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Tendências 19. 4. 2020

Viva a Liberdalarvidade

by Nuno Miguel Dias

 

Empunhemos cartazes com palavras de ordem: “Quero repetir três vezes a minha feijoada”, “Não às doses para turista” ou “Pode levar o prato, chefe, eu como da travessa”, nas ruas das nossas cidades. Digamos não aos regimes, ainda que alimentares. Lutemos pelo nosso direito de não sermos vegetarianos, veganos ou outra coisa qualquer que não seja aquilo que nos bem apetece. Fotografia de Evelyn Bencicova.

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Excetuando aquele meme com uma foto do Estaline e a frase “Humor Negro é como a comida. Nem todos têm”, que tem piada mas não é para todos, podíamos estabelecer aqui um paralelismo entre política e comida. À extrema-esquerda, o veganismo. No seu oposto, os crudivoristas. Entre eles, avançando gradualmente, iríamos dos vegetarianos aos adoradores da proteína animal. Exato, são regimes. Alimentares, porque os outros só recebem esse epíteto se, no seu seio, as liberdades forem suprimidas. Porque é disso que aqui se trata.

Hoje, com quase tudo ao nosso alcance nas prateleiras dos mais generalistas aos mais especializados supermercados, somos livres de comer o que queremos. De seguir o regime alimentar que mais nos agrada ou que consideramos, empírica ou cientificamente, ser o mais benéfico para a nossa saúde. Depois, há os que se estão completamente a borrifar para o regime alimentar que melhor os serve. Gostam de comer, ponto. São os novos-alarves, os democratas da ingestão. Querem provar de tudo e que tudo chegue a todos. Exigem liberdalarvidade, que é um direito que nos assiste, inalienável e universal.

Que nunca mais nos impeçam de, no mais ordeiro casamento, invadir o buffet do copo de água ainda antes dos noivos inaugurarem o salão com aquela chata e repetitiva valsa de um austríaco (Áustria, esse lugar onde se pelam por um schnitzel, que tem um nome exótico mas não passa de um panado sensaborão) e pasmarmos diante da cascata de camarão ou do leitão com a maçã golden de Alcobaça na boca (quem inventou esse adereço devia, ele próprio, ser condenado a comer schnitzel ao almoço e ao jantar para o resto da vida).

Que não nos roubem o encanto que é não conseguir escolher, já de tinto manhoso em copo baço, e mirando a vitrine da tasca lisboeta, entre as iscas de cebolada, o bacalhau panado, a orelha cozida, as petingas de escabeche ou até o enfadonho ovo cozido poeticamente pousado sobre um prato de sal grosso, qual menino Jesus nas palhas deitado, que fecham portas para dar lugar a hamburguerias da esquina, do bairro, gourmet, de assinatura, do chef e de “quem vier por bem venha venha também” acabar com a tipicidade de uma cidade, afugentando os seus castiços para os arrabaldes, onde ao menos os snack-bares ainda têm pastel de bacalhau sem queijo da serra.

A liberdalarvidade é bela. Inquestionável. E ai de quem argumentar contra. Como naquele belo dia 11 de novembro de 1947 em que Winston Churchill terá dito, na Câmara dos Comuns: "A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas os outras”, mas desta feita com uma bifana a respingar mostarda e gordura para o chão e brindando com o que estiver à mão.

Ainda esta semana houve um despiste numa nacional portuguesa. Até aí, nada de novo. Um camião TIR ficou suspenso de um viaduto. Tudo normal. O motorista ficou bem, sem qualquer ferimento. Menos mal. Só que o veículo transportava cerca de trezentos porcos para o matadouro. Mais de uma centena jazia, lá em baixo. Muitos deles mortos ou imóveis, amontoados, uma massa cor-de-rosa compacta aqui e ali, muitos mais espalhados acolá. À medida que alguém, filmando à socapa, faz zoom, é possível ver dezenas de animais em agonia, ensanguentados, moribundos, uns com patas fraturadas, tentando erguer-se, outros com a coluna partida, incapazes de fazer mais que afocinhar na terra, em desespero.

O pior não são as imagens. É o som. Não são grunhidos. São gritos. Centenas. Num uníssono ensurdecedor. Não é preciso ser-se vegetariano para não conseguir ver mais de metade deste clip. Mas por vezes, esses poucos minutos são o tempo que basta para que, em consciência, mudemos o nosso regime alimentar. Eu, como tantos outros, pelo-me por um enchido tradicional. Vibro com umas bochechas estufadas. Deliro com uns rabos (caudas, para os mais maliciosos) de coentrada. Tenho saudades de ovos com mioleira, que nos faziam mais “espertos”, diziam-nos em crianças (não resultou, mãe, mas obrigado) assim como a cenoura fazia “os olhos bonitos”. Mas garanto, juro por tudo, palavra de escuteiro, de honra e sei lá mais o quê, se fosse obrigado a matar um animal para comer, tornar-me-ia o mais credível veggie numa fração de segundo. E há quem saiba como nós, os “carnívoros de cidade”, funcionamos. 

