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Entrevistas 7. 4. 2020

I have a dream: o portefólio de JR, o artista francês

by Ana Murcho

 

As suas obras estão espalhadas por ruas, becos e avenidas de várias cidades, um pouco por todo o mundo; estão abertas ao público que passa, livres dos constrangimentos, e das limitações, de galerias e museus. É exatamente isso que move JR, o artista e ativista francês que se esconde atrás de um chapéu e de uns óculos escuros – as pessoas, as causas, a vida.

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© Liu Bolin

Na manhã em que falamos com JR, uma sexta-feira que não se decide entre nuvens cinzentas e céu azul de algodão, já Portugal e França vivem sob o manto das respetivas declarações de estado de emergência. Na sua página de Instagram, JR, o artista francês que, entre outras distinções, foi galardoado com um TED Prize (em 2011, o que lhe permitiu criar um dos seus projetos mais dinâmicos, o Inside Out Project) partilhava com os seus 1,5 milhões de seguidores o seguinte desafio: “Há alguns anos, o monge budista Mathieu Ricard mostrou-me o livro Motionless Journey com fotos que ele tirou da janela enquanto estava confinado no Nepal durante um retiro de um ano. Foi incrível ver quantas perspetivas diferentes podemos ter de uma única e pequena janela para o mundo exterior. [...] Hoje estamos confinados e devemos transformar isso numa experiência valiosa. Solicitei aos meus alunos da Kourtrajmé Photo School em Paris que tirassem uma foto, a partir das suas casas, todos os dias, e que a publicassem com a hashtag #frommywindowframe. Claro que qualquer pessoa pode participar... Stay home, stay safe.”

O apelo é um reflexo da obra, e do percurso, de JR. Ninguém sabe dizer exatamente quem é, de onde vem, nem quantos anos tem, e essa aura de mistério aguça a curiosidade sobre um artista que, na biografia disponível na sua página oficial, garante possuir “a maior galeria de arte do mundo.” As ruas. Essas que nunca lhe falham. Foi lá que começou, em 2004. Por acaso. Há-de garantir que nem sabia que era possível ser artista. Mas o destino pregou-lhe esta partida, e ninguém se arrepende. Nem ele, nem nós.

Porque é que acha que isto, esta pandemia, está a acontecer? Acha que é possível explicá-la?
Bom, sempre soubemos que uma pandemia como esta poderia acontecer. Já foi dito algumas vezes. Aconteceu algo assim há cem anos. Era apenas uma possibilidade, mas nunca quisemos acreditar. Fizemos filmes sobre isso, imaginá-mos este cenário muitas vezes. Há muitos programas de TV sobre pandemia... E aqui estamos.

Parece que estamos a viver uma realidade paralela.
É muito estranho. Vamos ter de voltar mais fortes. É nestes momentos que definimos o que somos enquanto humanos e pessoas. E como nos apoiamos uns aos outros. Estamos a viver isto em tempos muito diferentes do que há cem anos, quando não havia tecnologia, devemos ter isso em consideração.

A tecnologia ajuda-nos a ficar mais conectados. Foi por isso que lançou o desafio aos seus seguidores?
Foi, antes de mais, porque queria encontrar uma maneira de envolver os meus alunos, agora que estamos em casa. Disse-lhes: “bem, pessoal, vamos ter de ser criativos, mas também vamos envolver outras pessoas, vamos fazer algo que vocês possam fazer, mas que outras pessoas também possam fazer”. E sempre que for possível, as nossas aulas serão em direto, para que outras pessoas também possam desfrutar.

No fundo, existem sempre formas de nos desafiarmos a nós próprios. Mesmo estando em casa.
Acredito firmemente que a criatividade nos mantém sãos. E isso não significa que todos temos de ser artistas. Agora é altura de sermos ainda mais criativos, como [uma forma de] cura, como uma maneira de permanecermos sãos e também como uma maneira de inspirar os outros.

