Sofia Pontifex, fundadora da Funky Chunky, fala-nos sobre o seu projeto, onde todas as bolachas — de tamanhos, sabores e modelos diferentes — têm algo em comum: são absurdamente deliciosas.
A expressão comfort food remete-nos a pratos que despertam nostalgia, aconchego e bem-estar. Não há sensação melhor do que comer algo que nos transporta automaticamente para a infância. Funky Chunky foi a primeira loja de bolachas em Lisboa e conta, agora, com espaços no Marquês de Pombal, Campo de Ourique, Avenidas Novas e no Time Out Market. Sofia Pontifex apostou em mais do que bolachas, proporcionou felicidade.
Mas como nem tudo é um conto de fadas, o empreendedorismo requer mais do que a arte de apreciar comida. Pontifex conta-nos como é criar um negócio, em plena pandemia, e fazer dele um sucesso. Qualquer pessoa que tenha farinha e um forno em casa consegue fazer bolachas; mas é também por isso mesmo que as cookies Funky Chunky se destacam: a sua receita é única e possui uma diversidade de sabores escolhidos e testados um a um.
Numa conversa com a Vogue Portugal, a fundadora reflete também como é criar uma marca do zero: “quando acreditamos genuinamente no que estamos a fazer, as pessoas sentem isso”. Num mundo que nos proporciona obstáculos a cada passo que damos, o empreendedorismo em Portugal conta com desafios, mas Pontifex enfrenta-os de modo a partilhar mais do que uma marca — mas sim uma identidade.

Como nasceu a ideia para o projeto Funky Chunky?
Nasceu como um desafio intelectual, na verdade. Trabalhei durante anos em publicidade, a desenvolver marcas do zero, e, a certa altura, surgiu a curiosidade: será que consigo fazer o mesmo para mim própria? Analisei o que amava, e a resposta foi sempre a mesma: doces. Cookies, especificamente. E, percebendo que era um conceito que simplesmente não existia em Portugal, juntei o útil ao agradável e comecei a experimentar. Primeiro o branding, depois os testes no forno de casa. Durante a pandemia, fui despedida e pensei: não tenho nada a perder. Comecei a vender a amigos, amigos de amigos, mudei para uma ghost kitchen para entrar nas aplicações de entregas e os feedbacks foram sempre tão bons que as coisas foram acontecendo de forma natural. Uma primeira loja num espaço partilhado com uma empresa de catering, depois fiquei com o espaço todo, e a cada ano abri uma loja nova. Foi então que a Luisa entrou na equipa, e hoje é a minha sócia. A sua chegada foi um momento decisivo — trouxe exatamente o que faltava: estrutura, organização, e um domínio da parte operacional, de produção e de recursos humanos. Somos muito complementares, e foi essa combinação que permitiu um crescimento saudável e sustentável. A marca cresceu não só pela qualidade das cookies, mas pelo trabalho das duas. Damos muito de nós pela Funky Chunky, e estamos sempre com vontade de criar e crescer mais.
Em que momento percebeu que este conceito tinha pernas para andar e tornar-se um negócio de sucesso?
Para mim, o melhor feedback é quando os clientes começaram a recomendar a outros clientes — e a voltar. É genuíno, sem que ninguém peça nada. Uma pessoa compra, gosta, conta a alguém, essa pessoa compra, e assim sucessivamente. Eu sempre fui a maior fã das minhas próprias cookies, mas isso não chegava para fazer um negócio funcionar. O que me deu confiança para continuar a crescer foi perceber que o produto falava por si, e que além de não existir nada parecido em Portugal na altura, as pessoas provavam e gostavam. A receita é muito cuidada: só usamos chocolates belgas, o sabor é equilibrado, a textura é crocante por fora e macia por dentro, e o facto de não ser enjoativo é exatamente o que faz com que as pessoas comam uma e queiram logo outra.
Como definiria a identidade da marca em termos de sabor, estética e identidade?
A marca tem uma linguagem divertida, rebelde, engraçada e deliberadamente imperfeita. A imperfeição está até na nossa assinatura — Imperfect Cookies — porque tudo o que é autêntico não é padronizado. O próprio nome já diz tudo. Funky remete a algo divertido e descontraído. Chunky remete ao produto em si, os chunks, os pedaços grossos e generosos de chocolate e ingredientes. Juntos, fazem uma combinação que, desde o início, me pareceu que fazia jus exatamente ao que fazemos aqui. As próprias cookies refletem essa filosofia. Numa mesma fornada podemos ter umas mais altas, outras mais baixas, umas mais moles, outras mais crocantes. E é exatamente isso que faz com que nunca se coma a mesma cookie duas vezes. Cada uma é única, tal como devia ser. A identidade visual reforça tudo isto: o logo feito à mão com letras irregulares, as cores, as formas. Tudo comunica a mesma coisa: rebeldia com sabor.
A Funky Chunky foi a primeira loja de bolachas em Lisboa. O que é que a motivou a dar esse passo?
Foi pura paixão, e uma certeza muito forte cá dentro que ia dar certo. Sempre acreditei muito no conceito de monoproduto. Quando fazes uma coisa muito bem feita, tens um potencial enorme. Não queria ser mais uma pastelaria com um menu infinito de doces e salgados. Queria algo escalável, delicioso, e que se tornasse referência naquele produto específico. Gosto muito de conceitos como o dos donuts, por exemplo, e senti que a cookie se encaixava perfeitamente nessa lógica. Um produto com identidade própria, que as pessoas associam imediatamente a um lugar. Claro que ser a primeira trouxe desafios. Muitas pessoas não sabiam bem o que era, não entendiam o valor, achavam que eram bolachas caras. Hoje, com as cookies já na moda e com mais concorrentes no mercado, as pessoas conhecem o produto e dão-lhe o valor que merece.

