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Inspiring Women 15. 11. 2018

À espera de um milagre

 

49 centímetros, 3,350 kg, cabelo loiro e olhos azuis, pelas 15 horas e 40 minutos do dia 21 de julho de 2017 nascia Manuel, o elemento que faltava ao retrato “marido, casa e cão” perfeito da influencer Margarida Marques Almeida*. Este é o final feliz, mas todas as fotografias de Instagram têm uma história por trás.  

Margarida veste camisola e calças em brocado, Alexandra Moura. Brincos em resina, Mango. Manuel veste colar em bronze, Céline na loja das Meias. Fotografia de Branislav Simoncik. Styling de Cláudia Barros.

Sempre quis ser mãe. Daquelas mães que têm muitos filhos. Sempre adorei crianças. Tornam a vida tão mais simples e descomplicada e sempre me senti como ‘uma delas’. Desde pequenina que gostava muito de brincar com bonecas, eram todas minhas filhas: vestia-as, cheguei a fazer-lhes roupa com a ajuda da minha mãe e até as alimentava (com terra e folhas do jardim…). Lembro-me de ter uma cozinha de brincar para lhes fazer as refeições, com um minifrigorífico e tudo. 

O João, o meu marido, também sempre quis ter filhos. Esse era o nosso maior desejo em comum. Só que não tinha ainda surgido a altura certa: primeiro, porque tínhamos acabado de casar e podíamos esperar mais um bocadinho; depois, porque tinha mudado de funções na empresa onde trabalhava e ‘não dava muito jeito’; entretanto porque mudei de trabalho e talvez não fosse a melhor altura… Estão a ver a ideia. Do nosso grupo de amigos, fomos dos primeiros a casar, e por isso também não havia muitas crianças a fazer parte da nossa vida ou que pudessem ser amigos dos nossos filhos, e tudo isto fez a nossa decisão ser adiada várias vezes. Na verdade, não existe uma ‘altura certa’ para ter filhos. A vida nunca reúne as condições que achamos necessárias para dar esse passo, especialmente quando achamos que basta deixar de tomar a pílula e a magia acontece no mês seguinte. 

Quando decidimos, finalmente, começar a tentar engravidar, muitas amigas estavam na mesma fase e parecia que o universo conspirava de forma perfeita para estarmos todas grávidas na mesma altura. Num curto espaço de tempo, já grande parte das minhas amigas tinha engravidado. Se, por um lado, acreditava que ia engravidar rapidamente (sou uma otimista por natureza e estavam reunidas todas as condições para que acontecesse, do ponto de vista médico), por outro, tinha algum receio de ter alguma dificuldade em concretizar este sonho. Algumas amigas estavam em processo de tratamentos de fertilidade, porque não estavam a conseguir naturalmente, mas a minha médica dizia-me que era ainda muito cedo para pensar em tratamentos, não tinha passado assim tanto tempo e para eu não me preocupar, porque estava tudo bem. Ia acontecer em breve. 

Passaram-se dois anos quando dei por mim a pensar se realmente queria ter filhos, porque se calhar não ia acontecer. Como seria a minha vida se, afinal, fosse diferente daquilo que tinha idealizado? Se calhar não era suposto termos filhos. Entretanto, algumas amigas já estavam à espera do segundo. 

Sempre fui um bocadinho ansiosa e queria que as coisas acontecessem no momento em que as planeava e isso não estava, de todo, a acontecer. Resolvemos marcar uma consulta numa clínica de infertilidade, para ter a certeza de que estava tudo bem. Fizemos uma dezena de exames, cujo resultado era sempre o mesmo: estava tudo bem comigo e com o João e não havia razão aparente para não acontecer uma gravidez natural. De qualquer forma, decidimos avançar para o primeiro tratamento: uma inseminação. Os prognósticos eram os melhores e acreditava mesmo que ia engravidar com este primeiro tratamento. Não aconteceu. Seguiu-se novo tratamento igual, porque ‘às vezes não funciona à primeira’. O resultado foi igual. Perguntava sempre à médica se havia mais algum exame que pudesse ser feito, porque queria fazer todos os despistes de uma vez. Os exames sucediam-se, os resultados iguais: está tudo bem. Decidimos avançar imediatamente para uma FIV (Fertilização In Vitro), porque a taxa de sucesso era mais alta – cerca de 40%. Segundo estudos, um casal sem problemas de fertilidade tem 20% a 30% de hipóteses de engravidar naturalmente e numa FIV a probabilidade aumenta para 40%, o que é uma percentagem muito baixa, tendo em conta todo o processo por que passamos (sem falar na componente financeira). 

"Durante todo este processo, passa-se por várias fases: ansiedade para que tudo corra bem e rapidamente; frustração de não descobrirem a razão para não acontecer uma gravidez e, ao mesmo tempo, a maior parte das pessoas à nossa volta vai engravidando; esperança que aconteça no tratamento seguinte."