Um exemplo… Todas as Páscoas, o pai de um amigo meu, criador de ovelhas, sabendo que sou adorador incondicional de borrego (filho de alentejanos tem de o ser, almejando por um naquinho da mais nobre carne, sob pena de deserção) anuncia que pretende oferecer-me um exemplar. Só tenho de ir lá, perto de Portalegre, escolher o animal e ajudar a matá-lo. O primeiro trecho da proposta agrada-me sobremaneira. A última parte obriga-me a recusar. Mas eis que a proposta ameniza a cada ano que passa. Agora só tenho de lá ir “escolher” o bicho. O resto faz ele. “Pois, é que, não vai dar”, exclamo sempre. Eu, qual Herodes, a apontar o dedo para aquele que deve perecer para meu consumo? Eu a decidir quem vive e quem morre? No Can Do.

É esse confortável distanciamento que nos permite ser tão pouco frugais no consumo de carne. Vermelhas, brancas, peixe, marisco, até cefalópodes (o polvo e o choco têm uma inteligência equiparável à dos macacos ou à dos golfinhos), afinal comemos quase tudo o que mexe e, pior, a todas as refeições. Porque há quem faça o trabalho sujo. Há quem os crie, em espaços confinadíssimos e mediante toda a espécie de maus tratos, há quem os transporte e, no final, há quem os mate, supostamente com métodos mais “humanos” que a habitual facada no coração, mas num processo tão industrial e com gestos tão mecânicos que seria preciso sermos muito ingénuos para achar que, diariamente, não há dezenas de animais que estão “mal-mortos” quando são esquartejados, assim como por vezes falta um ou outro parafuso numa linha de montagem de automóveis.

Chegamos ao talho e apontamos, pronto, já está, não há culpa, não há dor. Estamos, hoje, muito longe do tempo em que cada casa alimentava o seu porco com o objectivo de fazer, lá para o final do ano, a mui tradicional matança, que aprovisionaria a despensa, não sem antes dar origem a uma festa para a vizinhança e quem se prestasse a ajudar. A proteína animal era pouca. Quase reservada para dias especiais. A frugalidade era tão obrigatória que, no tempo do Estado Novo, houve gerações criadas a Sopas de Cavalo Cansado (vinho quente, pão e açúcar). Porquê? Porque não havia liberdade. Nem de escolha, nem da outra. Hoje, felizmente, podemos ser aquilo que nos der na real gana. No que toca a regimes alimentares, claro. E em mais uma ou outra coisinha, vá. 

E a liberdade dos animais? Não é uma liberdade? Há liberdade humana e liberdade animal? Regem-se cada uma por princípios diferentes? Ficamos chocados quando um cão está numa quinta, preso a uma corrente de dois metros porque é um animal de estimação, mas está tudo bem quando um porco está confinado numa jaula de dois metros por um e meio porque se destina à nossa alimentação? Não há gente com porcos de estimação? Não há culturas que comem cão?

E quanto àqueles animais que vivem numa liberdade ilusória, que são os grandes pastos dos Açores ou de outras verdejantes paragens quaisquer, para produzirem leite que só existe se estiverem em constante reprodução, sendo que as crias lhes são retiradas assim que nascem? Ou os touros, que percorrem livremente os montados ribatejanos mal adivinhando o seu fim, numa arena debaixo dos aplausos dos aficionados? Ou se redefine o termo liberdade ou, por outro lado (que é o mais acertado), a liberdade é um conceito universal.

Com base neste princípio, temos a liberdade de ser, por exemplo, veganos. Quando não nos permitimos que nenhum animal seja explorado para o nosso desfrute alimentício. Não haverá uma só morte com o objectivo de nos alimentar (para um vegano, a carne cheira a sangue, independentemente do seu tempero, já o dizia Morrissey no Meat is Murder dos The Smiths). Os ovos destinam-se à reprodução das diversas espécies avículas e não para o nosso palato. São, inclusivamente, e mal comparando, a menstruação da galinha, esclareça-se. O leite é o alimento que uma mãe oferece à sua cria, não o reforço de cálcio para os humanos, que o podem encontrar em mil e uma espécies vegetais, se aprendessem a comer de uma forma saudável. É discutível? É! Mas somos livres de escolher e isso está paralá de qualquer discussão. 

