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Zarifa Ghafari: “Quanto mais nos matam, quanto mais nos espancam, mais fortes nos erguemos”

Inspiring Women 30. 9. 2021

Era outra vez

by Sara Andrade

 

Era uma vez uma menina que viveu uma bonita história porque alguém lhe estendeu a mão quando mais precisava. Essa menina cresceu e quis que outras também não tivessem apenas histórias de “Era uma vez” com final infeliz, mas antes um “Era outra vez” digno de contos de fada.

 

Maria da Conceição tem uma história tão épica quanto os feitos humanitários que tem acumulado ao longo dos anos. E cujo ponto de viragem começa logo quando é adotada aos dois anos por uma mulher de Angola: Maria Cristina era refugiada e viúva, tinha seis filhos e ofereceu-se para ajudar a mãe biológica da nossa protagonista, que sofria de um problema de saúde e dificuldades financeiras. Era suposto ser temporário, mas não foi – “quem alimenta seis, alimenta sete”, dizia a mãe adotiva – e esta supermulher, que acabou por criar outra supermulher, ficou imortalizada na Fundação Maria Cristina que Maria da Conceição criou para ajudar outras crianças necessitadas, angariando fundos para que tivessem acesso a educação e outros direitos básicos, tal como em tempos acontecera consigo.“Embora tenha falecido quando eu tinha apenas nove anos, ela é a inspiração por detrás de tudo o que conquistei”, assegura a humanitária. “Ela própria teve de fazer um novo começo muito difícil como imigrante angolana em Portugal”, uma vez que teve de deixar uma vida abastada no país africano e, consequência da morte do marido e de vicissitudes da vida, acabou por ter de trabalhar como mulher a dias para sobreviver financeiramente. “Não teve escolha a não ser aceitar a nova situação e tirar o máximo proveito dela: tinha de fazer o que fosse necessário para sobreviver. Foi um recomeço. Mas apesar de se encontrar numa situação muito pior do que antes, pensava apenas no futuro e em garantir aos filhos uma vida boa em Portugal. Embora fosse pobre e passasse dificuldades, quando viu que eu precisava de ajuda, que a minha mãe não podia cuidar de mim, não hesitou em acolher-me. Mas não era só eu, ela sempre ajudou quem precisava, era conhecida por isso, as pessoas costumavam vir até ela em busca de ajuda. Apesar de ter muito pouco, sempre partilhou com qualquer pessoa. É daí que vem a minha inspiração”. Uma inspiração que serviu de rastilho para que uma escala de 24 horas em Daca, Bangladesh, se tornasse numa missão de vida. O trabalho como hospedeira da Emirates sempre levou Maria da Conceição a muitos destinos, mas mal sabia ela que o destino mais importante era o de um propósito maior: salvar e ajudar crianças locais a terem fados melhores, com acesso a educação, formação, escolhas, opções. “Foi uma grande mudança para mim, estava a desistir de uma vida confortável na Emirates Airlines. Além disso, não tinha nenhum conhecimento ou experiência na constituição de uma instituição de caridade. Tive de aprender tudo do zero. Mas tinha uma visão e acreditei nessa visão, a de ver essas crianças de favela formadas, um dia, em liceus e universidades em todo o mundo”, explica. “Senti que poderia realmente fazer a diferença na vida das pessoas, mas tinha de fazer uma mudança na minha vida primeiro; se realmente queria cumprir a minha visão, eu tinha de mudar o rumo da minha vida e isso significava um novo começo.”

