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Connected 29. 7. 2019

Kelly Bailey: “Temos mais valor com conhecimento do que com beleza.”

by Patrícia Torres

 

Kelly Bailey é luzes, câmara e ação. Miúda da ficção nacional, dos filtros, das redes sociais, das roupas de marca e dos sound bytes na guerra de audiências. Nesta entrevista, a Vogue Portugal quis saber: quando o ruído da imagem pública se apaga, o que é que liga a Kelly à realidade? 

 

Fotografia de Branislav Simoncik. Styling de Nelly Gonçalves

Qual é a tua relação com o telefone? Mais prosaica ou mais inusitada? 
A minha relação com o telefone é mais prosaica. Mas acho que isso é algo comum na minha geração. Temos sempre o telemóvel ao nosso lado, quase como um membro extra. Há todo um universo dentro deste objeto. Ultimamente, tenho pensado nestas questões e em maneiras de criar uma relação saudável com o meu telefone. Estar conectada, mas de maneira a que isso não tome o controle da minha vida. Tento ter algumas horas por dia em que não vivo através do meu telefone. Afasto-me e aproveito os momentos na sua plenitude, sem distrações. 

Apesar disso, sentes alguma pressão para estar ligada? E sentes-te ligada a quê? 
Não sinto essa pressão para estar ligada. Acredito que os seguidores me seguem pelo que eu lhes vou mostrando, mas sem pressão. Sei que essa pressão existe, mas eu faço com que não tenha reflexo na minha vida.

O que é que achas que significa para a tua geração o estar “ligado”? 
Significa estar conectada, atenta. Alternar entre o mundo digital e o mundo real. Significa estarmos mais “ligados” ao que se passa no mundo e conseguirmos ter uma voz sobre o que pensamos, sobre determinado tema em tempo real. 

Qual é a tua perceção sobre a maneira como as redes sociais influenciam as relações humanas? O positivo e o negativo? 
A influência das redes nas relações humanas é enorme. Por um lado, conectam-nos a pessoas que de outra forma não seria possível. Podemos encontrar a nossa tribo, conectar com pessoas que têm os mesmo interesses e sentir que pertencemos a algo. O lado negativo deste fenómeno é que as pessoas confundem a vida real com a vida online.

 

Como é que defines a tua “voz” nas redes sociais? 
A minha “voz” não é tão barulhenta como outras “vozes”. Mas sou vocal no que diz respeito a causas que sinto próximas. Apoio aquilo em que acredito, mesmo que não publicite sempre que o faço. 

Há alguma mensagem que consideres importante passar às adolescentes que te seguem nas redes? 
Não se sintam pressionadas pelas redes sociais. Cada pessoa está a fazer o  seu caminho à sua maneira. Lembrem-se que a maioria das pessoas não partilha os seus dias menos bons. Quero sobretudo passar à comunidade que me segue mensagens positivas, em que todos podemos influenciar-nos de forma feliz e solidária e não usar o digital para fomentar o bullying ou o ódio. 

Se não fosses atriz, achas que a tua relação com as redes sociais seria substancialmente diferente?
Acho que não. Não mudaria a forma como penso e como partilho, independentemente de ter 10 ou 100 seguidores. A minha profissão nunca mudará aquilo que eu sou.

Enquanto figura pública, que significado tem a palavra “privacidade” na tua vida? 
O significado da palavra privacidade, para mim, mudou nos últimos anos. Antigamente não pensava nisso, mas ao tornar-me numa figura com visibilidade pública, manter alguma privacidade torna--se complicado. Eu consigo controlar o que quero mostrar sobre a minha vida pessoal nas minhas redes. Mas não posso controlar o que o resto do mundo faz com as minhas partilhas. Sou aberta sobre a minha vida com os meus seguidores, mas existem partes que mantenho privadas. Uma vez que é tudo tão exposto, sinto necessidade de ter algo que seja só meu.

Há algum movimento ou causa que defendas ou à qual te sintas ligada?
Penso que, tal como o resto da minha geração, existem várias causas às quais me sinto ligada. O que se passa com o mundo neste momento afeta-nos a todos e, por isso, não consigo focar-me numa só causa. O movimento pro-ambiental reforçado pela Greta Thunberg é incrível e fundamental para o nosso futuro; o movimento relativo aos ataques no Sudão mostra como as redes sociais conseguem conectar o mundo; o movimento Pro-Igualdade de Género é outro que conecta comigo. 

Quais são, na tua opinião, as grandes bandeiras ou lutas da tua geração, aquelas cujo movimento já ninguém pode parar e sobre as quais vamos ver repercussões num futuro próximo? 
Em 2019 existem tantas lutas... A minha geração está a viver num mundo de instabilidade política, financeira, ambiental. São imensas lutas, mas o que é positivo é a maneira como os mais novos estão ligados a isso e com vontade de combater para chegarmos a um mundo mais equilibrado.

Como é que olhas para movimentos como o body shaming ou #MeToo? 
São movimentos importantes para o mundo perceber o que se passa atrás da cortina. Estamos no século XXI, mas ainda existem opiniões não pedidas sobre os nossos corpos... nossos! E de mais ninguém. O movimento #MeToo mostrou que ainda há muitos homens que tratam as mulheres como um objeto para o seu prazer. Nos dias de hoje, as redes sociais vieram dar voz a estas mulheres, mais ou menos conhecidas, que lutam para serem respeitadas. 

