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Curiosidades 24. 4. 2020

Moda pela Liberdade

by Ana Murcho

 

À luz dos movimentos que, nos dias de hoje, lutam por liberdades ainda não adquiridas, o papel da mulher torna-se cada vez mais vital e significativo. Mas o que (também) é relevante, em todas essas movimentações, é a forma como a Moda pode ajudar a quebrar fronteiras e preconceitos. Do direito ao voto a guerrilhas políticas, ela esteve sempre lá.

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© Getty Images

Em tempos de cólera, quando tudo é mais propício à análise e à nostalgia, façamos rewind sobre uma história que nos diz muito: a história das lutas femininas por direitos tão universais que, agora, sentados no sofá por obrigação moral e sanitária, talvez façam mais sentido que nunca. Estamos privados da nossa liberdade mas sabemos que, após este “estado de emergência”, tudo voltará ao normal – à partida, tudo voltará ao normal. Podemos ir trabalhar. Podemos vestir as roupas que quisermos (uma minissaia? why not?). Podemos viajar. Podemos votar. Mas nem sempre foi assim.

A emancipação feminina, um combate em curso desde o início dos séculos, tem um passado recente mais ou menos negro. Quiseram calá-las. Fechá-las em casa. Ocultá-las das grandes decisões da Humanidade. Só que não conseguiram. No final do século XIX, as mulheres começaram a perceber que a palavra era uma poderosa arma. E saíram para as ruas.

A primeira convenção pelos direitos das mulheres aconteceu a 19 e 20 de julho de 1848 em Seneca Falls, Nova Iorque, nos Estados Unidos. Autoproclamando-se como uma reunião para “discutir as condições e direitos sociais, civis e religiosos das mulheres”, atraiu enorme atenção, tanto naquele país como fora dele, e deu o mote ao movimento das sufragistas, que havia de lutar mais de 50 anos para conseguir o direito ao voto. Foi nos EUA, e também no Reino Unido, que acabaram por surgir diversos grupos que se destacaram pela forma como usaram a Moda para disseminar as suas ideias, e desejos, de Liberdade.

“No século XIX, as sufragistas eram caricaturadas como pouco atraentes, mal-humoradas e matronas, perpetuando a ideia de que as mulheres que queriam o voto eram figuras marginais, que não deveriam ser levadas a sério.” Assim contava o jornal inglês The Telegraph, em 2018. A maior parte da imprensa da época mostrava-as “gritando e sendo levadas pela polícia.” Mas as sufragistas cedo compreenderam o poder – e o impacto – de um guarda-roupa cuidado. Desde a sua fundação que a Women’s Social and Political Union (também conhecida por WSPU, foi uma organização militante que lutou pelo sufrágio feminino no Reino Unido entre 1903 e 1917) criada por Emmeline Pankhurst, encorajou as mulheres a parecerem femininas e elegantes.

"As sufragistas [...] são um dos melhores exemplos de união entre Moda e Liberdade."

Pankhurst imaginou, inclusivamente, um esquema de cores que acabou por ser um marco triunfal na luta das sufragistas: roxo significava lealdade e dignidade, branco simbolizava pureza, e verde representava esperança. As militantes da WSPU eram incentivadas a usar estes tons como “um dever e um privilégio.” Nos EUA, existia ainda o dourado, que personificava os girassóis do Kansas, onde Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton, duas conhecidas sufragistas, faziam campanha. A moda pegou. Os grandes armazéns Selfridges vendiam fitas listradas tricolor para chapéus, cintos e crachás. O branco era, no entanto, a cor mais usada e, em ocasiões mais importantes, como marchas, as participantes eram aconselhadas a vestir total white da cabeça aos pés, o que dava uma visibilidade extra à causa.