Superou dificuldades e limitações, incluindo – ou acima de tudo – as suas próprias, para o fazer e criar visibilidade para a Fundação em tempos de crise, para angariar patrocínios que permitissem e permitam continuar a dar um recomeço a todas as crianças que ajuda. Não foi à toa que, em 2016, arrecadou o galardão de Mulher do Ano nos GQ Men of the Year Awards. O projeto começou em 2005 e depois foi formalizado como ONG – confessa que quando começou, precisou de ir aprendendo os meandros da coisa e lutar contra alguma desconfiança, bem como superar dificuldades que, na verdade, nunca deixam de existir: “O obstáculo mais constante tem sido o financiamento. Como qualquer instituição de caridade, a exigência de financiamento é essencial e constante, por isso, nunca há tempo para descansar, há sempre novas contas a pagar. Mas talvez as barreiras mais difíceis de superar sejam aquelas na sociedade e na cultura que condicionam as pessoas que tento ajudar. Vivem neste ambiente todos os dias, por isso muitas vezes acreditam nos limites que a sociedade lhes impõe; ouvem todos os dias que são inúteis e não devem tentar ser nada mais do que uma dona de casa ou mão de obra barata, etc. Muitas vezes, o maior obstáculo para mim é torná-las nas pessoas suscetíveis de serem ajudadas, fazê-las compreender ou acreditar que podem fazer melhor.” E lamenta, ao mesmo tempo, que tenha também “uma grande batalha com o governo do Bangladesh, especificamente com o Ministério do Direito e com o ministro das Relações Internacionais. Dizer que tornam a nossa vida tão difícil quanto possível é o eufemismo do ano. Fazem tudo o que podem para impedir que os nossos alunos e familiares tenham uma vida melhor e melhores oportunidades. O seu comportamento é terrível e desprezível, para não dizer mais. Poderia pensar-se que um país que precisa de tanta ajuda acolheria projetos como o nosso, infelizmente não é o caso”.

Por isso, desde cedo aprendeu que o que tivesse de fazer, teria de fazer por si, isto é, ganhar visibilidade através de feitos e achievements que pudessem chamar a atenção para o seu trabalho. Por exemplo, sabia que Maria da Conceição foi a primeira portuguesa a atingir o topo do Evereste? Mas não só: bateu um recorde do Guinness ao correr sete maratonas em sete continentes em 10 dias. Não contente, correu ainda cinco maratonas em cinco dias consecutivos. Em 2016, por exemplo, propôs-se a atravessar o canal da Mancha a nado, que não conseguiu concluir porque as fortíssimas correntes marítimas lhe levaram a melhor, sete horas depois de estar dentro de água. Falhou? Não, tentou o mais que podia e isso não é falhar. Muito menos quando se sabe que Maria da Conceição aprendeu a nadar no ano anterior com o único propósito de se atirar a este desafio. Tudo em prol de facilitar novos começos em realidades demasiado trágicas para concebermos no nosso quotidiano, para chamar a atenção, não para o seu trabalho nem para si, mas para o que é preciso ser feito. E a batalha nunca acaba: “Sim, acho [que estou constantemente a começar de novo], acho que tenho de me reinventar, inventar novas maneiras de chamar a atenção das pessoas, de arrecadar fundos ou obter outros apoios. Quando o projeto era novo, era muito fácil conseguir apoio, mas não fica uma novidade por muito tempo e as pessoas esquecem muito rapidamente. Foi por isso que comecei a fazer os desafios físicos, ainda que não tivesse nenhum histórico desportivo ou habilidade atlética. Primeiro, fiz uma expedição ao Pólo Norte, depois comecei a escalar montanhas, atingi o cume do Monte Evereste passado anos… claro que me trouxe alguma atenção, mas não tanto quanto poderia esperar e rapidamente fui logo esquecida. Depois, comecei a correr e a bater alguns recordes mundiais de maratonas e ultramaratonas, isso teve uma boa cobertura mediática, mas, mais uma vez, as pessoas esquecem logo a história”, resigna-se. “Mas acabei por perceber que é isso que devo fazer, é o que preciso, tenho de continuar a reinventar-me, a recomeçar, se quiser manter as pessoas interessadas na minha história, na causa”. E é isso que está constantemente a fazer cada vez que se depara com uma nova história, um novo enquadramento, uma nova criança, uma nova família. Começa de novo, explica o seu propósito, luta contra a resistência, até dentro das próprias famílias: “muitas vezes, as famílias que ajudo não percebem a diferença e pode levar algum tempo a fazê-las entender que pode haver outras oportunidades na vida além das que enfrentam todos os dias. Quando me cruzo com essas famílias, especialmente com as crianças, onde a maioria das pessoas vê apenas pobreza, eu vejo potencial. Há 16 anos, quando comecei a ajudar estas famílias, demorou até que confiassem em mim, que percebessem que estava a conduzi-las na direção certa, em seu benefício. Agora confiam mais, mas ainda assim, quando realmente têm um novo começo, como uma mudança para o Dubai para estudar ou para Portugal para ir para a universidade (agora temos mais de 30 alunos na universidade, em Portugal) – é um importante novo começo, começas logo a perceber que algumas das coisas mais simples das nossas vidas são extremamente difíceis para eles. Tive de ajudar as famílias em tarefas diárias básicas, como por exemplo, saberem usar uma casa de banho. Estas coisas podem ser divertidas e fáceis, mas o que é difícil é mudar a sua mentalidade para se adaptarem ao seu novo ambiente, [explicar] que não terão sucesso em Portugal ou no Dubai se mantiverem a mesma mentalidade ou a mentalidade que tiveram há anos no Bangladesh. Para realmente fazer um novo começo e aproveitar ao máximo uma nova oportunidade, devemos superar o passado. O passado fez de nós o que somos hoje, nunca nos podemos esquecer do passado, mas temos de ser capazes de pensar o que posso fazer hoje que me tornará mais bem-sucedido amanhã”. E a prova disso são as centenas e centenas de casos de sucesso que hoje têm voz e que não se coíbem de a usar para contar o seu percurso. Como os três que se seguem, há mais, muitos mais, que Maria da Conceição está a compilar num livro intitulado Butterfly Stories, cujas vendas revertem 100% a favor da MCF, mostrando que este processo de renascimento é possível. Possível, mas não fácil: “Acredite, escalar o Evereste, quebrar recordes mundiais, é canja em comparação com o dia a dia de um projeto no Bangladesh”, remata. E não se coíbe de se orgulhar dos accomplishments tanto quanto de apontar as necessidades: “Atualmente, temos 30 alunos em universidades na Europa, dois alunos em mestrado nos EUA e na Austrália; temos pais e mães de crianças, que por aqui passaram, a trabalhar agora em empresas incríveis nos Emirados Árabes Unidos. Temos 22 alunos no Bangladesh a aguardar para irem para a universidade na Europa – e é só por causa da falta de financiamento que não conseguimos enviá-los”.*

