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Honey Dijon: a pista de dança como revolução

Entrevistas 14. 5. 2020

Entrevistas | 560 é o novo 1... 2... 3...

by Sara Andrade

 

...começar outra vez. Ameaçada pelas consequências da pandemia mundial, a Moda portuguesa é também um dos danos colaterais deste novo coronavírus.

© Peopleimages/iStock

A Vogue quis perceber de que forma este surto de COVID-19 afetou os diferentes setores da indústria de Moda portuguesa, da vertente de autor ao retalho, às micro, pequenas e médias empresas/marcas, e para tal auscultou os principais envolvidoe. De designers a associações, não há melhor testemunho do que os daqueles que estão nas trincheiras numa era que teve tanto de inesperado como terá de incerto.

O artigo completo está na Vogue Portugal, edição lançada sob o tema Union, publicada em maio, e as entrevistas na íntegra são para ler abaixo.

ALFREDO OROBIO, Designer de Moda (AWAYTOMARS) | Awaytomars.com

"A Moda é certamente uma indústria de relevância em Portugal, e tem se tornado cada vez mais importante parte do PIB - precisamos, sim, de um trabalho de valorização e incentivo fiscal mais sustentável e menos volátil, mais do que um selo, precisamos de um plano maior para a Moda nacional."

Quais têm sido os principais golpes na marca, consequência do surto Covid-19? Podemos dividir os impactos em dois grupos, os certos e os incertos e colocá-los numa linha do tempo. Os certos, mais tangíveis e mais próximos da nossa realidade, começam com o impacto nas vendas do atacado para lojas de departamento internacionais. Quando a crise do COVID-19 bateu nas nossas portas, estávamos no meio da semana de moda de Paris, onde 80% das nossa vendas são feitas e nas quais o nosso plano de produção de stock e cash flow para os seis meses seguintes se baseia. Deste modo, começam a surgir os problemas de incerteza a longo prazo. Estamos diante de um momento de pausa de consumo que será seguido de um grande pico de demanda assim que a crise acabar? Ou teremos uma curva de recuperação de consumo mais moderada? Estes fatores ficam encaixados no universo da incerteza por que são influenciados por diversas variantes, como por exemplo as medidas governamentais de auxílio que diferem em profundidade de país para país. De uma maneira geral, vivemos numa grande pausa, um limbo de perspectivas. Os impactos dentro da cadeia e da indústria serão sentidos por muitas estações e serão poucas as marcas, fornecedores e industria que conseguirão sobreviver a esta crise. 

Sei que a produção neste momento está parada. O que é que isto significa em termos de criação da coleção e cumprimento de prazos sazonais? As produções estão paradas, mas grande parte dos pedidos também está em “espera” ou foram cancelados. Uma das funções mais arriscadas na Moda é justamente a previsão de stock, já que nunca se sabe o que o consumidor vai querer comprar e se vai querer comprar. Neste momento de incerteza, não existe experiência que supra a incerteza da volatilidade do consumo para os próximos meses, ou anos. Para marcas grandes com um balanço saudável e positivo (caso de muito poucas, INDITEX, H&M) o ajuste será feito na quantidade de inventário dedicado aos meses de calor (coleção que por si só, já é uma coleção não muito rentável) e será ajustado na tentativa de recuperar as vendas nas coleções de inverno, onde o ticket médio e a margem de lucro por produto é maior. No caso das pequenas marcas e fábricas, o problema será um pouco mais complexo e vejo que talvez não haja alternativa a não ser pular (caso consigam sobreviver) uma ou duas estações para o atacado e ao mesmo tempo tentar se reinventar no acesso a canais de venda direta ao consumidor. 

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para a marca? Tudo depende da linha do tempo e da evolução dos factos. Se considerarmos um cenário otimista, tomando como exemplo o modelo chinês que depois de três meses teve a curva de contaminações controlada, o que permitiu abrir fábricas e comércio, acredito que os impactos podem ser mais palpáveis e fáceis de administrar. Claro que termos uma estação perdida, mas ainda teremos tempo de correr para acompanhar o calendário, embora já haja um sinal de que as semana de Moda possam ser todas canceladas. Agora, num cenário mais a longo prazo, numa perspectiva de 3-6 meses, acho complicado as marcas conseguirem sobreviver sem terem nenhum tipo de fluxo de caixa. Acho que mais importante do que os impactos na marca, que serão claros, precisamos olhar as consequências na indústria, no comportamento de consumo, nos modelos de produção, planeamento, logística, etc. Estamos diante de um momento onde o impacto será tão grande que estimulará uma revolução na Indústria como um todo, revolução esta que muito já se falava mas estava sendo deixada de lado por que o modelo que vivíamos ainda funcionava. Queríamos uma industria mais sustentável, mas o modelo do fast-fashion ainda funcionava muito bem para o consumidor. Queríamos uma indústria mais automatizada, mas os salário baixos em países emergentes ainda convinha para marcas. Para mim, esse é o maior desafio e pode ser que seja a grande oportunidade da nossa indústria de se reinventar. Embora possamos enfrentar, sim, o oposto, pode ser que seja um movimento de regressão, se não tomarmos cuidado. 

Que tipo de ações tomou durante a quarentena para manter a visibilidade da marca e fomentar vendas? No nosso caso, como grande parte dos negócios da marca vem através de parcerias com outras marcas, aproveitámos este momento, em que designers e criativos estão em casa, para estimular a produção criativa e incrementar a nossa base de dados. Lançámos uma parceria grande com a marca italiana M Missoni que, justamente, tenta explorar este momento em casa e convida as pessoas a enviarem ideas para produtos que virão a compor a coleção da M Missoni, no futuro. 

Que tipo de ações/estratégia pretende adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso da marca e reverter qualquer impacto negativo do coronavirus? O importante para as marcas agora é não se capitalizar na crise, mas valorizar o que a crise tem mostrado que é importante. As relações entre pessoas e comunidades, o senso de coletividade, ajuda ao próximo. Marcas que conseguirem se conectar com o seu consumidor desta maneira serão lembradas quando a máquina começar a funcionar. A nossa estratégia principal agora é fomentar o trabalho criativo das pessoas, aproveitar este tempo em casa para sustentar a ideia de criação coletiva e usar a nossa plataforma para conectar pessoas do mundo todo.

O pior desta pandemia para a marca? Com certeza é a incerteza de quanto tempo vamos sentir os impactos e a impossibilidade de poder fazer qualquer tipo de previsão e planeamento.  

Enquanto comunidade, que esforços além da marca acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? Acredito que o Estado tem um papel fundamental no auxílio emergente não só para as empresas, como para os cidadãos. É essencial que consigamos, principalmente, deixar aceso o desejo e poder de compra dos consumidores, para que depois possamos focar em ações de consumo nacional e local. Ninguém vai consumir nada se não tiver dinheiro ou se existir o medo da incerteza do futuro. Estamos falando de itens supérfluos, de consumo emocional, e precisamos que o Estado aja de forma consistente para que o lado emocional não seja abalado por muito tempo. 

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Acho que existe sim, até mesmo maior do que em outros mercados. Mas é natural da nossa sociedade capitalista o instinto de sobrevivência. Numa situação de crise como esta, existe uma atenção especial a este facto e marcas e pessoas tendem a ser mais agressivas em estratégias para tentar salvar os seus negócios.  

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? E como poderia ser feita essa unificação da classe? Acho sempre bom pensarmos em estratégias que visem a organização do setor e que possam trabalhar de forma sistemática e organizada com a sociedade e governo. O grande problema é criar mais um nível de burocracia numa indústria que, por sua vez, já tem uma cadeia muito complexa e não transparente. Eu acredito que Portugal deveria aproveitar a vantagem que tem com o seu corpo produtivo de excelência (referência em qualidade) e focar em ser a referência em inovação em sustentabilidade, tanto em tecnologia têxtil (ainda muito pouco nacionalmente) como em métodos de produção automatizada. 

O que sente que falta à Moda Nacional para atravessarmos crises como esta com um sentido de comunidade mais apurado e de forma mais fácil? Crises nunca são fáceis de atravessar. São momentos de reavaliar o que tínhamos como certo e tentar criar novos planos que possam ou não evitar futuras crises. A Moda é certamente uma indústria de relevância em Portugal, e tem se tornado cada vez mais importante parte do PIB - precisamos, sim, de um trabalho de valorização e incentivo fiscal mais sustentável e menos volátil, mais do que um selo, precisamos de um plano maior para a Moda nacional. Um planeamento estratégico da indústria como um todo que possa ser implementado de forma consistente e que não seja impactado pelas mudanças de ideologia governamental. 

CONSTANÇA ENTRUDO, Designer de Moda | Constancaentrudo.com

"Acredito que uma das consequências desta situação será a elevação dos valores em torno da sustentabilidade, e a cultura materialista será ainda mais questionada, assim como o excesso de consumo e a práticas comerciais e de produção irresponsáveis. Acredito que isto possa vir a ser uma oportunidade para as marcas pequenas se evidenciarem e as grandes se reinventarem."

Quais têm sido os principais golpes na marca, consequência do surto Covid-19? Houve uma primeira fase - durante as primeiras semanas da quarentena- em que tudo estava “congelado” e numa enorme expectativa de saber o que seria o futuro e por quanto tempo esta situação se prolongaria. Durante essa fase, passei os dias entre o studio e casa, a fazer pesquisa e trabalhar em novas técnicas de produção de tecido, desenhar, fazer cerâmicas,… Ao longo deste tempo tenho publicado nas redes sociais este processo. O resultado tem sido interessante, pois sinto que tem havido uma grande aproximação das pessoas à marca e, consequentemente, as vendas têm vindo a aumentar. É só mais um sinal de que moda precisa de “tempo” e de um profundoslow down.