Foi uma opção inteligente de propaganda – um alfinete com as três cores supracitadas, estrategicamente colocado, era sinal de uma partilha de valores; e os vestidos enfeitados com rendas, as blusas de gola alta e as saias limpas que associamos à era eduardiana eram facilmente modificados para este novo look que gritava por liberdade, nada mais que liberdade. Chegaram a ser feitos espartilhos confortáveis para aquelas que “marchavam e discursavam.” As sufragistas, que no Reino Unido acabaram por conseguir o direito ao voto em 1918, são um dos melhores exemplos de união entre Moda e Liberdade. 

Foi, durante décadas, o alvo preferido dos paparazzi, que não perdoavam as suas escolhas de vestuário, nomeadamente os acessórios – aquele toque final que pode elevar ou destruir um look. No caso de Hillary Clinton, era quase sempre o segundo caso. Enquanto foi “apenas” a mulher de Bill Clinton, a sua tendência para usar elásticos de cabelo – juntamente com as suas roupas de padrões, cortes e tons inusitados que agora, como num fabuloso plot twist, são consideradas icónicas – empurrou-a para as páginas de gossip e, de certa forma, diminuiu a relevância da sua longa carreira dedicada ao serviço social.

Tudo isto mudou quando assumiu o cargo de Secretária de Estado, em 2009, a convite de Barack Obama, e mais ainda quando entrou na corrida à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, em 2016. Em julho desse ano, quando fez o primeiro discurso como candidata, já não era aquela mulher de scrunchies que descurava o aspeto como algo frívolo ou irrelevante. Por essa altura, Hillary era já a política experiente, de aspeto polido e presidenciável, que dizia “estou pronta, vamos trabalhar.” Daí a sua escolha, na altura, ter recaído num fato branco, de tailoring impecável, que não deixava margem para críticas – e que distraía, definitivamente, a conversa sobre o seu aspeto físico e a centrava na mensagem que ela, Clinton, queria passar. No caso, e ao contrário do seu adversário, uma mensagem de Liberdade.

Chamam-lhe fashion activism e, dúvidas houvesse, após a semana de Moda de Nova Iorque, em janeiro de 2017, esse foi um dos temas mais badalados da temporada. O Council of Fashion Designers of America (CFDA) deu o mote, encorajando os participantes a usar pins cor-de-rosa onde se lia “Fashion Stands With Planned Parenthood” [em referência à organização de saúde a que Trump declarou guerra], e o lema foi seguido à risca. Em Christian Siriano, uma modelo envergava uma t-shirt que dizia “People Are People”. Jonathan Simkhai ofereceu camisolas onde se lia “Feminist AF” [iniciais para “as f*ck”]. Prabal Gurung fechou o desfile com uma série de t-shirts com mensagens como “Revolution Has No Borders” ou “I Am An Immigrant”. E os sinais de alerta continuaram, da ironia de Public School (com o boné vermelho “Make America New York” a fazer paródia ao chapéu de campanha de Trump) à roupa interior de Raul Solis, que suspirava “F*ck Your Wall”.

Nas ruas, multiplicavam-se os looks em que as palavras de ordem eram a peça mais importante. Mas sem dúvida que, por aqueles dias, o mais inesperado ato de subversão veio da conceituada revista W, que juntou 81 personalidades da indústria num vídeo onde a única frase repetida era “I Am An Immigrant”. 2017 foi, em termos de ativismo, um ano de renascimento. Sim, a t-shirt viral “We Should All Be Feminists”, da Dior, foi lançada nesse ano. Depois da inesperada vitória de Trump nas eleições de novembro de 2016, que tiveram uma onda de impacto em todo o mundo ocidental, as pessoas vieram para a rua gritar “basta”. E em várias ocasiões serviram-se da Moda para o fazer, fosse pelos pussyhats, que encheram as marchas pelos direitos das mulheres, em março, ou pelo uso recorrente de t-shirts, que voltaram a ser a forma mais direta de reagir à catadupa de notícias depois do Donald (não, isto não é um erro de formatação) se sentar na Sala Oval. Porque tal como Katharine Hamnett já nos tinha mostrado nos anos 80, também se pode lutar pela Liberdade assim, com uma simples t-shirt.