Labony Akter, 22 anos

“Trouxe a Labony para o Dubai o ano passado e por aqui tem trabalhado num estágio remunerado na Masood Automobiles”, contextualiza Maria da Conceição. “Também recebeu uma oferta para ir para a Universidade, na Europa, mas decidiu tirar um ano sabático para fazer um pé de meia maior e ir no próximo ano”, remata, orgulhosa. Esta é a sua história.

“A minha vida começou tão dura quanto podia imaginar. A minha mãe biológica morreu no parto e o meu pai biológico era toxicodependente, por isso a minha vida começou no meio da incerteza. A minha avó assumiu a responsabilidade, mas não tinha dinheiro suficiente nem para a nossa alimentação, porque estava doente, e por isso nem conseguia fazer trabalho doméstico por dinheiro. Pedia esmolas e, mesmo assim, só conseguíamos comer uma vez por dia. Fui rejeitada pelo resto da minha família, sempre que a minha avó me tentava arranjar uma casa melhor para o futuro. Os dias passaram-se e nem o dinheiro, nem a comida aumentava. Por isso, um dia, quando tinha dois ou três anos, a minha avó levou-me a casa de uma mulher, que tinha dois rapazes e não tinha meninas. Ela aceitou-me, mas não avisou o marido. E, quando cheguei a essa casa, estavam todos furiosos por ela me ter adotado. Esta mulher, que de alguma forma percebi ser filha da minha avó, conseguiu convencer o marido, mas todos os outros continuavam furiosos. Deram-me o nome de Labony. Não me lembro do meu nome verdadeiro”.

