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Entrevistas 26. 1. 2021

Kim Jones fala sobre a estreia profundamente pessoal da sua coleção de Alta-Costura para a Fendi direcionada a "mulheres pioneiras"

by Olivia Singer

 

Kim Jones no meio das flores de organza e pedrinhas de cristal que evocam os jardins bucólicos e a fora de Charleston. Todas as fotografias são da autoria de Nikolai von Bismarck. 

Em vez de me sentar no meio do glamour de abóbadas altas e raios de luz dos ateliers Fendi para conversar com Kim Jones sobre a sua primeira coleção para a casa romana, optámos por dar um passeio pelo campo em Sussex num dia terrivelmente cinzento, tempestuoso e sombrio cuja névoa o tornou quase escuro a meio da tarde. Estamos muito longe da capital italiana, onde dezenas de costureiras estão no processo de tecer treliças de pérolas e enfeitar vestidos de Alta-Costura para a sua estreia, mas, mesmo assim, tudo faz um adorável sentido.

Jones comprou recentemente uma casa de férias aqui, na pacata vila de Rodmell - a poucos passos da casa onde passou grande parte da sua infância e a algumas portas da casa de Virginia Woolf - e trouxe-me aqui para uma tour da sua infância. “Quando era adolescente, passei muito tempo a pedalar por estes lugares”, sorri, evitando o barulho de um trator. “Esta primeira coleção parece quase autobiográfica. O que estou a referenciar parece-me muito pessoal.” 

Embora esta seja a primeira coleção de roupa feminina de Jones, está na vanguarda da Moda há mais de uma década: os seus até agora três anos como diretor criativo de roupas masculinas na Dior - onde traduziu o romance feminino dos códigos do fundador em alfaiataria elegante e uma sensibilidade contemporânea ousada - já lhe rendeu quase todos os prémios da indústria (a par com uma grande variedade de fãs femininas, de Bella Hadid a Naomi Campbell).

"É mais difícil pesquisar estando em isolamento." Kim Jones

Antes disso, os seus sete anos como diretor de moda masculina na Louis Vuitton são regularmente creditados por transformar a Moda ao transpor o seu conhecimento enciclopédico dos códigos culturais do streetwear para um terreno hiperexplorável. (Em 2017, foi responsável pela colaboração da casa com a Supreme, amplamente considerada uma significante da mudança na Moda para uma nova era.) 

Muito se escreveu sobre a sua juventude: filho de um hidrogeologista especializado em projetos de irrigação, Jones cresceu entre Inglaterra e África (com passagens pelo Quénia, Etiópia, Botsuana, Tanzânia e Equador), e a sua infância é facilmente mapeada por uma vida inteira de coleções imbuídas de desejo por viagens e referências culturais díspares. “Desde pequeno que percebi que havia muito para ver no mundo”, diz. “Mas por vários motivos é mais difícil pesquisar estando em isolamento, então o que fiz foi olhar internamente.” Kate Moss com o vestido de seda acetinado que faria parte do editorial da Vogue britânica.

Em vez de solicitar uma das suas viagens regulares de pesquisa à Amazónia ou ao Japão, para Fendi Jones voltou à juventude que passou aqui, em Rodmell, perto de Lewes e na quinta em Charleston, onde ele ia desenhar depois da escola nos jardins bucólicos ou gravar impressões de linóleo dos frescos de Duncan Grant e Vanessa Bell nas paredes.

É aqui que Kate Moss, numa tarde de dezembro e enquanto a chuva cai contra as janelas pintadas, está encostada na mesma espreguiçadeira da sala de estar que terá sido o cenário de Bloomsbury quase um século antes, vestida com as mais recentes criações de Jones. (Moss também oferece consultoria na área dos acessórios para a Fendi. “Era lógico. Ela tem um gosto tão imaculado - viu de tudo e o seu conhecimento de Moda é tão vasto”, diz Jones, que conhece a modelo desde que Lee McQueen os apresentou na década de 1990).

