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Gillian Anderson: “As mulheres estão a tornar-se uma parte cada vez mais visível e relevante do cinema contemporâneo”

25 May 2026
By Beatriz Fradoca

No Festival de Cannes, Gillian Anderson marcou presença enquanto embaixadora da L’Oréal Paris e membro do júri do Lights on Women’s Worth — uma iniciativa que distingue jovens realizadoras durante o festival. Numa conversa com a Vogue Portugal sobre cinema, representação e autoestima, a atriz refletiu sobre a importância de criar espaço para novas vozes femininas na indústria.

Em Cannes, entre a luz intensa da Riviera Francesa e o ritmo acelerado dos dias de festival, o cinema continua a ser palco de discursos que vão muito além do ecrã. É nesse cruzamento entre cultura, representação e criação que se inscreve o Lights on Women’s Worth, iniciativa da L’Oréal Paris que distingue jovens realizadoras e abre espaço a novas narrativas femininas na indústria.

A Vogue Portugal conversou com a atriz Gillian Anderson — embaixadora da marca e membro integrante do júri deste concurso — sobre o impacto destas iniciativas, o papel das mulheres no cinema contemporâneo e a urgência de continuar a abrir caminho para novas vozes na realização.

Esteve em Cannes pela primeira vez na semana passada com o filme "Teenage Sex and Death at Camp Miasma" e participou com a L’Oréal Paris no ano passado. Como é que a sua experiência no festival tem evoluído ao longo da sua carreira?

É tudo bastante intenso. Há momentos que parecem acontecer ao mesmo tempo — entre entrevistas, sessões fotográficas e compromissos. Sinto que poderia estar em qualquer parte do mundo, mas depois há esta vista, o céu, o ambiente… isso torna tudo diferente.

Se a sua maquilhagem pudesse descrever esta semana em Cannes, o que diria?

Diria glowy. Tem sido uma semana muito luminosa. Sinto-me com uma pele fresca, saudável, bem cuidada. Há essa sensação constante de leveza e de algo muito natural, quase hidratado, no meio de toda a correria.

A L’Oréal Paris tem o mote “I’m worth it”. Como é que a sua perceção de valor próprio evoluiu ao longo do tempo?

Não sei se pensava muito nisso antes. Acho que não tinha essa noção como algo importante ou consciente. Com o tempo percebi o valor da confiança e a importância de a começar a trabalhar cedo. Quanto mais cedo se desenvolve essa segurança, mais ela acompanha a pessoa ao longo da vida.

Em momentos públicos como este, de que forma entende a relação entre beleza e expressão pessoal?

Para mim, a forma como vejo isto é muito clara: a autoestima vem de dentro para fora. Não sinto que esteja necessariamente ligada à beleza. E também acho que, na vida, conheci muitas pessoas que não encaixam em certos padrões de beleza, mas que têm uma energia e uma presença que fazem com que se queira estar perto delas, passar tempo com elas. Isso é igualmente importante. É algo que acho essencial cultivar, essa espécie de energia que trazemos connosco, tanto quanto aquilo que é exterior. No fundo, podes ter maquilhagem, podes ter tudo o que quiseres a nível mais superficial, mas se não houver esse sentimento interno de valor, não há uma verdadeira segurança em dizê-lo ou em vivê-lo. Para mim, todas as mulheres são, por natureza, “worth it”. A questão é chegar a um ponto em que isso possa ser dito sem constrangimento, sem julgamento próprio, sem essa autoanálise constante que, muitas vezes, nos trava.

E depois há também a forma como nos apresentamos ao mundo. Quando conseguimos carregar essa sensação de valor, isso nota-se. Tem impacto na forma como somos vistas, sim, mas começa sempre na forma como nos sentimos.

Trabalha entre televisão, cinema e teatro. Sente diferenças claras entre estes mundos?

Sim, são mundos muito distintos. Sinto-me privilegiada por poder transitar entre eles. Cada um tem o seu ritmo, a sua exigência. O teatro, por exemplo, é particularmente desafiante e intenso. Já o cinema e a televisão funcionam de forma diferente, com dinâmicas próprias.