Sei que a produção neste momento está parada. O que é que isto significa em termos de criação da coleção e cumprimento de prazos sazonais? A produção não está 100% parada. No entanto, a maioria dos prazos está a ser reajustada tanto entre as marcas e os seus clientes, como entre as lojas e as marcas. Sinto que todos estão a mostrar-se flexíveis e algo tolerantes uns com os outros. Novas alternativas mais seasonless estão a ser apresentadas, algo que me agrada bastante e vai ao encontro da filosofia da minha marca.

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para a marca? Esta pandemia afetará a economia a uma escala global, isso é certo. No entanto, acredito que uma das consequências desta situação será a elevação dos valores em torno da sustentabilidade, e a cultura materialista será ainda mais questionada, assim como o excesso de consumo e a práticas comerciais e de produção irresponsáveis. Acredito que isto possa vir a ser uma oportunidade para as marcas pequenas se evidenciarem e as grandes se reinventarem.

Que tipo de ações tomou durante a quarentena para manter a visibilidade da marca e fomentar vendas? Temos trabalhado em várias ações nesse sentido, como por exemplo realizar visitas virtuais ao studio, onde os clientes podem esclarecer questões sobre as peças que querem comprar e conhecer melhor o processo por detrás delas. Estas visitas estendem-se também a pessoas interessadas na marca, estudantes de Moda que precisem de alguma orientação ou, simplesmente, pessoas que precisem de alguém para falar. Outra ação que teve uma boa aceitação por parte do público, foi a nossa campanha de primavera/Verão 2020. Juntamente com o fotógrafo Nuno Vieira e com a stylist Lauren Kennedy Malpas, decidimos fotografar (ou capturar) a campanha através do Zoom. Desta maneira, fotografámos a modelo Sofia Leitão no seu quarto, da forma mais natural e intima possível. Estamos também a desenvolver uma newsletter onde pedimos a pessoas de áreas diferentes (chefes, padeiros, DJS, artistas plásticos, poetas, bartenders,..) que criem algo inspirado num tecido de uma das coleções. Os resultados têm sido interessantes e alguns até inesperados. Confesso que me têm feito olhar para o meu trabalho de uma perspetiva completamente diferente.

Que tipo de ações/estratégia pretende adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso da marca e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? A estratégia que tínhamos definida para a marca no inicio de 2020 está a sofrer algumas alterações durante este mês, de forma a adaptar-se a esta situação (algo) imprevista. Como exemplo, a aposta no online intensificou-se e estou a trabalhar em coleções cápsula de tecidos para diferentes propósitos: interiores, máscaras, vestuário…

O pior desta pandemia para a marca? Pode parecer uma redundância mas, sinceramente, o pior desta pandemia é a sua dura realidade. Tudo o resto, recompor-se-á, com maiores ou menores danos.

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? Sim. O meu processo criativo funciona muito na base da reflexão e da pesquisa. Esta quarentena tem-me dado a oportunidade de voltar a algumas ideias que tive no passado e explorá-las com maior intensidade.

Enquanto comunidade, que esforços além da marca acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? Nesse aspeto, sinto que a área da cultura está a ser bem apoiada pelo Governo, dentro do que é possível. Penso que cabe-nos também a nós, designers, criar uma maior união de forma a encontrar novos apoios para enfrentar esta situação.

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Sim, há. Mas acredito que podia haver mais. Muito mais. A ModaLisboa, por exemplo, trabalha muito bem nesse aspeto e procura sempre apoiar-nos. No entanto, confesso que sinto um maior apoio e sentido de comunidade no mundo da Arte do que no da Moda.

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? E como poderia ser feita essa unificação da classe? A assertividade de uma Moda Nacional faz todo o sentido. No entanto, eu penso que se há coisa que esta pandemia nos trouxe, foi uma unificação global da moda. O mundo inteiro está a deparar-se com as mesmas limitações e problemas. Por esse motivo, acredito que esta é a altura certa para pensarmos num selo único para a Moda global e não apenas a uma escala nacional. Digo isto porque, a História já nos mostrou várias vezes que, quando elevamos "o Nacional" em demasia, ficamos muito focados em nós mesmos e acabamos por criar certas barreiras à nossa volta.

O que sente que falta à Moda Nacional para atravessarmos crises como esta com um sentido de comunidade mais apurado e de forma mais fácil? Sinto que há uma enorme falta de dinamismo e positivismo por parte das instituições, imprensa, em tudo o que está ligado à Moda. São tantos os criativos confinados nas suas casas com um enorme potencial para mostrar o seu talento que acredito que podia também partir da parte da imprensa ou das várias instituições com alguma visibilidade e audiência em Portugal, para criar iniciativas que ajudassem a promovê-los.

HUGO COSTA, Designer de Moda | Hugocosta.pt

"Passa muito pela reeducação do consumo, para uma valorização dos produtos nacionais e, talvez, apelarmos a algum associativismo entre marcas e designers nacionais, para nos tornarmos mais dinâmicos e interessantes para o público em geral."

Quais têm sido os principais golpes na marca, consequência do surto Covid-19? Nós ficámos sem a nossa apresentação sazonal, o que condiciona quanto ao tipo e quantidade de conteúdos que temos. Por outro lado, também nos encontramos condicionados quanto à fotografia de uma campanha... em relação a produção, colocámo-nos em lay-off porque todo o nosso estúdio, que inclui serviços de design para outras empresas e fotografia, teve uma quebra abrupta nos serviços. O nosso foco é manter os postos de trabalho que temos.

Sei que a produção neste momento está parada. O que é que isto significa em termos de criação da coleção e cumprimento de prazos sazonais? No nosso caso, estamos a aproveitar para ajustar o trabalho para um see now buy now, logo após o lançamento da loja online em que estou a trabalhar nesta fase. Vamos manter apresentações sazonais, mas queremos desenvolver peças continuamente para ter uma plataforma mais dinâmica e apelativa.

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para a marca? Nós temos uma estrutura pequena e flexível, que nos permite ajustar com alguma flexibilidade. O que realmente me preocupa é em que estado ficará a nossa economia e de que forma vai condicionar o consumo. O poder de compra em Portugal já é muito débil e uma crise destas, que vai muito além de uma crise financeira, vai provocar muitas dificuldades as pessoas. Espero que sirva para despertar os consumidores para o produto nacional.

Que tipo de ações tomou durante a quarentena para manter a visibilidade da marca e fomentar vendas? Neste momento, em lay-off, fica difícil fazer muito. Vamo-nos tentando manter ativos nas redes sociais e estamos a trabalhar em backoffice numa loja online, simples e funcional. 

Que tipo de ações/estratégia pretende adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso da marca e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? Claramente, colocar em prática os planos de nos direcionarmos inteiramente para o mercado digital, que já estava planeado e que já leva algum tempo de atraso na sua execução.

O pior desta pandemia para a marca? Não ter apresentado a coleção e parar.

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? O que de bom há, vai muito além da marca. As pessoas reinventaram formas de aproximação, de comunicação. Vemos artistas a reinventarem-se. Sinto que, apesar de distantes, as pessoas estão mais próximas umas das outras.

Enquanto comunidade, que esforços além da marca acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? Passa muito pela reeducação do consumo, para uma valorização dos produtos nacionais e, talvez, apelarmos a algum associativismo entre marcas e designers nacionais, para nos tornarmos mais dinâmicos e interessantes para o público em geral. Precisamos entender que a maioria da população nacional não conhece mais do que um ou dois designers/marcas nacionais. Isto é uma questão cultural!

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Não deixamos de ser criativos, individualistas e egoistas. Incluo-me nesta descrição. A perspetiva tão própria e individual do design de moda, faz com que haja alguma afastamento criativo. Mas eu adorava colaborar com outros criadores nacionais, numa espécie de cruzamento de ADN de marca. 

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? Acho que nunca é tarde para defendermos, juntos, as marcas/criadores, e promover junto do consumidor final, parece-me o melhor dos caminhos. As associações que nos promovem fazem bastante por nós. Cabe-nos ser pró-activos e propor novas formas de fazer as coisas, as ideias têm que vir de todos para se tornarem de todos.

JULIANA BEZERRA, Designer de Joias | Julianabezerra.com

"Podia ser interessante criar uma plataforma digital que reunisse marcas portuguesas que partilhassem os mesmos valores e o mesmo universo estético. Há portugueses a desenvolver projetos muito criativos e especiais e a possibilidade de ter uma montra para o exterior é sempre uma oportunidade de expansão e desenvolvimento para as marcas, principalmente as que têm menor dimensão."

Quais têm sido os principais golpes na marca, consequência do surto Covid-19? A principal consequência direta deste surto foi a queda das vendas, resultado do encerramento da nossa loja física em Lisboa. Também a produção foi afetada, porque todo o processo é mais lento, uma vez que todos os trabalhadores e colaboradores da marca estão em isolamento. Alguns dos nossos fornecedores fecharam portas e outros estão a trabalhar a 50%, o que vem mudar drasticamente a forma como estávamos habituados a coordenar o nosso próprio trabalho. 

Sei que a produção nas fábricas neste momento está parada. Isso afeta-a, de algum modo? O que é que isto significa em termos de criação da coleção e cumprimento de prazos sazonais? Na verdade, afeta bastante a nossa produção, ainda que esta seja feita internamente, no nosso atelier. Até agora conseguimos contornar este problema através dos nossos stocks de peças e materiais, mas a produção da nova coleção está atrasada e as colaborações que estavam pensadas e programadas também ficaram em stand-by

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para a marca? Neste momento, é difícil prever as consequências da pandemia a longo prazo - não só para as marcas, como para o mundo. Mas acredito que o país vai sair rapidamente desta crise. A nova geração é muito empreendedora e mutável, com uma grande capacidade de se adaptar às mudanças e a novas situações. 

Que tipo de ações tomou durante a quarentena para manter a visibilidade da marca e fomentar vendas? Tenho procurado criar conteúdos online que interessem aos seguidores da marca. Publico diariamente fotografias das peças, mas também novas imagens e pequenos vídeos que ensinam a cuidar das peças, que mostram o que fazer para que a prata não oxide ou para que o banho de ouro não desapareça. Também estou a relançar peças ‘antigas’ da marca, alguns dos clássicos preferidos das nossas clientes, o que tem dinamizado as vendas e obriga a marca a reinventar-se. 

