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Tendências 25. 1. 2019

Estamos perante o potencial regresso das calças de cintura descaída

by Patrícia Domingues

 

Prepare-se para um novo low point: os jeans podem estar subtilmente a baixar de nível. Na cintura, digo. 

Fotografia de Pedro Ferreira. Realização de Ana Caracol e Pedro Barbosa 

As mãos agarram o cós instintivamente e puxam o máximo de tecido para cima. A cada passo sentimos a nossa dignidade, e lingerie, ir pelas pernas abaixo. Rezamos para que nada nos caia ao chão (5 cêntimos fazem assim tanta diferença nas nossas contas mensais?). É esta a sensação de vestir umas calças de cintura descaída em 2018, mais de uma década depois de termos torcido o nariz, de ter vestido e nunca mais saído de dentro de umas mom jeans. 

Queridos low‑rise jeans, vamos ser diretas: since u been gone ninguém sentiu a vossa falta. Podemos ter vivido inesquecíveis momentos juntos naquelas matinés do Garage, não me esqueço das vezes que corremos para chegar à aula das 8h30 no liceu, ficavas lindo com os meus duplos tops de licra e BW calçados, tenho quase a certeza de que cheguei a ganhar calo naquela zona da pélvis em que apertavas, mas, bem disse Elle DeGeneres, nunca somos velhos demais para brincar – só para usar low-rise jeans. Não és tu, sou eu (e a minha inscrição falhada no ginásio). Nem sequer sou só eu, é o mundo inteiro. De cada vez que um designer se lembra de baixar a cintura das calças, e algum site aproveita para anunciar o comeback dos low-rise jeans, as reações resumem-se às de uma utilizadora do Twitter: “Ainda bem que a guerra nuclear está a chegar em breve porque aparentemente os low-rise jeans podem estar de volta e eu não quero viver nesse mundo.” Os nossos umbigos já nem sequer estão preparados para esta quantidade de claridade, certo @thesuzannahlee? 

A última vez que vi o mundo espernear tanto por uma peça de roupa foi com os crocs da Balenciaga. E, no entanto, esgotaram. O que me faz pensar que talvez seja melhor começarmos a preparar o kit de sobrevivência low-rise jeans. Investiguemos. [cinco segundos depois] Oh-meu-deus, Kendall Jenner, Bella e Gigi Hadid já começaram a usar (o equivalente atual à Santa Trindade dos 2000, Britney + Paris + Lindsay). Há calças descaídas na Fenty Puma, na Linder e na Chromat, os novos cool kids da Moda. Até Mr. Tom Ford pegou na tesoura e expôs as ancas na coleção de primavera/verão, em maillots altamente recortados e combinações extremamente sexy, aka extremamente Ford, com calções e calças (houve looks totais em ganga e se isto não é um sinal então não sei). 

 

 
 
 
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Como podemos ter estado tão cegos e iludidos, passeando alegremente dentro dos nossos extremamente confortáveis e seguros jeans de cintura subida enquanto os low-rise jeans planeavam a vingança? Há uma – mais ou menos conhecida e mais ou menos comprovada – teoria no meio da Moda que diz que de 20 em 20 anos o ciclo de estilo se repete. Ora, nas últimas temporadas já tivemos as sandálias com tiras e plataformas, o único estilo de sapatos no armário de Rachel de Friends, os vestidos com padrões microflorais, a febre dos logos, os óculos de sol mínimos, as microcarteiras e as penas. O que é que faltava repescar das passerelles do fim dos 90? Elementar, cara Britney, a cintura descaída. Há 20 anos Tom Ford lançava para a passerelle de verão da Gucci um exército de modelos em saias-lápis e calças de cetim e – sim! – cuecas estilo fio dental à espreita para fora, transformando a área abdominal num V. Já devíamos ter previsto que o novo #healthylifestyle universal ia dar nisto. Bom, se não os podemos vencer (ou queimar numa fogueira), vestimo-los? Hmm, vamos com calma. 

