Moda   Tendências  

Add to bag? Maybe not!

16 Jun 2020
By Ana Murcho

É o pesadelo de qualquer shopaholic: lojas fechadas, gabinetes de provas interditos, montras tapadas. Novas coleções? Nem vê-las. O novo coronavírus criou uma realidade, ainda que provisória, onde a Moda só existe num universo virtual

É o pesadelo de qualquer shopaholic: lojas fechadas, gabinetes de provas interditos, montras tapadas. Novas coleções? Nem vê-las. O novo coronavírus criou uma realidade, ainda que provisória, onde a Moda só existe num universo virtual. Casacos, vestidos, kimonos, ankle boots, carteiras de píton que já não deviam ser produzidas, camisolas de caxemira, you want it, you name it – está tudo catalogado num éter cibernético, vedado a contacto físico. Até que ponto é que isso tem impacto no ato de comprar, que vive tanto do impulso como do desejo e, em última instância, do toque? Foi, tanto quanto me lembro, o meu maior pecado de toda a quarentena. Horas depois do Presidente da República decidir que Portugal entrava em estado de emergência, a minha principal preocupação nada tinha que ver com saúde pública. O país entrava em modo SOS, o mundo caminhava para o abismo, mas durante a madrugada daquele 19 de março, a minha cabeça estava totalmente focada nuns Mary Jane rasos que, anos antes, tinha visto na passerelle da Miu Miu e que, de repente, me apareciam à frente como duas pombas brancas num site de vendas em segunda mão. Se aquilo não era o meu anjinho da guarda a soletrar-me ao ouvido “É agora ou nunca”, então não sei o que era. De acordo com a lei das probabilidades, eles jamais me poderiam vir parar às mãos, assim, totalmente novos, e com um preço tão bom – tanto tempo volvido desde o seu lançamento, tantos likes passados, tanta influencer, com mais poder de compra do que eu, depois. E, no entanto, eis-me, duas e meia da manhã de uma quinta-feira em tudo atípica, que ficará na História por ser a primeira vez na nossa democracia que se impedia a população de sair à rua, e eu obcecada com um vergonhoso desejo de consumo. “Comprei uns sapatos dourados com lantejoulas da Miu Miu”, disse à minha mãe na manhã seguinte, a culpa a atravessar-me de um lado ao outro. “Fizeste bem!”, respondeu-me. “Quando chegam?”. Chegaram cinco dias depois. Mas a culpa, esse sentimento tão luso, não desapareceu. Até ao desconfinamento oficial, só voltei a comprar bens essenciais e livros. Que, tenho para mim, estão na mesma categoria. Será que fui a única? “Nestas últimas semanas, as minhas compras basearam-se em produtos ou peças de vestuário que ‘precisava’ e que estavam com preços apetecíveis: encomendei uns quantos cuidados de rosto e corpo, aproveitei os saldos da Nike para dar um update ao meu workout gear, comprei uma prenda de aniversário para o meu irmão (atrás veio uma sweatshirt para mim, guilty) e umas calças de fato de treino. Confesso que uma parte de mim sentiu alguma culpa por andar a fazer compras nesta altura, por uma série de razões – e, por isso mesmo, tentei minimizar ao máximo os swipes do cartão.” Mónica Bozinoski, jornalista da Vogue, partilha claramente do mesmo sentimento de culpabilidade. As compras, por estes dias, parecem tanto uma transgressão como uma futilidade. Isso acaba por pesar no momento do “add to bag”, que fica adiado até a palavra “pandemia” não ser mais do que uma memória do passado. “Aquilo que tive mais vontade de comprar foram, sem dúvida, livros. Acabei por me concentrar naqueles que estão na prateleira e acrescentar apenas uma novidade, Three Women, de Lisa Taddeo – mas a minha lista de livros to read nunca esteve tão longa como agora. No que toca a roupa, e apesar de ter namorado uns sapatos By Far e uma camisola Marine Serre, ambos com um price tag incrível, o meu desejo foi completamente canalizado para fatos de treino, sweatshirts e t-shirts – essencialmente, roupa mais prática e confortável, em particular de marcas über cool como Pangaia e Sporty & Rich. Acabou por ficar tudo no carrinho de compras imaginário, à espera de dias menos incertos.” E se essa “roupa prática e confortável” se vendeu, por estas semanas, que nem pãezinhos quentes – o boom do athleisure não é recente, esta quarentena apenas o reforçou – outros itens conheceram semelhante procura, como produtos de beleza (elásticos de cabelo em particular), ténis e lingerie. Na impossibilidade de vender as coleções primavera/verão no calendário programado, as promoções e os saldos antecipados foram uma forma de atrair os consumidores mais reticentes que, impedidos de sair de casa, precisavam de razões para aumentar o guarda-roupa.       