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Francesco Colucci e a arte do vitrinismo

19 Aug 2020
By Mathilde Misciagna

Munido de uma imaginação sem limites e dos muy importantes alfinetes, Francesco Colucci molda com uma mestria impressionante as roupas em segunda mão que todos os dias são doadas nas lojas Traid. O resultado final? As montras mais inusitadas da capital britânica.

Munido de uma imaginação sem limites e dos muy importantes alfinetes, Francesco Colucci molda com uma mestria impressionante as roupas em segunda mão que todos os dias são doadas nas lojas Traid. O resultado final? As montras mais inusitadas da capital britânica.

Francesco Colucci
Francesco Colucci

A Traid é uma charity shop que está presente de norte a sul do Reino Unido apoiando as autoridades locais, empresas, escolas e comunidades no sentido de eliminar o desperdício. Empenhada em impedir que as pessoas deitem roupa fora, a organização já investiu mais de três milhões de libras em projetos que melhoram as condições sociais e ambientais da indústria têxtil e reduzem o seu impacto: educando o público sobre consumo sustentável, ajudando produtores de algodão a reduzir o uso de pesticidas, estabelecendo cooperativas no setor têxtil e desenvolvendo processos de produção têxtil amigos do ambiente. Tudo isto por um mundo em que as roupas que produzimos, consumimos e usamos não prejudiquem nem as pessoas nem o planeta.

E existe melhor cartão de visita do que uma montra, para que o público mergulhe a pés juntos no espírito e cada vez mais incorpore a criatividade e originalidade que tão bem caraterizam a roupa em segunda mão no seu dia-a-dia? Francesco Colucci de 37 anos, natural de Filiano na região da Basilicata (sul de Itália), é o responsável pelas inusitadas montras da Traid e já conquistou com a sua ousadia não só os olhares ansiosos dos transeuntes londrinos como também a dupla de artistas britânicos Gilbert & George ou a ex-diretora de Moda da Vogue britânica Lucinda Chambers. Formou-se em Fine Art, mais especificamente pintura, e ganhou experiência em arte contemporânea, vídeo e performance antes de viajar para Londres há mais de dez anos atrás. “A mensagem que eu pretendo transmitir com as montras é sempre diferente. O mais importante para mim é a interação com o público. Trabalhar dentro de uma montra à vista de todos durante os horários de funcionamento é de facto como se estivesse a fazer uma performance ao vivo”, conta Francesco numa troca de e-mails com a Vogue. 

Enquanto autodidata, encara o seu trabalho como uma arte propriamente dita – uma arte que lhe permite combinar a sua paixão e conhecimentos nas áreas de Costume Design, artesanato e artes performativas. Apesar de trabalhar no setor do retalho, a sua abordagem está longe de ser meramente comercial. As suas montras caraterizam-se pelo uso de volumes e por cobrir frequentemente a cabeça dos manequins com tecido. Para além de produzir uma montra capaz de chamar a atenção das pessoas, Colucci pretende com ela transmitir a liberdade de criar e interpretar as roupas de acordo com a expressão pessoal de cada pessoa.  “Recentemente li um livro chamado ‘Not a Toy: Fashioning radical characters’ - o primeiro estudo sobre a crescente influência da chamada Character Culture na Moda - onde a autora descreve o rosto como sendo o espelho da alma, a parte mais importante da comunicação humana e que se tem tornado numa fonte de inspiração para os designers de Moda. Ao cobrir o rosto dos meus manequins não pretendo esconder ou desumanizar a sua identidade (uma vez que são efetivamente inanimados), mas antes introduzir um elemento teatral na montra. No teatro, a máscara é essencial. Mas não só, o uso da máscara sempre fez parte da história. Em algumas culturas são usadas em rituais para personificar diferentes identidades. Para além disso, penso que é uma escolha que me reflete pessoalmente. Por vezes sinto dificuldade em comunicar, em usar o instinto... sou muito ponderado e crítico comigo mesmo.”

Estar encarregue das montras de onze lojas em Londres pode ser avassalador, sobretudo porque o material vem da própria loja e Francesco nunca sabe quais são as doações que o esperam no dia. O sourcing das peças que irão compor a montra pode levar horas. Só recentemente é que começou a planear as instalações com antecedência, especialmente no caso de projetos especiais ou se acha que uma ideia se adequa mais a uma loja do que a outra. “É disto que eu realmente gosto no meu trabalho. Pode parecer stressante (e às vezes é) mas o desafio de não ter um conceito predefinido entusiasma-me.” E acrescenta “Mesmo que eu tenha um plano, às vezes a instalação evolui para algo completamente diferente durante o processo. E o que é extraordinário é que independentemente dos cenários diferentes, o produto final reflete sempre a minha visão, além de ser único e irrepetível.” Colucci interessa-se por artes performativas, exposições, Moda, música e fotografia. Está constantemente à procura de algo novo, por isso tudo à sua volta funciona como fonte de inspiração. As suas referências artísticas vão desde Romeo Castelucci (dramaturgo italiano), a artistas como Leigh Bowery (falecida artista australiana) ou designers como Rei Kawakubo, Martin Margiela ou Alexander McQueen.

Durante a quarentena, Francesco lançou o seu próprio projeto no Instagram com o nome “The intimate diary of na isolated visionary”, despoletado por um instinto de sobrevivência quando confrontado com a impossibilidade de se poder expressar criativamente da forma habitual. “Senti-me verdadeiramente livre de imposições externas. Pronto para abraçar o inesperado e explorar o conceito de silhueta, redesenhá-la, criar novos volumes muito além da anatomia humana tradicional”, explica o vitrinista. “Na Traid, os vestidos de noite ajudam-me nessa demanda, pela sua estrutura em camadas. Neste momento estou também obcecado com a reinterpretação de máscaras étnicas ou de qualquer outro objeto já existente. Coleciono antiguidades de todo o género, por isso passo o tempo em vendas de garagem ou charity shops à procura de mais tesouros para adicionar ao meu arquivo pessoal.”

Francesco considera-se privilegiado pela oportunidade de exercer uma profissão que reflete inteiramente a sua personalidade e lhe permite expressar-se criativamente de forma tão livre. Para quem se quiser dedicar a esta arte, aconselha muita pesquisa, disponibilidade para aprender, experimentação e ser naturalmente curioso. Vamos continuar deste lado do ecrã (ou do lado de lá da vitrine), atentos, porque o mundo precisa de criatividade e precisa demais, de muitos Colucci.

Mathilde Misciagna By Mathilde Misciagna

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