Que tipo de ações/estratégia pretende adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso da marca e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? É fundamental pensar em novas formas de criar visibilidade para a marca, possivelmente através de parcerias com outras marcas ou pessoas com quem nos identificamos e partilhamos valores. Esta experiência prova que é também essencial aumentar a disponibilidade para os nossos seguidores nas redes sociais.  

O pior desta pandemia para a marca? O encerramento do atelier, a diminuição das vendas, a lentidão na produção e distribuição das encomendas. 

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? Sim, há um lado positivo. Por estar em casa, onde tenho a maioria dos meus estímulos criativos, tenho conseguido desenvolver vários projetos e ideias que estavam adormecidos.  

Enquanto comunidade, que esforços além da marca acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? Acredito que não só as marcas como também as pessoas com maior influência nas redes sociais podem fazer um esforço para apoiar nomes portugueses, as pequenas empresas que precisam de uma alavanca nesta fase difícil.    

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Acredito que sim e tenho sentido um enorme apoio de outras marcas e designers que têm partilhado o meu trabalho. Sinto que esta partilha tem aumentado bastante o número de seguidores no Instagram e está a chegar a novos públicos. 

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? E como poderia ser feita essa unificação da classe? Podia ser interessante criar uma plataforma digital que reunisse marcas portuguesas que partilhassem os mesmos valores e o mesmo universo estético. Há portugueses a desenvolver projetos muito criativos e especiais e a possibilidade de ter uma montra para o exterior é sempre uma oportunidade de expansão e desenvolvimento para as marcas, principalmente as que têm menor dimensão.  

O que sente que falta à Moda Nacional para atravessarmos crises como esta com um sentido de comunidade mais apurado e de forma mais fácil? Ninguém se lembra de passar por uma crise como esta. É um momento de luto - a saúde de todos está comprometida, não só em Portugal como no mundo. A iminência da doença e da morte recupera a humanidade em nós. Nesta fase, a economia deixou de ser uma prioridade. Ainda assim, acredito que podemos retirar lições e aprender com todas as situações difíceis. Vamos sair desta pandemia mais preparados para crises futuras, mais conscientes do que é verdadeiramente importante. É essencial que a indústria de Moda também absorva estas mudanças e tenha um comportamento mais consciente, em relação ao ambiente mas também nas relações humanas. Acredito que este sentido de comunidade foi fortalecido e que nos vai ajudar a reconstruir o futuro.

LUIS BUCHINHO, Designer de Moda | Luisbuchinho.pt

"O mundo tinha tanta oferta, tanta oferta, tanta oferta, que estava a destalorizar completamente a coisa. Deixou de ser uma coisa valorizável, passou a ser uma coisa banal. E Moda não é banal. Moda é uma coisa especial, é uma coisa que demora a fazer, que custa a fazer e que é preciso ter uma cabeça muito particular para o fazer."

Qual tem sido o maior impacto desta pandemia na tua marca? A pandemia aconteceu justamente numa época de transição. E o que é que eu chamo de uma época de transição? Nós tínhamos acabado de apresentar o outono/inverno'20/21, na ModaLisboa, estávamos ainda a terminar as vendas desse mesmo inverno. Ainda nos faltava, mais coisa menos coisa, 40% dos clientes, estávamos mais ou menos a pouco mais de meio, e estávamos a terminar as entregas do verão'20. O que é que isto deixou para já: deixou vendas incompletas de uma estação, deixou uma parte significativa da mercadoria de verão'20 por entregar, e significou a minha loja física parada. Completamente fechada. Isso significou também que todos os clientes que receberam mercadoria, tanto nacionais como internacionais, têm uma coleção com uma estação em que a porta da loja está completamente fechada. Eu acho que o efeito mais grave desta pandemia ainda vai acontecer. Porquê? Porque as pessoas vão começar a ter faturas vencidas e muito provavelmente não vão ter verba para efetuar os pagamentos e, neste momento, há uma incerteza tremenda em produzir ou não a próxima estação. Porque nós, neste momento, não fazemos ideia como vão estar as lojas, se vão estar lojas, e eventualmente se teremos ou não um segundo surto no outono. Ninguém tem certeza de nada neste momento. Portanto, eu não vejo um panorama muito animador. Vejo um panorama em que toda a fonte de despesa vai continuar a existir e vai haver um congelamento praticamente total de toda a fonte de receita. Eu neste momento estou a trabalhar numa maneira para que o online se processe de uma maneira mais ágil, com mais material, mais imagens, mais fotografias, vamos fazer uma campanha… não sei se neste momento, para as pessoas, estando em casa, faz parte das prioridades delas terem roupa nova no armário, pelo menos para mim, não faz muito sentido. Obviamente que, com o avançar da carruagem, há coisas que eventualmente começam a falar outra vez connosco, mas neste momento parece-me que roupa, ou Moda, não é algo que esteja propriamente no imaginário das pessoas, com todas as incertezas e com o panorama negro que se pinta. O que eu acho é que, neste momento, nós temos que levar isto dia a dia, semana a semana; eu estou neste momento a desenhar o verão'21, que era o que estaria a fazer há um ano, porque é a altura de começar a fazê-lo, não é? Não sei se o vou fazer, ou se vou fazê-lo nos moldes em que o fazia, que fiz a vida toda. Com este ritmo das estações a acontecer, não será: em agosto e setembro, entrega-se o inverno, em setembro e outubro apresenta-se o verão da estação seguinte… eu acho que isso tudo, pelo menos a curto prazo, não vai acontecer mesmo, nesta estação. Acho que o que vai ter que acontecer é que as pessoas vão ter que rentabilizar o que têm dentro de portas, tanto os fornecedores como os clientes, e isto eventualmente poderá passar por não produzir muita coisa - ou praticamente nada. Eventualmente haver uma rentabilização das coisas que estão paradas, olhar para as coisas com um olhar novo, porque elas não são propriamente lixo, são pura e simplesmente roupas que pertenciam a um ritmo de coleções que se calhar agora, pelo menos nesta fase e por um bom par de estações, no mínimo duas ou três estações, diria eu, vai ter que ser feito de um modo completamente diferente daquilo que estávamos habituados a vida toda. Acho que esse é que vai ser o grande paradigma. Como é que essas mudanças se vão realizar? Eu não consigo prevê-las, porque acho que depende muito da evolução da pandemia… Da mesma forma que não estávamos à espera disto, não estamos à espera de muita coisa que ainda vai vir por aí. Acho que é completamente imprevisível. Dou-te um exemplo, eu estou a desenhar o verão'21 e está a ser a coisa mais abstrata do mundo. Porque eu não me consigo situar em termos de consumidora de Moda de autor daqui a um ano. Eu não faço a mínima ideia sequer se essa mulher vai existir. Ou o que é que vai na cabeça dela, portanto, situar-me em termos de conceito de coleção, é uma coisa dificílima. É uma incógnita, é um ponto de interrogação total. Eu estou a fazer porque, pronto, porque também tenho de continuar com algumas rotinas, obviamente, sim.

O pior ainda está para vir? Sem dúvida. Nós temos que voltar para a rua. Mesmo. Eu estou a falar um bocadinho de cor porque não é a minha área, mas o sistema nacional de saúde pode implpodir com esse regresso, mas se não houver esse regresso, implode tudo o resto. É tão simples quanto isto. Eu daqui a dois meses, não tenho dinheiro para pagar ordenados. É tão simples quanto isto. E tenho que fechar a empresa. Tenho que abrir insolvência. Eu e milhões de outras empresas à minha volta.  

E estamos a falar de uma marca estabelecida como a tua, há outras mais pequenas que abriram agora… Mas que também não têm a minha estrutura. O meu problema é que a minha marca subsiste sazonalmente. Não tenho um capital de risco que me possa aguentar a marca durante um ano sem ela estar a vender. A marca ou vende sazonalmente ou a marca acaba, é muito simples. Eu não sei se daqui a duas estações, ainda estou a vender roupa. Não faço a mínima ideia. A probabilidade de isso não acontecer é gigantesca.

Achas que há muitas marcas nacionais que vão ficar pelo caminho? Acho que há muitas marcas mundiais que vão ficar pelo caminho. Não tenho a menor duvida. Eu acho que em relação à Moda nacional, moda de autor, que é aquela que essencialmente estamos a falar, é uma Moda que não está tão dependente do comércio. Porque a maioria, como tu sabes, não faz revenda daquilo que apresenta. Acho que o problema aqui está para as pequenas e médias empresas, não está para as micro. Porque são as empresas que têm as estruturas mais fragilizadas, porque são estruturas que sobrevivem muito daquilo que produzem para continuarem a conseguir produzir.

