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Curiosidades 7. 12. 2021

The Time Issue | In Vogue História: Os Intemporais

by Pureza Fleming

 

Atravessam os portões do tempo e mantêm o estatuto de eternos clássicos. Destacam-se na história da Moda por uma particularidade que é, afinal, tudo: a sua simplicidade. Conheça as peças que não passam de moda — nem hoje, nem nunca.

Nic von Rupp, Jejé Vidal, Karlina Caune e Estian Govea no editorial Point Break, da edição de julho/agosto 2020 da Vogue Portugal, por Frederico Martins e Nelly Gonçalves.

BLAZER PRETO

O blazer fez a sua primeira aparição na Vogue americana em junho de 1893: “Agora que a temporada dos barcos começou, costureiros e alfaiates ocupam-se a criar trajes de iate que sejam atraentes”, podia ler-se naquela edição. “Os mais elegantes são aqueles que têm saias perfeitamente lisas combinadas com o casaco Eton ou com o blazer longo, cujo reverso se deixa alargar bastante revestindo-se de branco.” Algures na mudança do século, o blazer passava a ser um item básico do guarda-roupa, usado com uma camisa de cintura justa e uma saia feita sob medida. Já na década de 1920, Coco Chanel apresentava a sua versão feminina do power suit (embora com saia em vez de calças) e, dez anos depois, atrizes como Marlene Dietrich ou Katherine Hepburn confirmavam a tese: de facto, não havia nada tão simultaneamente poderoso e sensual como uma mulher vestida de blazer e calças. Nos anos 60, foi a vez de Yves Saint Laurent anunciar a sua versão do fato, com o icónico Le Smoking, e, nos anos 80, o blazer tornou-se parte do guarda-roupa feminino (com o aparte dos ombros XXL, um acrescento que ou se ama ou se odeia). A peça mantém-se, hoje, como símbolo de empoderamento, mas não só. Transformou-se num básico que compõe qualquer look, e que se usa diariamente, sem regras, “só porque sim.” A versão em preto pode ser séria, sim, mas também consegue ser o supra-sumo do sexy quando combinada, por exemplo, com um vestido estilo lingerie.

Camille Hurel no editorial Copycat, da edição de janeiro/fevereiro 2021 da Vogue Portugal, por Julien Vallon e Belen Casadevall.

BIKER JACKET

Em 1928, Irving Schott, co-fundador da Schott Bros, empresa de roupa com sede em Nova Iorque, projetou e produziu o primeiro blusão em pele com zíper para motociclistas. Em homenagem ao seu charuto preferido, apelidou-o de Perfecto. O blusão original tinha um corte curto e confortável, com um bolso em D e lapelas projetadas para baixar ou dobrar uma sobre a outra e fechar até acima. Abastecido por um distribuidor Harley Davidson de Long Island, aquela peça robusta e aerodinâmica foi um sucesso imediato para uma nova geração de motoqueiros. O castanho começou por ser a cor mais popular nos primeiros anos de vida da peça, com o preto a vingar a partir da década de 50. Foi nesta altura que a popularidade do blusão explodiu. Primeiro com a sua aparição no filme The Wild One (1953), através de Johnny Strabler, personagem interpretado por Marlon Brando, e depois com James Dean. As fotos do ator sentado numa mota, cigarro pendurado nos lábios, o cabelo despenteado e um ar perdido e inocente, fizeram as vendas da Schott Bros disparar. Do cúmulo do sexy masculino para o epítome do cool do unissexo feminino foi um tiro. Hoje, é aquilo que já sabemos: de Kate Moss (obviously) a Zendaya numa versão do biker jacket comprido que a atriz sobrepôs a um vestido mini slip dress preto, esta é uma peça que não tem prazo de validade.

Mammina Aker no editorial Charme Tudo Menos Discreto, da edição de agosto 2019 da Vogue Portugal, por Angelo Formato e Rubina Vita Marchiori.

TRENCH COAT

Usado pela primeira vez por soldados nas lamacentas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a primeira evolução do trench coat deu-se com os revestimentos à prova de água criados pelo químico e inventor escocês Charles Macintosh, e pelo inventor britânico, Thomas Hancock. Mack (junção de Macintosh e de Hancock), era uma peça feita em algodão emborrachado e destinava-se ao homem cujos dias envolviam atividades ao ar livre e serviço militar. Assim que a tecnologia evoluiu, o seu revestimento tornou-se mais respirável e mais resistente à água. Em 1853, John Emary, um alfaiate de Mayfair, desenvolveu uma capa de chuva aprimorada, produzida com o nome da sua empresa, Aquascutum (do latim, “água” e “escudo”). Thomas Burberry, um jovem de Hampshire, seguiu o seu exemplo e, três anos depois, fundou uma empresa com o mesmo nome. Ao impermeabilizar os fios de algodão e de lã em vez do tecido acabado, a "gabardine" da Burberry passou a ser a mais respirável (e a mais popular entre exploradores, aviadores e outros aventureiros). Tanto a Aquascutum quanto a Burberry ficaram com os créditos da invenção da peça, mas a verdade é que as duas ajudaram a popularizar um casaco já existente. Usado em algumas das cenas mais icónicas do cinema — Humphrey Bogart em Casablanca (1942) ou Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany’s (1961) — tornou-se sinónimo de homens audazes e de mulheres inteligentes. Hoje, é revisitado por designers como Margiela ou Rei Kawakubo, sendo ainda uma (óbvia) assinatura da Burberry.

