Entrevistas  

Joshua Uduma: “Não vou parar até saber que provoquei uma mudança de paradigma na mente de todas as pessoas do mundo”

16 Jul 2026
By Rita Martins

Top, EMPORIO ARMANI. Calças, V-RO YAO. Botas, CHRISTIAN LOUBOUTIN. Óculos de sol, TOM FORD.

Desde que se lembra, Joshua Uduma sonha em fazer diferença na vida das pessoas. É nos ecrãs que o ator e realizador nigeriano-americano vai além das expectativas para incentivar o público a viver uma rotina ativa e saudável.

A vida que Joshua Uduma expõe nas redes sociais exige dedicação e disciplina e, mesmo nos dias em que a motivação não bate à porta, o ator e realizador encontra outras formas de seguir a sua missão: mostrar às pessoas que a própria vida se resume a atingir o seu auge, especialmente no que diz respeito ao físico e à vida quotidiana.

Em projetos como The Trainer, Uduma sentiu-se honrado por trabalhar com nomes como Tony Kaye, mas foi em Little America que todo o seu percurso e objetivos pareceram, finalmente, fazer sentido. É precisamente neste tipo de papéis que existe uma certa pressão para transparecer o melhor da sua herança cultural, e o ator destaca-se pela sua força de vontade e empenho. A Vogue Portugal falou com Uduma sobre os seus projetos e objetivos para o futuro. 

Blazer e calças, PAUL SMITH. Camisa, RON TOMSON. Sapatos, CHRISTIAN LOUBOUTIN.

Quais são as suas primeiras memórias do cinema ou da indústria do entretenimento? E o que o levou a seguir este caminho?

Creio que as minhas primeiras memórias estejam associadas ao filme Gladiador, realizado por Ridley Scott. Foi o primeiro filme em que vi uma série de emoções e talento artístico reunidos numa verdadeira obra-prima. Desde a banda sonora épica de Hans Zimmer, passando pelos movimentos calculados e bem coreografados das cenas de ação, até à profundidade das emoções acumuladas de cada ator, que fluem numa dualidade de yin e yang entre si. Este filme, por si só, despertou em mim um desejo ardente de causar impacto emocional nas pessoas através da narrativa e de uma composição musical bem calculada que coincida com ela. Claro que há vários outros, mas este é o filme que, para mim, deu início a esta jornada.

De que forma é que a sua herança cultural nigeriano-americana e a sua educação no Texas moldam as histórias que escolhe levar para o ecrã?

Há muitas facetas que posso explorar graças à sorte de ser nigeriano-americano. Sou um filho de primeira geração dessa categoria, o que, de facto, me coloca muita pressão para não falhar, mas desafia-me a dedicar-me totalmente a explorar uma infinidade de elementos baseados na minha origem e educação, especialmente a comédia. Quem conhece um pouco os nigerianos, sabe que eles têm um timing cómico e um sarcasmo hilariante que raramente se encontram neste mundo. Os nigerianos tendem a ter algumas das histórias mais inimagináveis que nunca passariam pela cabeça da maioria das pessoas. Com a vantagem de ser do Texas, consigo recorrer àquela hospitalidade sulista ou ao estilo grunge expressivo que é suficientemente requintado para se aplicar a inúmeras personagens, dependendo do enredo. Numa ponte entre ambos os mundos, há uma vantagem que eu tenho de me tornar, até certo ponto, um camaleão para compreender inúmeros enredos com os quais me consigo identificar e ser capaz de expressar de forma bem-sucedida.

Brincos, PANDORA.

Com mais de um milhão de seguidores nas redes sociais, tornou-se um símbolo de inspiração. Como é que equilibra a estética visual que o seu público espera com a mensagem autêntica de saúde e bem-estar que deseja transmitir?

Pode parecer um cliché quando digo isto, mas confio nos meus instintos até ao mais profundo do meu ser quando se trata de me expressar através de fotografias ou vídeos com menos de um minuto nas redes sociais. Dentro desse espaço limitado para me expressar artisticamente, faço o meu melhor para imaginar o que as pessoas adoram ou querem ver como se fossem um amigo na sua vida pessoal. Quando se trata de saúde e bem-estar, procuro esforçar-me ao máximo para garantir que as pessoas compreendam que a própria vida se resume a atingir o seu auge, especialmente no que diz respeito ao seu físico e à sua vida quotidiana.

