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Tendências 13. 3. 2019

Porque é que precisamos de repensar o conceito de masculinidade

by Beatriz Teixeira

 

 Enquanto as mulheres enfeitavam deliciosas tartes de maçã na cozinha, inventava-se uma fita métrica para medir a masculinidade alheia e dizer aos homens para serem homens, para se fazerem à vida, de mangas arregaçadas, peito erguido e voz autoritária, sempre fortes, nunca frágeis. E foi, mais ou menos assim, que os órgãos sexuais passaram a determinar quem mais chora.

©Unsplash

Faz-te homem. Põe-na no lugar. Mostra-lhe como é que é. Cerra-lhe os punhos, se for preciso. Mantém os olhos no prémio. És um homem ou um rato? Não sejas submisso. Não és homem suficiente. Isso é coisa de mulher. Não sejas submisso. Ela estava a pedi-las, não achas? Não tens tomates. És tão efeminado. Não vais começar a chorar, pois não? São 14 frases espinhosas que nos habituámos a ouvir, de pequeninos, mas podiam ser muitas mais. Foram e são ditas a meninos e homens e quem as profere são outros meninos e homens, mas também meninas e mulheres, pessoas no geral, porque ninguém é imune a esta forma de pensar tão antiga, tão Estado Novo, que nos ensinou que homem que é homem é homem a sério e tem características de homem, de ser dominante, superior, forte, senhor de si próprio, imbatível, tão capaz de tudo. Menos de deitar uma lágrima, que seria. Está enraizado, ponto. E é regado de geração em geração, na mesma medida em que o foi, durante tanto tempo para o outro lado da barricada: mulher que é mulher é mulher de respeito e tem características de mulher, de ser dominado, inferior, delicado, recatado, comedido e limitado aos cuidados do lar. Ah, que sufoco lembrar. Não que essa luta das mulheres tenha terminado, ela ainda é travada todos os dias, aqui e em tantos lugares do mundo, mas ela existe, leva uma espécie de avanço (uma consequência justa de tanto tempo de desvantagem feminina), e faz existir outras lutas também. Como a que se começou a travar pelos meninos e homens que escutam frases espinhosas. Foi como se uma coisa levasse à outra, porque lutar pelos direitos das mulheres é lutar também pelos direitos de todos, é lutar por igualdade. Afinal, que espécie de ilusão seria o feminismo se fosse compatível com noções de masculinidade tóxica que reprimem as vontades dos meninos e dos homens, instruindo-os a ser soldados antes de serem pessoas?

Há quase três anos, em mais um Dia Internacional da Mulher, Karin Wall, socióloga, investigadora do Instituto de Ciências Sociais e Humanas e então coordenadora de um estudo sobre igualdade de género levado a cabo entre 2014 e 2016, aproveitava o 8 de março para apresentar o Livro Branco – Homens e Igualdade de Género em Portugal. Não a interpretem mal, Wall não quis roubar o protagonismo às mulheres nesse dia que é delas, mas justamente mostrar que o papel dos homens e das mulheres estava a querer mudar em paralelo, de mãos dadas. As provas foram reunidas nesse Livro Branco e, nas folhas dedicadas a conclusões, diz-se, por exemplo, que os homens não só passaram a ser mais participativos no trabalho doméstico independentemente da idade, como também a ter uma perceção mais justa da divisão a ser feita nesse sentido, e entre outras coisas, a usufruir mais do seu direito de licença parental, mesmo que as empresas nem sempre sejam compreensivas – porque a masculinidade também pode ser cuidadora. À revista Visão, Karin Wall dizia na altura: “Neste momento, para fazermos avançar a igualdade de género, temos de olhar para ela do ponto de vista de mulheres e homens. Porque ambos podem beneficiar dela.”

“Os homens também são alvo de pressões com base em estereótipos de género, basta pensarmos nas questões das emoções, da parentalidade, da homofobia”

