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Notícias 7. 5. 2020

“Tens que criar para o mundo em que estás” - Marine Serre, Simone Rocha e Wen Zhou (CEO da 3.1 Phillip Lim) falam sobre criatividade em tempos de crise

by Emily Farra

 

Marine Serre, Simone Rocha, Wen Zhou e Leslie Sun

 

“Como é que podemos ser criativos fora do escritório quando os nossos trabalhos são sobre o tato?” Esta pergunta, lançada por Ben Zhou, CEO da 3.1. Phillip Lim, foi o ponto de partida para o segundo painel do dia 6 de maio das Vogue Global Conversations - uma pergunta que gerou muitas respostas. Leslie Sun, da Vogue Taiwan, moderou a conversa entre Zhou, Marine Serre e Simone Rocha que abordou tópicos desde preocupações práticas - como fazer uma peça em casa, sem os tecidos e a tua equipa - até aos desafios de desenhar sob stress.

Para muitos designers, o instinto foi abraçar o otimismo e fugir, mas Serre ofereceu uma perspetiva diferente: “É importante ser realista, honesto e radicalmente aberto ao mundo à minha volta”, afirmou. “Costumo dizer que sou como uma esponja, porque estou a sentir, e estou com os meus olhos abertos, estou a observar, e grande parte do nosso trabalho enquanto designers é isso mesmo. Tens que criar para o mundo em que estás.”

“Esta pandemia fez-nos parar, mas, ao mesmo tempo, quase que gerou uma nova onda de criatividade,” acrescentou Rocha. “É uma espécie de criatividade assustadora. Mas tem sido muito, muito estimulante - é hora de pensar e refletir, e pegar no que sei e ver como é que podemos fazer isso de uma nova maneira.”

Aproveitar ao máximo o trabalho remoto

Serre concordou com o comentário de Rocha sobre encontrar uma nova “onda” de criatividade durante o confinamento. “Na verdade, este é um momento bastante criativo, e tivemos que aprender uma nova maneira de comunicar, uma maneira que não é tão física, pois não podemos usar roupas ou acessórios, não nos podemos abraçar ou até lutar! Acho que agora é um bom momento para nos aproximarmos uns dos outros - não nos podemos tocar, por isso, há que ter cuidado com as palavras que usamos. Isso é algo muito bonito que está a acontecer”, afirmou a designer francesa. “Estar mais próximos uns dos outros e até de nós mesmos, tirar algum tempo para percebermos onde queremos ir, quem somos e o que estamos a fazer… Claro, às vezes é muito difícil, mas a Moda move-se tão rápido, e esta foi uma oportunidade para abrandarmos.”

Zhou disse que na 3.1 Phillip Lim, a sua equipa já estava a discutir de que maneira é que conseguiam equilibrar o seu tempo no escritório com o teletrabalho para dar aos funcionários mais flexibilidade. “[Queríamos] encontrar esse equilíbrio de criatividade, poder trabalhar fora do local de trabalho e estar em contacto uns com os outros globalmente enquanto estamos a produzir uma produto emocional. Esta pandemia colocou a conversa num avanço mais rápido. Estou em Nova Iorque e nossa equipa de design está em Taiwan, Brooklyn, Colorado, Xangai… Estamos a aprender a trabalhar globalmente. Mas tenho que dizer uma coisa, todos sentimos a falta uns dos outros e queremos voltar aos ateliers e abraçar toda a gente.”

A sustentabilidade é uma conversa em crescimento, mas a ação é necessária

Marine Serre, Simone Rocha e 3.1 Phillip Lim adotaram a sustentabilidade, cada um à sua maneira: Serre ficou conhecida pelo upcycling, Rocha investe em trabalhos manuais e Lim prioriza materiais orgânicos, reciclados e de baixo impacto. Mas aquilo que todos têm em comum é igualmente importante: um compromisso em criar longevidade e desenhar com um propósito. A pandemia do Covid-19 trouxe à tona muito dos problemas da Moda, particularmente o excesso de resíduos e superprodução do setor; em resumo, há muito roupa por aí e muita dela não foi desenhada com um propósito. “Muitas pessoas estão a falar em abrandar [após a pandemia] e criar uma quantidade menor de produto, com o qual concordo”, afirmou Rocha. “Principalmente, acho que o que vai desacelerar é o desejo por coisas descartáveis - Moda e ideias descartáveis. Espero que as pessoas queiram uma intimidade com as coleções e uma conexão pessoal com as roupas que duram mais tempo.”

Serre acrescentou que, embora seja ótimo ouvir todo o mundo a falar sobre sustentabilidade, “não é o suficiente. Talvez depois do Covid-19, agiremos muito mais”, disse. “Sinto que todos estamos a falar sobre sustentabilidade, mas não sabemos realmente o que é que significa. Acho que vai ser importante redefinir os conceitos e perguntar o que é que podemos fazer agora.”

Zhou afirmou que o seu parceiro de negócios Phillip Lim apresentou uma definição muito sucinta para a equipa: “Produzir menos, mas com mais significado.”