“Eu sempre quis usar as roupas masculinas que desenhava - e agora está a desenhar roupas femininas!” Kate ri, drapeando um vestido que combina alfaiataria masculina cor cinza vivo com um vestido adornado com centenas de flores silvestres em cristal. “O que ele faz é sempre muito cool e moderno. Ele sabe exatamente o que as pessoas querem vestir.” 

Lila Moss, filha de Kate Moss, a provar que as criações de Kim Jones são efetivamente cool e modernas.

Mais tarde, pergunto a Jones o que poderá ter atraído num adolescente esta curiosa casinha numa quinta, com os seus tetos baixos do século XVI e as suas caraterísticas boémias perfeitamente preservadas. “Quando as cidades têm uma figura literária ou artística famosa que morou lá, paira no ar”, lembra ele. “Eu via sempre as livrarias antigas em Lewes com a Virginia Woolf na montra. Os ensaios old school que encontrei foram escritos sobre Roger Fry. Eles estavam sempre presentes.”

Havia qualquer coisa na criatividade coletiva do cenário de Bloomsbury - imortalizado em Charleston, onde trabalharam e se namoraram com atitudes notavelmente liberais - que ele diz ser irrepreensivelmente magnético. “Acho que um grupo de pessoas virem viver juntas no meio do campo naquela época era uma visão bastante avançada. Eles eram como uma comunidade chique”, ri. “E a sua abordagem sobre o que estava a acontecer na época era impressionante e ampla. A visão futurista da economia de John Maynard Keynes e dos livros de Virginia Woolf, como o livro Orlando.”

Adwoa Aboah fotografada por Nikolai von Bismarck numa sessão de cabelos e maquilhagem antes do desfile de alta costura de Kim Jones.

A energia coletiva do movimento é claramente visível na maneira como Jones opera agora. “Era colaborativo, uma família”, diz ele sobre o grupo. “É assim que gosto de trabalhar.” É conhecido pelo seu espírito colaborativo, tanto com as suas equipas quanto com o seu extenso círculo de amigos ilustres (de Kanye aos Beckhams, de Kate a Naomi, os seus convidados em jantares são uma mistura brilhante de vip’s globais e amigos da escola de Sussex). “O que mais gosto no Kim é a sua capacidade de levar a família onde quer que vá”, reflete Adwoa Aboah, uma das musas formadoras da sua visão. “Ele mantém um leque tão amplo de pessoas à sua volta - artistas, músicos, os jovens, todos - e é por isso que o seu trabalho continua a ser tão relevante. Ele encontra inspiração em todo o lado.” (Jones orgulha-se de saber tanto sobre o Baby Yoda quanto sobre Woolf, e valoriza as suas caixas de hambúrguer Julien Macdonald tanto quanto a sua coleção de arte; não gosta de snobismo cultural.)

“Cada look é sobre a personalidade que estará dentro dele. Esse é o luxo da Alta-Costura, é projetado especificamente para a pessoa." Kim Jones

Essa energia manifesta-se na sua estreia, que será desfilada por famílias escolhidas e biológicas, mas é Orlando, o romance modernista de Woolf, que oferece o ponto de partida mais direto para a sua coleção de Alta-Costura. Uma viagem exploratória no tempo da mutabilidade de género, foi escrito numa dedicatória a Vita Sackville-West, amante de longa data de Woolf, cujo filho mais tarde se referiu a ela como "a carta de amor mais longa e charmosa da literatura, na qual [Virginia ] explora Vita, tece-a dentro e fora dos séculos, atira-a de um sexo para o outro, brinca com ela, veste-a com peles, rendas e esmeraldas, provoca-a, flirta com ela, deixa cair um véu de névoa à volta dela”.

BTS com Lila e Kate Moss e o hairstylist Sam McKnight.

A história tem sido regularmente referida na Moda – as suas referências explícitas à importância da roupa no estabelecimento de uma identidade facilmente se emprestam a designers que procuram imbuir o seu trabalho de significado - mas Jones adotou uma abordagem mais indireta ao reafirmar a sua relevância. Tal como Orlando oscilou entre os mundos e guarda-roupas de diferentes épocas, Jones usou as biografias das mulheres que vão desfilar na sua estreia para escavar o arquivo Fendi, tirando referências dos seus respetivos anos de nascimento e da história da casa italiana. 

