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Tendências 8. 8. 2018

by Patrícia Domingues

 

O que queremos? Uma pele saudável e infinitamente jovem. E como queremos? Passando horas na praia ou no solário. De reservado à classe baixa a sinónimo de saúde e Beleza a alerta laranja (e não estamos só a falar de Donald Trump), o futuro do bronzeado pode ser incerto, mas uma coisa é garantida: há muito que passou das marcas. Fotografia de Jamie Nelson. Realização de Jordan Grossman. 

Há uma linha que separa a “marquinha perfeita” de Erika Bronze das outras marcas. Várias, na verdade. Aliás, o seu nome nem é Erika Bronze, mas sim, Erika Martins – o bronze nasceu como apelido da fama que ganhou ao se tornar a mais famosa personal bronzer do Rio Janeiro, per- dão, do mundo – ou conhece mais alguma personal bronzer? “Onde eu morava não me chamavam de Erika. Diziam ‘a do bronze’. Então eu ficava assim: ‘Gente, o meu nome é Erika, não é a do bronze não.’ Eu tinha raiva, não gostava, eu tinha um nome bonito. Mas depois colou. E aí disse, ‘tá bom’. Erika Bronze”, conta a esteticista brasileira ao telefone.

Se o nome ainda não lhe diz nada, talvez as próximas três palavras ajudem: Anitta. Vai. Malandra. Aquela parte do videoclipe em que Anitta aparece naquele que nos parece um terraço – é uma laje – entre um amontoar de prédios – é a favela do Vidigal – com um biquíni preto – é fita adesiva – enquanto incentiva as malandras a quicar até ao chão? É mais ou menos esse o aspeto da Meca do Bronzeamento, no Realengo, subúrbio do Rio, onde Erika põe em prática a sua arte. Que é bronzear as mulheres. Com a “marquinha perfeita”. As sessões de bronzeamento são marcadas entre as 6h e as 10h da manhã, no “sol depois do meio dia nem pensar, só trabalho no sol da manhã”, e todas as clientes precisam de aplicar protetor antes da exposição. “Todas têm de usar”, realça Erika, que, face às críticas, diz que acabou por educar muitas pessoas fãs de óleo de bebé e outros métodos duvidosos relativamente à proteção solar. “Eduquei mesmo”, garante, “era uma ignorância total”. Depois vem o acelerador – uma mistura de urucum e cacau que até já existe em Portugal – espalhado generosamente pelo corpo e basta recostar-se numa das cadeiras do espaço de 40 metros quadrados que Erika, e as suas assistentes, fazem o resto. Há sumo para quem é de sumo, água para quem é de água, um pequeno chuveiro, e regadores que, de 10 em 10 minutos, refrescam o corpo da clientela. “Como se fossem as minhas flores”, diz carinhosamente Erika. Cada vez que são regadas, as ‘flores’ recebem uma dose extra de protetor solar. “Esse protetor é aprovado pela Anvisa. E agora tem o meu nome”, conta, orgulhosa.

“Eu hoje tenho 35 anos e vivo só do bronze."

Erika Bronze virou marca e até já lançou uma linha de biquínis para ninguém estragar a marquinha perfeita na hora de ir à praia. Não tardou até à laje do Realengo se tornar uma fábrica de bronzeados em série, destaque em publicações internacionais, spa das famosas e um negócio consideravelmente rentável. São 30 mulheres por dia, de segunda a segunda, e Erika faz questão de “montar”, como diz, todas pessoalmente. Primeiro, há um breve questionário sobre a marca que pretende (pode escolher entre asa-delta ou fio dental), tipo de pele, bronze pretendido e depois Erika faz uma espécie de leitura da aura que definirá a forma, tempo e resultado. “Tem coisa que combina com a cliente e tem coisa que não combina. Mas o biquíni de fita, mesmo as mulheres que estão com excesso de gostusora, fica lindo do mesmo jeito.” A ideia é tornar o corpo mais esguio, empinar o bumbum, afinar a cintura ou, em linguagem da laje, lacrar. Ela agarra num rolo de fita isolante com as suas mãos de alfaiate e começa a colar as tiras no quadril, virilha, costas e nos seios durante 10 a 15 minutos (a confeção também inclui gaze e papel higiénico humedecido). “Meu diferencial é que sei desenhar a marquinha perfeita”, e pergunte à famosa Mulher Melancia ou a MC Barbie que dedicou parte de uma letra ao seu biquíni de tape (“Ai droga, desculpa aí se minha marquinha te incomoda”) e saberá (verá) porquê. A técnica surgiu “bem mocinha”, aos 13 anos, quando “matava aula” para aplicar tape nas primas mais velhas que queriam ir para os bailes funk ou para o samba. “Ir para a praia era um custo alto, só para conseguir a marquinha. A gente ficava na laje na nossa caixa de água e dava o mesmo jeito. Não tinha dinheiro para pagar a passagem de ónibus para ir à praia, nem para o biquíni, por isso pegava nas ferramentas dos pais, nos restos de fita que minha mãe usava no Natal para forrar os móveis antigos e fazia as tirinhas do biquíni. Toda menina de comunidade sabe fazer, a diferença é que o meu desenho é perfeito”, insiste. Cresceu, tirou um curso de estética e o boca a boca – o bronze a bronze? – fez o resto.