Que tipo de ideias e estratégias tens adotado para tentar contornar o pior disto tudo? Eu vou essencialmente apostar em marketing digital, que é algo que eu ainda não tinha feito. Que, aliás, é uma lacuna que eu acho que temos a nível de Moda nacional em termos generalizados. Há uma ausência muito grande a nível de estratégias de marketing. Nós continuamos todos a ser estruturas muito pequenas, com muito pouca desenvoltura nesse sentido e, neste momento, já tenho pouco a perder, por isso, vamos apostar nisto, vamos contratar alguém que trate disso de uma maneira mais agressiva e vamos ver quais são os resultados que temos disso. Eventualmente, é uma coisa que pode ficar feita e agilizada para o futuro, não é? O que eu acho em relação às pessoas começarem a preferir moda de autor, eu vou dar-te um exemplo: o ano de 2019, em termos profissionais, foi o ano mais deprimente da minha vida. Estou com 30 anos de carreira, agora, 2019 foi o 29º ano, e foi um ano com a sensação que as coisas estavam mal e eu não sabia sequer explicar bem porquê. Enfim, foi um ano em que as coisas também não estavam a correr bem financeiramente, mas eu acho que nós estávamos com uma saturação, assim, de tudo, tremenda. Toda o modo como a cultura de Moda funciona hoje em dia, com a quantidade de marcas, a quantidade de desfiles, a continuidade de pré, e pós e durante coleções, aquela história toda dos Instagrams a bombardearem-te com publicidade e com influencers e não sei que mais… eu acho que de certa maneira, a internet e a velocidade foi uma coisa que matou a Moda. Por exemplo, eu antes consumia Moda de uma forma muito ávida. Eu tinha expectativa naquilo que iria ser a próxima estação. E comecei a ficar - achei que era uma coisa da idade, mas acho que afinal não é -, fartíssimo de Moda. Fartissimo. E eu nem a consumo muito. Agora, quem consome, aquele bombardear absurdo de informação, de mais roupa, de mais coleção pré, e durante a estação, eu acho que é uma loucura, e o mundo não precisa disso. O mundo tinha tanta oferta, tanta oferta, tanta oferta, que estava a destalorizar completamente a coisa. Deixou de ser uma coisa valorizável, passou a ser uma coisa banal. E Moda não é banal. Moda é uma coisa especial, é uma coisa que demora a fazer, que custa a fazer e que é preciso ter uma cabeça muito particular para o fazer. E eu acho que o mundo da Moda, com o evoluir das coisas, deu às pessoas e a si próprio, a ilusão que tudo era, para além de ser fácil de fazer, enfadonho, porque havia muito. De tudo. E eu acho que isso é uma coisa que tem mesmo que mudar. Nós temos que aprender a valorizar a Moda novamente, como valorizávamos nos anos 80 e 90. Tu devoravas aquelas imagens até ao osso. Qualquer coleção que saísse, tu ficavas completamente presa a ela e tu lembravas-te dessa coleção; hoje em dia, não te lembras de nada. Passado um ano, tentas lembrar-te da coleção deste ou daquele, não te lembras de nada. Porque já te passou um camião de milhares de coleções por cima ao longo desse ano. E eu acho que isso é uma coisa que tem que mudar. A Moda tem que voltar a ser especial, porque a Moda deixou de ser especial. E passou a ser rápida, e a Moda não tem de ser rápida. Nós não somos rápidos.

Achas que esta pandemia veio obrigar a repensar um pouco esses ritmos, essa rapidez, obrigou a aguçar a criatividade? Acho. Acho que é obrigatório que isso aconteça. Acho que isso já era uma queixa, o inconsciente coletivo tem muito poder sobre a energia universal. As coisas depois materializam-se. A sustentabilidade materializou-se da pior forma possível, mas materializou-se. E não se falava de outra coisa o ano passado, para o verão'20. Não queríamos sustentabilidade? Ei-la, o planeta está ótimo. 

Mesmo o que estavas a comentar de se ter que usar o que se tem e reinventar o que já existe dentro de portas, a Moda vai ter muito que subsistir através do upcycling… Acho que a Moda de autor já faz muito isso. Quando trabalhas com uma empresa pequena e com uma coleção muito particular, tu tens muito pouco espaço para desperdício, porque desperdício é dinheiro deitado fora. Ou seja, nós já estamos muito habituados a olhar para materiais que se calhar já usámos e a voltar a usá-los de uma maneira diferente, eu fiz muito isso este verão, esta minha estação tinha muito de reutilização de tecidos estampados com estampados novamente por cima, eram tecidos lisos que levavam induções de foil e eram plissados… mas eles já existiam, já há muito essa preocupação, que eu acho que é uma preocupação que tem que haver. Nós temos que valorizar os recursos que nos são dados, porque o planeta não tem recursos infinitos. Nós temos que valorizar conseguir recuperar um tecido que foi um tecido que nos custou bastante dinheiro e se nos sobrarem 3 ou 4 metros daquele tecido, esses 3 ou 4 metros têm que ganhar forma, novamente, não podem ficar lá encostados num rolo. Não devem ficar encostados num rolo. E é isso que temos que começar a valorizar cada vez mais. 

Que esforços devem ser feitos, além da marca e do próprio designer, para ajudar a salvar a Moda nacional? Acho que o público tem que comprar mais português, mas eu isso sempre achei. Acho que a Moda vai ser um dos tentáculos que o Governo vai ter que sustentar, que vai ter que apoiar de certa maneira, não sem muito bem como. Acho que temos tempos muito delicadas a vir por aí fora e nós não vamos ter dinheiro infinito, vamos ter que ter consciência disso. Porque agora estamos todos muito solidários, mas daqui a uns tempos quando for preciso começar a pagar contas, eu não acredito que essa solidariedade se vá manifestar assim tanto. Este dinheiro vai ter que sair de algum lado. E normalmente quando sai, sai do contribuinte. Não vamos ser líricos. De uma maneira ou de outra, vamos ser nós a pagar isto. Ponto final. Por isso, é mesmo bom que tenhamos algum apoio para continuar a pagar, porque eu já pago isto, enquanto pequena empresa, mensalmente. Isto e tudo o resto que estava para trás, eu já tenho dividendos para com o país, porque já tenho empregados, pago impostos, tenho responsabilidade social, etc, etc, etc. Nós vamos ter que ajudar, mas também vamos ter que ser ajudados. O dar as mãos e o compreender e o ouvir e perceber como é que a situação se está a desenrolar é, mais do que alguma vez foi na vida, essencial. As revistas de Moda como a Vogue, por exemplo, têm que começar a falar muito sobre os criadores nacionais e sobre aquilo que se está a passar, e começar a divulgar mais os designers de Moda nas reportagens que fazem na revista, nos artigos online, etc, etc, porque isso é uma validação. As pessoas precisam de validação, e as pessoas quando estão validadas, o consumidor adere. Eu preciso de ser ouvido e preciso de ser visto. Eu e os meus colegas. Isso é bom - e isso tem que acontecer mais. E isto é uma conversa que eu estou a ter há anos e não tem a ver com Covids: nós precisamos de uma organização, que podia ser o MUDE, por exemplo, a fazer a Collezione sazonal das coleções portuguesas. Tu não tens maneira de consultar uma coisa que aconteceu noutras estações. Por exemplo, coleção de Buchinho 2002, não vais encontrar uma imagem. Podes googlar à vontade, não vais encontrar uma imagem. Pode ser um site, mas eu acho que tem que haver um elemento físico. Tem que haver uma revista, uma enciclopédia com as coleções de toda a gente, Portugal Fashion e ModaLisboa. E se nós estamos há anos a tentar incutir uma cultura de Moda em Portugal, como é que um miúdo que agora acaba a escola se vai inspirar no meu trabalho? Onde é que ele o vai consultar? Eu tenho no site, mas os seis últimos anos. Já não é mau. Mas ele se quiser consultar os meus anos 2000, ele não tem como. Não vai encontrar uma imagem. Por exemplo, um parisiense quer consultar Yohji Yamamoto quando chegou a Paris, e tem documentação. Tem documentação. Foi em 1985. E tem ali a coleção dele. Em algum sítio há-de estar. E eu acho que nós devíamos ter as nossas. Já que não começamos, é uma altura para se começar a fazer esse género de coisas, agora. Nós é tudo uma questão de valor. Valor acrescentado. E se não tivermos isso feito pelo nosso próprio país, pelo nosso berço, nós dificilmente avançamos em qualquer outro ramo, porque repara: as pessoas que estão validadas de valores nacionais e que estão validadas internacionalmente tiveram plataformas internacionais. Os Marques’Almeida partiram de Londres, não partiram do Porto; o Felipe Oliveira Baptista partiu de Paris, não partiu de Lisboa. Nós não temos injeção de capital. Nós o que temos são duas entidades que promovem o desfile de Moda. Que também é necessário, não estou a questionar isso. Mas o apoio à Moda Nacional é, pura e simplesmente, um apoio na apresentação. E depois não tens a agilização para tudo o resto. Por exemplo, queres fazer um plano de marketing, eu não sou de marketing, eu vejo-me grego para fazer aquilo. É como fazer a gestão financeira da firma: eu tenho uma contabilista, mas eu não sou gestor financeiro… eu faço contas à merceeiro - o que está para entrar e o que está para sair. Com um bloquinho de papel e uma calculadora ao lado. Agora, eu sou um designer de Moda. Que já se desdobra em milhões de outras coisas para poder continuar com o trabalho que gosto de fazer. Mas não sou especialista naquilo. 

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Eu acho que os criadores de Moda têm uma relação muito boa, entre si. Ainda não o é, mas pode eventualmente vir a tornar-se uma relação de empreendedorismo, ou de sindicalismo, se o quisermos dizer, mas acho que têm uma relação de amizade uns para com os outros. Acho que nós nos damos bem. Acho que gostamos de falar uns com os outros, gostamos de partilhar opiniões. Acho é que ainda não levamos isso para um plano mais institucional. 

É uma boa altura para se pensar nisso? Um selo nacional? Acho que é uma boa altura para se pensar nisso. 

E como é que achas que esta unificação pode ser feita? Acho que eventualmente teria que ser um organismo externo. Acho que poderia partir de nós, obviamente, mas acho que nós, conhecendo o funcionamento mental de toda a gente, não vamos conseguir ter estrutura nem agilidade para conseguir manobrar… nem paciência, porque temos muitas outras coisas para fazer, para ainda estar a gerir uma espécie de… não lhe queria estar a chamar de sindicato, mas pronto, uma organização que lidasse com os interesses e com os problemas dos designers nacionais. Acho que eventualmente teria que ser alguém de fora, que fosse auscultada pelos designers. Uma associação mesmo à séria. Um sindicato. Vamos dar-lhe o nome correto.