Ver esta publicação no Instagram Uma publicação partilhada por Fanny Moizant (@fannymoizant) a 10 de Dez, 2018 às 3:23 PST   O Vestiaire Collective é um dos mais conhecidos, e respeitados, sites de venda de produtos de luxo vintage e em segunda mão. A sua fundadora, Fanny Moizant, falou com a Vogue sobre o impacto da crise do novo coronavírus no dia a dia, e nos negócios, da empresa. Com escritórios em Paris, Nova Iorque, Milão e Hong Kong, a reação imediata às primeiras medidas de confinamento e segurança foi primordial para garantir a sobrevivência durante estes meses. “De forma a apoiar os nossos clientes durante o lockdown, estendemos o serviço de direct shipping a todos os itens abaixo de € 500 para permitir que vendedores e compradores se envolvessem diretamente uns com os outros, e também trabalhámos com os nossos fornecedores de logística para permitir que os vendedores conseguissem aceder a pick-ups domésticas para não terem de sair de casa. Em termos de comunicação, compartilhámos atualizações regulares no site e através de newsletters.” A comunicação.    "As redes sociais provaram ser canais de comunicação particularmente importantes para nós durante este período." Fanny Moizant Em tempos de pandemia, a comunicação foi a arma mais eficaz para as empresas que viram os seus negócios reduzidos ao comércio online, e pouco mais. Nesse sentido, as redes sociais podem ter tido um papel determinante no destino de muitas marcas, que se socorreram desse meio para vender produtos, mas não só. “As redes sociais provaram ser canais de comunicação particularmente importantes para nós durante este período. Perguntámos aos nossos seguidores o que gostariam que compartilhássemos durante o bloqueio. Foi muito bom ver que muita gente respondeu que queria ver as pessoas que estão por detrás da empresa. Por isso, lançámos a iniciativa Home-made by Vestiaire, onde partilhámos posts dos nossos funcionários, e tivemos um feedback tão bom entre os nossos seguidores que acho que isso ajudou a aproximar ainda mais a nossa comunidade.” Este ponto é particularmente interessante, porque nem todas as marcas conseguiram entender o mindset a adotar durante a quarentena. Em sua defesa, não era fácil passar do post diário, pré-programado, alusivo à coleção X ou à novidade Y, e respetivo link para ‘add to bag.’ No entanto, existiu uma clivagem clara entre as que compreenderam a mudança necessária, e que se souberam adaptar aos novos tempos, e as que continuaram a prolongar um estado de dormência até muito além do que seria de esperar. Isso, provavelmente, ter-se-á refletido nas vendas. Mas, lá está, os dados finais a Deus pertencem. A Vogue pediu à Inditex, que detém marcas como a Zara, a Massimo Dutti, a Pull & Bear ou a Bershka, para comentar o seu plano de ação durante as semanas de confinamento, mas foi-nos dito que seria impossível responder a quaisquer questões relacionadas com os efeitos do novo coronavírus devido à mudança diária de procedimentos e decisões. A mesma resposta foi dada pelo gigante alemão Mytheresa, um site de ecommerce que reúne alguns dos mais conhecidos nomes do mercado do luxo, escusando-se que o artigo saíria “demasiado próximo da crise do coronavírus e, como tal, não poderiam dar quaisquer afirmações sobre o assunto.” O site Business Of Fashion escrevia, no início de abril, que apesar das vendas de todos os tipos de produtos terem conhecido baixas históricas, um dos setores mais afetados seria, sem sombra de dúvidas, o da fast fashion, muito pelo excedente de peças que, por esta altura, fica acumulado em armazéns. E se é certo que muitos millennials continuam a comprar, garantia a plataforma, nem o mercado do luxo escapou às quebras, com lojas fechadas um pouco por todo o mundo: a Chanel, por exemplo, apenas vende perfumes e cosmética online; a Louis Vuitton e a Hermès disponibilizam uma gama