Atualidade  

Gloria Steinem, ícone feminista e ativista, morre aos 92 anos

03 Sep 2026
By Anna Cafolla

Fotografia: Barbara Alper/Getty Images

Gloria Steinem, jornalista, autora, ativista e feminista, morreu aos 92 anos. De acordo com um comunicado da sua fundação, Steinem “morreu pacificamente na sua casa em Nova Iorque, rodeada por algumas das muitas pessoas que a amavam”, no dia 2 de setembro. A causa da morte ainda não foi confirmada.

“Os quase 100 anos de vida de Gloria na Terra foram anos bem vividos, e ela continuou a lutar pela igualdade até ao fim”, prosseguiu o comunicado, partilhado no seu Instagram. “O maior dom de Gloria era a sua capacidade de ouvir os outros, de fazer com que se sentissem vistos e ouvidos. As suas palavras, ações e exemplo deram às pessoas a liberdade de serem elas próprias. Gloria viveu fiel ao seu espírito independente, sempre com curiosidade e um grande sentido de humor”.

A declaração também referiu que, nos últimos anos, Steinem se tinha dedicado à comunidade e à escrita, “as duas coisas que mais amava”. Continuou a organizar os seus círculos de conversa — uma prática ancestral e um método fundamental para a organização de base e os movimentos sociais — na sua casa, “uma tradição que, segundo ela, irá continuar muito depois de ela já não estar entre nós”. Os presentes no funeral foram convidados a acender velas num “círculo comunitário global e celestial” e, em vez de enviar flores, a fazer um donativo à fundação de Steinem.

“Já vivo há mais de cinquenta anos nesta casa, em quartos que testemunharam vidas anteriores à minha e que conhecerão outras depois de eu partir”, escreveu a própria Steinem nas suas memórias, a serem publicadas este mês, intituladas An Unexpected Life.

Steinem é reconhecida por ter dado início e unificado o feminismo da segunda vaga, o movimento pelos direitos das mulheres que se desenvolveu nas décadas de 1960 e 1970 e que mudou para sempre a forma como o poder político, social e económico das mulheres era entendido e discutido no mundo ocidental. “A mudança é como uma casa”, disse Steinem uma vez, “não se pode construí-la de cima para baixo, mas apenas de baixo para cima. Qualquer pequena mudança que fizermos será como uma pedrinha num lago; terá repercussões que se espalharão para fora”.

Steinem em 1966.
Getty Images

Gloria Steinem nasceu a 25 de março de 1934 em Toledo, Ohio. Os seus pais divorciaram-se quando ela ainda era jovem, deixando Steinem a cargo dos cuidados da sua mãe, que sofria de problemas mentais. Depois de terminar o ensino secundário, frequentou a Smith College, onde estudou ciências políticas. Iniciou a sua carreira profissional em Nova Iorque como jornalista, acabando por se tornar uma das editoras fundadoras da revista New York em 1968. Em 1971, foi cofundadora da revista Ms, inicialmente como um encarte da New York, antes de esta se tornar uma publicação independente. Permaneceu na equipa editorial durante os 15 anos seguintes, transformando o panorama mediático com a sua postura progressista a favor do direito à escolha e denunciando injustiças em torno de questões como a violência doméstica, a discriminação no local de trabalho e a violação por conhecidos. A publicação cresceu sob a sua liderança e passou a abranger um leque mais diversificado de vozes, contando com a participação de figuras como Maya Angelou, Angela Davis e Alice Walker. Ao longo dos anos, Steinem escreveu para vários meios de comunicação e tornou-se uma autora de best-sellers, tendo publicado um livro de memórias, My Life on the Road, em 2015.

Um momento marcante, que definiu a cultura pop, ocorreu em 1963, quando se infiltrou como coelhinha da Playboy para fazer uma reportagem de denúncia sobre as más condições de trabalho das empregadas de mesa nos clubes Playboy de Hugh Hefner. Steinem também escreveu para a Vogue, incluindo uma reportagem sobre o Black and White Ball de Truman Capote, em 1967.

Ao longo da sua carreira jornalística, Steinem manteve-se ativa na política e no ativismo, tendo fundado o National Women’s Political Caucus com as congressistas Bella Abzug e Shirley Chisholm e a feminista Betty Friedan, em 1972. Steinem foi responsável pela criação do Dia de Levar as Nossas Filhas para o Trabalho e cofundou o Women’s Media Center em 2004.

Através de todos os seus esforços, Steinem via-se a desempenhar um papel inspirador. “Não vou abdicar da minha tocha”, disse ela quando lhe perguntaram quem iria dar continuidade ao seu legado, “mas vou usá-la para acender as tochas dos outros, porque se cada um de nós tiver uma tocha, haverá muito mais luz”.

Seja nas linhas de protesto ou no pódio, Steinem era uma figura marcante, com o seu cabelo loiro com madeixas, penteado com risca ao meio e alisado, calças de ganga azuis largas ou minissaias de camurça e botas, e os seus característicos óculos de sol aviador oversized com lentes degradadas. “No passado, a moda significava conformar-se e perder-se a si próprio”, afirmou. “A Moda no presente significa ser único e encontrar-se a si próprio”. Para Steinem, a Moda foi e continuou a ser uma ferramenta de rebelião e autoexpressão.

Getty Images

Steinem recebeu um diagnóstico de cancro da mama aos 52 anos, que foi detetado numa fase inicial e tratado. Ao longo da sua vida, recebeu inúmeros reconhecimentos, incluindo a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2013, entregue pelo ex-presidente Barack Obama, e o Prémio pelo Conjunto da Obra em Jornalismo, atribuído pela Sociedade de Jornalistas Profissionais. A sua vida foi também várias vezes adaptada para o ecrã, incluindo a minissérie da FX Mrs. America.

O seu próximo livro de memórias, An Unexpected Life, tem lançamento previsto para 22 de setembro e explora momentos pessoais decisivos, desde a infância até à velhice, as pioneiras que a inspiraram e as lições de vida duradouras que fizeram dela uma mulher tão visionária.

O legado extraordinário de Steinem perdura na Fundação Gloria, uma organização sem fins lucrativos que continuará a preservar a casa de três andares de Steinem, um edifício de pedra castanha no Upper East Side, bem como os seus arquivos, como um centro de mobilização feminista.

Getty Images

Traduzido do original, disponível aqui

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