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Marques’Almeida trocam Londres por Paris

Entrevistas 10. 10. 2018

I couldn’t help but wonder

by Irina Chitas

 

O que é que é ainda mais diva do que não precisar de sobrenome? É não precisar de mais que uma sigla. Senhoras e senhoras, a Vogue apresenta: SJP.

© Getty Images

I couldn’t help but wonder. Sempre que ouvimos esta frase, é impossível assimilá-la noutro timbre que não o de Sarah Jessica Parker. Usamo-la em conversas correntes com amigos, em piadas com referências de há 20 anos. Usamo-la com nostalgia, e aplicamo-la às questões existenciais – ou não – que costumamos fazer-nos mais do que é mentalmente saudável. Mas esta frase muda de significado automaticamente quando não a dizemos para dentro, ou para quem nos ouve e se ri porque imediatamente se transporta para um universo perdido, mas quando damos por nós a saber que temos a oportunidade de entrevistar SJP. Wonder. Maravilha. Admiração. Espanto. Assombro. Encanto. Fascinação. Até milagre. Não que seja um milagre entrevistar Parker, e muito menos por email, mas sim, é sempre uma maravilha, um espanto, um assombro. O convite aterra-nos na secretária através da Intimissimi porque Sarah Jessica é o rosto da campanha que promove o novo soutien balconette, sob o mote do verso cantado por Caterina Caselli, Nessuno mi può giudicare (Ninguém me pode julgar). Vemos Parker sair de casa, atravessar passadeiras, passar por táxis – basicamente, tudo o que nas nossas mentes hiperativas imaginámos ser o seu dia a dia – absolutamente fabulosa, num pijama negro de seda que deixa entrever a peça-estrela disto tudo e uns pumps com glitter que deixariam Bradshaw orgulhosa. E a nós também #shoeenvy.

 

"Acho que abriu espaço para conversas mais francas e honestas entre amigas e sublinhou quão essenciais as nossas amizades são."

 

I couldn’t help but wonder: porque é que estás tão entusiasmada por enviar umas perguntas escritas a alguém que está do outro lado do oceano? Porque é a Sarah Jessica Parker. Porque mesmo que sejam poucas, porque mesmo que sejam dispersas e não necessariamente espirituosas, Sarah Jessica Parker vai ler frases que eu escrevi com estes dedinhos que Manolo há-de comer. Porque ela leu as minhas palavras, porque pensou sobre o que eu lhe perguntei, porque me escreveu uma resposta. A mim. Avisaram-me que o deadline era apertado porque a atriz (parece tão simplista chamar-lhe de atriz, não é?) ia partir para férias e na minha cabeça eu só pensava “Ela tem pouco tempo e, ainda assim, vai ler este acumulado de letras que estou a escrever com as mãos a tremer porque estas perguntas podem até passar por 17 assistentes e oito relações‑públicas e 49 agentes, mas no fim vão chegar a ela, e ela vai ler-me, a mim.” Esta não é uma postura que uma jornalista séria deva ter. Mas querido leitor, compreenda que Sarah Jessica Parker mudou a minha vida. “A sério? Só por causa do Sexo e a Cidade?” Também. Mesmo que ela não tenha noção – e não tinham, nenhuma delas, e isto é Parker que diz quando responde (a mim!) que “não poderíamos ter imaginado o impacto, mas estamos gratos de estar associados a uma série a que tantas pessoas se sentiram ligadas”. Ligadas. Ha! Maior eufemismo da história. Mas Sarah elabora, porque reconhece que há 20 anos, o mundo mudou por causa daquele programa “que uniu as mulheres. Acho que abriu espaço para conversas mais francas e honestas entre amigas e sublinhou quão essenciais as nossas amizades são. Também nos mostrou o argumento bonito de que os amigos são a família que escolhemos”.  