Na sua opinião, este momento irá mudar-nos, a todos, enquanto humanos?
Julgo que, definitivamente, isto nos irá mudar de alguma forma. Depende de quanto tempo vai durar, como nos vai afetar, mas espero que isto nos mude de uma maneira boa. Porque, em momentos como este, o que acontece é que se fecham fronteiras, fecha-se isso, fecha-se aquilo, e é difícil, porque queremos parar uma pandemia, mas, e depois, como é que se recupera disso? Porque estávamos a tentar abrir fronteiras... Acho que será um grande desafio.

JR e estivadores, com contentores como pano de fundo, erguem um braço com 15 metros de altura. “Este punho é o símbolo da força dessas pessoas que ajudam a descarregar tudo o que usamos nas nossas vidas diárias e a enviar tudo o que precisamos, essas pessoas que fazem a junção da terra e do mar.” // França, Le Havre, 12 de junho de 2016.

Esta edição tem como tema central a liberdade. O momento em que vivemos, curiosamente, também tem como tema central a liberdade. O que significa, para si, liberdade?
A liberdade é um conceito muito relativo. Depende de onde nasceste, depende de onde estás a viver... Alguns podem pensar que são livres e, no entanto, estão presos. É claro que em alguns casos, todos podemos concordar que uma pessoa não tem liberdade. Mas é um conceito realmente relativo. [...] Num país como a França, onde estou agora, alguns podem dizer que se sentem livres, outros podem dizer que não. E para aqueles que dizem que não são livres, quando viajo pelo mundo, acho que não percebem a sorte que têm. [...] A liberdade é um conceito para “seguir em frente”, em constante evolução.

A liberdade é, antes de mais, uma questão política?
É um assunto sem fim, porque mesmo em países como a Coreia do Norte... Para mim, como francês, não sinto que eles tenham liberdade. E tenho a certeza que se perguntares à maioria das pessoas aqui, elas dirão o mesmo. Mas se fores lá, eles provavelmente dir-te-ão que se sentem livres. É uma questão que depende de onde estás, da situação em que estás, e do que sabes. Isso também é muito importante.

Parte da sua obra lida com as fronteiras impostas pela so- ciedade, tanto físicas como metafísicas. Podemos aprender alguma coisa com esta situação que agora vivemos, no sentido em que pensaremos duas, três vezes antes de fechar fronteiras aos imigrantes que, no final de contas, só se querem sentir seguros?
Sou filho de imigrantes. Consigo perceber que o meu pai viajou para encontrar uma vida melhor. E aqui estou eu em França, tive a sorte de crescer aqui. E emigrei para Nova Iorque e morei lá nos últimos dez anos. Algumas pessoas vão embora porque não há outra escolha, não há outra possibilidade, e algumas pessoas, como eu quando fui para Nova Iorque, têm a chance de escolher e decidir onde vão morar. O que quero dizer é que a conceito de migrantes sempre existiu na História da Humanidade e sempre existirá. Os Estados Unidos da América foram criados com imigrantes e pessoas vindas de todo o mundo, e o que é incrivelmente impressionante é que as pessoas que estão lá agora, a maioria delas, estão a dizer “não queremos mais estranhos” e é quase como se nos esquecêssemos que são humanos... Foi por isso que abri um restaurante em Paris com a ajuda do chef Massimo Bottura [Refettorio Paris] onde servimos jantares para pessoas em situações de vulnerabilidade social, refeições de três pratos [de ingredientes que de outra forma seriam desperdiçados] num ambiente bonito, e eles sentem que os respeitamos. E, ao fazer isso, percebi o poder de uma refeição simples, o poder de uma bela apresentação. Como pessoa, sentes-te reconhecido e sinto que isso está no centro de alguns dos meus projetos.

Pelo facto de estar nas ruas, a sua arte dá voz a muitas pessoas que, por uma série de razões, de outra forma não teriam como se exprimir. Porque é que as ruas são tão importantes?
Sempre andei pela rua, porque comecei a desenhar grafittis, mas depois percebi que isso não era a melhor maneira de fazer os meus projetos. Mas as ruas... As pessoas não saem de casa de manhã a pensar ir visitar um museu; portanto, quando caminham para ir trabalhar, e são confrontadas [com arte] ficam completamente surpresas, a reação é mais forte.