Labony Akter, que significa “graciosa”, foi o nome com que ficou. Nasceu a 1 de abril de 1999 com outra identidade que a memória – ou talvez a vontade de esquecer – apagou. “O meu novo pai costumava fazer biscates e tinha uma família de cinco pessoas para alimentar. Não era a situação ideal para aceitar mais uma boca para alimentar, mas os meus irmãos adoraram-me desde o primeiro dia. Costumávamos passar fome sempre que o final do mês se aproximava”. Na nova família, aos poucos, acabaram por aceitá-la. No entanto, a bonança durou pouco. “Quando o meu irmão mais velho casou e trouxe a nova mulher para casa (passámos a ser seis para o meu pai alimentar), em 2005, já não me queriam lá em casa. A mulher dele não gostava de mim porque descobriu que eu não era filha biológica. Os meus pais não diziam nada. Ela vivia lá em casa, tinha mais direitos do que eu”. Dois anos depois do casamento, tiveram um bebé e eram sete pessoas a viver sob o mesmo teto e “ter comida suficiente para todos era desafiante”. Como se não bastasse, outras desgraças se abateram sobre a vida de Labony. Em 2007, o irmão mais novo morreu num acidente de carro e o pai perdeu o emprego que tinha numa fábrica têxtil. Alguns meses depois, a avó – com quem Labony ainda mantinha contacto – adoeceu. Os pais adotivos tentaram cuidar dela, mas não resistiu e acabou por morrer. A família ficou “inundada de tristeza”. Mas era necessário continuar a viver. Por isso, a mãe de Labony começou a trabalhar “em casas de pessoas ricas” e levou-a consigo. No ano seguinte, surgiu uma luz ao fundo do túnel. A família ouviu dizer que, na Fundação Maria Cristina (MCF), criada por Maria Conceição, era possível estudar, de forma gratuita, e inscreveu Labony. Tinha 8 anos e não sabia ler nem escrever. “Ir para a escola, ser uma pessoa com educação, era o meu sonho. Quando entrei na MCF [Maria Cristina Foundation], tudo mudou. A Maria deu-nos educação, comida, tomava conta de nós, dava-nos tudo. Ela diz que, se acreditarmos em nós, podemos fazer tudo na vida”, conta esta “borboleta”. “Ela mudou a vida de 600 crianças e das suas famílias, e a minha também”.

Labony agarrava-se assim à oportunidade que a vida inesperadamente lhe tinha dado, na expectativa de ter um futuro melhor. E até na família parecia haver sinais de esperança: em 2014, o pai conseguiu abrir “uma pequena loja de chá” e, durante algum tempo, foi “a única fonte de rendimento”. Mas, três anos depois, adoeceu e acabou por morrer. “Depois de o meu pai morrer, a minha mãe teve de gerir tudo sozinha, mas era difícil. Então, comecei a ir com ela para a loja, para ajudar. Só que ouvíamos coisas feias das pessoas porque, no nosso país, uma mulher trabalhar é uma coisa má. Por isso, a minha mãe disse para eu deixar de ir para a loja. Ela não queria que eu sofresse”. Apesar de todas as dificuldades, Labony estava quase a concluir os estudos, quando a sua vida sofreu um novo revés. “Em 2018, tive tuberculose e não consegui fazer o exame final da escola. Perdi um ano por estar doente”. No entanto, com a ajuda da MCF e de Maria da Conceição, Labony completou, recentemente, o 12.º ano e chegou ao Dubai para realizar um estágio numa empresa, em novembro de 2020. “Nunca imaginei que isto me pudesse acontecer: ter um trabalho, este estilo de vida… Ainda não acredito que estou aqui!” Depois do estágio, pretende entrar no curso de International Business Management, em Portugal, e, um dia, “ser uma mulher de negócios de sucesso”. Mas, para continuar a estudar, precisa de apoio financeiro. Talvez inspirada por Maria da Conceição, Labony quis também demonstrar a sua força de vontade. Por isso, em troca de donativos, corre maratonas, faz flexões, pranchas, o exercício físico que for necessário para chegar à meta da educação. A determinação e a resiliência terá herdado da mãe que, apesar do preconceito local, continua no Bangladesh a gerir a loja sozinha. “As pessoas ainda lhe dizem coisas más, mas não podemos fazer nada quanto a isso”, lamenta, resignada. “A minha mãe vive com o meu irmão mais velho, a mulher e os dois filhos. Ninguém trabalha. O meu irmão não gosta de trabalhar. É preguiçoso. Foi sempre assim. A minha mãe é que sustenta toda a gente”. A mãe, com 57 anos, é – para os padrões do Bangladesh e nas palavras de Labony – “muito velha”. “Ela já não tem forças e sente-se mal, mas só pensa que tem de alimentar a família. Se ela não trabalhar, não há comida. Por isso, vai para a loja todos os dias”. A relação de Labony com o irmão “não é boa”. E resume-a em apenas uma frase: “Ele não gosta de mim”. Em contrapartida, a mãe é “tudo” para ela – a maior fonte de apoio, de incentivo, de amor: “A minha mãe é tudo para mim porque me adotou e tomou conta de mim. Tudo o que conseguir na minha vida, quero dar-lhe. Ela está muito orgulhosa de mim por ter chegado onde cheguei. Diz-me para eu não ouvir ninguém, nem as pessoas da minha família, para eu fazer o que for melhor para mim. Sempre me encorajou”. Por isso, Labony confessa, emocionada, que, na sua vida, só duas pessoas importam: “Eu só tenho duas pessoas na minha vida: a minha mãe e a Maria. Se elas não existissem, eu não era nada. São a minha família, o meu futuro, o meu tudo. São anjos na minha vida. Não sou nada sem elas.”