A razão pela qual me tornei obcecado por saúde e bem-estar foi para poder desafiar-me constantemente a imaginar “como é a melhor versão de mim mesmo e como chego lá?”. Se me fizer essa pergunta e responder em conformidade, sei e acredito que pode ser o mesmo para outras pessoas. Elas só precisam de alguém que lhes mostre o caminho da forma mais acessível e honesta possível. Nada de ficção. Desde manter uma alimentação saudável e bem equilibrada na vida, no que diz respeito ao exercício e ao treino, mesmo com marcas como a Alo, consigo combiná-la com o meu amor pela Moda. Há um ditado que diz: “Se se veste bem, também se sente bem”. Quando o corpo e a mente estão em sintonia e ficam cada vez melhores a cada dia, fica mais inspirada para experimentar novas peças de roupa que antes não se atrevia a experimentar. Isso, por si só, é como colocar enfeites numa árvore de Natal.

Menciona frequentemente a meditação e a espiritualidade como o seu refúgio. De que forma é que estas práticas o ajudam a manter uma mente saudável no meio do caos da indústria do entretenimento?

No que diz respeito à meditação e à manutenção de uma mente saudável, acredito sinceramente que é uma das únicas formas de manter os pés assentes na terra, não só numa indústria que pode parecer opressiva, mas também ao navegar pela vida no mundo de hoje. Notícias negativas uma atrás da outra, enquanto tento manter-me em forma, alimentar-me bem e aparecer nas passadeiras vermelhas com um grande sorriso ou socializar com muitas pessoas, enquanto finjo que tudo está a correr bem. É preciso muita força mental para fazer isso constantemente e, ao mesmo tempo, desafiar-me a fazê-lo sozinho. Quando medito ou mantenho uma mente saudável, estou a assegurar a mim mesmo que a paz é o meu verdadeiro centro. Com paz, tenho o poder de escolher o tipo de reação que vou ter. Posso optar por ir para a extrema esquerda e ser o que algumas pessoas podem considerar um ser humano terrível, ou posso ir para a extrema direita e decidir ser uma inspiração todos os dias com o novo nível de graça que me foi concedido para viver a vida enquanto encaro novos desafios que, mesmo assim, não me vão derrubar.

Blazer, BODE. Brincos, XXX.

Sobre o seu papel como influenciador de bem-estar: Manter uma rotina de treinos intensos, jejum intermitente e uma carreira em Hollywood, é necessária uma disciplina quase sobre-humana. Onde encontra forças nos dias em que não há motivação?

Não é, de forma alguma, uma tarefa fácil. Lutar contra o corpo e as emoções para não me sentir exausto e sem motivação tende a ser uma das tarefas que mais exigem autodisciplina com que me deparo. Nem sempre sinto que o que estou a fazer é suficientemente eficaz, e isso acontece principalmente quando não tenho um dia de treino intenso ou uma forma de libertar a tensão acumulada. É a única forma de escapar à falta de motivação e voltar a entrar no ritmo que me faz avançar. Sou apaixonado por exercício físico desde que praticava desporto no ensino básico, por isso a minha mente e o meu corpo estão automaticamente sintonizados para garantir que essa tarefa é cumprida em primeiro lugar. Considero que esta é a melhor forma de me livrar de qualquer sensação de exaustão e voltar a concentrar-me nos meus objetivos.

No filme "The Trainer", realizado por Tony Kaye, os mundos do fitness e do cinema cruzam-se de uma forma única. Como foi fazer parte deste projeto ao lado de um elenco tão notável?

Sempre tive o sonho de fazer parte de um elenco que tenha alcançado feitos notáveis nas suas carreiras, mas poder ter esta oportunidade foi nada menos do que uma intervenção divina. Quer fosse um papel grande ou pequeno, eu teria ficado muito honrado por me associar a pessoas tão lendárias que trouxeram tanta inspiração ao mundo. O Tony é um amigo muito querido meu, que tem uma mente inigualável, e talvez nunca venha a existir outra pessoa como ele. Por isso, quando me pediu para fazer parte do filme, fiquei verdadeiramente maravilhado. Aquele tipo de espanto que nos faz perceber que as coisas que deveriam ser impossíveis são, na verdade, sempre possíveis. É tudo uma questão do momento certo, o momento predestinado. Sinto um sentimento benevolente de gratidão e apreço que não sei como expressar em palavras.

Brincos, XXX.

Além de ator, também é realizador. Por que razão decidiu seguir também este segundo caminho?

