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Palavra da Vogue 18. 1. 2021

Mellon Collie and the Infinite Sadness

by Ana Murcho

 

Corria o ano de 1995 quando os Smashing Pumpkins, então no auge da popularidade, lançaram o álbum que dá título a este texto. Pegando num trocadilho com a palavra “melancolia” (Mellon Collie) e juntando-lhe uma tal de “tristeza infinita” (Infinite Sadness), Billy Corgan e companhia deram voz a uma geração que se sentia perdida, vazia, sem rumo. Foi o próprio vocalista da banda quem afirmou que o disco era inspirado “na condição humana de tristeza mortal”, algo “vago” que nem ele conseguia definir. Para esse algo “vago”, a língua inglesa tem a expressão mais certeira de todas as línguas: “feeling blue.

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Em menos de 0,5 segundos, o Google dá-nos 1.620 milhões de resultados quando a procura em causa é “feeling blue.” Isto significa, assim por alto, que muitas pessoas, em várias partes do mundo, procuram, ou já procuraram, o significado, ou o porquê, desta expressão. E isto também significa, assim por alto, que quase nenhuma conseguiu chegar a uma conclusão credível.

Há sites que referem que a frase provém de um costume antigo usado entre veleiros de águas profundas – se o navio perdesse o capitão ou algum dos oficiais durante a viagem, um dos tripulantes deveria hastear bandeiras azuis e ter uma faixa azul pintada ao longo do casco na altura de regressar ao porto de partida; há outros que dizem que a ligação tem outros motivos – a proximidade da morte, no século XIX, começou a ser associada à cor azul, porque esse tom significava que alguém, normalmente em estado terminal, estava à beira, ou muito próximo, de passar “para o outro lado”; outros sustentam que o termo foi usado pela primeira vez em meados do século XIX, por turistas franceses em visita a Nova Orleães, em postais que enviaram para casa (inserir muitas reticências nesta opção, mas semifactos são semifactos); outros ainda sugerem que o tom sempre esteve relacionado com a tristeza, remontando a tempos imemoriais, sendo impossível determinar a sua origem – apenas dependendo da cultura e do país.

If you say ‘I’m feeling blue’, it means you’re sad” (“Se você disser ‘I’m feeling blue’, isso quer dizer que está triste”), lê-se numa das ligações sugeridas pelo motor de pesquisa. Outras, mais diretas, como é o caso da Writing Explained, resume tudo numa definição ultra-sucinta: “to be sad”, ou, em português, “estar triste.” Mas porquê “blue”? De onde vem essa (apenas aparente) óbvia conexão entre a melancolia e o azul? Com o passar dos anos, a expressão ultrapassou fronteiras, e passou a ser usada tanto por tanto por falantes da língua inglesa a como por todos os outros que se servem dela como meio de comunicação diário, seja via web, seja nas interjeições que se intrometem no seu vocabulário. Qualquer um de nós, a qualquer altura, em qualquer parte do mundo, já deu por si a suspirar, num dia menos bom, “I’ve got the blues.

“O mundo é azul nas suas extremidades e nas suas profundezas. Este azul é a luz que se perdeu. A luz na extremidade azul do espectro não viaja toda a distância desde o sol até nós. Ela dispersa-se entre as moléculas do ar, espalha-se na água. A água é incolor, a água pouco profunda parece ter a cor de tudo o que está abaixo dela, mas as águas mais profundas estão repletas dessa luz dispersa; quanto mais pura a água, mais profundo é o azul. O céu é azul pela mesma razão, mas o azul do horizonte, o azul da terra que parece dissolver-se no céu, é um azul mais profundo, mais sonhador, mais melancólico, o azul nos confins dos lugares que se veem a milhas, o azul da distância. Essa luz que não nos toca, que não percorre toda a distância, é uma luz que se perde, e que nos dá a beleza do mundo, muita da qual está na cor azul. Durante muitos anos, fui movida pelo azul que está no limite do que pode ser visto, aquela cor dos horizontes, das cordilheiras remotas, de qualquer coisa distante. A cor dessa distância é a cor de uma emoção, a cor da solidão e do desejo, a cor do lá visto daqui, a cor onde não estamos. E a cor onde nunca poderemos ir. Porque o azul não está no lugar a quilómetros de distância do horizonte, mas na distância atmosférica entre nós e as montanhas. [...] Algures aqui estará o mistério de porque é que as tragédias são mais bonitas do que as comédias e porque sentimos um enorme prazer na tristeza de certas emoções e histórias. Algo está sempre longe demais.” O excerto anterior pertence ao livro A Field To Getting Lost (2005), da escritora americana Rebecca Solnit. Nele, a autora faz uma espécie de autorreflexão sobre a beleza de nos perdermos, sem medos, e acaba por desembocar na magia do azul, e em como essa cor rodeia tudo aquilo que amamos, tememos, e deixamos para trás.

“O azul da distância vem com o tempo, com a descoberta da melancolia, da perda, da textura da saudade, da complexidade do terreno que percorremos com os anos da viagem. Se a tristeza e a beleza estão inter- ligadas, talvez a maturidade traga consigo... não abstração, mas um sentido estético que redime parcialmente as perdas que o tempo traz e que encontra a beleza no longínquo. [...] Algumas coisas só as temos enquanto permanecem perdidas, algumas coisas não estão perdidas, apenas estão distantes.” Todas estas coisas, subentenda-se, são azuis. Chamemos-lhe tristeza, melancolia, ou dor. Era também sobre estas coisas, estas coisas “vagas”, que cantavam os Smashing Pumkins em Mellon Collie And The Infinite Sadness.

