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Tendências 18. 2. 2020

Infinitos tons de nude

by Joana Moreira

 

A repetir: nude não é bege. A repetir: nude não é cor de pêssego. Ou melhor, é, mas não é só isso. Quando é que vamos ter que deixar de explicar o que significa nude? 

“Depois de anos a ser torturada pela palavra nude – meias nude, batons nude, sutiãs nude – denotando uma cor que não se parece em nada com o meu tom de pele, acho a palavra aterradora”. As palavras são de Funmi Fetto, no livro Palette: The Beauty Bible for Women of Colour. 

Em entrevista à Vogue, a jornalista de beleza explica como o conceito de nude é só mais uma prova do privilégio que persiste na indústria da Beleza. “Este tipo de coisa nunca foi um problema para algumas pessoas porque simplesmente a tomaram como garantida, e nunca sequer pensaram sobre isso. Mesmo na Moda, havia uma marca em particular que durante muito tempo criou vestidos que tinham os chamados nude slips por baixo. Enquanto pessoa negra, nunca os poderia usar! Porque não era o meu nude. Era suposto parecer-se com pele, mas não se parecia com pele. Estava só a usar esta coisa que tem este bege todo. É simplesmente estranho”. 

“É sem dúvida uma questão de privilégio branco”, acusa. “Nude é nude. E, estranhamente, eu acabei de escrever algo recentemente, que ainda não foi publicado, em que digo: bem, de quem são os nudes que estamos a falar aqui?” Não os de todos, com certeza. 

O desenvolvimento de produtos apenas com uma audiência caucasiana em mente é um dos argumentos muitas vezes apontados pelos críticos para a falta de inclusividade no lançamento de coleções de maquilhagem com foco no tópico do nude. Mas há exceções. A própria Fetto identifica uma no mesmo livro, quando se refere à base Teint Idole Ultra Wear Nude, da Lancôme. “Usar [o termo nude] para descrever uma gama de bases que está disponível para numerosos tons de pele – ou seja, para todos os tipos de nude – faz todo o sentido”, apoia. 

Mas se a Crayola rebatizou o seu lápis “cor de pele” como “pêssego” em 1962, seria de esperar que, em 2020, na indústria da Beleza, já fosse do senso comum que um batom nude não pode significar apenas 1.937.450 variações de bege. Porque nude é mais do que isso. Um batom nude terá sempre de ser um batom que, quando colocado nos lábios, tem um aspeto natural na pele, independentemente de esta ser muito clara, muito escura, ou se situar em qualquer outro ponto do espectro de cores. Mas a indústria foi forçada a ter de repensar este conceito, com o debate a acender as redes sociais a cada novo lançamento menos inclusivo. Estamos em 2020 e, dúvidas houvesse, é oficial: findou o conformismo perante a utilização da palavra “nude” em substituição de bege ou creme e passou a ser verbalizado que esta terminologia peca por insensibilidade racial numa sociedade em que, admita-se ou não, ainda se privilegia a tez clara. 

O que é um boom nude agora?

No que toca a tendências, estas vão e voltam, evidentemente, mas, e ensina-nos a História, o batom nude manteve-se – com algumas variações. “Nos anos 2000 a tendência de um batom nude era utilizar a base de rosto ou corretor sobre os lábios. O conceito de nude era então a mesma cor da pele, anulando totalmente o pigmento mais rosa característico dos lábios. Antes, nos anos 90, a tendência era utilizar castanhos e beges com um tom mais frio e com texturas matte”, explica Paulo Almeida, Diretor de Formação na Europa na MAC Cosmetics. 

Das mulheres mais pálidas, a albinas e mulheres negras, hoje mais do que uma tendência, o consenso parece ser o de que um batom nude seja, efetivamente, um verdadeiro nude. “Acho que, no presente, o que se procura numa cor nude é que represente melhor a cor real dos nossos lábios”, diz o maquilhador, lembrando que um dia, aquando da criação da maquilhagem para um desfile, um designer de Moda lhe pediu um batom “cor de mamilo”. “Nunca mais me esqueci disso porque, esse sim, é a cor nude perfeita! É o equilíbrio perfeito entre um castanho, bege e rosa, que varia mediante o tom da pele de cada um. Para peles brancas mais claras, um bege claro com mais rosa, para peles brancas de tom médio, um bege e rosa em proporções idênticas, em peles negras claras, um castanho claro com toque de rosa ou mesmo vermelho, em peles negras mais escuras, um castanho com tons avermelhados”, explica. 

Hoje, para encontrar o nude perfeito, muitas mulheres (e homens) ainda precisam de olhar para fora do que é classificado como nude e explorar outras zonas da paleta cromática. Em todo o caso, ensina o makeup artist da MAC, “aplicar o batom na ponta dos dedos ou mesmo na palma da mão” é uma boa forma de encontrar o tom ideal. “A cor que mais se aproxima é, de maneira geral, o melhor nude para aquela pessoa. Depois, dependendo dos gostos de cada um, podemos ir mais claro, mais escuro, mais rosa menos rosa, mas andamos sempre por essa zona”. Quanto a texturas, “eu prefiro uma textura mais cremosa”, diz Paulo. “Embora os mattes tenham sido uma grande tendência, penso que texturas mais cremosas se aproximam mais do look de um lábio cuidado e hidratado que queremos conseguir com um batom nude. Além disso, uma textura cremosa dá automaticamente um look mais jovial e saudável aos lábios”. 

Com o arranque do ano, a pressão para as marcas de Beleza está colocada: quem se atreve a usar a palavra nude? 

Artigo originalmente publicado na edição de janeiro 2020 da Vogue Portugal

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