I couldn’t help but wonder: mas és assim tão fascinada por ela? Se pensares bem, Sexo e a Cidade era uma série com pouca diversidade, que tratava os assuntos de forma leviana, e a Carrie Bradshaw era uma péssima amiga e uma mulher insegura que abdicava de tudo por um homem que não era assim tão fixe. Bom, amigos. Calma aí. Eu sei que somos a geração #woke e que exigimos que a televisão seja representativa dos profundos problemas da sociedade contemporânea. Mas o Sexo e a Cidade era, de facto, representativo da sociedade contemporânea – de há 20 anos, uma era em que raramente se falava de sexo, em que as personagens femininas eram mais que escassas, em que uma mulher que gostava mais de um pénis do que do homem agarrado a ele foi tratada com respeito e não como uma meretriz. Se Carrie era egoísta, se tinha falhas, se gostava de sapatos? Que atire o primeiro Choo quem nunca quis todo o seu guarda‑roupa – vamos guardar a hipocrisia para quando dissermos que somos vegetarianos mas comemos peixe. A própria Parker admitiu, numa conferência do Wall Street Journal, Future of Everything, que se a série fosse filmada hoje, tinha a certeza que Bradshaw estaria na linha da frente do movimento #MeToo e que lacunas como a falta de mulheres negras e a ausência de conversas substanciais sobre a comunidade LGBTQ não existiriam. Se Sexo e a Cidade fosse gravado hoje, Carrie seria mais Parker e menos Bradshaw. 

 
 

I couldn’t help but wonder: mas o que é que ela tem feito além de alguns filmes de domingo à tarde? Para quem tem estado a sobreviver à base de enlatados num bunker escuro e frio, muita coisa. Já nem falamos da sua linha de sapatos, SJP, mas Divorce, a série da HBO que vai para a terceira temporada, e da qual Parker, além de protagonizar, também é produtora executiva, é gutural, difícil e engraçada, pintada de tantas áreas cinzentas como qualquer divórcio real. Sobre o facto de ter acumulado o cargo de produtora, que lhe dá mais poder mas também muito mais responsabilidade, Sarah diz-nos que considera muito importante trabalhar desta forma porque “liberdade e escolha são dois dos maiores presentes. Sinto-me imensamente sortuda por ter os dois. É isso que desejo para todas as mulheres, em todo o lado” – haverá coisa mais querida? E se pensamos que aceita trabalhar com marcas porque isso a conforta financeiramente, ou porque é fácil, ou porque é confortável sair para a rua de pijama e ser fotografada durante horas a fio, SJP esclarece que o que a faz tremer e saltar do sofá é mesmo “algo novo, desafiante, até mesmo desconfortável é o que acho mais interessante. Fiquei entusiasmada com esta oportunidade porque adorei trabalhar com a equipa da Intimissimi no passado e adorei o conceito da campanha”. Até porque estas imagens não são as da Sarah real, de todos os dias (nem a primeira, onde a vemos a espreitar de um táxi, porque Parker prefere mil vezes o metro, para poder observar as pessoas ou pôr as suas leituras em dia – tenta, inclusivé, marcar todas as suas reuniões longe o suficiente para poder ter tempo de ler no subway –, nem as da campanha). Quando olhamos para fotografias tiradas por paparazzi a Parker no epicentro da sua rotina nova-iorquina, não é raro vermo-la de Uggs. E de socas (com meias). Está constantemente de jeans e camisolas de malha. Com óculos de sol megalómanos. Sem maquilhagem. O que a campanha da Intimissimi nos traz não é a Sarah Jessica a sério, de segunda a sexta, mas a Sarah Jessica que guardámos no nosso imaginário, um híbrido injusto entre a cronista de sexo e a atriz, e talvez seja precisamente por isso que as imagens nos chegam tão perto do coração. Porque sempre imaginámos que Parker acordava assim, perfeita, e não são umas quantas candids que nos vão fazer mudar de ideias. 

 
 
 
 