Existem várias adolescentes que estão neste momento no espaço público a dar voz às causas que defendem na área do ambiente, das questões feministas e sociais. Nomes como o de Greta Thunberg, Amika George, Malala Yousafzai ou Emma Gonzalez. De entre elas, há algum nome que queiras destacar?
Todas merecem destaque, mas a Emma Gonzalez tocou-me especialmente. A força dela para lutar, depois da experiência traumática que teve, e o discurso que fez na marcha para o controlo de armas foi poderoso e um exemplo a seguir. 

Tens algum ídolo ou pessoas que admires e que tenham tido impacto em ti? 
Nunca idolatrei ninguém propriamente, mas tenho pessoas que me inspiram todos os dias: os atores com quem contraceno, os meus amigos de infância, uma reportagem em que leio que alguém fez algo pelo o mundo ou que se superou. São pontos de energia no meu universo que me fazem parar, refletir e integrar no meu dia a dia.

Quais eram os teus sonhos de criança? Sempre quiseste ser atriz? 
Sempre quis ser atriz. Sempre fui a “pateta” e fazia atuações para os meus pais e irmãos. Isso levou a que os meus pais me tenham inscrito em aulas de teatro. Foi aí que percebi que queria ser atriz. Não me lembro de nunca querer ser atriz. 

Que relevância achas que tem a educação, o ensino, numa altura em que, graças às redes sociais, ser influencer é uma profissão? Estudar e ir para a Universidade ainda faz sentido? 
Acredito que estudar faz sempre sentido. Até mesmo como influencer. A imagem não é tudo. Temos mais valor com conhecimento do que com beleza.

Agora que és atriz o que é que na profissão corresponde exactamente ao que imaginaste e o que é se revelou uma desilusão? 
Ser atriz e praticar a minha profissão é incrível, é tudo o que sempre quis. É a minha paixão. Quando estou a atuar estou bem. Mas é um trabalho e, como qualquer outro trabalho, há alturas com mais pressão e que são mais difíceis de apreciar: passamos muito tempo fora de casa e longe da família, dias de filmagens longos e uma exposição da minha vida pessoal que talvez não acontecesse se trabalhasse noutra área.

Sentes a tua presença nas redes sociais como um trabalho? E ele é complementar ou atrapalha o teu trabalho de atriz?
Nesta era digital, o meu trabalho como atriz interliga-se com a minha presença nas redes. De certa forma, complementam-se porque consigo conectar-me com as pessoas que me veem em casa. Consigo sentir de forma imediata o que as minhas personagens passam para o público e dessa maneira perceber se estou a criar a ideia ou o sentimento certo. 

O que é que o trabalho de atriz exige mais de ti?
Exige que eu me torne num camaleão.

No que é que o trabalho de atriz te fortalece? E no que é que ele te torna mais frágil? 
Ser atriz obriga-me a ir a mundos que não são os meus e isso faz-me mais conhecedora das várias realidades. Mas ser atriz é aprender a ser frágil. Deixar tudo de mim no palco ou no set. Entregar-me por completo.

Há algum tipo de personagem específico que gostasses de fazer pelo desafio de não ter nada a ver com a tua personalidade? 
Gosto da ideia de dar corpo e vida a pessoas totalmente diferentes de mim. Sei que muitas vezes, através delas, poderei vir a ter um impacto positivo na sociedade e isso cria em mim um forte sentimento de responsabilidade. 

Quando não estás a trabalhar quais são os teus interesses? 
Adoro viajar. Acho que é mesmo um dos meus maiores vícios. Li uma vez alguém que escreveu isto: “Onde é que gastas mais dinheiro, mas que te deixa mais rico? Viajar” Não podia estar mais de acordo.

Que livros, séries ou filmes tens visto?
Adorei a série 13 Reasons Why. É uma série que aborda assuntos atuais e que reflete algumas questões com as quais os adolescentes se debatem.

Onde é que te vês daqui a cinco anos? 
Gosto de viver o presente e aproveitar o agora. A minha vida, em cinco anos, mudou muito. Por isso, daqui a cinco anos não consigo imaginar onde possa estar. É muito tempo. Mas espero continuar a trabalhar no que amo, a viajar muito e a conhecer pessoas interessantes e que me acrescentam valor.

Se não fosses atriz, o que é que te vias a fazer?
Gostava de estar ligada a algum projeto que se relacionasse com as pessoas de uma forma positiva e inspiradora.

O que é que a Kelly, figura pública, diria à Kelly, ainda anónima, aspirante a atriz, se se encontrassem? 
Acho que diria “vai com calma miúda que tudo vai acontecer no seu tempo.” (risos)

E quem é a Kelly fora dos ecrãs?
Sou só uma miúda de21 anos. Acho que às vezes as pessoas se esquecem disso.

 

 O editorial completo com Kelly Bailry pode ser visto na íntegra, aqui.
Artigo originalmente publicado na edição de julho de 2019 da Vogue Portugal.

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