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Tendências 5. 5. 2020

Nip(ple)&Tuck: uma reflexão sobre o "Free The Nipple"

by Sara Andrade

 

Se lhe mostrarmos dois close ups muito aproximados de mamilos, sabe distinguir o feminino do masculino? Claro que sim. O da mulher é o que está pixelizado e o do homem não. Ou então é o que não está lá porque o “conteúdo foi removido por violar as regras da comunidade”. Como é que se pode avançar para uma igualdade de género quando, em simples pormenores do corpo, iguais, a nossa versão é ofensiva e a do outro não?

Fotografia e maquilhagem de Kate Mur.

Não precisamos de tornar isto num texto sobre a igualdade de género – ela estará, de qualquer modo, implícita –, mas precisamos de tornar isto num artigo que questiona: porque é que o mamilo feminino é assim tão vilão? Uma espécie de Voldemort, perdão, aquele-cuja-foto-não-será-partilhada, das redes sociais e do nosso quotidiano? Porque é que um homem pode correr em tronco nu num parque e uma mulher é ostracizada por amamentar em público? Porque é que um é livre e o outro é imoral?

Claramente, pelo seu poder maligno: nunca se viu coisa tão pequenina a censurar imagens de Instagram, fechar contas de Facebook, a causar tamanho alarido e até a desferir golpes numa carreira. Que o diga Janet Jackson, que em 2004 descobriu da pior maneira a magnitude da influência de uma maminha despida: no famoso espetáculo de intervalo do Super Bowl, a atuação da cantora com Justin Timberlake acabava com o artista a rasgar metade do corset Alexander McQueen que Jackson usava, ao mesmo tempo que fechava o tema musical Rock your Body com “you’ll be naked before the end of this song”. A profecia funcionou e o que se revelou foi o seio a descoberto com um piercing no mamilo de uma muito surpreendida Janet – Timberlake jurou depois que o que queria era apenas deixar visível o sutiã vermelho que a entertainer tinha por baixo.

Por causa deste mamilo, que apareceu em direto para cerca de 147 milhões de espectadores por apenas – apenas – meio segundo, as transmissões em tempo real passaram, a partir daí, a ser transmitidas com um atraso de cinco segundos, para se poderem prevenir situações destas com planos de outros ângulos. Overreaction? Inserir emoji com o eye-roll, por favor.

Mas o pior ainda estaria para vir: apesar de o país e o mundo se dividirem entre os que acreditavam na gravidade do episódio e os que achavam a polémica exagerada, o backlash do incidente que ficou conhecido como Nipplegate significou para Janet ver o seu portefólio musical banido da MTV e VH1 e todas as rádios Viacom, ao mesmo tempo que a CBS e a MTV (cadeia que transmitia o jogo e canal responsável pelo entretenimento de half time, respetivamente) foram multadas em 550 mil dólares pela Federal Communications Comission (multa anulada em 2011). Um rol de danos colaterais seguiram-se, ainda, para Jackson, incluindo a entrada no Guinness como estrela mais pesquisada à conta da notícia, ser alvo de vendetta pessoal do CEO da CBS depois do evento, que durante anos tentou arruinar a carreira da cantora (expôs mais tarde o The Huffington Post), e ainda passar por uma embaraçosa e condescendente entrevista, pouco depois do incidente, no Late Show com David Letterman, na qual queria promover o álbum, mas 15 minutos foram gastos pelo host a deixá-la num desconforto difícil de testemunhar, revivendo de forma cómica (só que não) aquele episódio sem graça. Por causa de um mamilo. E as represálias a Justin Timberlake? Ainda este parágrafo não acabou e já não se lembra que ele fazia parte da história.

É por causa deste e de outros capítulos que tais que incontornavelmente tinha de começar um movimento como o Free the Nipple, que também é uma hashtag consequente das censuras de social media, mas foi antes um apelo tornado filme (2014) que surgiu em 2012. A campanha faz parte do movimento político e cultural Topfreedom (que procura mudar as leis de forma a que as mulheres possam estar de peito nu em locais públicos onde os homens também o fazem ou, pelo menos, levantar as restrições sobre a obrigatoriedade feminina de ter o peito sempre coberto – a questão da amamentação em público é uma das suas batalhas) e foca-se nesta ideia de que os homens podem estar topless em público, mas quando é uma mulher, é considerado sexual ou indecente.

O movimento quer sublinhar a injustiça do double standard e argumenta que deveria ser legal e culturalmente aceitável mostrar os mamilos femininos sem pudor – uma vez que os masculinos também têm esse privilégio. O filme homónimo que se lhe seguiu tinha como objetivo chamar a atenção para a questão da igualdade de género de forma a promover uma discussão sobre uma América que glorificava a violência e reprimia a sexualidade, considerava Lina Esco, a realizadora: “Sabias que uma criança americana vê mais de 200.000 atos de violência e mais de 16.000 homicídios na TV antes dos 18, e não vê um único mamilo de mulher?”, provocou, num artigo de opinião publicado no The Huffington Post.