Toda a gente sabe que a melhor coisa a fazer antes de enfrentar o inimigo é conhecê-lo detalhadamente. E se há algo em que me considero expert é em pesquisa – dêem-me um nome e algum acesso à Internet e consigo entregar-lhe um perfil amoroso, comportamental, alimentar e astral num par de horas. Eu sei que temos a certeza de que os low-rise jeans só assentaram nas cinturas de Britney, X-tina, Beyoncé e Keira Knightley, mas não é isso que a minha pesquisa diz. Acredite ou não, os low-rise jeans tornaram-se populares durante os anos 60, quando a contracultura hippie e rock rasgou as cinturas dos seus jeans de forma a libertar os umbigos e as ancas. Chamavam-lhes hip-huggers. Jimi Hendrix e Jim Morrison ajudaram a espalhar a mensagem e nos 70 só se dançava The Hustle se se tivesse umas vestidas. Nas décadas seguintes, o caso foi abafado: quanto mais as mulheres entravam no mercado de trabalho, mais as cinturas subiam. E depois, em 1993, Alexander McQueen mandou para a passerelle modelos com as bumsters na sua primeira coleção de outono/inverno. 

O que são as bumsters? Bom, infelizmente não há um arquivo físico, pois a coleção inteira desapareceu depois de Lee e um amigo a terem enfiado em sacos do lixo e ido festejar para um bar. Mas a roupa tornou-se memorável, em especial as bumsters, uma calças com a cintura tão baixa que nem valia a pena usar cuecas, as mesmas a serem creditadas como as responsáveis por relançar a loucura do low-rise. Quando questionado se a sua inspiração teria sido o clássico descuido entre construtores civis, McQueen negou. Disse ao The Guardian, em 1996, que, para si, “essa parte do corpo – não tanto as nádegas mas o fim da coluna – é a parte mais erótica do corpo, homem ou mulher”. Pelo meio dos 90, a versão civilizada das bumsters tinha-se infiltrado na cultura popular: Juliette Lewis usou um par vermelho em Natural Born Killers, Kate Moss fez o resto. Gwen Stefani deu um twist maria-rapaz ao visual e quando em 1997 Britney Spears assinou um contrato discográfico com a Jive, as suas primeiras fotografias promocionais foram numas calças de cintura descaída. Cobertas de brilhantes, claro. Jennifer Lopez deu-nos o momento low-rise mais icónico quando usou um look branco total, calças com a cintura mais descaída de todos os tempos, um top com cristais e uma bandana para os MTV VMAs de 2000. No fim dos 90 e início dos 2000, as calças de cintura descaídas eram o uniforme das adolescentes com acesso ao cartão de crédito dos pais. A depilação brasileira veio por arrasto. E depois, já nós tínhamos o armário cheio de calças da Miss Sixty e zero vestígios de pelos púbicos, Sarah Jessica Parker lança a bomba. Em agosto de 2003, disse à Vogue que não considerava as calças low-riseage-appropriate” para uma mulher como ela. Ainda hoje não sei como sobrevivemos a isto. Ainda hoje me pergunto se foi isto que levou ao meltdown da Britney. 

Jennifer Lopez, Brtiney Spears e Gwen Stefani © Getty Images

Os 2000 são os anos que tentamos fingir que não aconteceram (como as nossas mães fazem com os registos das suas permanentes dos 80). Sabem aquele ex-namorado que de vez em quando nos vem à memória e imediatamente pensamos: “Será que estive alcoolizada o tempo todo?” É mais ou menos esta a sensação. Claro, podemos pôr It wasn’t me, de Shaggy, a tocar enquanto negamos a existência de fotografias nossas de chinelos num casamento, podemos jurar a pés juntos que não colávamos brilhantes em tudo o que era sítio, claro que Paris Hilton não influenciou, de forma alguma, o nosso estilo. 

Enquanto isso, começámos a seguir contas como @dirty2000s@2000sthrowback no Instagram, a colaboração entre a Vetements e a Juicy Couture esgotou por toda a parte, compramos bilhetes para festas que nos prometem throwbacks musicais até Hit Me Baby One More Time (que btw já passamos o dia a ouvir no Spotify) e Bella Hadid basicamente vive dentro de um uniforme à la Aaliyah. A boa notícia é que a versão cool das calças low-rise para as raparigas de 2018 é um misto do excesso dos 2000 (no sentido de exagero, não da banda) e do streetwear dos 90 ou então é só acreditar que esta é uma consequência dos tempos revolucionários que vivemos, como aconteceu na década de 60. O que interessa é que “são generosamente recortadas, mas não estão cobertas de Swarovskis, e é menos provável que causem preocupação ao seu ginecologista”, como escreveu a i-D. 