Salma Akter, 20 anos

“O que relato agora foi registado há um ano”, explica-nos Maria da Conceição. “Trouxe a Salma para o Dubai no ano passado para um estágio remunerado na The Qode e ela tem agora os fundos e a oferta para ir para uma Universidade na Europa. Só está a trabalhar no visto. Se tudo correr bem, começa na faculdade agora em setembro”, o orgulho viaja através das palavras que nos escreve. “Esta é uma história com pormenores muito difíceis de digerir. Esta é uma história com pormenores que podem afetar a suscetibilidade dos mais sensíveis. Esta é uma história que precisa de ser contada. Porque é impossível ficar indiferente. Salma Akter nasceu a 24 de janeiro de 2001, em Daca, capital do Bangladesh.

A conversa entre nós começa como se Salma não tivesse nada para contar. Sinto que há uma enorme barreira, defesas, algo que procura proteger, algo que não quer revelar. Fomos conversando ao ritmo dela, devagarinho. Disse-lhe que estava ali para ouvir o que ela quisesse contar. E que, se mudasse de ideias, eu nem sequer escreveria. Porque as pessoas estão primeiro. Ao longo de toda a conversa, Salma esforça-se por ter um sorriso sempre presente. Que esconde uma dor enorme por detrás. Até que a revelação surgiu, numa explosão de choro:

- A minha mãe foi morta por cinco pessoas. Nós tínhamos uma família feliz, apesar das dificuldades. Havia um homem, um amigo da família, a quem a minha mãe emprestou dinheiro, sem o conhecimento do meu pai. Uma semana antes de morrer, a minha mãe teve uma grande discussão com o meu pai e decidiu ir buscar o dinheiro que tinha emprestado. Foi no dia 14 de julho. Achei estranho, porque ela levava o telemóvel com os nossos números escritos num papel. Para que precisava do papel se tinha os números no telemóvel? À noite, estava preocupada e liguei-lhe. A minha mãe disse para eu não me preocupar. Mais tarde, voltei a ligar e o telemóvel já estava desligado. No dia seguinte, a mesma coisa. Até que recebemos um telefonema da Polícia. Tinham encontrado o cadáver da minha mãe. As pessoas que a mataram tinham-na destruído completamente. Enrolaram-lhe o lenço no pescoço, destruíram-lhe os olhos, partiram-lhe as mãos, tinha sangue a escorrer da boca. E não havia ninguém em casa para ir buscar o cadáver. O meu pai tem problemas de coração e, se eu lhe contasse, podia ter um ataque cardíaco. Não sabia o que fazer. Pensei em matar-me.

As lágrimas de Salma irrompem violentamente. É impossível não sentir um aperto no coração, não sofrer com ela. Salma sente-se consumida pela culpa: por não ter feito mais, por não ter podido evitar, por não ter sido ‘forte’.