Regressamos a 2019 e Paula Cosme Pinto é da mesma opinião. “A luta começa precisamente porque as mulheres querem quebrar esse ciclo de dependência, submissão, desrespeito e desvalorização das suas múltiplas dimensões enquanto seres humanos (...), contudo, com o tempo, percebeu-se que não basta alterar o ciclo no que toca às mulheres, é preciso também quebrar o que afeta os homens, e que na realidade condiciona a interação de todos”, diz à Vogue. Autora das crónicas sobre igualdade de género A Vida de Saltos Altos, para ler no site do jornal Expresso, e “feminista sem papas na língua”, Paula tem usado a voz (e a escrita) para dizer ao mundo coisas tão necessárias como “não pode existir espaço para justiça machista em Portugal”, “não tem piada um rapaz ser abusado por uma mulher em troca de comida” e “finalmente uma lei portuguesa pela igualdade salarial entre homens e mulheres”. Não há cá guerra dos sexos, nem boys will be boys. Porque, diz-nos a nós, “os homens também são alvo de pressões com base em estereótipos de género, basta pensarmos nas questões das emoções, da parentalidade, da homofobia” e não, “os homens não são violentos por natureza, não são bullies
 à nascença, nem muito menos reduzidos em emoções porque o seu cérebro simplesmente funciona assim”. Mas, então, porque é que há quem continue a pensar assim? E, pior, porque é que há quem se revolte tanto com um objeto tão utilitário quanto uma lâmina de barbear, depois de uma marca como a Gillette mudar o seu slogan com 30 anos e meter o dedo nas feridas: bullying, violência, assédio sexual, #MeToo e masculinidade tóxica? A Axe já tinha feito algo parecido em 2017 quando encerrou o capítulo de campanhas publicitárias que promoviam a imagem de homem Don Juan conquistador de mulheres só pelo cheiro do desodorizante e lançou uma campanha promotora de debates que juntou homens a fazer perguntas como “é aceitável ser-se virgem?”, “é aceitável não gostar de desporto?”, “é aceitável vestir cor-de-rosa?” ou “é aceitável ter experiências com homens?”.

Ainda bem que o marketing está a fazer a sua parte, mas é preciso que a Educação também faça a sua. Ângelo Fernandes, fundador da Quebrar o Silêncio, a primeira associação portuguesa de apoio a homens vítimas de abuso sexual, fala na necessidade de reeducação, de promover diálogos, de questionar aquilo que damos como certo, porque “os homens e rapazes continuam a ser educados de acordo com um conjunto de valores e normas que estão enraizadas na sociedade e, como não existe reflexão sobre essa educação, observa-se uma reprodução de determinados valores”. E lá vão os moralismos e os comportamentos tóxicos passando de geração em geração, sem que pensemos muito nisso, sem que sequer nos demos conta disso. “Os pais e as mães educam os seus filhos e filhas de acordo com os modelos que tiveram, por vezes sem os questionar, reproduzindo algumas ideias estereotipadas. Por isso reforço que é fundamental haver um debate continuado sobre os modelos de educação e conversarmos sobre os resultados desses mesmos modelos”, defende. Mas também é preciso que esse debate seja construtivo, produtivo, muito mais do que uma campanha publicitária de que toda a gente fala durante alguns
dias. “É importante que estes momentos sejam educativos e que o cuidado de informar as pessoas seja o centro. Se por um lado é importante haver uma conversa sobre masculinidades, igualdade ou sobre o próprio papel do homem, por outro tem de haver um cuidado para que esse debate informe e eduque e não se torne um incêndio viral que alastra descontroladamente pelas redes sociais.”

“Os homens e rapazes continuam a ser educados de acordo com um conjunto de valores e normas que estão enraizadas na sociedade e, como não existe reflexão sobre essa educação, observa-se uma reprodução de determinados valores."

Pausa para pôr pontos nos is. Não há nada errado com a masculinidade. Na verdade, masculinidade não é um daqueles conceitos universais, restritos e inquestionáveis. É qualquer coisa plural, podia dizer-se masculinidades, mesmo que tantas vezes nos pareça tão óbvia e indiscutível essa coisa que é ser homem (até o Priberam escolhe defini-la como “varão”, “caráter másculo”, “virilidade” e aponta “machão” como palavra relacionada). Como diz Ângelo, não há uma fórmula única e cada pessoa pode ter a sua própria definição e, por isso mesmo, “é preciso ter presente que ninguém quer destruir a masculinidade”, mas sim debater “a existência de atitudes e valores tóxicos que são vinculados em determinadas formas de educar os rapazes” e a “forma como certos comportamentos violentos e agressivos são socialmente aceites nos rapazes e até valorizados”. Na mesma medida em que se desvalorizam comportamentos inversos, tantas vezes confundidos com passividade e fraqueza. Fizeram-no muitas vezes com Rui, jornalista de 22 anos. “Já senti e às vezes sinto que tenho de me retrair para manter uma certa sobriedade, porque apesar de todos dizerem ‘é tranquilo’, consegues perceber pelos olhares ou por algumas ações que és condenado por não aparentares ser um homem viril.” Na adolescência, ouviu muitas vezes expressões como “homem
 que é homem não chora” e “faz-te homem!”. Magoavam-no, mas hoje já não tanto e prefere desvalorizá-las, até porque tem consciência de que a masculinidade é também qualquer coisa pessoal. “Definir masculinidade é uma coisa tão difícil, é um daqueles conceitos que não estão bem definidos hoje em dia, mas, para mim, masculinidade tem de passar pelo respeito por ti e pelos outros e por te manteres fiel a ti mesmo, no matter what.”