“Hoje em dia eu tenho um grupo de fãs de todo o Brasil que viraram personal bronzer inspiradas em mim."

“Eu hoje tenho 35 anos e vivo só do bronze. Quando a Anitta fez o biquíni de fita, que ela veio de comunidades em que já havia essa técnica e já me conhecia, explodiu mais ainda. Em três meses já não tinha mais vaga para me agendar. Antes eu morava no espaço, agora moro em outro lugar e a casa que eu tinha virou tudo para o bronze.” Dubai, Miami, Portugal, a marquinha perfeita já colou em corpos de todo o mundo, e apesar dos convites internacionais, Erika ainda não tem sequer passaporte para sair do Brasil. O seu plano futuro é ter uma linha completa de bronze – o próximo produto é de cenoura e coco, adianta, e “e já tem umas quantas famosas que estão me esperando”. “Hoje em dia eu tenho um grupo de fãs de todo o Brasil que viraram personal bronzer inspiradas em mim. Mulheres donas de casa que se inspiraram na Erika Bronze e abriram um espaço de bronze. Essa cultura veio das favelas do Rio de Janeiro, entendeu? Ter marquinha, botar a marquinha por cima das calças, um pouquinho. Eu quebrei o tabu e agora veio para ficar."

O problema é que “veio para ficar” em matéria de bronze sempre foi relativo. Prepare-se para um throwback das favelas do Rio até à Grécia e Roma Antigas e ao período elisabetano, quando ser pálido era o epítome do luxo e Jennifer Aniston seria considerada feia. Visto como um sinal de riqueza dos poucos afortunados que passavam uma vida de lazer em espaços interiores, a tendência “branca de neve” era tão vincada que, além de se pintarem veias azuis no rosto e de o look Gasparzinho ser o mais requisitado, a obsessão culminou nalgumas mortes de donzelas que se autoenvenenavam com produtos branqueadores. A pele bronzeada era um símbolo claro (pun not intended) de que a pessoa trabalhava na rua, e oh-que-horror a elite nunca se poderia misturar com a plebe (quando Elizabeth Bennet, a heroína de Orgulho e Preconceito de Jane Austen, apareceu com uma ou duas sardas depois de um passeio sem chapéu, foi o escândalo, o horror, a devastação). Depois chegou a revolução industrial em 1840 e a classe trabalhadora recolheu-se nas sombras de minas, fábricas e outros cenários livres de raios solares. Em 1890, Theobald Palm afirmou que a luz do sol era crucial ao crescimento dos ossos, um ano depois John Harvey Kellogg (odos corn flakes) inventou o “incandescent light bath” utilizado pelo Rei Eduardo VII para curar a sua gota, e pronto, apanhar sol teve o seu momento como promotor da saúde. E 1923 foi o ano em que o bronzeado se tornou chique.

Conta a lenda que durante um cruzeiro pelo Mediterrâneo, Coco Chanel apanhou um pouco de sol a mais. Quando chegou a Cannes, desembarcou com uma tez dourada e resplandecente e, como em tudo o resto que o ícone de estilo francês fazia, quiseram todos seguir-lhe as pisadas. Foi o nascimento de um novo e acastanhado precedente de Beleza e o início do status do bronze como o conhecemos hoje em dia. Em Terna é a Noite, F. Scott Fitzgerald já descrevia as celebridades deitadas ao sol na Riviera francesa – é que, além de de repente ser fashionable, toda a gente percebeu quão favorecedor era uma pele bronzeada (e era um “esfrega na cara” de “eu tenho dinheiro para férias e tu não” ). “Acho que ela inventou os banhos de sol. Naquela altura, ela inventou tudo”, disse Jean-Louis de Faucigny-Lucinge. O seu look beijado pelo sol lançou uma tendência, mas durante algum tempo foi mais aspiracional do que real. Férias era uma palavra rara, e o começo da Segunda Guerra Mundial também não ajudou à festa. Foi preciso chegarmos aos anos 50 e assistirmos à invenção do primeiro produto bronzeador da história para o planeta ganhar uma corzinha que não o amarelo esbranquiçado. Ao mesmo tempo que o Man Tan chegava ao mercado e o biquíni tirava as medidas aos corpos, os filmes e anúncios a cores trouxeram a realidade do tom da pele – e, dúvidas houvesse, nesta altura já toda a gente assumiu que ficávamos mais bonitos bronzeados. Foi sol de pouca dura. Na década de 70, oficiais de saúde e dermatologistas lincaram o sol ao cancro da pele, o que pode ser má notícia para os banhistas mas ótimas para marketing (bem-vindas camas de solários e autobronzeadores). Digamos que a notícia sobre os malefícios do bronze foi ligeiramente abafada, tanto que os anos 80 foram todos sobre aeróbica e corpos fit, e o que combina melhor com um maillot e meias de ginástica do que uma pele morena? Apesar de o tempo do protetor de cenoura já lá ir (esperemos), o bronze continua a ser um passatempo mundial. Vá de férias e o seu tempo fora do escritório será mais notado (e invejado) quanto mais Geordie Shore for a cor da pele com que regressar. Não consegue bronzear-se? Outra coisa que aprendemos com os Geordies: fake it till you make it.

