Fotografia de John Rawlings. As joias como rosto de quem as usa - literalmente? -, nesta fotografia para a Vogue US, de 1960, com bangle e colar de contas por De Mario, e alfinete da Monet.
Há algo curiosamente paradoxal na relação humana com joias: usamos pedras e metais preciosos não porque nos fazem sentir vivos, mas porque nos fazem sentir um pouco mais eternos.
O ser humano é uma criatura que envelhece, oxida, enruga, mirra e mesmo assim escolhemos embelezar o corpo com materiais que não mudam, não se degradam nem enfraquecem. É uma ação romântica e narcisista com um acabamento polido. Desde as primeiras descobertas de amuletos pré-históricos que o fascínio se mantém o mesmo: as joias funcionam como pequenos encantamentos portáteis, símbolos de desejo, fé, poder, superstição e estatuto social. Mas, por trás do glamour, há uma ciência pura, há química, metalurgia, cristalografia, história económica e, acima de tudo, psicologia humana convenientemente disfarçada.
O ouro não oxida e pode ser esticado até ficar num fio mais fino que um cabelo humano. A prata tem propriedades antibacterianas e é o melhor condutor elétrico do mundo. O bronze inaugurou uma era inteira, antes da humanidade conhecer o conceito de era. E as pedras? Muitas nasceram na crosta terrestre sob a pressão de continentes. Algumas brilham sob radiação ultravioleta, mudam de cor com a luz, carregam inclusões que os gemologistas dão nomes poéticos como jardins internos, estrelas, nuvens ou véus.
Previamente às curiosidades do mundo das pedras e metais preciosos, temos de saber o que as mede: antes de ser uma unidade de medida para anéis de noivado ou de uma peça de alta joalharia, quilate era uma semente de alfarroba. As sementes de alfarrobeira eram conhecidas pelos comerciantes antigos devido ao seu peso quase idêntico entre si. Ao ganhar a fama nos mercados do Médio Oriente e do Mediterrâneo, acabou por se tornar o peso-padrão das pedras preciosas. Passados séculos, o “carob seed” passou a carat e ao “quilate” moderno, significando duas coisas distintas: quilate como unidade de peso (pedras preciosas), sendo que um quilate equivale a 0,2 gramas, ou uma grama a cinco quilates; e quilate como pureza (ouro) — o ouro puro (99,9%) tem 24 quilates, o que significa que qualquer desvio cria ligas, muitas vezes necessárias para dar resistência ao metal mais maleável do planeta.
Ouro: o rei dos metais (e dos egos humanos)
O ouro é com certeza o metal mais mitológico de todos — associado a deuses solares, tesouros e dentes de piratas, alianças matrimoniais, mercados financeiros e egos descontrolados. A reputação deste metal perfeito não vem necessariamente do seu brilho, mas sim da sua composição química. Não oxida, não corrói, não escurece, não se deteriora, mantendo-se inalterado durante milénios. Um anel romano de ouro, pode ser desenterrado e sair da escavação arqueológica diretamente para um dedo moderno. Mas como tudo o que parece nem sempre o é realmente, o ouro puro é demasiado macio para a vida quotidiana. O ouro de 24 quilates pode ser dobrado com as mãos. Dada esta fragilidade é costume ser misturado com outros metais para o endurecer, dando resistência e cor.
Sabia que... toda a quantidade de ouro extraída na História caberia em 3,5 piscinas olímpicas? ...uma grama de ouro pode ser esticada até fazer três quilómetros de comprimento? ...o corpo humano contém ouro — 0,2mg por pessoa?...90% do ouro já extraído foi minerado desde a corrida ao ouro de 1849 que começou na Califórnia? Curiosidades às quais se acrescentam as perguntas e respostas abaixo.
Como reconhecer ouro?
Aqui entra a famosa marcação de um carimbo gravado na própria peça. Em Portugal, o padrão histórico é 19,2 quilates — 192 — marca que representa uma tradição aristocrática metálica. Havendo outras possibilidades — 9k, 14k, 18k ou 22k — cada uma indicando a proporção real de ouro na liga.
Onde podemos encontrar esse carimbo na peça?
Em caso de um anel, no interior da banda; nos brincos, na haste ou base; nas pulseiras e colares, no fecho ou numa pequena placa junto ao fecho. Caso não encontre, pode ter uma marcação minúscula, pode estar desgastado, ser de origem estrangeira ou a peça não é de ouro verdadeiro. Usar um íman também resulta como detector de ouro, pois o metal precioso não é magnético.
Prata: a luz que respira, escurece e renasce
Há quem assemelhe a prata à lua: fresca, luminosa, reflexiva e com uma elegância que escusa apresentações. É o metal mais condutor do mundo, mas curiosamente é raro ser usado para esse fim dado que prefere dedicar-se ao pescoço, dedos e a fechos exigentes de uma descrição sofisticada. A prata oxida, ganha sombras, escurece e desenvolve uma pátina quase literária, como se de pergaminhos se tratasse. Não se trata de deterioração mas de uma evolução estética.
Sabia que... a prata tem propriedades antibacterianas naturais? ...é usada para purificar água e conservar leite? ...reflete mais luz que qualquer outro metal? ...o seu uso na joalharia é quase sempre Prata de Lei, marcada com 925 — indicando 92,5% de pureza — o balanço ideal entre o brilho e a resistência?
Como reconhecer a prata nas peças?
