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Entrevistas 15. 11. 2018

Rodarte: a Arte da Moda

by Liam Freeman

 

Dos filmes de Hitchcock às florestas da Califórnia, Kate e Laura Mulleavy são mais parecidas aos artistas do que aos designers quando o tema é encontrar inspiração para as coleções da Rodarte. Com uma nova exposição do trabalho da dupla em Washington, D.C., a Vogue sentou-se em exclusivo com as duas irmãs para conversar sobre slow fashion, storytelling e mulheres no topo.

Kate e Laure Mulleavy, fundadoras da Rodarte ©Fotografia de Amy Harrity 

Ao passar pela 1600 Pennsylvania Avenue, um dos endereços políticos mais famosos do mundo – a Casa Branca -, na manhã de quarta-feira, o murmurinho do progresso era quase tão alto como as folhas de outono espezinhadas. Os democratas podem não ter conseguido virar tantos estados de vermelho para azul como tinham desejado fazer nas eleições intercalares, mas o número recorde de mulheres – mais especificamente de mulheres de cor liberais -, que se candidataram a um cargo político com sucesso era suficiente para permitir um momento de euforia.

A vitória destas mulheres fez com que a chegada ao National Museum of Women in the Arts (NMWA) em Washington, D.C. – o único museu no mundo inteiramente dedicado ao trabalho de mulheres relevantes nas artes –, a propósito do preview  da exposição Rodarte, tivesse um significado ainda mais monumental. A etiqueta foi fundada em 2005 pelas irmãs Kate e Laura Mulleavy, e o seu nome sozinho – que devolve o “e” ao nome da mãe de Kate e Laura, Rodart, que caiu durante o processo de pedido de cidadania americana quando o pai emigrou do México para os Estados Unidos da América -, é suficiente para transmitir uma mensagem poderosa. Abrangendo os primeiros treze anos da carreira de Kate e Laura, esta exposição não é uma retrospetiva, como explicam as duas designers, mas antes uma oportunidade de refletir sobre a sua obra até à data, criada numa indústria conhecida pelo seu ritmo incansável.  

“Com a Moda, continuamos a ter este hábito de olhar apenas para a última coleção, e decidir logo se gostamos ou não – algo que reflete a procura pela gratificação imediata”, defende Kate em entrevista à Vogue. “Essa é a natureza do nosso mundo, mas acho que tirar tempo para observar o trabalho como um todo mostra a história daquilo que realmente somos, e do facto de nos termos mantido independentes nestes últimos treze anos”. O ponto que Kate defende é válido – com marcas santificadas como Versace ou Dries Van Noten a venderem ações maioritárias dos seus negócios este ano, o designer independente é uma criatura rara nos dias de hoje. Acrescente a isso a estatística lamentável de que apenas 14% das grandes marcas são comandadas por mulheres, e a noção de que a Rodarte desafia grande parte das regras da indústria da Moda (por ano, a marca apresenta duas coleções ao invés de quatro, e as suas peças exigem tanto de mão de obra como de investimento financeiro, com certa de 150 horas de trabalho e vestidos da coleção outono/inverno 2018 à venda por mais de 8 mil euros) – e irá perceber o quão extraordinária a etiqueta realmente é.

Longe das passerelles das “quatro grandes” capitais da Moda, a Rodarte ocupa a totalidade do segundo andar do NMWA. Ao entrarmos no espaço, somos recebidos pelos coordenados meticulosamente construídos pelas irmãs Mulleavy para a coleção outono/inverno 2009 da Casa. Peles pintadas à mão para um efeito de mármore e malhas complexas que fundem mohair, lã feltrada e fios metálicos num único vestido ajudam a apoiar a ideia de que a Moda pode ser classificada como Arte.

©ImaxTree; Getty Images

No centro deste palco estão os tutus Odette e Odile usados por Natalie Portman no seu papel como Nina Sayers no filme Black Swan de Darren Aronofsky – uma mostra da paixão das irmãs de canalizarem a sua criatividade na criação de figurinos. “Sabes, quando olho para trás, consigo perceber que sempre existiu uma parte de nós que gosta de criar narrativas”, explica Laura. “Se, como nós, vês filmes de Alfred Hitchcock desde pequena, percebes o quão importante a Moda é para comunicar uma história”. Lado a lado com os tutus de Black Swan estão os figurinos do filme escrito e realizado pelas próprias irmãs, Woodshock, que estreou em 2017 no Festival de Cinema de Veneza. Não é uma surpresa que a dupla se tenha estendido ao mundo da realização – “Conseguia ver os meus filmes favoritos sem som porque, para mim, muito daquilo que se quer dizer é comunicado através de todos aqueles significados visuais”, defende Kate.

