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Tendências 11. 10. 2019

Nem tudo o que reluz é glitter

by Joana Moreira

 

O brilho, as cores, os reflexos e a magia do glitter têm um custo ambiental. Este é o seu impacto. E estas são as alternativas.

Maquilhagem do desfile outono/inverno 18 de Preen © Imaxtree.

O que é que poderia levar a marca popular do mundo a, de repente, ter um Instagram cheio de comentários negativos? Resposta: lançar, em pleno 2019, um produto com glitter sem que este fosse biodegradável. Quando, em março a Glossier lançou o Glitter Gelée, a polémica não tardou. Quando o público-alvo de uma marca é uma geração cada vez mais consciente do seu impacto no planeta, seria de esperar este desenrolar de acontecimentos. O feed perfeito e millennial pink da marca norte-americana ficou apinhado de comentários de consumidores reclamando o custo ambiental do glitter e censurando a empresa por se atrever a lançar um produto que nada tinha de sustentável. Meses depois, a poeira assentou, mas ainda é raro encontrar no Instagram um post da marca sobre o produto em causa sem que algum utilizador não comente sobre a degradação (ou, neste caso, a não degradação) do mesmo. A resposta é, normalmente, a seguinte: “Estamos a trabalhar ativamente em reformular o Glitter Gelée com bio glitter”. 

Mas, afinal, qual é o problema com o glitter?

As hipnotizantes partículas brilhantes que compõem o glitter são feitas de nada mais nada menos do que plástico. Na verdade, o seu tamanho é tão mínimo que são consideradas microplásticos (uma vez que têm menos de cinco milímetros de comprimento). O problema é que, atualmente, não há qualquer gestão de microplásticos, como explica Susana Fonseca, da direção da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável. “Quando estamos a falar de microplásticos estamos a falar de plástico com uma dimensão muito reduzida, que pode ir desde a dimensão que nós não vemos, que o nosso olho não consegue alcançar, ao glitter, ou aqueles produtos usados para esfoliar, por exemplo, que nós conseguimos sentir que estão lá embora sejam minúsculos. Mas não há, neste momento, forma de travar este tipo de microplásticos nas estações de tratamento de águas residuais”, conta à Vogue.

Quer isto dizer que, quando lavamos o rosto com aquela sombra incrível de glitter, as partículas não conseguem ser filtradas no sistema de tratamento de esgotos e acabam nos rios, lagos e oceanos. “Nós temos problemas com cotonetes, com várias coisas nas estações de tratamento de águas residuais, e os microplásticos são também um problema, precisamente por causa disso, porque não há barreiras simples para os apanhar porque são muito pequenos. Uma estação de tratamento de esgotos não está pensada para fazer barreira a algo tão pequeno”. 

A representante da ONG portuguesa explica, no entanto, que o impacto do glitter pode ir muito além da poluição da água: “São substâncias que, ao serem ingeridas, por exemplo, no caso das espécies marinhas, podem ir acumulando e, se tiverem substâncias que podem ser perigosas, o que pode acontecer é entrar na cadeia alimentar e quando chegam a nós podem ter um impacto. É um poluente que neste momento não temos informação total do impacto que pode ter”. Canalizar estes fragmentos para os terrenos também não é solução: “mesmo que haja alguma capacidade de alguns microplásticos ficarem nas lamas, por exemplo, e passarem a não estar na água, as lamas são muitas vezes usadas e aproveitadas para agricultura. E depois voltamos a ter microplásticos no terreno”, explica. 

Olhando para a big picture, o glitter está muito longe de ser a única fonte de poluição com microplásticos. Pode, no entanto, ser um ponto de partida na consciencialização do cidadão comum. “Sabemos que há muitos microplásticos, e muitas fontes de microplásticos, a maquilhagem e cosmética não é a única, a microfibra dos têxteis, os próprios pneus libertam microplásticos e há inúmeras áreas onde há esta produção de microplástico. A questão da cosmética é que, quando eu uso um pneu, no carro, a libertação não é intencional e a sua existência não é intencional. No caso da cosmética, às vezes é. Estamos a falar de algo que é adicionado para dar uma determinada característica, como é o caso do glitter, que é para dar cor e brilho. Esse brilho é dado essencialmente por esse plástico, essas partículas”, remata.

Reciclar? Nem pensar 

E se em vez de o deixarmos escorrer pelo ralo da banheira, colocássemos o glitter no lixo? Se é plástico pode decerto ser colocado no ecoponto amarelo e ser reciclado, não? A analogia pode parecer correta em primeira instância, mas Susana Fonseca desmantela de imediato esta teoria que, certamente, ajudaria a nossa consciência. “Reciclável nunca [poderá ser]. Para [algo] ser reciclado, tem de ter uma massa interessante para permitir a reciclagem. Uma embalagem de batatas fritas dificilmente vai ser reciclada, porque não tem material suficiente que justifique. O problema na reciclagem é que, na maioria dos casos, não se podem misturar coisas que são diferentes. Mesmo sendo da mesma matéria, os plásticos não podem ser muito misturados.” Portanto, admite Susana, o glitter “não tem qualquer hipótese de ser reciclado, pela dimensão que tem”. “Lá que a sua embalagem seja reciclada já seria muito bom”. 