Hoje em dia, de que forma é que acha que a Funky Chunky se distingue de outras marcas e lojas de cookies?
De várias formas. A começar pelo tamanho e estilo. A maioria da concorrência aposta nas cookies estilo Nova Iorque: grandes, altas e imponentes. As nossas são diferentes: mais pequenas, mais baixinhas, o que as torna menos enjoativas e perfeitas para consumir em várias ocasiões ao longo do dia. Come-se uma e quer-se outra — é essa a ideia. Os sabores são delicados e equilibrados. Não são completamente doces, não são pesados, e esse equilíbrio é exatamente o que os nossos clientes nos dizem que os faz voltar. Depois há a comunicação, é muito autêntica, muito focada em mostrar a imperfeição, em partilhar momentos que não são só sobre o produto. A ideia é fazer parte da vida dos clientes de todas as formas que conseguirmos. Porque no fundo, as nossas cookies contêm felicidade.
Quais foram os maiores desafios em construir um negócio alimentar do zero em Portugal?
O empreendedorismo tem sempre desafios, mas na restauração há um que se destaca: os recursos humanos. É uma área com muitas complexidades, e garantir um espaço respeitoso e agradável para quem faz parte da equipa é algo que levamos muito a sério. É uma prioridade, não um extra. E ficamos muito felizes quando isso foi reconhecido externamente. Fomos recentemente certificados pela Choose My Company, que seleciona as empresas com melhor ambiente de trabalho através de inquéritos feitos diretamente aos colaboradores. Ficámos entre os com maior índice de aceitação pela nossa equipa, e isso, honestamente, valeu tanto quanto qualquer prémio de negócio.