Através da marcação 925 gravada na peça; pelo brilho frio, quase azul; porque oxida; em brincos, a marca está muitas vezes na haste; em pulseiras e colares encontra-se no fecho e, em anéis, encontra-se no interior. Caso não encontre, a peça pode ser de baixa pureza ou demasiado antiga para preservar o carimbo.
Bronze, responsável por uma mudança do rumo da humanidade
O bronze é o protagonista silencioso da história humana, uma liga entre cobre e estanho que nasceu por acidente. Pré-bronze, a humanidade usava ossos, pedras e esperança; pós-bronze, as civilizações começaram a erguer-se, construíram armas, estátuas, esculturas e uma noção diferente de grandeza. É com certeza o metal mais humilde e, paradoxalmente, o mais transformador.
Sabia que... o bronze é mais resistente do que qualquer um dos metais que o compõem? ...as estátuas de bronze podem sobreviver milhares de anos, mesmo estando ao lado do mar com altos níveis de humidade? ...o sino perfeito é possível graças ao bronze, dado que nenhum metal soa igual, sendo uma das maiores proprieda- des do bronze a sua qualidade sonora? ...a sua pequena expansão quando solidifica do estado líquido, fá-lo um excelente material para fundações, detalhes e esculturas?
Como reconhecê-lo sem confundir com latão?
Tem um tom quente, quase âmbar; peso sólido; tendência para ficar verde (pátina nobre); o bronze pode não ser precioso, mas é o metal que fez do ser humano uma espécie tecnológica.
As pedras preciosas: o resultado da Alta-Costura da geologia
Diamantes, safiras, rubis e esmeraldas — a aristocracia mineral. Mas as histórias invisíveis nos milhões de anos de calor, pressão, metamorfoses, imperfeições e improbabilidades são a verdadeira sofisticação.
Diamante: o carbono que se veio aperfeiçoar
A arrogância química do diamante é fascinante: é o material mais duro encontrado na natureza, mas pode ser partido — com outro diamante — com um golpe preciso devido ao seu plano de clivagem. A única diferença do diamante para o lápis é apenas a organização atómica, pois o elemento do grafite é o mesmo: carbono. A pressão e estrutura perfeita transformam o carvão num símbolo matrimonial.
Esmeralda: a ninfa da fragilidade
As esmeraldas são tão belas como delicadas. Têm jardins como se fossem um segredo botânico, que são inclusões naturais. A profundidade do verde provém do crómio ou do vanádio. As esmeraldas são mais raras de encontrar que diamantes, porém são mais propensas a rachar.
Safira e rubi: as irmãs rivais
As pedras são variantes do mesmo mineral: coríndon. As safiras podem ter várias cores — branca, rosa, amarela, azul, e até certas cores que brilham sob luz UV, qualquer cor exceto vermelho — já que os rubis são apenas safiras vermelhas, mas ganharam o nome próprio por ser o favorito das coroas e das superstições.
Sabia que... o valor de cada pedra respeita uma liturgia precisa: os quatro C’s?
Cor (Color) A saturação, o tom e o matiz. Pedras cuja cor parece iluminar-se a si mesma, são sempre mais raras.
Pureza (Clarity) Riscos, imperfeições e inclusões são memórias geológicas, porém em demasia diminuem o valor. As pedras mais raras e mais apreciadas parecem ser polidas pela própria Terra.
Quilate (Carat) Dado que peso é poder, neste ramo, uma pedra com dois quilates vale muito mais do que duas pedras de um quilate, só porque é mais rara.
Corte (Cut) Ângulos milimétricos, simetrias obsessivas, geometrias perfeitas que pegam na luz e fazem dela um espetáculo, são um dos cernes do reino dos lapidários. Mas essa magia é dada na sua origem. Safiras do Ceilão, esmeraldas colombianas e rubis da Birmânia são alguns dos exemplos, pois cada região, cada mina, carrega consigo uma mítica reputação quer de preços quer de desejo.
Autenticidade: a atenção dos Gemologistas
A história escrita das pedras não ficou livre de antagonistas. As imitações, as zircónias demasiado perfeitas e os vidros lapidados, são objetos a evitar. Mas distinguir o artificial do real pode ser difícil em muitos dos casos, até mesmo para quem trabalha na área da joalharia, por isso é que existe a função de gemologista — um especialista em alta joalharia. Com lupas de alta precisão e ampliação, refratómetros, microscópios, luzes UV, testes térmicos e qualquer outro tipo de testes e materiais a que o comum mortal não está habituado, conseguem revelar o que o olho humano não consegue observar. Há quem apoie os testes caseiros, porém nada substitui o diagnóstico profissional.
O ouro, a prata, o bronze e as pedras preciosas são capítulos de uma história maior: a história da própria estética humana. O brilho é humano. Não são apenas materiais, nem decoração, são linguagem e identidade. No fim, não usamos joias para mostrar riqueza mas para afirmar permanência. Os metais não oxidam, as pedras não envelhecem e nós sim. E talvez por isso é que gostamos tanto delas: seguram o tempo, não cedem ao desgaste, mantêm a memória, continuam bonitas e fazem isto tudo enquanto nós evoluímos e nos transformamos. As joias não são apenas adornos, podem ser vistos como pequenos monumentos portáteis, elegantes, inquebráveis e raros. E a ourivesaria e a relojoaria são isso mesmo: transformar o tempo e a matéria em arte.
Publicado originalmente em Eternal Shine, o suplemento de joias da edição Dare To Be Bold da Vogue Portugal, publicado em dezembro de 2025, disponível aqui.
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