- Eu tinha algum dinheiro para a minha educação e dei ao meu irmão para ir buscar o corpo. Eu queria enterrar a minha mãe perto da nossa casa, mas o senhorio não deixou. Levei-a para casa da minha avó. Na nossa religião, temos de dar um último banho antes de enterrar o corpo. O cheiro era terrível, os bichos saíam do corpo. A minha avó e duas tias deram-lhe banho. Eu não tive coragem. Sinto-me culpada por não o ter feito. Depois de fazermos os últimos rituais, liguei ao meu pai a dizer que precisávamos de ajuda, que a mãe não tinha voltado. Apenas para ele voltar a casa, em segurança. Eu queria manter o meu pai ocupado, por isso, pedi-lhe para cozinhar enquanto a minha mãe não vinha. À noite, ele começou a perguntar por ela e eu comecei a contar pequenas coisas. Depois disse-lhe que tinha sido morta. De imediato, ele desmaiou e teve um ataque de coração. Pedi a Deus que não me fizesse viver isto duas vezes. Mas o meu pai foi para o hospital e toda a responsabilidade ficou nos meus ombros.

O pai ‘esteve em coma durante três meses’. O irmão, com 16 anos, ‘ficou em choque durante um ano porque foi buscar o cadáver e acompanhou todos os procedimentos’. Salma, durante meses, ‘só bebia água e mal comia’. A partir daqui, a vida mudou. Muito. Salma estudava na Fundação Maria Cristina e ia fazer o exame para o 10º ano. Além disso, costumava dar aulas a uma turma, em part-time, para ter algum dinheiro, mas, depois da morte da mãe, passou a dar aulas a oito turmas para ajudar a família. Tinha de pagar a renda da casa, a comida e os tratamentos do pai. Salma confessa que ‘não tinha tempo para dormir’ porque ‘acordava cedo para ir para a escola, depois ia trabalhar e, quando chegava a casa, tinha de cozinhar’. Até aqui, Salma sempre tinha tido ‘notas máximas’, mas, desta vez, não conseguiu ‘ter A+’. E, apesar de ter ‘tudo nos ombros’, culpabiliza-se por não ter tido melhor nota. Passado um ano, o pai ‘começou a recuperar e voltou a trabalhar numa loja de chá’. A família passou a ter ‘um bocadinho mais de dinheiro’ e Salma conseguiu voltar a ter alguma estabilidade para se dedicar aos estudos, tal como queria. Completou o 12.º ano, em 2020, e a 27 de outubro do mesmo ano foi para o Dubai fazer um estágio através da Fundação Maria Cristina. No Dubai, Salma vive em casa de Maria da Conceição: ‘A Maria é um anjo para mim. Um anjo que veio para me retirar as mágoas e dar felicidade’, diz Salma, emocionada e de sorriso aberto. Salma está ‘muito entusiasmada’ com o estágio. Quer ser Engenheira Aeronáutica ou talvez Engenheira Química. E sonha estudar em Portugal. Para continuar os estudos, precisa de patrocinadores. Se não arranjar, talvez não consiga continuar a estudar.

Salma faz das fraquezas forças. Com uma tenacidade incrível, tem o caminho bem definido e não está disposta a baixar a guarda. Pelo menos, com a maioria. Por baixo daquela capa de mulher irredutível, está uma menina frágil, que sofre com a perda da mãe, que carrega um trauma para a vida. Mas o sorriso prende-se-lhe no rosto e a poucos – quase nenhuns – permite ver o que está por detrás. 'Ninguém me pode quebrar. Sou forte nos meus planos. Vou fazer a minha família feliz'.”