O primeiro contacto das irmãs Mulleavy com figurinos foi graças à avó, uma cantora de ópera, e à mãe, uma artista. Foi ela que transmitiu à dupla o amor pelo Cinema – numa ocasião, encorajou-as a tirarem uma semana e faltarem à escola para aperfeiçoarem o seu reportório de Hitchcock. Houve momentos em que o trabalho de Laura e Kate foi criticado por favorecer o artístico em detrimento do funcional mas, para Laura, a “usabilidade” não é um “conceito universal”. Por sua vez, Kate defende que a Moda é uma “linguagem visual”, um modo de expressar a individualidade de cada pessoa, e a Rodarte oferece uma forma para fazer isso mesmo.

Os figurinos de Woodshock são, talvez, o exemplo mais literal de como a Moda pode ser usada para exteriorizar emoções. Os slips rasgados em seda usados pela personagem de Kirsten Dunst, Theresa, mostram vários níveis de “estragos”, com a renda a corroer e alguns designs cortados de forma violenta para refletir o estado interior de luto da personagem. Com as florestas da Califórnia como pano de fundo, semelhantes aquelas onde as irmãs Mulleavy cresceram em Santa Cruz, a expressão “woodshock” descreve a sensação de ficar perdida ou desorientada no meio das árvores.

A qualidade cinematográfica da Rodarte dá vida à forma como a exposição apresenta os 94 coordenados em exibição. Ao invés de ordenar as peças por ordem cronológica, o curador convidado pela Rodarte, Jill D’Alessandro – curador responsável por figurinos e artes têxteis nos Fine Arts Museums de São Francisco – organizou as peças por temas, no decorrer de oito salas distintas. Na sala Magical Beautiful Horror, tubos fluorescentes colocam em destaque vestidos da coleção outono/inverno 2008; construídos a partir de tules tingidos à mão, em formações sinuosas, podiam ser um produto do laboratório do Dr. Frankenstein. No The Garden, que funciona como uma grande finale para o espetáculo, um vestido amarelo da primeira coleção das criadoras vive em harmonia com peças da coleção primavera/verão 2018, apresentada durante a Semana de Alta-Costura de Paris. Como forma de perpetuar o amor de longa data das irmãs pela natureza (o pai de Kate e Laura era um botânico que descobriu um nova espécie de fungo), as gipsofilas caem sob os manequins como cascadas. A emoldurar as cabeças como a juba de um leão – o trabalho da hair stylist francesa Odile Gilbert -, as flores transformaram-se numa assinatura quase inesquecível da Rodarte.

Rodarte é a primeira exposição de Moda do NMWA nos seus 30 anos de história, mas em visitas iniciais ao museu, as irmãs Mulleavy sentiram-se empoderadas pela coleção extensa de têxteis da instituição, que incluem trabalhos de Anni Albers, gravadora e tecedeira. É em Albers que penso enquanto falo com as irmãs. Ao contrário daquilo que se pensa, elas não terminam as frases uma da outra; ao invés, a conversa, e o processo de criação como as próprias descrevem, passa de uma para a outra – como uma lançadeira que navega por uma trama -, para crescer em algo maior e melhor do que as ideias individuais de cada uma.

Albers começou o seu trabalho como tecedeira na escola Bauhaus porque – e com muita frustração da própria – era o único espaço aberto a estudantes femininas. Cem anos depois, as irmãs Mulleavy expressam uma desilusão semelhante quando pensam no vocabulário redutor usado para descrever o seu trabalho e o trabalho de outras designers e artistas. “O nosso trabalho enquanto mulheres não devia ser descrito com uma linguagem menos poderosa do que aquela que é usada para falar do trabalho dos nossos colegas homens; se mudarmos a nossa linguagem, conseguimos mudar tudo”, defende Laura. “Engenhoso” é uma palavra que Laura considera particularmente problemática; ao invés, questiona, porque é que a palavra “couture-like” não é usada para descrever as peças da primavera/verão 2017 em renda metálica, com aplicações florais e silhuetas rococó dramáticas, inspiradas em Thomas Gainsborough e expostas em Rodarte?

“Não é um caso de as mulheres não estarem a fazer um nome por si mesmas, mas existe uma desconexão entre o reconhecimento que os homens e que as mulheres recebem pela sua obra”, defende Kate. Incluindo a Rodarte, apenas um quinto dos designers em exposição no Heavenly Bodies do MET eram mulheres – algo que Kate lamenta e vê com desilusão. “Gostava que isto mudasse. Está na hora de mudar”.

Exposição Rodarte no National Museum of Women in the Arts em Washington, DC ©Fotografia de Amy Harrity 

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