De volta à origem da expressão “feeling blue.” De acordo com a já mencionada página Writing Explained, “muitas culturas associam várias cores a diferentes estados de espírito ou atribuem-lhes outro significado simbólico. Por exemplo, em muitas culturas de língua inglesa, o vermelho pode significar raiva, o preto pode sugerir morte ou maldade, o branco pode mostrar pureza e o verde pode representar ciúme ou o talento para o cultivo de plantas.” O azul, por seu lado, surge sempre ligado à tristeza.

Algumas fontes apontam Geoffrey Chaucer (1343-1400), escritor e diplomata inglês, como o primeiro autor a referir-se dessa forma à palavra, e à cor, azul. Ele escreveu “Wyth teres blewe and with a wounded herte” (o que, nos dias de hoje, seria, “With tears of blue and a wounded heart”, qualquer coisa como “Com lágrimas azuis e um coração ferido”), no seu poema Complaint of Mars, que data de 1385. Outras parecem esquecer esse momento, e vão diretos ao livro The Boston Book: Being Specimens Of Metropolitan, publicado em 1836, uma compilação de vários escritores da época, onde se encontra a seguinte passagem: “Yes – I was attacked, literally, by a legion of live pork. The horrid circle contracted rapidly around me. Flight, in any sense of the word, was impossible. In this agonizing moment the clouds opened and discharged a tremendous shower of - dough-nuts. Henceforth let no melancholic victim of ennui complain of feeling blue, till he has felt the ‘pelting of the pitiless storm.’" Ou, na língua de Camões: “Sim – fui atacado, literalmente, por uma legião de carne de porco viva. O horrível círculo contraiu-se rapidamente ao meu redor. A fuga, em qualquer sentido da palavra, era impossível. Nesse momento agonizante, as nuvens abriram-se e despejaram uma enorme chuva de nozes. Doravante, nenhuma vítima melancólica do tédio se pode queixar de se sentir triste, até que tenha sentido ‘esse açoite da tempestade impie- dosa’.”

Não é de estranhar que esta passagem coincida com o aparecimento dos Blues, no Sul dos Estados Unidos, um tipo de música que transmite, por si só, uma certa melancolia e desassossego.

Por seu lado, estudos científicos apontam para que pessoas em estados depressivos tenham tendência a percecionar a cor azul de uma forma diferente das outras. “Já estávamos profundamente familiarizados com a frequência com que as pessoas usam a terminologia das cores para des- crever fenómenos comuns, como o humor, mesmo quando esses conceitos parecem não relacionados”, explicava, em 2015, Christopher Thorstenson, professor do Rochester Institute of Technology, em Nova Iorque. “Achamos que talvez o motivo pelo qual essas metáforas emergissem fosse porque realmente havia uma conexão entre o humor e a perceção das cores de uma maneira diferente.”

Nesse mesmo ano, uma investigação da qual fez parte foi publicada no jornal Psychological Science, que dava conta que, de facto, “o humor e a emoção podem afetar [a forma] como vemos o mundo à nossa volta.” Thorstenson referia-se a uma pesquisa que envolveu 127 pessoas, parte das quais foram submetidas a observar um vídeo emocional, e as restantes assistiram a um outro, de cariz cómico. Depois disso, foi mostrado a todos os participantes uma série de “patches” que continham quatro cores – vermelho, amarelo, verde e azul. Os resultados mostraram que aqueles que tinham visto o minifilme “triste” tinham mais dificuldade em identificar cores do que os restantes – principalmente se essas fossem azuis ou amarelas.

Os cientistas julgam que tal pode estar ligado com o neurotransmissor de dopamina, que altera o funcionamento do cérebro. Como escrevia na altura o site Neuroscience News: “The world might seem a little grayer than usual when we’re down in the dumps and we often talk about feeling blue. New research suggests that the associations we make between emotion and color go beyond mere metaphor.” Por outras palavras, “o mundo pode parecer um pouco mais cinzento do que o normal quando estamos deprimidos e frequentemente dizemos que estamos tristes. Uma nova pesquisa sugere que as associações entre a emoção e a cor vão além da mera metáfora.” Desta feita, da próxima vez que ler ou ouvir a frase “I’m feeling blue”, pense duas vezes antes de a catalogar como um mero cliché.

Tudo isto serve como exemplo para explicar, ou pelo menos ajudar a compreender, parte de outra expressão semelhante - “Monday blues.” Ter, ou sentir, esses “Monday blues”, é ficar paralisado num desânimo e numa preguiça, que ataca o “paciente” às segundas-feiras, seja porque não quer enfrentar uma nova semana, seja porque está de ressaca do fim-de-semana, seja porque odeia o trabalho, a escola, o que for. É uma falta de energia recorrente, uma ausência de entusiasmo, que muitas pessoas não conseguem controlar, por mais tempo que passe – e isso não significa obrigatoriamente tristeza, apenas uma angústia que não se consegue controlar. É um fenómeno mais comum do que se possa imaginar, e vem normalmente após o loop de excitamento e desânimo que caracteriza os domingos, quando entramos em fase de “liberdade condicional” dos nossos prazeres mundanos e somos forçados a submeter-nos à rotina e às obrigações da vida em sociedade.No entanto, também há quem defenda que os “Monday blues” são um mito, e que a maior parte dos que se queixam deles apenas não gosta do que faz – dá que pensar, no mínimo.

Seja como for, a palavra, e a cor, azul (e, por arrasto, esse incontornável “feeling blue”) ficará invariavelmente ligada a uma sensação de sofrimento, desalento, in- felicidade e, claro está, melancolia. Talvez porque, como sublinha Rebecca Solnit no livro acima mencionado, “o azul é a cor da saudade das distâncias a que nunca chegamos, porque o mundo é azul.”

Artigo originalmente publicado na edição de outubro de 2020 da Vogue Portugal.

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