Como mulher, como é ser empreendedora em Portugal – tem sentido mais desafios ou mais oportunidades?
Sinceramente, não senti dificuldades acrescidas por ser mulher. Sempre fui muito profissional na minha postura e nas relações com os outros, e acho que isso criou naturalmente um espaço de respeito à minha volta. Acreditava tanto no meu negócio desde o início que essa confiança acabou por passar para as pessoas com quem me relacionei profissionalmente. E isso ajudou muito. Sinto que quando acreditamos genuinamente no que estamos a fazer, as pessoas sentem isso.
Qual é o processo de criar uma nova variedade de bolacha? De onde vem a inspiração?
Este é um processo que geralmente fica a cargo da minha sócia, Luisa — responsável pela produção, operacional e recursos humanos. E é um processo bem mais complexo do que parece de fora. Fazemos muita pesquisa de sabores, tendências e combinações inusitadas que possam fazer sentido. Depois vêm os testes, e são muitos: colocamos recheios? Misturamos na massa? Alteramos a própria massa? Tudo é posto em causa. A isso junta-se a pesquisa de fornecedores, a criação de fichas técnicas, a implementação operacional e de produção. O que parece simples no olhar de fora, numa empresa com um volume de produção considerável, são na verdade vários passos e processos. Mas adoramos esta parte. E claramente adoramos também a parte de provar! Como a nossa massa de base é equilibrada e um dos nossos diferenciais, fica mais fácil encontrar recheios e combinações que façam sentido com ela. Adoramos misturar doce com salgado. Fizemos um teste de cookie de chocolate belga com batata chips que funcionou muito bem, e em breve teremos também uma edição limitada de cookie de pretzel, que traz uma crocância e um salgado completamente inesperados e deliciosos. Todos os meses lançamos um sabor novo.
Os erros são, por vezes, tão cruciais ao sucesso quanto as decisões acertadas. Qual foi o erro mais importante que cometeu?
Temos um formato interno na empresa em que os erros são bem recebidos. O importante é reconhecê-los o mais rápido possível, ir logo atrás da solução, e depois aprender e perceber o que pode ser melhorado da próxima vez. Um dos meus maiores erros foi ter escolhido a cozinha central sem analisar a potência eléctrica máxima do espaço. É o tipo de coisa que nunca me ocorreria verificar, porque simplesmente não sabia que podia ser um problema. Gerou impasses no início, aumentou os investimentos, e atrasou a estruturação do espaço. Mas não me culpo por isso. No empreendedorismo lidamos todos os dias com coisas que não sabemos. Se não nos permitirmos errar, testar e arriscar, não saímos do lugar. Hoje sei exatamente o que analisar num próximo espaço, quando precisarmos de uma cozinha ainda maior.

O que significa para si criar algo tão ligado ao lema do comfort food?
É maravilhoso. Sei que as pessoas estão cada vez mais conscientes das calorias e à procura de escolhas ligadas ao bem-estar, e sou muito adepta disso também. Mas a verdade é que nós, seres humanos, não vamos deixar de comer doces. O que vamos fazer é ser mais criteriosos no que ingerimos. Então se é para comer um doce, que seja um doce que valha cada caloria. Feito com ingredientes de verdade, sem aqueles nomes impronunciáveis nas etiquetas, sem conservantes, sem ser produzido em larga escala com validade de seis meses. As nossas cookies são isso mesmo: ingredientes reais, feitos com cuidado, para serem comidos com prazer e sem culpa. A ideia é proporcionar momentos de felicidade e descontração. Porque quando comemos um doce, é sempre por uma boa razão: ou queremos celebrar algo, ou precisamos de um momentinho só nosso, ou o dia não correu muito bem, ou queremos partilhar uma alegria com alguém. É sempre um momento que traz leveza. Vejo isso nitidamente quando os clientes entram na loja. E adoro poder proporcionar isso.
Quais são os seus planos para o futuro da Funky Chunky?
A minha sócia e eu somos muito complementares e muito ambiciosas. Tivemos uma fase de expansão muito rápida, com crescimento orgânico, uma loja nova a cada ano e hoje temos uma empresa bastante estruturada e organizada — é exatamente esse o ponto de partida para o próximo nível. Tivemos propostas de investimento e de franchising, e, neste momento, estamos a decidir qual dos caminhos percorrer. O nosso negócio é muito escalável e tem muito potencial — queremos e vamos crescer. Mas a nossa maior preocupação será sempre manter a qualidade. Se vamos escalar, será com muita estrutura e com a responsabilidade que os nossos clientes merecem. Porque, no fundo, foi a qualidade que nos trouxe até aqui, e não vamos abrir mão disso por nada.

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