O que é que falta à Moda nacional para ultrapassarmos este género de crises com um sentido mais apurado e de uma forma mais fácil? Acho que falta a Moda Nacional estar associadas a empresas que sejam detentoras de um capital social muito mais elevado e que pudessem suportar não só isto… ter as nossas LVMHs, basicamente. Não sei exatamente quem é que poderia ser, no caso nacional, porque não temos exemplo de nenhuma, mas teria que ser por aí.

LUIS ONOFRE, Designer de Moda e Presidente da APICCAPS | Luisonofre.com

"Lidar com um problema, com esta dimensão, é um desafio em si mesmo e pode ser também a oportunidade de nos reinventarmos. Surgem novas ideias e uma maior capacidade de adaptação de produtos e estratégias."

Quais têm sido os principais golpes na marca, consequência do surto Covid-19? A obrigação de uma paragem tão repentina teve um impacto negativo generalizado em todas as áreas da marca. Ao nível da produção, as encomendas de clientes foram canceladas ou suspensas. Sem canais de venda físicos (próprios ou de clientes) manter produção seria um risco, face à incógnita da retoma. Ao ficarmos restringidos às vendas online (importantes, mas ainda residuais se compararmos com as vendas totais das estações anteriores), a comunicação reforçou-se no digital. Mas mesmo aí temos falta de conteúdos, que agora não podemos produzir como habitualmente.

Sei que a produção neste momento está parada. O que é que isto significa em termos de criação da coleção e cumprimento de prazos sazonais? O que vai acontecer e como é que a marca se vai conseguir ajustar? A coleção FW20 estava pronta a ser apresentada (o Portugal Fashion foi cancelado no dia em que a apresentação iria decorrer) e temos agora de repensar o seu formato e calendário. Vamos fazê-lo fisicamente ou online? Em modo desfile, lookbook ou algo diferente? Uma apresentação/performance irá decorrer, mas ainda estamos a definir o formato, por forma a garantir o máximo de impacto. Num cenário em que não existiram vendas de SS20, um ajuste positivo seria atrasar um pouco os calendários habituais de apresentação de coleções. Para que as marcas e clientes possam escoar stock verão 2020 (sem ser em formato desconto). Prolongar a venda de produtos enquanto a estação decorre, acompanhando a tendência real de consumo. Assim sendo, a apresentação de FW20 só deveria decorrer em outubro, numa lógica mais próxima do see now buy now. Para muitas marcas, não vender verão 2020 compromete também as vendas do verão 2021, pois muitos clientes preferem guardar mercadorias do que vendê-las em saldo. Este cenário pode trazer quebras de 30 a 40% no próximo ano.

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para a marca? As consequências são complexas e estendem-se para lá da marca Luis Onofre ou da realidade portuguesa. Há uma falta generalizada de confiança no futuro que afeta os paradigmas de consumo. Queremos consumir quando vivemos uma tão grande incerteza? Há espaço para o luxo numa crise económica generalizada? É um fenómeno global que implica repensar coletivamente calendários, paradigmas de coleção, apresentações e até captação de clientes. Por exemplo, no calçado, as feiras internacionais são uma forma importante de captar mercados ou clientes. O mais provável é que as de setembro não se realizem ou sejam substituídas por plataformas digitais que são bastante complicadas de implementar em termos de proteção de criatividade ou segurança de clientes. Podem vir a ser uma realidade necessária, mas não sabemos como irão funcionar. Fará sentido continuar a fazer apresentações de coleções com 200 modelos, seis meses antes de serem postos à venda? Provavelmente não. Temos de ser mais pragmáticos e ir ao encontro de uma lógica de consumo mais essencial e sustentável, mesmo no mercado de luxo. Reforçar a tónica na emoção do cliente que descobre uma coleção no momento em que a compra. 

Que tipo de ações tomou durante a quarentena para manter a visibilidade da marca e fomentar vendas? Centrei-me na comunicação digital por ser esse o suporte que estava mais próximo dos nossos clientes. Mas devido às circunstâncias que vivemos, adaptei um pouco os conteúdos. Comunicar luxo quando a principal preocupação é a sobrevivência, é um desafio. Definimos uma estratégia de vendas sóbria e focámos energias num contributo imediato às necessidades da comunidade enquanto todo. Não foi uma estratégia premeditada, foi a resposta possível. 

Que tipo de ações/estratégia pretende adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso da marca e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? Lidar com um problema, com esta dimensão, é um desafio em si mesmo e pode ser também a oportunidade de nos reinventarmos. Surgem novas ideias e uma maior capacidade de adaptação de produtos e estratégias. Para mim, a ideia chave é dar mais acesso ao consumidor. Estar mais próximo das suas necessidades. Provavelmente, tenho de apostar mais em modelos adequados ao lazer, poderei iniciar a produção de equipamento de segurança individual (que agora se tornará necessário de forma generalizada durante vários meses) com materiais mais elegantes e criativos. 

O pior desta pandemia para a marca? Ter sido tão abrupta e implicar mudanças diárias para as quais ninguém tem respostas. Há um enorme efeito surpresa associado. Não existem fórmulas exatas e de aplicação imediata. Não houve a possibilidade de prevenir ou minimizar impacto. Fechar uma empresa, mesmo em lay-off, acarreta perdas consideráveis porque os encargos são altos e não há rentabilidade. Temos margem de segurança, mas ela não é infinita.

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? A nível pessoal, desacelerar foi muito positivo (para mim e para a minha família). Na Moda, vivemos um frenesim frenético que é esgotante e precisa de ser reorientado. As temporadas abrem muito cedo e exigem uma constante renovação de coleções e lançamentos intermédios. Temos de ser mais concisos. Faz sentido promovermos botas em julho ou agosto? Esta questão já se colocava antes. A pandemia só voltou a colocar o tema em cima da mesa. Quer queiramos quer não, a emoção perde-se ao longo dos 6 meses e neste momento precisamos de agarrar o consumidor.

Enquanto comunidade, que esforços além da marca acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? Os portugueses enquanto mercado são importantes para as marcas nacionais, mas devido à sua escala não são suficientes. Não podemos pensar numa escala tão micro. Nesse sentido, as ajudas devem ser nacionais e internacionais. Vamos todos necessitar de fortes apoios e investimento à internacionalização, se quisermos manter mercados e produtos de qualidade. A indústria italiana de calçado (onde estão também os principais fornecedores de matérias primas de qualidade) sofreu duras perdas e terá de ser apoiada. Em Portugal acontece o mesmo. Não sabemos como estaremos daqui a seis meses ou um ano. A recuperação não é garantida ou imediata. Vamos ter de voltar a produzir, comunicar, comercializar e, para isso, vamos necessitar de apoios globais.

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Se sim, de que forma? Se não, porque acha que isso não acontece? Sou o primeiro defensor da Moda nacional e das suas marcas. E, infelizmente, temos cada vez menos marcas portuguesas com uma dimensão internacional na área do têxtil e calçado. Não temos super marcas de referência, com uma expressão global. Somos referência de produção (daí a quantidade de produção em private label), mas falta-nos criar marcas de dimensão global. Esse é o principal desafio para a Moda nacional.

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? Neste momento, o único caminho é internacionalizar e criar novas marcas. A situação é tão grave que não temos alternativa. Temos de procurar e captar investimento de grupos internacionais que acreditem e invistam no design e produções nacionais. E só depois uniríamos marcas por segmentos. Primeiro temos de trabalhar relevância global.

O que sente que falta à Moda Nacional para atravessarmos crises como esta com um sentido de comunidade mais apurado e de forma mais fácil? Para mim o problema não é tanto na falta de sentido de comunidade. Penso que existe entre parceiros. Acho que no essencial tudo se resume a escala de mercado. Portugal é um mercado pequeno e com pouca margem para criar super marcas. Quanto maior a escala da marca, maior a margem de resposta. Mesmo quando é mais difícil gerir as perdas de 300 lojas ao invés de três, sabemos que uma marca de maior dimensão terá à partida maior capacidade de resposta e recuperação.

MIGUEL VIEIRA, Designer de Moda | Miguelvieira.pt

"A questão de comprar produtos portugueses é um assunto que já devia fazer parte do vocabulário do dia a dia dos portugueses, salvo quando não existem produtos portugueses no mercado."

Sei que a produção neste momento está parada. O que é que isto significa em termos de criação da coleção e cumprimento de prazos sazonais? Apesar de termos feito as compras de cupons no passado mês de fevereiro 2020, para a criação da coleção primavera/verão 2021, a maioria dos cupons e todas as amostras de acessórios não chegaram ao nosso atelier. O que significa que vai ser difícil organizar a coleção como o pretendido. O que vai acontecer, ainda não sabemos responder... acho que o Mundo também não…

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para a marca? Não sei quantificar as consequências. Li uma notícia de uma marca de luxo que no passado fim-de-semana reabriu a loja ao público na China, e que as vendas dispararam muito.

Que tipo de ações tomou durante a quarentena para manter a visibilidade da marca e fomentar vendas? Ações internas (na empresa) para preparar o futuro. 

Que tipo de ações/estratégia pretende adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso da marca e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? Tentar ter as coleções o mais completas possíveis.

O pior desta pandemia para a marca? A falta de matéria-prima.

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? O pânico instalado internacionalmente, não proporciona a criatividade. A grande preocupação é não afetar a saúde das equipas de trabalho

Enquanto comunidade, que esforços além da marca acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? Acho uma falta de sensibilidade governamental pôr de lado o apoio salarial dos sócios/gerentes das empresas. Quando estes fazem esforços gigantes durante todo o ano, no sentido de manter postos de trabalho e de tornar Portugal um país de Moda. A questão de comprar produtos portugueses é um assunto que já devia fazer parte do vocabulário do dia a dia dos portugueses, salvo quando não existem produtos portugueses no mercado.

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? Todas as minhas criações têm inscritas a frase: Fabricado em Portugal, não é made in Portugal, mas sim Fabricado, escrito em português.   