Mazeda Begum

Begum é uma das mulheres que partilham a sua história no livro Butterfly Stories, de Maria da Conceição. Não é uma das meninas que usufruíram da educação orientada pela MCF, mas viu isso acontecer com as suas filhas, que é a mesma coisa – ou ainda melhor. É da seguinte forma que descreve, na primeira pessoa, o seu percurso do casulo a borboleta:

“A minha mãe era empregada doméstica. Desde que nasci, só vi o meu pai sofrer de doença. A minha mãe era a única que trabalhava na família e a nossa situação era péssima. Houve sempre escassez. Por isso, o meu pai teve que organizar o meu casamento numa idade muito jovem”, recorda Mazeda. “A felicidade nunca está escrita no rosto dos pobres. O meu marido era viciado em drogas e conduzia riquexós para ganhar a vida. Mas como ele não trabalha, tive de começar a trabalhar como empregada doméstica. Ele nunca tentava ganhar um centavo para a família. Em vez disso, costumava roubar o meu salário todos os meses; dinheiro que eu tive de ganhar com cada gota do meu suor ao longo dos 30 dias do mês em três casas diferentes. A minha primeira filha, Rahima Akhter, tinha três anos quando o meu pai morreu – e quando ele morreu, deixou as minhas duas irmãs mais novas ao meu cargo. Com a ajuda de ambas, também tive de cuidar da minha mãe idosa com o meu salário. Não há nenhum emprego árduo ou trabalho de qualquer homem que eu não tenha feito ao mesmo tempo que trabalhava como empregada doméstica, mas ainda mal consigo ter o suficiente para nem que seja uma refeição por dia para a minha família. Ainda por cima, um dia, quando estava a voltar do trabalho, vi a minha filha, Rahima, que tinha apenas quatro anos, sentada em frente à mesquita a mendigar por comida. O meu peito ficou apertado e as lágrimas escorriam-me pelo rosto. Eu não tenho palavras para descrever o quanto sofri com aquele momento. O meu marido batia-me a toda a hora, mesmo à frente dos meus filhos. Ele costumava sempre exigir-me dinheiro para comprar drogas e se eu me recusasse a dar, agredia-me novamente.

Tudo isso foi antes de eu encontrar a Fundação Maria Cristina que literalmente salvou as nossas vidas. A Maria aconselhou-me a divorciar-me e agora a nossa vida familiar é pacífica. Eu não consegui arranjar trabalho ao longo de seis meses por causa da pandemia e é Rahima quem tem sustentado a família no último meio ano. Não, ela não está a trabalhar em casas como empregada doméstica. Ela está a trabalhar numa página de negócios online ao mesmo tempo que faz os seus estudos!

Ontem, a minha filha Rahima comprou um saco de arroz, azeite, sal e cebolas. Acredita que esta é a mesma menina que costumava mendigar sentada na porta da mesquita? Ninguém jamais poderia imaginar que ela agora está a estudar na melhor escola de inglês na cidade de Daca e sonha tornar-se médica no Dubai. A menina cuja avó era empregada doméstica, cuja mãe é também uma empregada doméstica, poderia facilmente imaginar-se a ela própria como empregada doméstica também. A minha filha mais nova, Lucky, visitou o Dubai no ano passado e recebeu uma bolsa de estudos numa escola local. As minhas outras filhas, Rahima e Khadiza, foram selecionadas para ir para o Dubai para estágios. A Maria assume todo o tipo de responsabilidades pelas minhas filhas desde que a mais velha tinha quatro anos. Mesmo quando a do meio de repente adoeceu no ano passado, a Maria chegou a Daca de um dia para o outro e providenciou tratamento médico.

Porque não conseguimos assumir tanta responsabilidade pelos nossos próprios filhos, a Maria faz isso por eles. Talvez seja por isso que estas crianças afortunadas adoram chamar-lhe mãe. Estamos, tendo em conta a situação anterior, a viver uma vida muito mais pacífica e certamente uma vida melhor. Mas a minha família não se esqueceu do pesadelo nos primeiros dias. Todos nós somos gratos a Deus e ao projeto Maria Cristina Foundation. Antes morávamos numa casa de papel, agora podemos alugar uma casa por 4.000 taka [cerca de 40 euros]. Agora podemos sonhar. A Maria ensinou-nos a sonhar. Todos os nossos passaportes estão prontos. Eu estou a aprender inglês com a minha filha todos os dias. Imagine-se. As minhas filhas estão a ensinar-me inglês! Dizem que havemos de ir para o Dubai e posso agradecer a todas as pessoas que, ao lado da Fundação, nos ajudaram a acabar com os nossos dias de miséria.”

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