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The L Word

by Sara Andrade

 

Com nove letras se escreve a palavra ícone.

© Branislav Simoncik

Lagerfeld. Nunca um apelido teve tanto poder – e tantas derivações. De labelfeld – alcunha que ganhou pela sua prolífica tendência para parcerias com outras marcas de toda a espécie de PVP – a kaiser da Moda, o alemão que tomou o mundo da Couture como o seu playground deixou uma popularidade junto do público inigualável. Mas o estatuto de que se regozijava nem sempre foi consensual. O CV pode até listar Chanel, Fendi, Chloé, Balmain, mas na secção das “competências”, há só uma descrição possível: contracorrente com um F grande. F de fashion, claro.

"Aborreço-me facilmente”, contou ao The Guardian em 1985. “A ideia de passar a minha vida a trabalhar sobre o mesmo tema vezes sem conta é um pesadelo.” Era por isso que com frequência se livrava de objetos, arte e ideias que outrora o inspiraram para poder passar a uma nova fase criativa – sempre revolucionária, como pretendia.

Nasceu em Hamburgo, em 1933, com o apelido Lagerfeldt (deixou cair o ‘t’ desde cedo para que o nome soasse mais comercial), mas desde os 14 anos que respirou ares parisienses, quando se mudou para a capital francesa. Começou como assistente e depois aprendiz na Balmain, seguido de curtos anos na Jean Patou, de onde se despediu para trabalhar como designer freelance – os colegas acharam-no louco. Mas #controverso era o seu nome do meio e a Vogue toma a liberdade de fazer disso hashtag.

A Fendi aterrou na sua lista de clientes em 1965: ainda o Homem não tinha chegado à Lua e já Karl catapultava a marca de Roma para a fama internacional, algo que continuou a fazer, em estrita colaboração com as irmãs Fendi, por quase seis décadas, e não sem algumas polémicas pelo meio. Além do uso recorrente do pelo, na altura, na marca – e a PETA nunca deixou de lhe relembrar que era um major no-no –, em 1993 colocou na passerelle a estrela porno Moana Pozzi, um passo tão #controverso que fez Anna Wintour sair a meio do show.

A entrada na Chanel, em 1983, não foi diferente: desacreditado como couturier, este “styliste alemão”, como era apelidado com escárnio, foi uma contratação que não convenceu os amantes da Casa, mas as críticas cairiam por terra a partir do momento em que atualizou o design de Coco, sem desrespeitar a sua memória. Pelo caminho, criou ícones incontornáveis da marca, como o duplo C, e até introduziu as coleções Métiers d’Art, que trouxeram visibilidade a artesãos de ateliês franceses.

Numa clara atitude perante a Moda que passava pelo go big or go home, ficarão para sempre os seus cenários no Grand Palais, edifício que já viu de tudo, de iates gigantescos, bosques encantados, supermercados de luxo, praias de areia dourada e uma série de outras temáticas que ganharam vida para uma experiência imersiva de todos os privilegiados que assistissem aos desfiles da marca.

© Branislav Simoncik

Pelo caminho, e enquanto desenhava mais de uma dúzia de coleções por ano para as três casas que liderava criativamente – além da Chanel e da Fendi, mantinha a marca homónima que criou em 1984 –, estreou a agora deveras antecipada designer collaboration da H&M, sendo o primeiro nome a juntar a High FashionFast Fashion, em 2004. Também colaborou numa coleção de maquilhagem com a Shu Uemura, em 2012, uma parceria que não é de estranhar uma vez que ao longo de mais de 20 anos usou as sombras compactas da marca para esboços – até encomendou um determinado tom de vermelho exclusivamente para si.

Criou figurinos para 16 filmes, incluindo o vencedor de um Óscar Babette’s Feast (1987), e saiu várias vezes do seu papel de designer para assumir a posição de fotógrafo e, pontualmente, de realizador – por exemplo, dirigiu a curta-metragem Once Upon a Time (2013), que conta a história da abertura da primeira loja de Coco Chanel (Keira Knightley), em Deauville. Era também o único criador a apresentar duas coleções de Alta-Costura, por estação, e deixou para a história uma série de citações tão suis generis quanto #controversas que variam da comédia à polémica. Do seu desapreço pelas selfies – “Essas redes sociais, há algo de triste nelas... é como um espelho interativo em que a pessoas falam para elas mesmas. E o que mais detesto na vida são as selfies.” – ao amor professo pela gata Choupette, mimada ao máximo – “até sabe usar um iPad e come comigo, à mesa. Não gosta de comer no chão” – e ao modo aberto e sem papas na língua como falava sobre qualquer tema, incluindo o tamanho das modelos ou o sucesso dos colegas – “Houve uma designer em Paris que uma vez disse ‘os meus vestidos são só para mulheres inteligentes’. Ela foi à falência, por isso, só deviam existir idiotas, lá. Na verdade, não foi muito inteligente da parte dela dizer isso. Eu desenho para as pessoas que gostam de roupa. Não há faixa etária porque a discriminação de idades é uma espécie de racismo, de certa forma.” – , fazer manchetes era tão quotidiano quanto tomar o pequeno-almoço: torrada, um ovo (mas não frito), sumo, iogurte e uma Diet Coke, por exemplo, no inverno, e fruta com iogurte, no verão, com uma fatia de torrada ocasional, como descreve no seu livro de dieta, The Karl Lagerfeld Diet, regime no qual embarcou para perder mais de 40 quilos pelas razões mais... nobres: “Tenho vontade de me vestir de forma diferente e caber nos fatos Dior Homme desenhados por Hedi Slimane.”

É por esta manifesta abertura que não é estranho perceber que, em toda a sua irreverência, se prontificou a posar para uma foto repentina num qualquer background parisiense, quando o nosso diretor de fotografia lhe pediu que o fizesse com uma pala de cristais que agora se inclui na página de backstage. A imagem seria para uma série de Branislav Simoncik. Acabou por ser a melhor homenagem ao seu espírito criativo, destemido e inesperado. Características que, mais que ao seu trabalho, imprimiu no rumo da Moda: “O que mais me dá prazer é fazer algo que nunca tenha feito antes.”

 

Artigo originalmente publicado na edição de março de 2019 da Vogue Portugal.

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