Sempre confiei nos médicos que me acompanharam na clínica, mas às tantas já achava que podia haver ali uma dose de incompetência. Se estava tudo bem, porque é que não acontecia nada? De certeza que havia algum exame que devia ter feito, não tinham despistado tudo. Tinha que haver uma explicação. Mas, na verdade, não há. A infertilidade e a Medicina em geral não são uma ciência exata, cada caso é um caso e muitas vezes há razões desconhecidas para o insucesso. Nesta fase há uma grande frustração, porque não depende mesmo de nós, da nossa vontade. Talvez por ter perto de mim algumas pessoas que tinham passado – ou estavam a passar – pelo mesmo, nunca me fui muito abaixo. Mas não vou mentir, não é uma fase fácil. 

Seguiram-se várias transferências de 2 FIV e resultado sempre negativo. Com isto tudo, passaram-se mais de 4 anos em tratamentos – já muitas das minhas amigas estavam à espera do quarto filho, acreditam? Durante todo este processo, passa-se por várias fases: ansiedade para que tudo corra bem e rapidamente; frustração de não descobrirem a razão para não acontecer uma gravidez e, ao mesmo tempo, a maior parte das pessoas à nossa volta vai engravidando; esperança que aconteça no tratamento seguinte. Depende de pessoa para pessoa a forma como encaram a demora, mas é um turbilhão de emoções: agora não posso fazer exercício físico porque estou no processo de tratamento; depois engordava horrores e fazia exercício que nem uma condenada para me sentir bem no meu corpo novamente; a cada tratamento aconselham a ficarmos alguns dias de repouso em casa, o que dificulta (e muito) tentarmo-nos abstrair da situação. Felizmente, sempre consegui manter uma postura muito positiva em relação a todo o processo, apesar de haver fases de revolta e frustração (especialmente quando o resultado vinha negativo). Como sempre, falei com as minhas amigas sobre este tema, acho que sempre me ajudou a encará-lo de uma forma mais descomplicada – tinha que explicar mil vezes todo o processo às minhas ‘amigas férteis’, porque era um mundo novo para elas. Todas as minhas amigas que tinham feito tratamentos tinham conseguido engravidar – com mais ou menos demora no processo. 

Um ano antes do último tratamento que fiz (aquele em que engravidei do Manuel), decidi fazer uma pausa nos tratamentos. Estava um pouco farta do turbilhão e precisava de não pensar nisso durante uns tempos. Quando voltei a fazer a FIV decidi não contar a ninguém (só a minha família sabia) e nem o João soube o dia em que ia fazer o teste de gravidez – já bastava um de nós ansioso. Estava tão embrenhada em trabalho nessa altura que, no dia em que fiz o exame, ao invés de clicar mil vezes no refresh do email para saber o resultado como habitual, acabei por me esquecer. Só à noite quando cheguei a casa é que fui espreitar o meu email. O resultado era tão mais-que-positivo que até fiquei baralhada. Liguei a uma amiga, que desatou a chorar e não me conseguiu ajudar a interpretar o exame (a interpretação é a coisa mais básica deste mundo, mas, naquele momento, eu não estava a conseguir raciocinar) e liguei à médica, que me confirmou: ‘sim, está grávida!’ Os meus olhos liam ‘sim’ mas a minha cabeça teimava em dizer que não: seria mesmo verdade? Teimava em pensar que seria melhor esperar pela consulta para ter a certeza que existia uma ‘pessoinha’ aqui dentro. Contei ao João mal chegou a casa e, claro, achava que estava a brincar – na cabeça dele só ia fazer o teste na semana seguinte. Contámos à família e amigos mais próximos e só passadas umas semanas é que partilhei com toda a gente, com receio de alguma coisa correr mal. 

Não foi um processo fácil, mas se calhar foi preciso para entender que as coisas não acontecem quando eu quero que aconteçam e que devo levar a vida de uma forma mais leve, sem grandes planos, porque as coisas acontecem quando têm que acontecer. É um cliché, eu sei, mas talvez o seja por ser verdade. A gravidez foi vivida de uma forma muito tranquila, queria aproveitar ao máximo aquele momento, não sabia se se ia repetir (e ainda não sei, espero que sim) e correu sempre tudo muito bem. O dia em que o Manuel nasceu não podia ter corrido melhor. É quase inacreditável quando nos vemos com o bebé nos braços e é nosso, sentia-me um bocadinho a flutuar, mas era real. O Manuel é o bebé mais querido do mundo, bem-disposto e tranquilo: tudo o que podia desejar. 

Passaria pelo processo todo novamente, sem qualquer hesitação. Pode ser demorado, desgastante e frustrante, mas compensa tudo. Para quem está a passar por dificuldades em engravidar, o melhor conselho que posso dar é: acredita que vai acontecer, quando tiver que ser, sem ansiedades e com pensamento positivo. Sei que é difícil desligar e fingir que não estamos a pensar no assunto quando é um grande desejo. Mas aprendi a confiar naquilo que a vida me reserva e acredito que será sempre o melhor para nós.” 

* Margarida Marques Almeida é autora do blogue Style It Up. 

A Vogue Portugal agradece ao Hotel Ritz Four Seasons todas as facilidades concedidas. 

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