"Liberdade, nada mais que liberdade."

Simples, também, é o futuro que se imagina, e que se quer, para a Moda. Porque se pensarmos naquilo que os criadores têm apresentado nos últimos anos, um pouco por todo mundo – algures entre o neutral e o sports-couture, o athleisure-chic e o minimal – facilmente concluímos que a roupa, quando nasce, é para todos. Ou seja, que talvez não seja descabido concluir que, daqui a umas décadas, isso de coleções de homem e coleções de mulher será coisa do passado. Pelo menos assim parece pensar Alessandro Michele, cujas propostas são sempre um piscar de olho aos desejos de ambos os sexos. Mas façamos, uma vez mais, uma viagem pelo tempo. No final do século XIX, a ativista americana Amelia Bloomer defendeu o direito das mulheres usarem calças (mais concretamente, as bloomers) por baixo dos vestidos, e foi severamente criticada. Já nos anos 60 do século passado, o estilo unissexo diferenciava os hippies da classe média emergente. Vivia-se uma mudança de paradigma, e isso sentia-se.

Foi por essa altura que o The New York Times usou a palavra “unisex” pela primeira vez – mais concretamente, em 1968, para descrever um par de sapatos desajeitados da marca Monster. No Chicago Tribune, a colunista Everett Mattlin lamentava o estado de coisas numa coluna intitulada The Age of Unisex: “Vocês sabem como é agora – o cabelo dos rapazes é tão longo quanto o das raparigas e as suas roupas são igualmente sem forma e sem género. Elas usam botas e eles usam colares. As raparigas compram calças, blusas e casacos masculinos nas lojas masculinas, e não ficarei surpresa quando o contrário também se tornar realidade.” Depois disso, o conceito genderless percorreu um longo caminho até aos dias dia hoje, em que há dezenas de marcas que fazem desta libertação de géneros a sua razão de ser. Apoian- do-se, obviamente, na crescente importância dos movimentos pela igualdade de género, por exemplo, esta é uma luta pela Liberdade que não conhece fisionomias nem etiquetas.

De volta onde tudo começou. Em janeiro último, pelo terceiro ano consecutivo, os membros femininos do Partido Democrata ao Con- gresso Americano decidiram usar suffragette white no dia do discurso do Estado da União. De acordo com um tweet da deputada pelo Partido Democrata Brenda Lawrence, o grupo opõe-se “à agenda atrasada do Presidente Trump” que vai contra “a fundação que foi construída pelas mulheres pioneiras deste país." No passado dia 5 de fevereiro, uma enorme onda de branco invadiu o Capitólio: a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, destacava-se num branco imperial, sentada atrás do Presidente Trump e ao lado do vice-presidente Mike Pence, ambos de fato preto.

As outras mulheres ostentavam diferentes tons de creme, marfim, off-white e branco-pérola, criando um ensurdecedor holofote que gritava o seu descontentamento para com as políticas do ocupante da Casa Branca. Também em 2019, na sua cerimónia de tomada de posse, Alexan- dria Ocasio-Cortez, a mulher mais jovem de sempre a ser eleita para o Congresso, se vestiu de branco – exceto pelo seu batom vermelho, que se tornou a sua imagem de marca. Depois do evento oficial, partilhou no Twitter: "Eu usei branco hoje para homenagear as mulheres que abriram o caminho antes de mim e para todas as mulheres que ainda estão por vir. Das sufragistas a Shirley Chisholm [primeira mulher negra eleita pelo Congresso dos EUA], eu não estaria aqui se não fosse pelas mães do movimento.” Liberdade, nada mais que liberdade, dizem elas.

Artigo originalmente publicado na edição de abril de 2020 da Vogue Portugal.

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