 
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I couldn’t help but wonder: então achas que ela é perfeita? Não. Acho-a extremamente imperfeita e gosto ainda mais dela por isso. Aliás, ela própria se acha imperfeita, ela própria se sente insegura, mas é tão cool que até isso aceita na boa. “Acho que uma crise de confiança de vez em quando não é assim tão pouco saudável. É bom sentirmo-nos desafiados, nervosos, incertos. Confiança e insegurança podem ser uma combinação fértil”, escreve-nos. É refrescante lê-la, porque mesmo que as respostas sejam curtas e diretas, sentimos que não precisaríamos de floreados para aprender mais. Sarah ensina-nos com cada frase e ainda nos ensina mais pelo exemplo. Existem quase mitos urbanos sobre “o efeito SJP”, uma espécie de energia que se propaga quando Sarah entra numa sala e transmite uma calma, um profissionalismo, uma disponibilidade e uma generosidade incomparáveis. Este mito foi alimentado pelos seus colegas de cena ao longo dos anos (bom, todos exceto Kim Cattrall, mas nem vamos por aí) e não precisamos de ouvir muito para acreditar que esta alegria e magnanimidade na forma como se move pela vida é precisamente a maneira graciosa como deveríamos viver os nossos dias. Sarah Jessica Parker é uma mulher trabalhadora, é mãe e é esposa, e muito ativa na promoção de uma cultura de empoderamento das mulheres à sua volta. Tem noção de que tudo o que faz tem impacto nas mulheres que olham para si à procura de orientação e exemplo? “Nem sempre tenho noção disso”, diz-nos. “Acho que tento fazer escolhas sobre trabalho e esforços na cultura e na filantropia e assuntos de cidadania que se baseiam nas minhas experiências enquanto crescia, nas minhas paixões, na minha crença em responsabilidade pessoal e tentar sempre basear essas escolhas no máximo de conhecimento e informação que consiga, para que possa beneficiar o meu trabalho ou a organização em questão.” 

 
© Getty Images
 

"Adoro trabalhar fora de casa, mas ser mãe é uma alegria que não consigo descrever."

 

I couldn’t help but wonder: que esforços são esses na cultura e na filantropia? Mais sapatos? “Comecei uma rubrica editorial com a Crown/Hogarth. O nosso primeiro livro foi lançado em junho. O romance da Fatima [Farheen Mirza], A Place for Us, foi o nosso título inaugural. É um romance de estreia notável, assombroso e de tirar a respiração. Estamos tão felizes com o seu sucesso, com a estreia na lista de bestsellers do New York Times e tão arrebatados pelo facto de o seu maravilhoso primeiro livro ressoar tão bem com tantos leitores. Vamos publicar quatro livros por ano na categoria de ficção literária.” Yap. Sarah Jessica Parker dá o seu carimbo de aprovação a uma linha de livros de ficção literária numa das editoras mais incríveis do mundo. Porque é privilegiada? Ofereceram-lhe o cargo? Foi fácil? Não. Parker sempre leu, leu muito – já lia livros nos intervalos das gravações dos seus primeiros filmes, aos oito anos – e sempre se sentiu em casa em bibliotecas públicas, onde continua a refugiar-se. Diz que são lugares incríveis para desaparecer – toda a gente está com a cabeça demasiado baixa para reparar nela, e por isso, ali, pode ser a mulher, e não a atriz. A relação mais a sério com os livros começou com um clube de leitura em parceria com a Hogarth, porque numa conversa informal com Molly Stern, Parker se revelou uma bibliófila quase doentia. Dois anos depois, a editora convidou-a a publicar novos autores sob a sua alçada e Sarah educadamente recusou, porque respeitava demasiado o trabalho de um editor para tentar fazer algo parecido. Molly insistiu, e Sarah faz o trabalho de curadoria enquanto deixa o de edição para quem é realmente especialista no assunto. Percebem o que queremos dizer com humildade?  

I couldn’t help but wonder: e no meio de tudo isso, há tempo para respirar? Equilibrar trabalho e vida pessoal “é desafiante. Mas muito mais para mulheres que têm dois ou três empregos e não têm o apoio que eu tenho. Adoro trabalhar fora de casa, mas ser mãe é uma alegria que não consigo descrever. Acho que, para muitas mães, que trabalham em casa ou fora de casa, equilíbrio é aquilo que tentamos sempre atingir mas muitas vezes é ilusório”. Portanto, além disto tudo, Parker tem noção. Sabe que é privilegiada. Sabe que tem mais contactos que as pessoas normais. Sabe que a carreira que conquistou e que o estatuto que mantém lhe abrem as portas. Sabe disso e não tem medo de o admitir. Não são falsas modéstias, é simplesmente reconhecer que tem o que tem porque trabalhou para isso, e que todo esse trabalho lhe traz mais oportunidades de ainda mais trabalho. 

I couldn’t help but wonder: e o amor, onde está? Nada, absolutamente nada disto se faz sem amor. O amor é “gratificante, complicado, surpreendente, reconfortante”. Engraçado, estas eram as mesmas palavras que usaríamos para a descrever. 

 

* Artigo originalmente publicado na edição de setembro de 2018 da Vogue Portugal.  

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