Já o vegetariano, bastante mais suave naquilo que são as restrições (ou a falta de liberdade de escolha), está naquele lugar ingrato, onde eu não desejaria estar. Os seus amigos vegan olham-no com o desdém próprio de quem se acha superior, criticando, muitas vezes entredentes, o respeito meramente parcial pelos animais: “Não os come, mas explora-os”. Para os amigos omnívoros, que acabam de jantar com aquela poça de sangue no prato depois de conseguirem comer, sozinhos, uma posta mirandesa tamanho Grizzly Bear, é aquele “chato” que não se pode levar aos restaurantes que a malta frequenta porque, coitado, acaba sempre por ter de se contentar com uma omelete de queijo e ninguém tem paciência para uma omelete de queijo à quinta omelete de queijo seguida naquelas semanas em que há jantares de grupo todos os serões, como no Natal ou nas férias no Alvor. É para isso que estão cá os flexitarianistas. Para “isso”, ou seja, para lançar mais achas para a fogueira.

O flexitarianista é, em teoria, um vegetariano na maior parte do tempo que, de quando em vez, mordisca carne ou peixe. Na prática, é aquele nosso amigo que está a fazer um esforço enorme para deixar, definitivamente, de comer carne. Passa a semana a orgulhar-se de ingerir brócolos com um fio de azeite e espargos grelhados, sopa de grão com croutons e feijoadas de seitan, publicando entusiasticamente os resultados da sua “queda para chef” nas redes sociais. Depois convidamo-lo para jantar fora a um sábado à noite e ele pede uma dose de lagartinhos, dois bitoques e, para a sobremesa, um pudim Abade de Priscos que saiba especialmente ao toucinho na sua constituição. Depois liga-nos na manhã seguinte dando conta que está “ligeiramente indisposto”. Perguntamos-lhe então porque se prestou ele a tão épico exagero. Ao que responde: “Porque me apeteceu. Sou livre”.

Certa vez, vi um documentário sobre regimes alimentares que opunha veganos exagerados a crudivoristas excessivos. Como nunca julguei que pudessem ser totais opostos, redobrei a atenção. No âmbito dos primeiros, retratava uma família (mãe e dois filhos pequenos) que se quedavam debaixo de uma macieira. Esperavam que os frutos caíssem para os poderem ingerir e depois depositavam os caroços no mesmo local, para não interferirem no normal curso da natureza. Visivelmente desnutridas (e um nadinha andrajosas) as crianças também foram entrevistadas, e descobriu-se que não conheciam outra realidade e tampouco frequentavam um estabelecimento de ensino.

Neste caso, a liberdade de escolha da mãe talvez tenha ditado que as suas crias fossem privadas da mesma, mas para o saber teria de se esperar que estas chegassem à idade do livre arbítrio. E eu não estava com muito tempo. Já o crudivorista, que eu pensava ser um moço que comia cenouras cruas mesmo sem ter como objectivo um bronze invejável ou que saía da mercearia mordiscando um molho de grelos de nabo, era afinal um sinistro quarentão que entrou num talho especializado em carne de caça para comprar um coelho bravo. Depois, escolheu um lugar isolado num parque infantil para, com uma faca romba que mal penetrava em tanto pêlo, abrir a barriga do animal e começar a comer as suas entranhas, exclamando para a câmara, com a boca ensanguentada: “Só como animais selvagens porque não se alimentam de rações”. Foi um momento lindo. As crianças que andavam no baloiço lá ao fundo, com um ar tão chocado porquanto aposto que se lembrarão daquela imagem para o resto da vida, é que são capazes de não ter gostado muito.

Eis que, 46 anos depois da nossa liberdade, ganha a pulso, nos privam da mesma. Que vil criatura no-la roubou? A Dieta Mediterrânica. Acabaram-se as entremeadas grelhadas, as feijoadas que trouxemos de Terras de Vera Cruz, a mão de vaca com grão que importámos do Paquistão, o arroz com tudo e tudo com arroz que encantou Garcia de Orta, o botânico que, ao serviço dos Reis de Portugal, ia nas galeras para descobrir novas espécies (e descobriu), o peixe cozido com todos, o bacalhau com batatas. Acabou a cozinha de fusão de séculos que é a Gastronomia Portuguesa. Peixe? Só grelhado ou de caldeirada. Carne? Muito pouca e sem sal, substituindo-o por ervas aromáticas. Legumes e fruta? Só sazonais.

Por isso, estamos proibidos de consumir uma saladinha de pepino e tomate no inverno, temperar o nosso pato com laranjas no verão ou mordiscar morangos no outono. Estamos, meus caros, acorrentados. Na teoria, pelo menos. Na prática, podemos já de seguida, e porque é tempo delas, encher uma panela, com banha derretida no fundo, de favas com chouriço, moira e muito entrecosto. A não ser que tenhamos de estar fechados em casa, a racionar alimentos. Como quando se está em guerra. Mas isso seria impossível de acontecer em plena Europa, certo?  

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