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by Sofia Lucas

 

"Love is the answer, but while you are waiting for the answer, sex raises some pretty good questions."

- Woody Allen

Sharon Stone. © Branislav Simoncik

Esperamos tudo do Amor. Esperamos que seja incondicional. Esperamos que seja anárquico. Que seja tão intenso quanto calmo, que seja revolução e paz. Que seja a cola que une famílias e comunidades, que seja a mensagem maior a passar de geração em geração. E esperamos, sempre, que nunca seja demais o que esperamos, seja ele platónico ou carnal.  

Mas da ligação entre Amor e Sexo ainda persiste um mistério, tão complexo quanto o universo que separa o que se deseja, do que se precisa e o que realmente se vive. “Parte da ideologia moderna do amor é assumir que o amor e seco andam de mãos dadas. podem fazê-lo, mas eu acredito que é mais em detrimento de um ou do outro. E provavelmente o maior problema para os seres humanos é que eles não andam de mãos dadas.” A afirmação de Susan Sontag, apesar de um fundo de verdade, é algo simplista. Quanto mais de perto analisamos o que consideramos "sexy", mais claramente entendemos que o erotismo é o sentimento de excitação que experimentamos ao encontrar alguém com quem nos identificamos.

A nossa cultura encoraja-nos a (re)conhecer muito pouco do que realmente somos no ato sexual e o porquê do que nos atrai. Qualquer que seja a forma com que consumamos o nosso desejo físico, ela estará sempre intimamente ligada às nossas ambições mais centrais e profundas. Por mais física que seja a atração que nos move, ou o ato sexual, a excitação não é uma reação fisiológica grosseira; é um êxtase que sentimos ao encontrar alguém que possa pôr de lado alguns dos nossos maiores medos e com quem podemos esperar construir algo mais permanente.

O sexo é também uma âncora, que nos lembra a nossa própria humanidade, imperfeita, e a riqueza confusa de ser humano: sem sexo, seríamos perigosamente invulneráveis. Poderíamos acreditar que não somos ridículos. Não conheceríamos a rejeição ou até a humilhação, ou as mais perversas formas de prazer, tão intimamente. Poderíamos envelhecer respeitosamente, convencidos do tanto que sabemos, mas poderíamos desaparecer em números e palavras, sozinhos. Diz um ditado místico tibetano: “estamos aqui para perceber a ilusão da nossa separação”. 

"Uma edição que é muito mais do que uma questão de sexo, mas sim um compêndio sobre as várias questões no Sexo e na Sexualidade. Numa viagem anti-preconceito e anti-tabus, de contradições, de liberdade de escolhas e afirmação, de investigação e descoberta."

O sentimento espiritual tem um fundo biológico. O impulso de nos fundirmos com outro corpo, temporariamente no sexo ou permanentemente numa simbiose reprodutiva, é mais que uma metáfora. Quando nos relacionamos com alguém, no sexo ou no amor (ou, mais raramente e idealmente, em ambos), provamos que o nosso isolamento não é permanente. Todos nós podemos estar ligados, e precisamos de estar ligados.

O fenómeno da Spring Fever, ou a predisposição para o flirt e o aumento do desejo sexual, está cíclica e inevitavelmente ligada ao nosso instinto animal. A temperatura sobe, os dias ficam mais compridos e a luz do sol intoxica-nos com uma sensação de liberdade pós-cativeiro invernoso e sombrio. Libertamo-nos do casulo e dos layers de roupa onde hibernámos durante 6 meses, e a pele exposta passa a ser o tecido da estação. Estamos rodeados de feromonas e pólen, e as variações hormonais confirmam a nossa essência que, por mais evoluídos nos julguemos, ainda reage ao instinto reprodutivo tatuado no nosso ADN. E os padrões, não estampados em tecido, mas nos comportamentos, tornam-se muito mais animais. Estatisticamente, vários estudos concluem um aumento da libido e da prática de sexo (na ordem dos trinta por cento) durante a estação primaveril.

Mas, estatísticas à parte, talvez algum instinto animal se tenha fundido com o instinto editorial que ditou o tema da Vogue de maio. Sex Issue(s). Uma edição que é muito mais do que uma questão de sexo, mas sim um compêndio sobre as várias questões no Sexo e na Sexualidade. Numa viagem anti-preconceito e anti-tabus, de contradições, de liberdade de escolhas e afirmação, de investigação e descoberta. Numa viagem que começa à flor da pele e termina nas profundezas do comportamento sexual. 

Foi um intenso mês de abril, ou não fosse este o mês da Liberdade, em que desenhámos e produzimos esta edição. Nos bastidores da Vogue, viveu-se um pouco de tudo, como as limpezas de primavera, que exorcizam as más energias e que dão espaço a tudo o que são as boas vibrações, sobretudo às da paixão e do prazer com que esta equipa deu forma à exaltação dos sentidos e às mais variadas experiências sexuais: do flirt aos preliminares, explorando a diversidade, e arte, do prazer, tão egoísta quanto altruísta, do empoderamento à submissão, da masturbação ao sexo em grupo, culminando na poesia e no pragmatismo do orgasmo. Não, não é da vida intima da equipa que falo, mas da excitação editorial com que nos entregámos a cada tema e a cada imagem desta edição. 

Da fogosidade dos brainstormings preliminares ao clímax de receber nas nossas mãos esta revista impressa, não posso afirmar que o prazer foi todo nosso. Desejo, sim, que a sensualidade do toque do papel, ao folhear cada página, seja puro prazer. Tão nosso quanto seu.

Editorial originalmente publicado na edição de abril de 2019 da Vogue Portugal. 

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