Zuzana Gregorova no editorial Word On The Street, da edição de maio/junho 2020 da Vogue Portugal, por Branislav Simoncik e Nina Ford.

JEANS

Criados em 1873 por Jacob Davis e Levi Strauss, os blue jeans (termo que descende de “bleu de genes” ou “azul de Génova”), eram a aposta de trabalhadores que precisavam de peças duradouras e resistentes, caso dos mineiros. Até que a Moda os descobrisse, sacudisse a sua poeira e os transformasse naquilo que hoje representam, traçar-se-ia um longo e sinuoso percurso. Foi precisamente cerca de um século depois da sua invenção que os jeans conquistaram o seu (primeiro) lugar ao sol no universo da Moda. Em 1965, o mundo assistia ao emergir de um movimento cultural cunhado pela então diretora da Vogue americana, Diana Vreeland, que ficou conhecido pelo nome de Youthquake. Este anunciava a aceitação generalizada da individualidade de cada um e seria fortemente influenciado pelas ruas. Ora, era precisamente nas ruas que os jeans começavam a ser vistos, como uma espécie de uniforme do mundo, muito além da sua personalidade rebelde. Pouco depois, em 1971, a mesma revista acabaria por considerá-los sinónimo de “uma forma de se estar na vida solta e veloz.” Os blue jeans acabariam, rapidamente, por se tornar no ícone americano por excelência. E a essa mesma velocidade na peça must-have de todos os jovens do planeta. A sua influência chegou às grandes maisons e, atualmente, é possível encontrar nas coleções da Chanel, da Hermès ou da Dior, coordenados onde os jeans são a peça-chave.

Darina no editorial Fluorescent Adolescent, da edição de agosto 2018 da Vogue Portugal, por Ricardo Santos e Joel Alves.

TÉNIS

A história dos ténis é longa e tem vários atos. Tudo começa em 1839, quando um cientista americano chamado Charles Goodyear inventa a borracha vulcanizada: um processo de adição de enxofre à borracha aquecida para fazer uma substância flexível, à prova de água e moldável. Várias décadas depois, esse inovador processo seria aplicado aos sapatos, permitindo solas mais duradouras. Assim nasceram os ténis modernos. Corta para o início do século XX, quando duas empresas decidiram estudar uma forma de capitalizar o vasto potencial dos sapatos com sola de borracha, trazendo-os para as massas. A US Rubber Company desenvolve os Keds, colocando-os à venda em 1916. Um ano depois, a Converse lança os All Star. No início dos anos 20, com a ajuda de Chuck Taylor, jogador de basquetebol e vendedor, a marca cresce a olhos vistos. Fabricados e comercializados, inicialmente, para atividades desportivas, os ténis rapidamente conquistam espaço para além do desporto. Na década de 50, os jovens nos Estados Unidos usam ténis com jeans, uma combinação explosiva que indicava rebeldia, o que causou consternação em algumas escolas. Apesar do sucesso, os ténis foram, durante muito tempo, renegados para as prateleiras mais escondidas dos nossos closets. Com a chegada do milénio, passaram a ser um objeto de culto, com direito a coleções exclusivas e preços que chegam aos milhares de euros. São o must-have dos must-haves.

Irina Shayk no editorial From Russia With Love, da edição de agosto 2019 da Vogue Portugal, por Branislav Simoncik e Michael Philouze.

T-SHIRT BRANCA

À semelhança de outras peças, como o slip dress, a T-shirt branca tem origem na roupa interior. Na época medieval, surge como uma simples blusa em forma de T, feita de lã, linho ou seda. Atua como camada de proteção, evitando que a pele toque as roupas externas. Durante a Segunda Guerra Mundial, a T-shirt branca de algodão é dada aos soldados para usar debaixo do uniforme e, pouco depois, torna-se um símbolo de rebeldia: quando Marlon Brando, desfiando as convenções da altura, aparece com uma no filme Um Elétrico Chamado Desejo (1951), a white tee passa a ser o supra-sumo do cool e do sexy. Seriam precisas décadas, no entanto, até se tornar num básico unissexo. Símbolo do fast-fashion nos anos de 1990, continuou, ao longo do tempo, a receber elogios por génios da Moda, caso do designer Karl Lagerfeld que, em 1991, trouxe a T-shirt branca para a passerelle, conjugando-a com os requintados casacos em tweed da Chanel. E esta é precisamente a medida do seu sucesso: a T-shirt branca é, afinal, a peça de roupa mais simples e easy going do guarda-roupa, porque é como uma tela em branco onde tudo pode ser expressado. Ou não expressado: é que ela é também a ilustre representante do estilo normcore, que é como quem diz, o espelho do anti-estilo em linguagem de Moda.