Num exercício de suposições, a representante da Zero diz que “eventualmente aquilo que poderia acontecer seria lavar o glitter, colocar no lixo e ir para o lixo indiferenciado e depois para o aterro. Fica mais contido do que se for para a água, mas o que se precisa de gastar neste processo também...”, deixa no ar, frisando que “não há preto e branco, há muitos cinzentos neste assunto”. “Por isso é que dizemos que o ideal são as opções biodegradáveis. Isso ou tornar esta tendência menos glamorosa, porque é uma fonte de poluição, uma fonte de microplásticos”, resume.

Apesar dos alertas ambientais, a tendência do glitter e do disco está bem presente – basta ver as tendências que lhe apresentamos na edição de setembro da Vogue. Dries Van Noten, Ashish, Moschino e Giambattista Valli são apenas alguns dos desfiles onde o glitter assumiu protagonismo na maquilhagem para este Outono-Inverno. A juntar à assiduidade nas passerelles está a presença cada vez mais cativa na rua – e no Instagram. O brilho inigualável do glitter deixou de ser um fenómeno exclusivo de dias de festa ou ocasiões pontuais (como o Carnaval ou a noite de Natal) e ganhou um espaço no resto dos nossos dias – que ninguém questione como um eyeliner com glitter pode animar uma segunda-feira. Mas como podemos acompanhar a tendência ou a simples vontade de brilhar, sem culpa? 

Make it bio(degradável)

A preocupação crescente em fazer escolhas sustentáveis é apontada muitas vezes como uma característica das novas gerações, particularmente da geração Z, mas esse não é o único fator que nos leva a questionar o cintilante glitter. Um estudo publicado em julho pela agência Mintel sobre os hábitos de consumo no Reino Unido (British Lifestyles: A New Understanding of Corporate Ethics) concluiu que os consumidores de cosmética são os consumidores que mais valorizam a ética nas suas compras. “A Beleza é notoriamente a área mais frequente em que as pessoas consideram quão ética é a marca antes de comprar”, lê-se, atribuindo a responsabilidade destes resultados, em parte, ao foco do setor nas preocupações com os animais e com a redução de plástico, “duas das mais importantes questões éticas para os consumidores hoje”.

Com consumidores cada vez conscientes, e ainda mais na Beleza, o mercado já está a responder com soluções à altura. O glitter biodegradável é uma delas. Enquanto a Glossier reformula o seu Glitter Gelée, há uma série de marcas a comercializar os seus produtos cujas fórmulas têm glitter biodegradável, como a Lush, que usa mica sintética, ou a Primark, que em maio lançou uma coleção especial com bioglitter. Esta última acabou por estender o seu compromisso além da edição limitada e, hoje, todo o glitter presente nos produtos de cosmética da gigante irlandesa é biodegradável. No entanto, esta escolha pela sustentabilidade vem com um custo financeiro associado. Ao Business of Fashion, Sophie Awdry, cofundadora da Eco Glitter Fun, uma marca de glitter biodegradável, revela que um glitter ecológico pode custar até 10 vezes mais a produzir. 

Feitos com recurso a diferentes materiais, como celulose ou até um derivado do eucalipto, os distintos tipos de glitter ecológico distinguem-se, essencialmente, por não terem quaisquer microplásticos, eliminando assim o problema principal: o facto de estes serem impossíveis de se degradar. No caso do Bioglitter, a marca alega que o produto não se dissolve em água, precisando de bactérias e outros microrganismos para se decompor. “Quando entra no ambiente natural, como terrenos, águas residuais, lagos e rios, os micróbios consumem o conteúdo biodegradável transformando-o em dióxido de carbono, água e biomassa”, indica o site da marca. 

O futuro volta a parecer brilhante. “Se forem usadas substâncias naturais [o glitter] terá um impacto menor, porque, em principio, [as partículas] se biodegradarão”, explica Susana Fonseca, da Zero. “Mas o alegadamente é uma coisa muito importante, porque há muitas áreas onde se diz que é biodegradável e depois não é. É algo que é preciso ser comprovado através de standards”, alerta a representante da ONG portuguesa. “Mas se de facto [o glitter] for biodegradável e não contiver outras substâncias perigosas, isso pode ser positivo. Quer dizer que haveria uma degradação e que teria um impacto ambiental muito menor, ou não teria sequer, faria parte do ciclo”. 

Contudo, o rótulo pode (e deve) ser questionado. Até porque há diferentes padrões que determinam se um produto pode ser rotulado como biodegradável ou não. “Esse é outro problema”, diz Susana. “Até podemos partir de uma base orgânica, que vem de plantas, ou do que seja, mas depois introduzimos elementos inorgânicos e esses elementos inorgânicos fazem com que a vida, a duração daquele pigmento, do que se esteja a produzir, possa ser mais longa do que se fosse só o pigmento natural”. Ainda assim, a representante da Zero acredita que estas soluções, sendo efetivamente biodegradáveis, são a escolha mais acertada. “A outra [solução] que nós defendemos sempre enquanto ONG, mas que pode não ser muito interessante é... não usar (risos).”

Artigo originalmente publicado na edição de setembro de 2019 da Vogue Portugal.

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