“Os 2000 são especialmente conhecidos pelo seu ‘mau gosto’ mas eu gosto da Moda desta altura porque é divertida e dá aos looks um twist excêntrico” Mimi Cutrell

Vivemos tempos maravilhosos para quem tem um umbigo, e tempos maravilhosos para os próprios umbigos, visto que este comeback não vem acompanhado de piercings ou shots de vodka preta como acontecia nos 2000 (ninguém nos podia acusar de não sermos eco-friendly). Para Mimi Cutrell, stylist das irmãs Hadid, este comeback vem sim acompanhado por ténis, botas ou sapatos rasos, um crop top e uma sweater. Simples assim (ajuda se tivermos o ADN Hadid, claro). “Não usem calças low-rise com stilettos... É um exagero”, implora a stylist através da Vogue Portugal. “As calças low-rise podem ser difíceis de vestir e nem sempre favorecem. Acho que o potencial de pele extra à mostra desencoraja algumas pessoas”, diz Mimi, que não teve problemas nenhuns em convencer a mais nova das Hadid a trazer a estética dos 2000s para o seu armário. Se pensarmos bem, Bella tinha 4 anos na altura, o que explica porque falamos em low-rise jeans e não lhe causa calafrios, mas para Mimi não há nada de malévolo no baú dos aughts a não ser o desperdício de strass. “Os 2000 são especialmente conhecidos pelo seu ‘mau gosto’ mas eu gosto da Moda desta altura porque é divertida e dá aos looks um twist excêntrico” e para Kirk Millar, diretor criativo da Linder (a “marca mais edgy de Nova Iorque”, segundo a Vogue Paris) é esse o apelo. 

“Podias ver designers como Galliano ou Dolce&Gabbana serem extravagantes e brincalhões, era uma altura diferente na cultura pop... Havia uma sensibilidade que era meio pirosa, divertida e excitante e parecia que ninguém nunca tinha suficiente”, escreve à Vogue Portugal. A sua coleção para este verão parece saída da cápsula do tempo da MTV e dizer que criaram algo chamado hydra thong – umas cuecas supertrabalhadas para usar fora das calças com um price tag de mais de 70 euros – resume a coisa. “Notei que um ano depois de desenharmos essa coleção começaram a existir outras pessoas a fazer esta coisa da cintura descaída e roupa interior à mostra, porque acho que há algo de icónico aqui.” Icónico, nonsense, trash, de pôr as mães com os cabelos em pé, sim, houve de tudo. Mas para Pedro Aparício, stylist português, nos anos 2000 havia algo mais à mostra do que a cor das nossas cuecas: identidade. “Se se integrar na tua personalidade vale a pena usar. Senão não vale a pena”, é esta a sua política sobre tendências, low-rise jeans incluídos. O primeiro nome que fala para exemplificar uma forma não-tão-2000 de vestir este tipo de calças é o de Kate Moss, que “usa – sempre usou – com camisas por dentro das calças ou T-shirts mais largas, e fica muito mais elegante”. Mas isto é a fórmula Moss e a parte divertida da Moda é que lhe permite criar a sua. 

“Hoje em dia toda a gente quer fazer parte de uma coisa que é atual mas acabam por fugir a elas mesmas”, diz Pedro e utilizemos o exemplo dos low-rise jeans. Bella Hadid veste e resulta, é-lhe natural, fica-lhe bem. Eu visto e o meu corpo grita por socorro. E é isto que nos diferencia e é isto que é parte daquilo a que um dia chamávamos estilo (lembra-se? Antes de andarmos todos com a mesma saia‑leopardo da Réalisation?). No início dos anos 2000 estávamos livres, leves e soltos, hoje “as pessoas não experimentam, não brincam com a roupa, e a Moda serve para te divertires. Acho que as pessoas eram mais criativas e experimentais. Lembro-me da minha irmã comprar lantejoulas e fazer uma barra no fundo das calças. Havia muitos mitos em relação aos anos 2000, as pessoas acreditavam que as coisas iam mudar”. Paris Hilton – o rosto, a barriga, a alma dos 2000 – resumiu-o na perfeição num #TBT recente no seu Instagram: “O início dos 2000 foi uma era tão divertida e icónica para a moda. As pessoas não tinham stylists e na verdade acabavam por ter um estilo próprio. Agora toda a gente parece igual.” That’s hot, Paris. And that’s also true.

 

* Artigo originalmente publicado na edição de agosto de 2018 da Vogue Portugal. 

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