NUNO BALTAZAR, Designer de Moda | Nunobaltazar.com

"Se não conseguimos ser competitivos com marcas internacionais, partindo de uma enorme desvantagem de capacidade de investimento é o momento certo para assumirmos que a menor dimensão pode ser um fator diferenciador e não de desvantagem."

Quais têm sido os principais golpes na marca, consequência do surto Covid-19? Infelizmente, têm sido várias as consequências do surto Covid-19 e, até este dia, talvez seja ainda difícil quantificar, mas de uma forma mais imediata é o encerramento da loja durante o período de estado de emergência, o cancelamento de uma peça de teatro em que íamos assinar os figurinos, o adiamento de programas de televisão e o golpe mais grave é os vários adiamentos de casamentos e festas que comprometem o nosso serviço de atendimento personalizado. 

Sei que a produção neste momento está parada. O que é que isto significa em termos de criação da coleção e cumprimento de prazos sazonais? No nosso caso, conseguimos organizar a equipa para não parar a produção. Estávamos a preparar pequenas séries para a nossa loja e mantivemos o plano. Apesar de não sabermos, ao dia de hoje, como será a reação do mercado e o regresso dos clientes à loja, quisemos ajustar e reestruturar a coleção SS20. Optamos por redução de horário, mas mantivemos atividade diária quer na organização da marca quer no nosso trabalho de consultoria com a indústria. De qualquer forma, o que nos parece mais sensato é o ajuste, há muito necessário aos timings de apresentação que estão francamente desajustados.

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para a marca? Claramente, a incerteza de durante quanto tempo será necessário o distanciamento social será o que mais nos afetará. Sem as habituais ocasiões festivas, a procura de Moda de autor terá uma grande quebra e, para a nossa marca, será certamente um duro golpe com consequências comprometedoras.

Que tipo de ações tomou durante a quarentena para manter a visibilidade da marca e fomentar vendas? Apesar de reconhecer que não estou seguro de ter sido a melhor decisão, optámos por dedicar este período mais à reflexão do que à comunicação. Considero que nesta fase existiu um overbooking de publicações, stories, lives and so on… que também são contraproducentes neste momento. As pessoas cansam-se se forem demasiado bombardeadas com comunicação. Optámos por ações mais discretas como telefonemas e SMSs personalizados. Também iniciámos um novo ciclo de comunicação que passa por abrir janelas para os bastidores do atelier. Começamos por fotografar a equipa e partilhar com os nossos seguidores nas redes sociais e na montra da nossa loja os rostos de quem constrói todos os dias a NUNO BALTAZAR.

Que tipo de ações/estratégia pretende adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso da marca e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? É fundamental reforçar a proximidade com os clientes da marca. Essa será uma das vantagens de vivermos num país pequeno, de sermos projetos pequenos. É possível conhecer os nossos clientes de forma mais pessoal. Acredito que também as coleções terão de ser bem estruturadas e com uma mensagem assertiva. Apesar das diferenças temporais e de contextos, historicamente os períodos pós-guerra sempre foram momentos de efervescência, criativos e de grandes transformações na história da Moda. Queremos reforçar a identidade da marca e explorar geografias conceptuais mais arriscadas. Tornar o processo criativo e o seu resultado mais fun, recuperar processos de pesquisa e desenvolvimento de maior proximidade. Assumir esse caráter mais autoral e menos mainstream. Temos consciência que, durante um grande período, se não de forma definitiva, os hábitos de consumo vão mudar e essa será a nossa forma de enfrentar este desafio. 

O pior desta pandemia para a marca? A descapitalização da empresa e a drástica quebra de capacidade de investimento financeiro em novos projectos. Também não termos em funcionamento a nossa loja online não ajudou. Foi algo também para refletir e corrigir.

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? O abrandamento do ritmo de trabalho tem permitido e até obrigado à reflexão sobre a identidade da marca NUNO BALTAZAR, sobre os projetos futuros. Reflexão também sobre as falhas no nosso trabalho e como poderemos colmatar esses aspetos negativos. O desenvolvimento de Moda de autor faz muito mais sentido como projeto de slow fashion. Processos de desenho, desenvolvimento, construção, apresentação e comunicação que valorizem a marca. Que acrescentem às peças um caráter desafiante e emocional que torne a experiência do cliente algo muito mais especial.

Enquanto comunidade, que esforços além da marca acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? Por princípio, rejeito a ideia de “ajuda” às marcas portuguesas. Acho um conceito pobrezinho e desajustado. Infelizmente, não temos uma associação de designers que possa, junto dos organismos mais adequados, defender medidas que permitam a sobrevivência das empresas dos designers. Porque somos, na grande maioria, empresários e sócios-gerentes de micro empresas, à semelhança de tantas outras no país, mas com características próprias e que requerem medidas adequadas. Lutamos sozinhos e isolados pela sobrevivência das nossas marcas. Trabalhamos no limbo entre o tecido económico e o tecido cultural. Somos uma classe sem terreno, como alertei na minha última apresentação a que chamei DISPLACED. Obviamente, essa indefinição torna os designers e os seus projetos muito mais vulneráveis num momento de crise. É uma oportunidade das plataformas de apresentação de coleções para que assumam um papel determinante no fortalecimento dos projetos dos designers. Sem isso, dificilmente existirão projetos de qualidade para apresentar. Mesmo no desenho dos sistemas de apoio que existiam anteriormente (Portugal 2020, por exemplo) que têm premissas que estão erradas desde o principio e que poderiam servir melhor o desenvolvimento das marcas de autor, é necessário junto de entidades, que são pouco conhecedoras da nossa realidade, lutar por oportunidades que sirvam a Moda de autor. Paralelamente a tudo isto e não menos importante, existe um enorme trabalho de cada um dos designers no sentido de valorização do seus projectos, quer na qualidade e diferenciação do que apresentam, quer na forma como comunicam. Se esse trabalho for bem feito e em rede, os portugueses vão entender o enorme valor acrescentado que têm em consumir moda de autores nacionais. Sem paternalismos! Vão valorizar as peças pela sua qualidade, diferenciação e experiência. 

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Infelizmente não… E é natural. Estamos demasiado isolados e na luta para manter os nossos projectos. E não é de agora. Essa é também a realidade dos designers internacionais, a grande diferença é que esses chegam a um determinado patamar de visibilidade e reconhecimento e passam a ter investidores que viabilizam as empresas onde passam a ser apenas diretores criativos. Como em Portugal o tecido industrial não tem essa cultura de desenvolvimento de marcas, a nossa sobrevivência é fruto de muito trabalho individual. Não deixa espaço para o pensamento coletivo. Fundamental hoje em dia na construção de um futuro que tem de ser colaborativo.

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? E como poderia ser feita essa unificação da classe? É, sem dúvida, uma boa altura para mudar o paradigma. Se isso passa por criar um selo único para a Moda Nacional não sei… Mas é certamente o momento para iniciativas colaborativas. No nosso estúdio, estamos a desenvolver um projeto a que chamamos NUNO BALTAZAR Co.LAB*, que pretende alavancar vários desafios de colaboração entre diferentes designers de moda meus colegas, ilustradores ou outros artistas em projectos multi-disciplinares. Estas iniciativas visam valorizar projetos autorais, desenvolver ferramentas de comunicação conjunta e de partilha. Reposicionar a Moda de autor no patamar onde deve estar. É tudo um problema de escala. Se não conseguimos ser competitivos com marcas internacionais, partindo de uma enorme desvantagem de capacidade de investimento é o momento certo para assumirmos que a menor dimensão pode ser um fator diferenciador e não de desvantagem. Temos de perder definitivamente o que eu costumo chamar de "síndrome hipermercado” e assumirmos a nossa condição de "mercearia". Não há problema nenhum nisso. Sejamos uma mercearia gourmet! A Vogue Portugal é disso um excelente exemplo. Quando correu o risco de se assumir diferente foi quando começou a ser notada e referenciada internacionalmente. Seria também um momento importante para desenvolver colóquios, debates e encontros de designers que, juntos, possam partilhar as suas dificuldades e conquistas. Debatermos o que é importante na nossa classe e aprender uns com os outros formas de desenvolver as nossas marcas. Existem algumas iniciativas deste género, mas que, muitas vezes, acontecem durante os dias de apresentações de coleções em que, naturalmente, os designers estão menos disponíveis. É fundamental desenvolver o pensamento critico, coletivo e promover a aproximação entre os designers.

O que sente que falta à Moda Nacional para atravessarmos crises como esta com um sentido de comunidade mais apurado e de forma mais fácil? Falta só ter coragem de dar os primeiros passos. Todos nos debatemos com situações semelhantes diariamente e certamente será muito mais fácil partilhar experiências que nos façam crescer e, acima de tudo isso, redescobrirmos o prazer de fazer Moda de autor. Infelizmente, acho que a Moda de autor em Portugal está a passar por um período de maior frustração e desânimo. E não é de agora… Mas agora temos este abanão que pode ser motor de muitos projetos felizes, com identidades individuais, mas com esse sentido de grupo. 

NUNO MARINHO, Presidente da AORP – Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal | Aorp.pt

"Em qualquer dos cenários, aplicar-se-á a teoria de evolução de Darwin: a sobrevivência não dos mais fortes ou dos mais inteligentes, mas dos que se souberem adaptar."

Quais têm sido os principais golpes na associação, consequência do surto Covid-19? Antes de falar sobre o impacto do contexto COVID-19 é importante lembrar que o setor da joalharia portuguesa vinha a registar um dos melhores momentos da sua história. Como resultado da forte aposta na sua modernização e internacionalização, as exportações subiram de 20 para 100 milhões de euros. O que nos leva a concluir duas coisas: que o setor vê a sua trajetória de crescimento e aspirações congeladas, mas que, pelo lado positivo, nunca esteve tão bem preparado para enfrentar a crise como agora. E baseio este otimismo na forma como as empresas se capacitaram, diversificaram os seus negócios e mercados e sobretudo canais de comunicação, tendo no e-commerce um potencial aliado para colmatar a fragilidade do comércio tradicional. E aqui incluem-se tanto as marcas nativas digitais, que baseiam o seu negócio nos canais online, como as marcas que souberam transitar e aproveitam esta oportunidade para reforçar as suas estratégias digitais de comércio e de contato com o seu cliente/consumidor. Naturalmente que não esquecemos o comércio tradicional, que enfrenta desafios nunca imaginados e que, tendo também oportunidade de se reinventar, poderão contar com o nosso apoio.