Agora é a altura para partilhar a criatividade com o mundo, especialmente os novos designers

É um eufemismo dizer que a pandemia nos forçou a adotar a tecnologia como nunca antes, embora seja um desafio particular para os novos designers, que normalmente mostrariam o seu trabalho aos editores, compradores e clientes ao vivo, como um meio para construir o seu próprio negócio. Rocha aconselhou uma mistura entre as interações digitais e físicas: “Se eu fosse um novo designer e tivesse feito uma coleção, definitivamente, iria fotografar e enviar para as pessoas [digitalmente], mas, honestamente, também iria enviá-la para as lojas e publicações que eu gosto, porque aquilo que tu crias fisicamente é muito importante. Os tecidos, o trabalho manual, a maneira como é produzida, às vezes isso só pode ser sentido através do toque. Se estivesse a começar hoje, estaria a enviar a minha coleção para a Dover Street Market a dizer: olhem para isto.”

Serre aconselhou também, os designers a usar o YouTube, o Instagram e outras plataformas digitais para que a sua voz fosse ouvida. “É a única maneira de nos conectarmos e, se tens algo a dizer, diz”, afirmou a criadora. “Não podes ser tímido. Ninguém tem a resposta sobre qual é a melhor maneira de fazer Moda nos dias de hoje, e  também incentivaria as pessoas a serem honestas e a compartilharem os trabalhos online. Quando vejo quer as pessoas gostam de um vídeo que partilhei ou de uma peça, isso é muito importante, parece que há uma comunidade que pode partilhar, discutir e mudar as coisas. E vamos construir o futuro de uma maneira melhor todos juntos.”

Zhou ofereceu alguns conselhos de negócio para os novos designers e também para os que já estão estabelecidos: “Ninguém, jamais, lidou com alguma coisa deste género”, começou por dizer. “Isto é novo para todos nós, e isso deu-me autoridade para me apoiar na minha intuição como empreendedora, e também para fazer as coisas que parecem ser as mais corretas para a nossa empresa e equipa. Acho isso muito importante porque podes ouvir os conselhos das outras pessoas, mas tens que saber o que é certo para o teu negócio.”

A indústria tem que mudar e muito disso vem com o facto de se produzir menos

Nas últimas oito semanas, designers, compradores e editores tiveram a oportunidade inesperada de abrandar, fazer uma pausa e propor mudanças radicais para o setor. Com as coleções Resort, os desfiles masculinos e os da Alta-Costura a serem adiados ou cancelados, estamos a pensar em quantos desfiles por estação é que realmente precisamos. Com as lojas fechadas temporariamente, estamos a considerar a quantidade de produto que fica nas fábricas. Em geral, é o ritmo acelerado e vertiginoso do setor que esperamos que mude, porque o modelo atual não é sustentável - não para o meio ambiente, nem para os designers. 

“As pessoas estão a falar sobre a fusão das pré-coleções com as linhas principais, ou unir o masculino e o feminino”, começou por dizer Rocha. “Isso reduziria as viagens e a quantidade de investimento nos desfiles, e assim acredito que podes diluir a tua mensagem como designer. Uma maneira prática de abordar essa questão, seria alterar os prazos de entrega das roupas às lojas, porque isso mudou a percepção das pessoas sobre quando elas querem as coisas, quanto tempo querem esperar por uma peça de roupa e será que estão a responder às vendas ao invés das estações? Não precisamos de vender casacos em novembro,” continuou. “Acho que, se essas coisas fossem consideradas, e se os designers e as lojas concordassem com isso, definitivamente, iríamos diminuir o ritmo de uma maneira que deixaria muito espaço para a criatividade.”

“Concordo contigo, Simone”, acrescentou Serre. “Eu também faço apenas duas coleções por ano, e é o suficiente para ela parecer relevante e nova, assim não nos repetimos, fazemos um ciclo, reciclamos, pensamos em como é que podemos fazer a nossa produção. Falamos sobre desfiles e criatividade, mas é importante falar sobre aquilo que acontece entre um desfile e a entrega de uma coleção. É preciso muita energia para produzir uma peça, fazer isso com amor numa boa fábrica. E isso é algo que muitas das vezes é esquecido. Estou muito feliz por estar aqui hoje a partilhar isso, porque não sei se poderia ter partilhado isto antes. Esta é uma ótima oportunidade para percebermos que as pessoas querem mudar as coisas.”

Zhou concluiu com um apelo aos designers, aos consumidores e a toda a indústria para ter em consideração a supply chain - e repensar a maneira como medimos o sucesso nos negócios de Moda. “Temos que perguntar: quem são as pessoas que confecionam as nossas roupas? Quem é que está a colocar-nos isso à frente [para que possamos] optar por comprar melhor? Então, vamos poder optar por não compactuar com a fast fashion e vamos comprar menos? Não se trata apenas do preço, mas da arte e do artesanato”, afirmou. “Se tivesse uma varinha mágica e pudesse melhorar a nossa indústria, gostaria que todos trabalhássemos juntos e não olhássemos para os nossos lucros, nem avaliássemos a indústria apenas pelas margens de lucro. Os recursos humanos e a arte devem ser algo que todos podemos compartilhar, assim como os consumidores e os criadores.”

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