos monogramas, longe do seu (ab)uso indevido ou conotação tacky que alguns lugares-comuns do imaginário do estilo trashy se encarregaram de colocar na esfera da opinião pública. “Uma marca de identidade única e original que era aplicada de forma chique, discreta e original”, continua Viterbo, acrescentando que para si, “um monograma evoca personalização, identidade. Quando os aplico em projetos no meu studio de interior design ou em objetos da minha loja, Cabinet of Curiosities, é exatamente para esse efeito. Gosto muito de individualizar peças que não são únicas, de forma a torná-las únicas e, profissionalmente, de forma a dar um detalhe delicado que as diferencie, normalmente feito à mão e que seja um empowerment detail. A partir do momento em que um monograma já não tem essa missão, é massificado, para mim perde a sua força e missão.” Esta ideia de elegância do monograma é o core daquilo que é o monograma. Mas, mesmo hoje em dia, o seu uso em demasia — ou multiplicado num mesmo look, num mesmo espaço —, pode até perpetuar essa noção de sofisticação, ou coolness, como explica Nelly Gonçalves, diretora de Moda da GQ Portugal: “Depende de cada um. As mesmas roupas ou acessórios em diferentes pessoas podem ser percebidos de maneiras totalmente diferentes”, defende. “Podemos gostar numa pessoa e ficar chocados noutra. Tenho uma queda por faux pas que são divertidos. E porque não usar diferentes monogramas?”

"Vemos que uma peça com monograma representa mais do que apenas uma peça de roupa. Com o logo, podes pretender pertencer a um outro estatuto social." Nelly Gonçalves, diretora de Moda da GQ Portugal

Então, monograma — e, nesse sentido, monogramar —, é uma questão de atitude e não tanto de gosto? Talvez. Mas sempre influenciado pelas nossas próprias percepções: “O nosso olhar para as coisas é único, formatado com a nossa educação, os medos, ressentimentos e aspirações de cada um”, diz Gonçalves. “Vemos que uma peça com monograma representa mais do que apenas uma peça de roupa. Com o logo, podes pretender pertencer a um outro estatuto social. Permite adotar uma identidade que não é nossa e emancipar-se das fronteiras socioeconómicas que nos são impostas. Ele é considerado um elemento social, em si, sinónimo de liberdade. É por isso que esta tendência de logomania sempre teve tanto impacto. Sobretudo no início dos anos 2000 onde tudo era bling bling e show off.

Recapitulando: não há Mussolinis em monogramas, não há uma lei universal em relação ao bom gosto ou ao mau gosto do mesmo, há antes considerações em relação ao equilíbrio no seu uso e, em caso de exagero, há até atenuantes que dizem respeito a quem e como o usa. Mas talvez haja um risco nas suas iniciais ou naquelas iniciais de Maison que (não) pode ser pisado: “para mim, o monograma reflete uma história, uma identidade, seja de que tamanho, formato ou material se escolha, é um elemento muito forte”, advoga o nome da Viterbo Interior Design. “Todos querem contar ou espelhar uma história ou identidade nos dias de hoje. Eu prefiro escolher o caminho da personalização e, por isso, evito o excesso de monogramas num mesmo lugar. (…) Prefiro o monograma que é forte, que é rebelde, mas que se encontra, não que se expõe.”

A stylist Alba Melendo é mais peremptória a colocar uma linha-limite (mais ou menos): “Não há uma regra de ouro, mas é óbvio que, se for fake, é tacky. Ainda que, por vezes, esta situação possa ser cool… o maior exemplo é o Dapper Dan, nos primórdios da sua ascensão.” Então, quando até o fake pode ser cool, não há mesmo regras para monogramas ou iniciais um pouco por todo o atoalhado lá de casa e guarda-roupa? “Tudo é possível desde que haja bom senso e bom gosto, mas uma coisa que pode correr muito mal são tatuagens com as siglas ou iniciais dos nomes de namoradas/os…”, adverte Caracol. Nelly Gonçalves vai mais longe: “Não há regras. Acho que tudo já foi feito. Até monogramas em tostas. Desde que as pessoas se divirtam, porque não?” Não fechemos já as conclusões: ficou sem saber se é ou não de mau gosto, se é crime ou simplesmente dá direito a coima? Percebeu tudo o que está escrito neste artigo, então. Isso porque a resposta é inconclusiva. Gracinha Viterbo assinalou-o na perfeição: “a minha profissão é interpretar vidas através de espaços. Provocar sensações ou criar ligações emocionais em momentos. Espaços contam histórias, são cenários que completam identidades”, começa. “Como tal, já são 20 anos disto e de uma coisa tenho a certeza — é perigoso julgar alguém pelas aparências. Os monogramas não definem as pessoas. São um detalhe, para alguns um escudo que usam para afirmar de alguma forma o seu sucesso e o estatuto com o qual querem viver, para outros um orgulho por ser herdado e contar uma história rica em passado e memórias. Hoje em dia, num mundo de estilo em liberdade total e sem regras, o monograma até perdeu um pouco a sua força por ser, por vezes, até banalizado de algumas formas.” E remata: “não concordo que quem use monogramas esteja a um passo de ser ditador. Gosto de pensar que quem usa monogramas é livre de o fazer e que o faz de forma original num mundo que está cada vez mais a banalizar elementos que antes personalizavam histórias e que hoje universalizam vidas”. Subscrevo. S.A. Perdão, era só mesmo o ponto final.

Artigo originalmente publicado na edição de agosto 2019 da Vogue Portugal.

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