muito reduzida nas suas lojas virtuais. As previsões apontam para uma quebra das vendas na ordem dos 30% e 40% no setor do luxo. É como se o fantasma de 2008 estivesse de volta. O facto de as lojas estarem fechadas por tanto tempo faz com que as pessoas se virem para o online e coloca questões sobre o futuro do comércio tal como o conhecemos. "Se existe indústria capaz de se adaptar, acho que é a indústria da Moda, porque somos uma indústria de contadores de histórias." Stephanie Phair De que forma é que a Moda se deve reinventar para atender a estas novas necessidades? Será que passamos a comprar cada vez mais através dos nossos telemóveis? Na primeira edição das Vogue Global Conversations, Stephanie Phair, CCO da Farfetch e membro do British Fashion Council, apontou parte do caminho a seguir: “Acho que há desenvolvimentos enormes na tecnologia que te podem fazer sentir a roupa, mas online. Não vai ser um ou outro. Acho que estamos a ir em direção a uma união, ainda mais próxima, entre o online e o offline, onde o cliente vai estar no centro e vai poder experimentar a Moda nestes dois ambientes.” Phair idealizava um cenário no futuro onde um cliente pode entrar numa loja para experimentar uma peça e depois conclui a compra mais tarde através do digital, criando uma abordagem mais omnipresente para as marcas e lojas. E acrescentava: “Acho que as marcas vão querer controlar os seus produtos. Acho que as marcas se vão querer afastar de algo que não é controlado e apoiar-se em modelos de concessão onde podem controlar o seu produto, quer a nível online quer o offline, e consequentemente investir no seu próprio comércio online. Mas como em tudo, isto é tudo uma questão de equilíbrio. Não se trata apenas de vender, mas sim de criar contacto humano. Se existe indústria capaz de se adaptar, acho que é a indústria da Moda, porque somos uma indústria de contadores de histórias.” Histórias. Este período está cheio delas. Todas são válidas. Todas são memoráveis. Joana Moreira, editora de Beleza da Vogue, conta-nos a sua: “Sou bastante consciente e ponderada nas compras que faço, e nesta altura não foi diferente. Já tinha planeado comprar uns slingback básicos pretos, e mantive a compra, acabei foi por escolher uma marca independente e por comprar diretamente à marca, evitando intermediários. E, na beleza, há muito que tinha em vista um gua sha, por isso decidi aproveitar esta altura em que estamos em casa (e com mais tempo para o self care) para o fazer. Uma vez mais, comprei diretamente à marca, também ela uma marca independente e portuguesa. Acredito cada vez mais que qualquer compra é um ato político e este tempo é, para mim, exemplo disso mesmo.” "Há sinais de que os consumidores se estão a tornar mais orientados para o valor, com um foco maior na sustentabilidade." Fanny Moizant Fanny Moizant garante-nos que sentiu “uma mudança em direção a preços e marcas mais acessíveis”. O cliente-tipo do Vestiaire Collective “tem entre 25 e 40 anos, portanto, a geração do milénio representa uma porção significativa. Vimos um aumento de 20% nos pedidos em abril, em comparação com a média anterior, relativa a fevereiro. Ao mesmo tempo, no entanto, também vimos um aumento de 33% nos depósitos no mesmo período, portanto, é possível que o nossos clientes estejam a ser mais conscientes e a vender as suas peças antigas para financiar novas compras.” Por isso, acredita que a pandemia mudará “atitudes e valores em relação ao consumo.” E isso sim pode ser um sinal de evolução positiva. “Há sinais de que os consumidores se estão a tornar mais orientados para o valor, com um foco maior na sustentabilidade, e estão mais propensos a procurar produtos com alta longevidade. [...] Esperamos que isso aumente ainda mais o interesse no mercado de produtos usados e vintage. Na verdade, na semana passada, tivemos o maior dia de vendas de todos os tempos, enquanto as vendas na Europa estão atualmente 20% acima dos níveis anteriores à COVID-19.” Moral da história: todos os pecados serão desculpados se forem cometidos com a sustentabilidade, ou o upcycling, em mente. Texto original na edição Happy Together da Vogue Portugal, publicada em maio 2020.

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