Que tipo de impacto é que gostava que o seu trabalho tivesse nos outros?
Como artista, levantas questões. Não dás respostas. Quando inicio um projeto, não espero respostas, só espero discutir, questionar e ter mais interação humana. Mas o que é surpreendente nos últimos 20 anos é ver o impacto que isso causa em muitas pessoas. Ver o impacto que isso tem [numa determinada] situação, ver isso mudar por causa da arte. A arte pode mudar o mundo. A arte pode mudar a perceção que temos sobre o mundo.

Tem um percurso notável. Consegue escolher uma conquista particularmente relevante?
Nunca vejo coisas assim. Sinto que estou igual ao que estava quando comecei: que tudo pode ser feito. Estou sempre a desafiar-me. Estou sempre inseguro sobre o próximo projeto. E muitas vezes nem sei qual é o próximo projeto. O meu estado de espírito é sempre esse, desde o início.

Era isto que queria, em criança? Era este o seu sonho?
Não! Não! Eu nem sabia que havia um trabalho para “ser artista”! Ninguém na minha família era artista. Eu não sabia que havia escolas, não fiz nenhuma escola. Não era um plano ou um sonho. Não tinha referên- cias, não conhecia Warhol ou Basquiat. Só soube quem eram muito mais tarde. Mas como não tinha isso à minha volta, essa pressão, “precisas de fazer isso para seres um artista, precisas de fazer aquilo”, sinto-me muito mais livre. Como não sabia que havia regras para ser artista, sinto-me mais livre. Estou feliz que tenha sido assim.

Tínhamos pensado falar de liberdade, mas não assim. Tínhamos pensado em mencionar fronteiras, mas não assim. Tínhamos pensado em discorrer acerca dos limites da criatividade, mas não assim. Vivemos tempos diferentes, por isso, fazem-se entrevistas diferentes.

Collage de retrato de Kikito, que na altura com um ano de idade, na fronteira entre os dois países. Vista do lado americano da fronteira. // Estados Unidos/México, Tecate, 6 de setembro de 2017.

 

Collage de olhos no chão, atravessando a fronteira entre os Estados Unidos e o México, Tecate, 8 de outubro de 2017.

Em cima: The Chronicles of New York City, Nova Iorque, Estados Unidos. Instalação no mural no Domino Park, 3 de fevereiro de 2020. Em baixo: The Chronicles of New York City, Nova Iorque, Estados Unidos, 2019.

California Correctional Institution (CCI), prisão de alta segurança em Tehachapi, Califórnia. JR e a sua equipa capturaram os retratos e as histórias de antigos e atuais cidadãos encarcerados que estão focados na reabilitação, bem como de algum staff da prisão e, com a ajuda de todos, colaram-nas no espaço recreacional da CCI. // Estados Unidos, Califórnia, Tehachapi, outubro de 2019.

Wrinkles of the City. Detalhe de Invalidenstrasse, uma rua de Berlim, Alemanha, 10 de abril de 2013.

 Wrinkles of the City, 15 de abril de 2013.

 Wrinkles of the City. Los Angeles, Estados Unidos, 25 de fevereiro de 2012.

Inside Out: Native American Project. Instalação colocada entre as ruas Houston e Bowery, Nova Iorque, Estados Unidos, 2011.

Rio de Janeiro, Brasil, Flamengo, 3 de agosto de 2016.

JR e a sua equipa no rooftop da Casa Amarela. Rio de Janeiro, Brasil, 28 de outubro de 2017.

Giants. Rio de Janeiro, Brasil, 3 de agosto de 2016.

 

Migrants. John Hancock Tower, Boston, Estados Unidos, 21 de outubro de 2015.

Unframed Project. Ellis Island, Estados Unidos, 15 de setembro de 2014.

Colaboração com o New York City Ballet. Charlotte Ranson, bailarina. Nova Iorque, Estados Unidos, 30 de dezembro de 2014.

Inside Out Project. Medellin, Colômbia, 3 de fevereiro de 2012.

Num prédio da 11 Spring Street (uma rua icónica para a street art), JR colaborou com o artista chinês Liu Bolin e tornou-se “invisível” à frente de um olho de Bolin. // Nova Iorque, Estados Unidos, 19 de março de 2012.

 

Artigo originalmente publicado na edição de abril de 2020 da Vogue Portugal.

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