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para as vossas marcas? Há uma enorme nuvem de incerteza à volta das consequências da crise provocada pelo contexto COVID-19 e sobretudo da sua curva de evolução. Defende-se que poderá ser uma curva em U, em que a quebra é abrupta, mas a recuperação é rápida ou em tick-mark, em que recuperamos o crescimento, mas de uma forma mais estendida no tempo. Em qualquer dos cenários, aplicar-se-á a teoria de evolução de Darwin: a sobrevivência não dos mais fortes ou dos mais inteligentes, mas dos que se souberem adaptar. É inegável que o mundo vai mudar, porque o seu impacto social é enorme. O consumidor não é só afetado a nível financeiro, mas sobretudo a nível social e psicológico, alterando – de forma muito significativa – o seu padrão de consumo, necessidades, expectativas e relação com as marcas. E, portanto, mais do que nunca, não se trata de ganhar espaço face à concorrência, mas ganhar espaço na mente – e diria mais – no coração do nosso consumidor (relação racional vs emocional).  

Enquanto representantes de um setor de Moda nacional, que tipo de ações tomaram durante a quarentena para manter a visibilidade das marcas e associação e fomentar vendas? Desde o primeiro momento, a nossa preocupação foi informar e monitorizar o setor, de forma a orientar as empresas para a tomada de decisões e reajuste das suas estratégias. Na missão de informar, criámos um canal diário de atualização de informação sobre medidas, recomendações e boas práticas, através do site, e-mail marketing e redes sociais. Também, de forma muito célere, criámos um formato de webinars, o E-Lapidar, em que convidamos especialistas para esclarecer e informar as nossas empresas em relação ao atual contexto e sobretudo à sua fase de recuperação. Com o objetivo de monitorizar, realizámos já dois inquéritos junto dos Associados para aferir consequências e legitimar a nossa defesa dos seus interesses junto das entidades oficiais, como o Ministério da Economia e Finanças, bem como outras instituições políticas e financeiras com impacto na nossa atividade.

Que tipo de ações/estratégia pretendem adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso das marcas e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? O impacto negativo do coronavírus é uma evidência. Mas o foco não deve ser no problema, mas na nossa flexibilidade e capacidade de adaptação à mudança. E as empresas serão tão mais fortes quanto se souberem adaptar e, com isso, evoluir. Por isso, na AORP estamos atentos às novas tendências e mudanças do mundo da Moda e do consumo no geral para poder orientar e inspirar as nossas empresas nas suas estratégias de recuperação. O nosso terceiro foco de atuação tem sido a criação de plataformas coletivas de partilha e promoção. No lado da partilha, criamos a iniciativa Ligados – Ligados no Problema, Ligados na Solução, em que damos voz às empresas para que partilhem a sua visão, soluções e boas práticas, com o objetivo de criar redes coletivas de suporte que possam evoluir para a partilha de serviços, de recursos, de instalações, etc. E no lado da promoção, estamos a preparar o lançamento de uma plataforma de e-commerce, que servirá de montra digital à joalharia portuguesa à escala global.

O pior desta pandemia para as marcas, no presente e para o futuro? Sem dúvida a incerteza e imprevisibilidade em torno das consequências do surto COVID-19, que tornam difícil a tomada de decisões e a definição de estratégias de combate. Já atravessámos várias crises económicas, mas esta torna-se particularmente devastadora, pela forma inesperada como surgiu em completo contraciclo com o otimismo económico que vínhamos a viver em Portugal e na Europa e sobretudo pela forma imprevisível como o mercado vai reagir. Essa reação será diferente de setor para setor. No setor da Moda e do luxo assistimos a alguns fenómenos interessantes, pela positiva, como o Revenge Spending na China, em que o consumo regressou com números bastante otimistas.  

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? Sentimos que a criatividade foi, sem dúvida, uma das skills mais desenvolvidas durante a quarentena. As marcas tiveram tempo para pensar, criar, experimentar, testar e gerar parcerias. Ou, do lado da produção, receberam contactos de criativos que queriam testar produtos novos, coleções novas e até novos clientes que viram no tempo de pausa uma oportunidade para criar novas áreas de negócio – como a criação de joias. Há sempre algo de muito estimulante nestes períodos, que é a capacidade de reinvenção. E, na joalharia, habituamo-nos a moldar o metal à medida de cada desenho. Neste caso, moldamos estratégias à medida das novas contingências e das suas oportunidades.

Enquanto comunidade, que esforços além da associação acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? A ajuda do Governo será fundamental nesta primeira fase, porque ninguém estava preparado para isto. Proteger a economia e a produção nacional é garantir que o forte investimento que foi feito nos últimos anos – seja privado seja através dos fundos comunitários – não cai por terra. Esta proteção pode ser feita através de uma legislação ágil e que esteja ao lado das empresas, nesta fase tão frágil e difícil, e das ajudas financeiras – vitais à sua sobrevivência, mas também a um esforço nacional no sentido de promover e incentivar a produção nacional e o consumo de marcas portuguesas. Mas essa não é só uma missão do Governo. A recuperação só será feita da comunhão de esforços individuais e coletivos, sendo que aqui as Associações desempenham um papel vital na defesa e promoção dos seus setores de atividade. 

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Se sim, de que forma? Se não, porque acha que isso não acontece? Nos últimos anos, as Associações da fileira da Moda têm vindo a unir esforços no sentido da promoção coletiva. E se essa lógica de força e representatividade fazia sentido em períodos de crescimento, mais fará em períodos de dificuldade. Usando o nosso lema interno Ligados no Problema, Ligados na Solução, trata-se de encontrar, na força do coletivo, a resiliência e imunidade necessárias. A história sempre nos mostrou como, em alturas de grandes dificuldades, os interesses individuais se subjugam aos interesses coletivos. E é neste contexto que as associações setoriais assumem um papel essencial de servirem de timoneiros da recuperação, criando elos de ligação não só dentro do setor, como entre setores. No fundo, combatemos o impacto do coronavírus da mesma maneira que ele se propagou. Através de cadeias de recuperação, de contágio positivo de empresa para empresa, de setor para setor, de economia para economia. 

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? A união e a criação de um sentido de coletivo no mundo da Moda nacional é essencial à recuperação dos setores. Além disso, estamos mais do que nunca alinhados na estratégia e na mensagem do que é a produção nacional e a sua diferenciação a nível internacional. Também é importante, e volto a sublinhar, que o forte investimento realizado nos últimos anos, também no sentido de promoção coletiva entre as várias Associações, não se perca e mais, sirva de plataforma de impulso para o desenvolvimento de uma estratégia de promoção coletiva. 

O que sente que falta à Moda Nacional para atravessarmos crises como esta com um sentido de comunidade mais apurado e de forma mais fácil? O caminho da Moda Nacional enquanto setor unido já vinha a ser percorrido e se há um silver lining numa crise é a capacidade de acelerar mudanças. Acredito que, da parte das Associações, haja essa vontade e intenção muito clara de criar sinergias entre setores, como uma espécie de ecossistema em que as forças se unem para gerar equilíbrio. Quanto mais denso e coeso, mais forte e imune.

PAULO GONÇALVES, Marketing & Communications Manager da APICCAPS [Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos] | Apiccaps.pt

"Umas das curiosidades a que assisti nas últimas semanas foi um reforço da capacidade de entrega e de entreajuda inter-pares. Vi empresários, outrora concorrentes, a colaborarem de forma próxima e articulada. Este exercício terá, agora, de ser perpetuado no tempo."

Quais têm sido os principais golpes na associação, consequência do surto Covid-19? O primeiro golpe foi na ambição, no espírito de conquista e na autoestima, porque nos sentimos verdadeiramente impotentes. Todos os indicadores que possuíamos levavam-nos a concluir que 2020 seria um ano de afirmação do calçado português nos mercados externos. Os primeiros sinais de preocupação chegariam no final de janeiro. As semanas seguintes foram aterradoras. A incerteza é sempre altamente prejudicial para os negócios. E, na verdade, era apenas o prenúncio de semanas, meses, de anulação de encomendas, quebras nas vendas até uma situação de paragem, quase geral, da atividade industrial. Agora é tempo de nos reergermos e de nos reinventarmos. 

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para as vossas marcas? O primeiro impacto, e imediato, é a quebra do consumo, que estimamos que seja de 22,5% este ano. Ou seja, serão comercializados menos 5.100 milhões de pares de calçado em todo apenas este ano. É verdadeiramente terrível. Há, seguramente, muitas empresas, em especial PME, que não vão resistir a este período. Empresas com muita história, muito potencial, responsáveis por muitos postos de trabalho que, por uma razão ou outra, vão sucumbir. E é pena. Mas também há uma mensagem de esperança: temos no nosso universo marcas com 70 e 80 anos. Marcas que resistiram a uma Grande Guerra. Também vão conseguir superar esta fase terrível.

Enquanto representantes de um setor de Moda nacional, que tipo de ações tomaram durante a quarentena para manter a visibilidade das marcas e associação e fomentar vendas? Num primeiro momento, a nossa preocupação passou por ajudar as empresas a superarem o primeiro impacto, nomeadamente com o reforço do apoio técnico especializado, seja na área jurídica ou nos domínios financeiros ou económicos. Depois, sentimos que não poderíamos parar. Reforçámos os investimentos no online, seja com a produção de mais conteúdos (fotos e vídeos), seja através da abordagem a novos públicos alvos. Esse é um esforço que iremos aprofundar nos próximos anos. Não me parece que haja alternativa. Grande parte do nosso esforço, do nosso investimento, estará diretamente associado à promoção das nossas marcas. Porque, como costumamos dizer, The Shoes Must Go on. Do ponto de vista da responsabilidade social, e procurando atenuar os efeitos da pandemia, dezenas de empresas deixaram de produzir calçado para fabricar materiais técnicos para profissionais na área da saúde, da segurança, para IPSS, entre outros. Em consequência, nos últimos meses, doamos milhares de máscaras, viseiras, calçado, não só ao SNS, como a outras entidades que, estando no terreno, desempenham um papel fundamental no ataque à pandemia.  