Tem construído uma carreira ligada a personagens femininas complexas. O que a continua a atrair nesse tipo de papéis?

É importante que essas representações existam, até mesmo como espectadora. As mulheres são complexas, multidimensionais e, sempre que surge um papel que explora essa dimensão, isso torna-se naturalmente mais interessante.

Integra o júri do Prémio Lights on Women’s Worth deste ano, organizado pela L’Oréal Paris. Como se sente ao assumir esta função e o que é que isso significa para si, a nível pessoal?

Foi uma honra ter sido convidada e fazer parte do júri. Sinto-me muito privilegiada por poder estar envolvida neste contexto e por ter a oportunidade de ver as curtas-metragens. Tem sido uma experiência muito interessante. Há, de facto, talento real ali e isso torna tudo muito evidente: a importância de investir tempo, esforço, formação, mentoria e também financiamento para apoiar essas pessoas e o seu desenvolvimento.

Estas iniciativas são importantes precisamente por isso. Porque ajudam a dar visibilidade e a criar condições para que esse talento possa crescer. E, no fundo, mostram também que há um espaço real para estas vozes na indústria, que não se trata apenas de uma ideia abstrata, mas de algo concreto que precisa de continuidade e estrutura.

O prémio Lights on Women’s Worth by L’Oréal Paris, destaca cineastas femininas emergentes. Quão importantes são iniciativas como esta para promover uma mudança real na indústria?

São muito importantes. O simples facto de estas mulheres serem celebradas, dos seus nomes passarem a estar no espaço público, já cria impacto. Uma delas vai receber não só apoio financeiro, mas também visibilidade, e isso faz diferença.

Quanto mais vemos mulheres a realizar filmes, a contar histórias e a ocupar estes espaços, mais isso mostra que é possível. E quanto mais isso acontece, mais caminhamos para o ponto em que deixa de ser visto como algo invulgar. No fundo, o objetivo é precisamente esse: que uma mulher realizar um filme deixe de ser tratado como algo extraordinário e passe a ser simplesmente normal. Que seja apenas uma realizadora. E que o foco esteja na criatividade, independentemente de se tratar de homens, mulheres ou pessoas trans. Tudo deve fazer parte do mesmo espaço de criação e celebração artística.

Laetitia Toupet, Lenti Liang, Gillian Anderson e Iris Knobloch.

Ainda sente que há um longo caminho a percorrer em termos de igualdade no cinema?

Acho que ainda há, claramente, muito caminho por fazer. Mas também sinto que começam a existir mudanças reais e referências importantes dentro da indústria. Eventos como esta iniciativa da L’Oréal Paris ajudam nesse processo e, ao mesmo tempo, vemos cada vez mais realizadoras a ocupar espaço e a fazer parte da conversa de forma consistente. Nomes como Chloé Zhao, Emerald Fennell ou Olivia Wilde mostram precisamente isso: que as mulheres estão a tornar-se uma parte cada vez mais visível e relevante do cinema contemporâneo. Mas ainda não chegámos ao ponto ideal. Ainda existe trabalho a fazer para que essa presença seja completamente natural e equilibrada dentro da indústria.

Que conselho daria a jovens mulheres que querem entrar no cinema hoje?

Diria para continuarem. Para não perderem a confiança nem desistirem do caminho que querem seguir. Acho também importante tentar encontrar alguém que já esteja a trabalhar na área, alguém com quem possam aprender, acompanhar de perto, observar. Ter referências e procurar mentoria pode fazer muita diferença no início. E depois existem programas e iniciativas que ajudam a criar acesso, sobretudo para comunidades com menos oportunidades ou menos financiamento. Vale a pena procurar esses espaços, candidatar-se, aproveitar tudo aquilo que permita ganhar experiência, aprender e construir rede dentro da indústria.

Todas as imagensCortesia L’Oréal Paris
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