Ainda não realizei oficialmente o meu primeiro projeto, mas o facto de o momento ser absolutamente perfeito, tendo em conta que estou prestes a fazê-lo pela primeira vez dentro de algumas semanas. A transição surgiu ao honrar a promessa e o voto que fiz a mim mesmo quando era criança. Tal como o exemplo que dei em relação a Gladiador, a minha obsessão por esculpir em conjunto os elementos artísticos que acompanham a criação de uma obra-prima cinematográfica, às vezes, não me deixa dormir à noite. É uma missão que será e deve ser expressa pelo meu amor mais profundo por esta, e todas as outras, formas de arte. Os filmes são a minha terapia. Desde a banda sonora até à câmara com que são filmados, comovem-me de uma forma que me reequilibra e me traz paz ao saber que eu consigo fazer isto, mas à minha maneira, vindo do mais profundo das minhas emoções.

Como foi adaptar-se ao trabalho por trás da câmara, e quais foram os maiores desafios?

Enfrentei muitos desafios quando comecei a organizar projetos nos bastidores. A minha mãe criou-me de forma a que eu adquirisse um forte sentido empresarial para o mundo corporativo e eu aproveitei isso, aplicando-o ao mundo do cinema. No mundo empresarial, os desafios estão à espreita em cada esquina, como um mosquito indesejável, a zumbir à nossa volta sem qualquer remorso. Porque me ensinou a estar sempre preparado e a antecipar-me aos acontecimentos, a ter os meus próximos movimentos e passos prontos para um cenário de “por via das dúvidas”. Montar projetos não é diferente. Existe uma visão, uma ideia das peças que melhor se encaixam e ter a resistência necessária para concretizar. É juntar tudo isso com uma forte dose de determinação, e pronto, o resultado é um sonho que ganhou vida a partir da sua própria imaginação.

Blazer e calças, BODE.

Entre produzir um filme e interpretar uma personagem, qual dos papéis o realiza mais?

Essa é uma pergunta muito difícil. Mas, sem dúvida, teria de dizer que é interpretar uma personagem. É aí que consigo usar o papel como meu terapeuta. Parece estranho, mas imagine-se ser capaz de expressar plenamente todas as emoções ao longo de uma trajetória (o guião) que permite mostrar toda a amplitude das emoções humanas. É essa a sensação. Sem julgamentos. Sem olhares estranhos das pessoas no público a perguntarem-se se é uma pessoa emocionalmente desequilibrada ou algo do género. É apenas pura liberdade. Chora-se se quiser, fica-se eufórico de uma forma estranha, ou fica-se tão zangado que se diz as coisas mais bizarras. Seja como for, sou livre para expressar tudo, sem remorsos.

De todos os projetos em que esteve envolvido, qual foi o que mais significou para si? Porquê?

Diria que foi Little America, na Apple TV+. Se as pessoas soubessem como a comunidade nigeriana na América e na Nigéria se identificou tanto com aquele episódio em que participei, sabiam porque é que digo que este foi o meu favorito. Os meus pais, e outras pessoas, passaram exatamente pela mesma coisa que a minha personagem passou, especialmente por ser tão perto do Texas, quando se tratava de uma história verídica passada em Oklahoma. Todas as situações que as personagens enfrentaram foram exatamente as mesmas que a minha família enfrentou quando vieram para a América. É como se eu estivesse no lugar deles, a viver exatamente a vida que eles viveram. A melhor parte de tudo isto é que pude falar a minha língua nativa num programa de televisão internacional, algo que nunca tinha sido feito antes.

Blazer, camisa e calças, tudo WALTER VAN BEIRENDONCK

O que nos pode dizer sobre os seus novos projetos com a Apple TV+?

Posso dizer que vai ser uma revolução que ninguém espera, na forma como uma história pode ser contada de uma maneira tão impactante e, mais importante ainda, com a qual nos identificamos. Essas são as histórias pelas quais vivemos.

Com projetos cinematográficos em desenvolvimento, como "Civil", o que pode o mundo esperar de si nos próximos anos?

Não vou parar até saber que provoquei uma mudança de paradigma na mente de todas as pessoas do mundo, de todos os países e continentes. Nos próximos anos, serei aquele de quem as pessoas se lembrarão como o ator que as levou a dedicarem-se ao cinema e à televisão, a adotarem a saúde e o bem-estar como um ritual diário para mudarem as suas vidas para o bem de si próprias. O que é mais importante do que ser conhecido como a pessoa que inspirou milhões de pessoas a alcançarem a plenitude do seu destino? Nada se compara a essa bênção.

Fotografia e produçãoKarina Dobra | @karinadobraphoto
StylingKaryna Schaul | @karyna3
TalentoJoshua Uduma | @joshuduma
MaquilhagemAshley J Simmons | @makeupbyashsimmons
RetouchMarina Karaskevich | @karaskevich.retoucher
Assistente de fotografiaDavid Ventura
Rita Martins By Rita Martins
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