Organização Mundial de Saúde descobriu que as pessoas que usam instrumentos de bronze antes dos 30 têm 75% mais hipótese de desenvolver melanoma. Sabemos que90% dos cancros da pele estão associados à radiação UV (por algum motivo a definição de bron·ze·a·men·to no dicionário é “Que tem a cor do bronze. Tostado pelo sol.”). Mas só para verem como ligamos mais a êxitos de bilheteira do que a conselhos de médicos especia- lizados, o único momento em que o bronze sofreu um retrocesso estético foi quando o filme Crepúsculo estreou nos cinemas e a Team Edward esgotou as maquilhagens de tons mais claros em busca de uma aparência vampiresca. Claro que também há a questão cultural – por exemplo, as mulheres caucasianas nos EUA, Europa e Brasil normalmente querem parecer morenas, enquanto na China, Coreia e Tailândia optam por uma tonalidade mais rosada. Tanto os homens como as mulheres indianos usam cremes que ajudam a iluminar a tez; é suposto garantirem sucesso nos negócios e no amor, diz um estudo publicado pelo dr. Sarnoff, professor de dermatologia na NYU Langone School of Medicine.

"Então e os solários? “Não trazem qualquer benefício e os seus utilizadores têm o dobro do risco de vir a desenvolver um melanoma.”

Há também estudos que comprovam que as pessoas bronzeadas são vistas como mais atraentes (o que não impediu a Internet de praticar tan-shaming em Ryan Reynolds nos Globos de Ouro de 2017. O mundo é um lugar estranho.) Gostos à parte, “a exposição solar é necessária para o bem-estar físico e psicológico”, diz Paula Quirino, dermatologista Centro de Dermato- logia Epidermis, no Porto e na Dentalderme Essential Aesthetics, na Figueira da Foz, mas (reforço no mas) “para a produção de vitamina D na pele não precisamos de nos expor intencionalmente ao sol e os protetores solares também não impedem a síntese da vitamina D. O risco surge quando o sol é ‘utilizado’ de forma inadequada. Os australianos têm a maior taxa de melanoma do mundo...”. Trocando por miúdos, bronzeado e saudável são palavras que não entram na mesma frase. O bronzeado é uma resposta da pele a uma agressão, a ultravioleta, e “esse efeito cosmético é transitório mas as lesões ao nível celular e no ADN são irreversíveis e cumulativas”. É uma verdade inconveniente para quem está neste momento a acumular biquínis numa mala de viagem, mas é o que temos – maldita Coco Chanel! A solução saudável? Autobronzeadores, que “induzem uma oxidação da queratina, que é a principal proteína da epiderme, conferindo-lhe um tom acastanhado e sem qualquer risco”.Então e os solários? “Não trazem qualquer benefício e os seus utilizadores têm o dobro do risco de vir a desenvolver um melanoma.” As tanning injections? Além de não estarem autorizadas para uso humano, “têm vários efeitos secundários potenciais que podem ser graves”. Cápsulas? “Os suplementos não devem ser utilizados para bronzear.” Está a cair-lhe uma lágrima enquanto lê este final? Não comece já a vestir o seu facekini – “só” temos de evitar a exposição solar nas horas de maior intensidade de índice ultravioleta; utilizar chapéu de aba lar- ga (é por isso que temos a Jacquemus), óculos e roupa escuros (de preto não me comprometo) e utilizar um protetor solar com textura adequada ao local e ao tipo de pele, com fator de proteção entre 30 e 50 para UVB e UVA, aplicado várias vezes. Soa tudo a blá-blá-blá? Não é: “a pele memoriza a agressão e ao fim de alguns anos surgem as manchas, as rugas e os cancros de pele”, afirma Paula.

Dificuldade em lidar com a verdade? Vamos fazer uma das minhas coisas preferidas: jogar ao Preferes.Prefere ter um look bronzeado, passar sete horas no sol a torrar para dali a três meses voltar ao seu tom habitual, só para se ficar a sentir uma Brooke Shields nas fotografias de #férias e ter mais rugas e um possível cancro da pele (olhe que não favorece ninguém)? Ou seguir as regras acima descritas e ter uma probabilidade maior de viver mais tempo, de forma mais sau- dável, mas com a contrapartida de ter de editar as suas fotografias com uma data de filtros antes de as publicar no Instagram? Escolha difícil, eu sei. Se ao menos já tivessem inventado um produto que nos permitisse viver a nossa própria película de 50 tons de bronze sem fazer mal à pele.

 

Ficha técnica
Fotografia de Jamie Nelson
Realização de Jordan Grossman
Modelo: Arina Lush @FordModels
Cabelos: Danilo com produtos Pantene @The Wall Group
Maquilhagem: Lottie com produtos Temptu
Manicure: Stephanie Stone com produtos Chanel
Assistente de Realização: Ava Jones
Produção: Judy Casey, Inc. 

 

 

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