Aivita Muze no editorial Guerra e Paz, da edição de outubro 2019 da Vogue Portugal, por Jakov Baricic e Mirey Enverova.

CAMISA BRANCA

O primeiro momento em que a camisa branca ganhou destaque na Moda feminina remonta ao século XVIII, quando Maria Antonieta, ao posar para um retrato, usou uma longa camisa branca de algodão com bordados, o que causou um escândalo na época. A Chemise a la Reine era só mais um dos atos de rebeldia por parte da rainha contra a rígida etiqueta e os rituais infinitos que regulavam a vida na corte francesa; marcava, também, o início de uma pequena revolução dentro do guarda-roupa feminino. O item voltou a ganhar força séculos mais tarde, em 1940, graças a um rol de mulheres influentes, incluindo Katherine Hepburn, Ava Gardner e Marlene Dietrich, que o colocaram no centro das atenções. Na verdade, foi durante as duas décadas seguintes que a camisa branca teve alguns dos seus momentos de cinema mais proeminentes: Roman Holiday (1953) e Key Largo (1948), com Audrey Hepburn e Lauren Bacall, respetivamente. Apesar de inicialmente associada à Moda masculina, a camisa branca soube transformar-se num símbolo de poder e feminilidade. Usada de mil e uma maneiras, passou mil e uma mensagens: Uma Thurman popularizou-a em Pulp Fiction (1994), Angelina Jolie imortalizou-a em Mr and Mrs Smith (2005).

Bette Franke no editorial Family Affairs, da edição de dezembro 2019 da Vogue Portugal, por Frederico Martins e Michele Bagnara.

CAMISOLA DE CAXEMIRA

A caxemira é o derradeiro luxo quando o assunto são camisolas essenciais e intemporais – além de que uma camisola de caxemira é sempre um excelente presente para se oferecer a alguém. Ultra-simples, consegue ser altamente versátil e multiplicar-se em vários estilos, consoante as peças com que a coordenarmos. Ainda assim, nunca deixa de ser elegante. É dos poucos casos em que “mais não é mais” e, no que toca a cores, vale quase tudo, sendo que os tons neutros, mais clássicos — preto, camel, cru, bege, cinza, azul — são uma aposta segura. É contudo importante destacar um tipo de camisola de caxemira particularmente especial (e mais-do-que obrigatório): referimo-nos à sua versão em gola alta, na cor preta. Nenhuma coleção de malhas está completa sem, idealmente, mais do que uma camisola de gola alta preta em caxemira. Estilos mais justos e afunilados adequam-se melhor a outfits em camadas, enquanto cortes mais largos são perfeitos (e aconchegantes) para cobrir leggings, calças ou saias justas. É importante saber que uma boa camisola de caxemira terá, obrigatoriamente, um preço mais elevado, mas é ele que faz com que seja algo para a vida. Last but not least: nunca, mas nunca se coloca uma camisola de caxemira na máquina de lavar. É à mão e com doses de carinho extra que se lava uma peça destas — é o preço do luxo.

Taylor Hill no editorial As Faces de Taylor, da edição de fevereiro 2020 da Vogue Portugal, por Morelli Brothers e Alba Melendo.

LITTLE BLACK DRESS

“O preto é poético. Como é que imaginam um poeta? Num casaco amarelo-vivo? Provavelmente não.” A provocação da designer belga Ann Demeulemeester é elucidativa do poder, e da dimensão, do preto. Mas o preto nem sempre foi o novo preto. Tempos houve em que estava reservado a certas profissões, como as trabalhadoras domésticas, ou a determinados momentos, como o luto. Até 1926, ano em que a Vogue publicou uma ilustração que mudou a história da Moda: nela via-se uma mulher esguia, envergando um vestido preto, de corte direito, com mangas compridas estreitas, adornado por um colar de pérolas. A publicação apelidava-o de "Ford da Chanel” — por outras palavras, era simples, acessível, e destinava-se às mulheres de todas as classes. A Vogue também garantia que este little black dress se tornaria "numa espécie de uniforme para todas as mulheres de bom gosto” — uma previsão assertiva, evidentemente. Mais tarde, Coco Chanel, a criadora por detrás da peça em questão, terá dito: “Eu impus o preto; ainda hoje é forte, já que o preto destrói tudo ao seu redor.” O timing foi perfeito: o vestido acabaria por ser lançado antes da Grande Depressão, onde a elegância se queria despretensiosa e, acima de tudo, descomplicada. Após a Segunda Guerra Mundial, Christian Dior e o seu New Look entram em cena para conferir outro élan à peça. De saia rodada e cintura justa e marcada, o LBD fica mais sexy, e passa a ser o estilo de eleição das estrelas de Hollywood, dentro e fora do grande ecrã. Musas como Elizabeth Taylor, Sophia Loren, Grace Kelly ou Rita Hayworth elevam a peça à condição de mito. O LBD continua, hoje, a ser uma peça obrigatória em qualquer guarda-roupa que se preze: é fácil, versátil, e nunca, mas nunca, desilude.

Originalmente publicado no The Time issue, de dezembro/janeiro 2021-22.