"Ao longo dos anos, as mulheres têm sido presas ou acusadas de exposição indecente, comportamento lascivo ou por importunarem a paz apenas por mostrarem os seios."

 

Enquanto a longa-metragem estava a ser filmada, Esco foi partilhando alguns teasers no Facebook com a hashtag #freethenipple. Em 2013, a plataforma removeu esses pequenos videos alegando que violavam as guidelines da rede, uma atitude que só incrementou a onda de apoio ao movimento, e à película, nomeadamente por parte de personalidades famosas: Lena Dunham, Miley Cyrus e Rihanna foram apenas alguns dos nomes que partilharam fotos nas redes sociais a apoiar publicamente a iniciativa de Lina. Ao longo dos anos, as mulheres têm sido presas ou acusadas de exposição indecente, comportamento lascivo ou por importunarem a paz apenas por mostrarem os seios, mesmo em jurisdições onde a lei não o proíbe.

Em 2015, a campanha chegou à Islândia, onde uma estudante ativista postou uma foto sua em tronco nu e foi assediada por tê-lo feito. Num ato de solidariedade, Björt Ólafsdóttir, membro do Parlamento, fez o mesmo. Em 2016, duas jovens foram presas por exposição indecente ao crasharem em topless uma apresentação do senador e candidato Bernie Sanders, em Los Angeles. Passaram 25 horas numa prisão e processaram depois o departamento policial pela acusação injusta, porque nunca tinham estado verdadeiramente nuas, uma vez que não tinham mostrado a área genital.

Fotografia e maquilhagem de Kate Mur.

Os eventos Free The Nipple multiplicaram-se um pouco por todo o mundo, mas o mamilo da questão nunca deve ter chegado às redes sociais. O bom disso é que aguçou a criatividade dos seus users, porque censurar mamilos para não se ser censurado parece ser uma forma de arte: cruzes, blur, corações, flores, desenhadas ou verdadeiras, barras pretas… há formas tão inventivas de se esconder um nipple – de mulher, claro – quanto a imaginação permitir. Uma ginástica criativa desencadeada pelas diretrizes de comunidade do Instagram e do Facebook, que autorizam mamilos femininos em pinturas e esculturas, mas não na fotografia (a não ser no contexto da amamentação e maternidade – apenas autorizadas a partir de 2014 por pressão de ativistas –, saúde ou num ato de protesto ou awareness para alguma causa). Aliás, se pesquisar a hashtag #nipple, ela não lhe é devolvida.

Felizmente, o #freethenipple é e tem mais de quatro milhões de posts – mas quase todos eles de mamilos tapados… É óbvio que o bom senso é requisitado quando se trata de mostrar o peito desnudo, nem tudo é nu artístico (mas também, algumas – muitas – poses provocatórias com roupa também não o são), mas quando uma Sharon Stone a preto e branco na capa de uma Vogue Portugal com um mamilo exposto que mal se nota é censurada, sabemos que ainda estamos longe de ter uma inteligência artificial inteligente – e sensível. Quando imagens como essa são vistas enquanto atentado ao pudor e as milhares de imagens de homens em tronco nu se mantiverem tão incólumes como aquele prato de pasta Alfredo que comeu naquele restaurante instagramável, a linha entre decoro e censura dissipa-se. Acima de tudo, a arte sofre, porque muitos fotógrafos e artistas que trabalham com este tipo de fotografia veem-se condicionados na partilha do seu trabalho sob pena de verem o seu post removido ou, mais grave, a conta cancelada.

Fotografia de Branislav Simoncik.

No final do ano passado, uma série de artistas e ativistas reuniram-se nos escritórios do Instagram em Manhattan para tentar encontrar um compromisso, mas sem sucesso. “Não estamos a tentar impor o julgamento [do Instagram] à forma como os mamilos devem ser vistos em sociedade”, comentou Karina Newton, diretora de public policy da plataforma, ao New York Times, em novembro de 2019, admitindo ainda que o sistema não é perfeito e que há erros que ocorrem. “Estamos a tentar refletir as sensibilidades dos abrangentes e diversos países e culturas por todo o mundo nas nossas políticas”, explicou, para justificar a perseguição a esta parte do corpo (e não só).