“Cada look é sobre a personalidade que estará dentro dele. Esse é o luxo da Alta-Costura, é projetado especificamente para a pessoa”, diz Jones. (“Parece uma representação autêntica de quem tu és. Ninguém nunca me pergunta do que eu gosto”, ri Aboah, cuja roupa para o show evoluiu de um esboço de Karl Lagerfeld de 1990 para a casa.) “Eu quis olhar para marcos diferentes de tempo na Fendi - é por isso que Orlando me veio à cabeça. Quis extrair pontos de referência de Karl, mas renová-los”, continua Jones. “Olhar para eles de uma forma mais leve, vê-los com um novo olhar, mas sem parecer nostálgico.”

Da mesma forma, o feminismo ferranho de Woolf - e as mulheres de Bloomsbury, cada uma delas uma força por direito - oferecem um paralelo à história de Fendi como um matriarcado. Apesar de Lagerfeld ter estado como diretor criativo na casa durante 54 anos até à sua morte em 2019, o seu nome foi mantido pelas quatro gerações de mulheres que foram responsáveis pela casa desde a sua fundação em 1925 por Adele Casagrande (que lhe deu o nome em homenagem ao marido, Edoardo Fendi) - e foram as cinco filhas de Casagrande que, em 1965, recrutaram o estilista alemão para modernizar a estética da marca. No intervalo entre a morte de Lagerfeld e a estreia de Jones, Silvia Venturini Fendi - neta de Casagrande, que cria as roupas masculinas e os acessórios da marca desde 1994 – teve o papel de sua guardiã criativa antes de entregar as rédeas a Jones.

A dupla Silvia Venturini Fendi e Kim Jones

“Sempre me senti atraída pelo Kim - e agora que trabalho com ele, entendo o porquê”, reflete Silvia, que considera o designer um amigo há mais de uma década e ainda é parte integrante do processo criativo da marca. “Estou muito feliz - gosto de trabalhar em dupla e trabalhar com ele lembra-me muito como costumava trabalhar com Karl. Isto foi escrito nas estrelas. Foi o Karma”, diz. “Eu admiro-a muito”, diz Jones no set, enquanto envia um fluxo de mensagens entusiasmadas para Silvia. "Quero deixá-la orgulhosa." 

O que criou para a sua estreia é então uma espécie de amálgama entre a obsessão que Jones tem desde sempre com o romance profundamente britânico de Bloomsbury e a histórica grandeza italiana que tem o nome Fendi. “Aquilo que tem sido particularmente interessante para mim, enquanto passo mais tempo em Roma, é que tenho visto mais da enorme quantidade de referências que o Grupo Bloomsbury tirou de lá”, observa o designer (mais tarde, para provar o seu ponto, recorre a um catálogo das pinturas de Vanessa Bell, que voam entre as quintas de Sussex e os jardins Borghese em Roma; Woolf também se sentia particularmente atraída pelo "silêncio infinito" dos frescos de Perugino; e em Londres, Fry realizava exposições e traduzia o seu próprio entendimento dos mestres italianos antigos). “E se olharmos para a biblioteca de Charleston ou para a coleção de livros de Clive Bell, está tudo lá. Todos os caminhos vão dar a Roma."

"Kim está em contacto com a cultura popular - e quando casas isso com a sua visão incrível e habilidade primorosa, torna-o uma força real a ser reconhecida." Victoria Beckham

Na coleção, vestidos déshabillé drapeados são cortados como se congelados no tempo à maneira dos mármores de Bernini, mas são bordados à mão com flores silvestres; presilhas de tecido em espiral são afixadas por rosetas em flor. Encontrou reflexos da Itália no papel marmorizado que antes encadernava os livros da Bloomsbury, e que agora os ateliers de Alta-Costura traduziram numa riqueza de técnicas têxteis de tirar o fôlego.