Masculinidade. Palavras relacionadas: tóxico? Já que estamos numa de vasculhar definições e enciclopédias, não deixa de ser curioso que, em 2018, “tóxico” tenha sido eleita a palavra do ano pelos dicionários britânicos Oxford. E não deixa de ser ainda mais curioso que tenha estado para ser “masculinidade tóxica”, mas pareceu ao comité que tomou a decisão que só “tóxico” seria mais abrangente, até porque a palavra foi aplicada a um sem-fim de cenários, lá está, tóxicos. Ainda vamos a tempo de a substituir por “empatia”? Paula Cosme Pinto tem sugestões nesse sentido: “Calçarmos os sapatos dos outros é algo que devemos fazer no geral, seja nas questões de género, como nas raciais, de orientação sexual, económicas. A capacidade de empatia e de indignação com situações que não nos prejudicam a nós diretamente, de estarmos abertos para ouvir o outro na sua realidade e de aceitarmos a sua verdade, tal como questionarmos o que nos rodeia, é essencial para que o mundo avance numa direção mais igualitária.” Fazemos assim, eu calço os teus sapatos e tu calças os meus e depois trocamos com quem vier e debatemos todos, questionamos o porquê de ser assim, o porquê de esses sapatos apertarem tanto nos joanetes, e vemos o que se pode mudar para não magoarem mais. Não dizem que juntos somos mais fortes? Na mesma lógica, até fomos nós, todos juntos, que ajudámos a fazer crescer todas essas formas de pensar tóxicas.

Masculinidade não é um daqueles conceitos universais, restritos e inquestionáveis. É qualquer coisa plural, podia dizer-se masculinidades, mesmo que tantas vezes nos pareça tão óbvia e indiscutível essa coisa que é ser homem.

Até fomos nós, todos juntos, que fizemos com que fosse normal, aceitável, que seja a mãe a tratar das lides domésticas e o pai a ir buscar o carro à oficina. Até fomos nós, todos juntos, que fizemos com que fosse normal, aceitável, que ela vá para cabeleireira e ele para engenheiro. Até fomos nós, todos juntos, que fizemos com que fosse normal, aceitável, rir às gargalhadas com uma boa piada sexista. Até fomos nós, todos juntos, que fizemos com que fosse normal, aceitável, dizer a um homem que ele até pode chorar, mas não sempre, e oxalá esteja sozinho, senão pode ser humilhante. Até fomos nós, todos juntos, que fizemos com que fosse normal, aceitável, humilhar, rebaixar, maltratar e espancar todos os homens, ou mulheres, que não pensem como nós. É, soa assustador pensar assim. Soa assustador pensar que fomos nós próprios que nos metemos nesta embrulhada. E que desconfortável é pensar que, de repente, podemos ir todos parar ao mesmo saco, àquele onde estão outros que são verdadeiros opressores, abusadores, agressores e pseudossuperiores. Talvez isso ajude a responder à pergunta de umas linhas atrás e a explicar a reação de tantos homens ao tal anúncio da Gillette, que só no YouTube já acumulou mais de 29 milhões de visualizações e 410 mil comentários até à data, tantos deles resumíveis a “nunca 
mais compro Gillette”. No Twitter, o jornalista britânico Piers Morgan apressou-se a fazer o mesmo, ameaçou deitar as lâminas fora e terminou com um “let boys be damn boys” e Ezra Levant, comentador político canadiano, preferiu desvalorizar o trabalho de Kim Gehrig escrevendo que “um anúncio de barbear escrito por uma feminista de cabelo cor-de-rosa é quase tão eficaz como um anúncio de pensos higiénicos escrito por um homem de meia idade” – um tweet que recebeu aplausos virtuais não só de homens, mas também de mulheres, e gerou comentários como
“é uma afronta a todos nós que lutamos para ser bons pais, filhos, orientadores e mentores” e “este anúncio irrita-me mais do que tudo. Não só vou boicotar, como vou também humilhar todos os meus amigos que comprem Gillette”. Ora, se não é ela, a masculinidade à la Priberam (palavras relacionadas: bullying?).

Não desanimemos. O feminismo também não encontrou (nem encontra) sempre aliados e a luta já tão antiga das mulheres, ainda hoje é luta. Tantas vezes contra outras mulheres também. As lutas às vezes levam-nos o tempo todo, demoram, há perdas e depois ganhos e depois perdas de novo, e exigem muito mais corpo do que aquele que temos ao início. Mas se é verdade que nos metemos nisto juntos, também é verdade que é juntos, tão juntos, que vamos sair. Não só como homens e mulheres, como pessoas. Como iguais.

Artigo originalmente publicado na edição de março 2019 da Vogue Portugal.

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