E essa busca pelo agrado a uma audiência vasta denuncia um problema que é, claramente, mais profundo: o mamilo feminino é considerado uma zona erógena e é sexualizado pela sociedade há anos, muito antes dos social media o colocarem como área non grata. O problema está em nós, que ainda o olhamos como pornográfico e não como anatómico. Talvez se o Instagram não removesse um post com mamilos femininos explícitos, um qualquer utilizador denunciá-lo-ia por se sentir “ofendido”. Mas de virgens ofendidas está a censura cheia. E a questão é tão caricata e tão pequenina que há quem diga que Jennifer Anniston é a original gangster do movimento Free the Nipple porque Rachel Green, a sua personagem de Friends (1994-2004), tinha muitas vezes o contorno dos mamilos – wait for it – bem visível debaixo dos seus tops e camisolas: “Sim, não sei o que te dizer sobre isso”, comentou à Vogue em 2017. “É uma daquelas coisas, acho. Eu uso sutiã, não sei o que te dizer! E não sei porque é que é suposto termos vergonha deles – é assim que os meus seios são!”

Temos vergonha deles ou ficamos ofendidos por eles? Talvez um pouco de ambos: quando crescemos a pensar que temos de os tapar, os dois sentimentos estão intrinsecamente ligados – não os mostramos, porque não devemos; não os queremos ver, porque não os devemos mostrar. Mas não devia ser um dever, devia ser um direito – e uma escolha. E isto é importante: querer ter o direito de expor mamilos sem double standards em relação à população masculina não quer dizer que se ande topless diariamente. Eu quero que não haja diferenças no tratamento dos mamilos, mas escolho sair de casa com uma camisola ou um vestido ou uma blusa. Acima de tudo, procura-se uma normalização dos seios da mulher, em oposição à sua vilanização. Nomeadamente no que concerne a amamentação, que é um direito e uma função perfeitamente normal na maternidade e que não pode continuar a ser ostracizada por ser feita em público.

Uma criança a beber o leite da mãe é a vida a acontecer, não tem de ser escondida. Mas em 37 Estados norte-americanos – e um rol demasiado vasto de países –, é ilegal para uma mulher mostrar o peito, mesmo para amamentar um filho, expõe Lina Esco no The Huffington Post. Na Austrália, por exemplo, as leis de atentado ao pudor apenas se aplicam aos genitais, mas as polícias locais têm autoridade para excluir uma mulher em topless de um sítio público, citando leis de comportamento ofensivo ou de criar distúrbio público. No Reino Unido, pode fazer-se topless na praia, mas há leis que proíbem a exposição do peito. Em Portugal, o nudismo nas praias nacionais não tem enquadramento legal, a lei é omissa em pormenores, mas se houver queixas, a Polícia intervém.

“Free the nipple é sobre ter escolha.” Lina Esco

Mas estamos a desviarmo-nos. Ainda não falámos de uma nuance interessante deste assunto e que nos leva à questão do início do artigo: “O mamilo, a parte que não podes mostrar, é o que toda a gente tem”, argumenta Miley Cyrus ao apresentador de televisão Jimmy Kimmel. Cyrus é conhecida por quebrar constantemente as guidelines das plataformas sociais, provocando a inteligência artificial do Instagram com fotos suas em tronco nu. “Mas a parte da maminha, que nem todos temos… essa podes mostrar. Eu nunca entendi como é que isso funciona.” E estes dois pesos e duas medidas são tão gritantes por isto: porque se o cerne da questão é igual, porque é que a perceção não o é? Parece um preciosismo à luz de outros problemas mundiais, mas é apenas o ponto de partida para uma discussão maior: a igualdade de género. [Eu tentei não tornar este texto num artigo sobre a igualdade de género, mas ela está, de qualquer modo, implícita.]

Porque o Free the Nipple não é uma luta para de repente passarmos a ir todas para a rua de seios desnudos, é uma campanha cujo foco é a igualdade e o empowerment de todos os seres humanos por igual. É uma missão para que as mulheres possam reclamar os seus corpos, a sua sexualidade e a sua segurança de volta. É sobre pensar abertamente sobre a questão da igualdade e, consequentemente, da liberdade, servindo-se da anatomia humana para demonstrar que homens e mulheres são iguais. E que merecem os mesmos direitos, mesmo em algo que pareça tão frívolo quanto andar topless. “Se se tornar legal para uma mulher mostrar os mamilos em público, achas honestamente que todas as mulheres vão andar despidas por aí da cintura para cima?”, questiona Esco. “Free the nipple é sobre ter escolha.”, remata. Free the nipple é menos, muito menos sobre as políticas de Instagram e mais, tão mais – é só, na verdade – sobre igualdade. E liberdade. “Free the nipple é só uma plataforma”, disse a realizadora à i-D, em 2016. “Não é uma coisa minha, é uma coisa de todos. Todos temos a responsabilidade de passar a palavra”.

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