A trágica história do suicídio de Woolf (uma parte substancial de nossa caminhada é feita a traçar os seus últimos passos até o rio no qual, aos 59 anos, se afogou) reflete-se em vestidos com cristais pendurados ou em gotas bulbosas de vidro Murano transformadas em joias ou inseridas em adereços para o cabelo. É primorosamente opulento, mas em vez de parecer abstratamente etéreo - talvez com exceção de um vestido de organza que flutua quase mais leve do que o ar, ancorado apenas pela sua bainha cristalina - parece determinantemente baseado no mundo de cobiça meio cool de Jones (e a prova está numa Kate sentada à mesa, dentro de fato de cetim imaculadamente costurado). “Vivemos num mundo moderno, por isso gosto que haja realidade”, afirma. Aliás, ninguém disse melhor do que Victoria Beckham: “Kim está em contacto com a cultura popular - e quando casas isso com a sua visão incrível e habilidade primorosa, torna-o uma força real a ser reconhecida. Aboah concorda: "Estou animada porque sei que ele olha para o que tu vestes, o que eu visto - ele está continuamente a olhar para todos, para tudo, e ele quer fazer roupas que as mulheres queiram vestir. Estou animada para vestir essas roupas e sentir-me épica com elas. Porque ele é mais do que capaz.”

Adwoa Aboah, uma das modelos do desfile, num fitting em Roma.

Assim que voltamos de Sussex até à casa de Jones em Londres, continua a dar-me uma visita guiada pelos artefactos de Bloomsbury que juntou ao longo dos anos. Um gigantesco bunker brutalista em Notting Hill, com uma piscina para um exercício físico matinal, uma cozinha de aço gigante equipada para assados ​​de domingo e paredes cheias de peças que rivalizam com muitas coleções de museus, é um santuário bem isolado do mundo exterior (enquanto está em Londres, Jones é uma pessoa caseira determinada), e os seus arredores de concreto polido tornaram-se no cenário perfeito para destacar a sua fixação com o coletivo. 

Aqui, ao lado da arte que ele acumulou ao longo dos anos - Magritte, Francis Bacon, Amoako Boafo - há uma cómoda pintada por Vanessa Bell, que estava na casa de Virginia Woolf em Richmond; os trabalhos de Duncan Grant estão pendurados na sala de estar; uma tela dobrável Roger Fry mencionada em Brideshead Revisited; uma biblioteca sem fim repleta de primeiras edições, manuscritos de editoras e cópias anotadas de livros que pertenceram ao clã Bloomsbury. “Eu sou obsessivo”, ri. “Acho tão emocionante que se possa comprar estas coisas - especialmente os livros que as pessoas deram umas às outras. Que esses livros tocaram as suas mãos e a mão da pessoa que eles amavam e a quem queriam dar os livros... parece que há uma energia nisso. E na realidade nunca possuimos nada; estamos apenas a tomar conta enquanto estamos aqui.”

"A Fendi é sobre elas: sobre mulheres fortes, mulheres inteligentes, que sabem o que estão a fazer nas suas vidas." Kim Jones

Kate Moss a desfilar o primeiro look.

É um sentimento que reflete os sentimentos de Silvia sobre o porquê de Kim se encaixar perfeitamente na casa que carrega o seu apelido: algo que ela diz que ama mais do que a si mesma pelo peso que tem para a sua família. “Uma das primeiras coisas que Kim fez foi pedir a Delfina [Delettrez, filha de Silvia] para se juntar a nós, o que foi a melhor coisa - porque foi um sinal de amor, e de que ele entendeu a Fendi, e que a sua história continua,” sorri. “A primeira coisa que eu queria era garantir que Delfina participasse - porque ela é a próxima geração da família”, continua Jones (Delfina, cuja marca de joias com o mesmo nome prospera há mais de uma década, agora supervisiona as joias da casa italiana) “Quero respeitar a Silvia e pensar no legado da casa. A Fendi é sobre elas: sobre mulheres fortes, mulheres inteligentes, que sabem o que estão a fazer nas suas vidas. Mulheres pioneiras, como as mulheres de Bloomsbury, como as mulheres do desfile. Este é um statement: para celebrar a Fendi e as histórias de todas estas mulheres incríveis.” É certamente uma celebração - e o novo capítulo da história desenvolver-se-á a partir daqui.

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