Que tipo de ações/estratégia pretendem adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso das marcas e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? Toda a nossa energia estará centrada no reforço das marcas e da presença online do nosso setor. É a grande lição deste momento. Temos em Portugal as empresas mais modernas do mundo. Estão todas paradas. Precisamos de mais marcas, essencialmente marcas com capacidade de projeção mundial. Não é seguramente fácil, mas terá de ser esse o caminho.

O pior desta pandemia para as marcas, no presente e para o futuro? A descontinuidade. O trabalho que estava a ser desenvolvido de forma coerente durante anos a fio foi interrompido. Alguns projetos ficarão, invariavelmente, pelo caminho.

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? Testou os nossos limites, a nossa capacidade de resiliência, e a nossa criatividade. Foi tempo de repensar alguns negócios. No final, acredito que a grande conclusão seja que teremos de ser mais inclusivos, promover um comércio mais justo, livre e equilibrado. No setor do calçado, mais de 85% do calçado é produzido num único continente, a Ásia. Um único país, a China, assegura 65% da produção mundial de calçado. Não é sustentável.

Enquanto comunidade, que esforços além da associação acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? Umas das curiosidades a que assisti nas últimas semanas foi um reforço da capacidade de entrega e de entreajuda inter-pares. Vi empresários, outrora concorrentes, a colaborarem de forma próxima e articulada. Este exercício terá, agora, de ser perpetuado no tempo. O Governo tem procurado ser solução. O conjunto de medidas apresentadas é, no geral, bastante interessante, ainda que porventura insuficiente. Segundo o FMI, esta será a pior recessão desde a Grande Depressão, nos anos 30, do século passado. Ao nível do consumo, considerando que a situação atual não é de todo sustentável, porque cria desiquilíbrios, acredito que as escolhas devem de ser mais consistentes. O apoio à produção local – e local aqui entenda-se a Europa – é não só desejável, como imprescindível para contribuir para o mundo mais justo, solidário e inclusivo. Que este período negro sirva, também, para despertar consciências.  

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Se sim, de que forma? Se não, porque acha que isso não acontece? Andamos muitas vezes desgarrados. Claro que todos temos as nossas preocupações, os nossos projetos, mas acredito vivamente que nos falta, no essencial, um espírito colaborativo mais vincado. Foram dados passos no passado recente. Na minha opinião, ainda não foram suficientes. Temos procurado, ao longo dos anos, promover uma maior aproximação entre as empresas de calçado e os nossos criadores, por exemplo. Mas esse trabalho fica, sempre, muito aquém do que seria expectável. O potencial é muito grande, mas por uma qualquer razão de menor relevância acaba por ser desaproveitado. Não deixo de sentir alguma frustração. 

É uma boa altura para pensarmos num selo único para a Moda Nacional? É uma boa questão. Essa discussão está sempre em aberto. Valerá a pena ser aprofundada, sem dogmas ou ideias pré-concebidas. Pessoalmente, acredito que temos todo o interesse em ter uma marca Portugal forte, consolidada com uma imagem moderna e consolidada de vários produtos ou setores de atividade. A APICCAPS lançou, há pouco mais de dez anos, a marca Portuguese Shoes. Procuramos reposicionar a oferta portuguesa nos mercados externos. Conquistámos novos públicos, diversificamos os nossos mercados. Na verdade, hoje, exportamos mais de 95% da nossa produção para 162 países, nos cinco continentes. As nossas exportações aumentaram, na última década, 50%. Valeu bem a pena. 

O que sente que falta à Moda Nacional para atravessarmos crises como esta com um sentido de comunidade mais apurado e de forma mais fácil? Somos todos demasiadamente pequenos. Quando se viaja, abrimos horizontes, e percebemos com mais clareza as nossas fragilidades. Na verdade, ainda que no passado bem recente a imagem de Portugal no mundo melhorou de forma muito expressiva. Na área da Moda, continuamos a ser vistos como um bom produtor, que trabalha a feitio, para outras marcas, mas ainda lhe falta outros predicados. Não há grande tradição no nosso país, mas aquisições ou mesmo concentrações de empresas permitir-nos-ia ganhar fôlego para abordar os mercados internacionais. Adicionalmente, considero essencial que exista um reforço da ligação entre empresas e criadores. Os criadores têm um talento inato, capaz de gerar diferenciação e riqueza. As empresas têm o capital, dimensão e capacidade de resposta. Que bom que seria se fosse possível chegarem a uma plataforma de entendimento.

PARFOIS, marca nacional de retalho | Parfois.com

"Apenas um trabalho concertado, conjunto, permitirá que o setor da moda e retalho retome gradualmente as condições normais do negócio, beneficiando as empresas, os colaboradores e os clientes."

Quais têm sido os principais golpes na marca, consequência do surto Covid-19? Como quase todas as marcas de retalho, o grande impacto foi o encerramento das lojas e, por isso, parou toda a atividade … Para proteção de todos, iniciamos o teletrabalho na medida dos possíveis. Para os nossos clientes, o nosso principal objetivo foi garantir que os informávamos com a máxima transparência sobre o encerramento das lojas físicas e as medidas de segurança adotadas. 

Sei que a produção nas fábricas neste momento está parada. O que é que isto significa em termos de criação da coleção e cumprimento de prazos sazonais? Vamos ter que ser mais criativos do que nunca, teremos que repensar as coleções desde o inicio e reajustar os timings. Cancelámos alguns produtos e lançaremos novos. A nossa proposta de valor obriga-nos a uma constante renovação, variedade e versatilidade que não queremos descurar.

A longo prazo, o que sente serão as principais consequências desta pandemia para a marca? É difícil responder, essa é a million dollar question! O nosso objetivo é que o impacto seja o menor possível e que a recuperação seja rápida! Mas claro que teremos de nos adaptar ao cenário que aí vier.

Que tipo de ações tomou durante a quarentena para manter a visibilidade da marca e fomentar vendas? Repensámos a forma de comunicar, desde que fechámos as lojas em Espanha e Portugal, e começámos a criar conteúdos não centrados no produto, mas sim no cliente, com o #madefromhome. Lançámos um plano de comunicação diário baseado em experiências e sugestões para fazerem em casa: playlists diárias, recomendações de livros, cinema, receitas, colaborações com amigos da marca, tudo centrado no Lifestyle e bem estar do nosso cliente. Pouco a pouco, voltámos a falar sobre os nossos produtos, lançamentos na loja online, ideias de looks over the top - desafios de como fazer fotos e looks em casa. Mantivemos a atividade digital e, por isso, adaptamo-nos às necessidades dos nossos clientes.

Que tipo de ações/estratégia pretendem adotar pós quarentena para garantir a continuação/sucesso da marca e reverter qualquer impacto negativo do coronavírus? Vamos manter a estratégia de comunicação que usamos até hoje, criando conteúdos de valor, tanto de produto como experienciais. Estaremos focados em garantir respostas aos nossos clientes, algo que sempre foi uma prioridade da marca mas que agora se tornou mandatório.

O pior desta pandemia para a marca? A situação é generalizada, mas para a marca a maior preocupação são os colaboradores e a reativação da atividade que assegurará a continuidade do negócio e a proteção dos colaboradores.

Há algum lado bom nesta época de quarentena (por exemplo, obrigou a ser mais criativo ou forçou a aposta em canais diferentes que estavam adormecidos)? De todas as crises podemos retirar algo de bom, as equipas unem-se mais do que nunca, reinventam-se e estimulam a criatividade em todas as áreas da empresa

Enquanto comunidade, que esforços além da marca acredita que devem ser feitos para ajudar as marcas portuguesas? O mais preocupante nesta situação é a incapacidade de previsão para a reativação do negócio. Não podemos avançar com nenhum número exato, mas não temos dúvidas que o tráfego nas lojas será inferior e que, como tal, vamos enfrentar uma recessão económica sem precedentes que vai afetar o consumo no geral.

Há sentido de comunidade na Moda nacional? Se sim, de que forma? Se não, porque acha que isso não acontece? O que sente que falta à Moda Nacional para atravessarmos crises como esta com um sentido de comunidade mais apurado e de forma mais fácil? O que distingue esta crise de outras é que, de facto, afeta a todos, todos os setores, empresas, marcas, parceiros de negócio e, até, organismos de estado e instituições internacionais. É uma crise mais complexa e global, sem certezas de quando vai terminar, que tem génese num problema sanitário, mas que já é uma crise económica sem precedentes, com efeitos em toda a cadeia de abastecimento da economia global, quer ao nível da oferta, quer da procura. Daí a importância de trabalharmos em conjunto, de forma a que consigamos ultrapassar esta crise minimizando os seus danos. Como referimos na resposta à questão anterior, o mais importante é que nesta fase haja trabalho conjunto entre todos os intervenientes, quer ao nível das empresas, parceiros, associações do setor e, também, dos organismos públicos. Apenas um trabalho concertado, conjunto, permitirá que o setor da moda e retalho retome gradualmente as condições normais do negócio, beneficiando as empresas, os colaboradores e os clientes. A forma como gerirmos e resolvermos as dificuldades desta crise será, seguramente, um grande contributo para o reforço de um selo de qualidade da Moda Nacional, sustentável  e com capacidade de exportação em todas as fileiras que compõem o negócio da Moda e Retalho (desde a produção para terceiros, até ao desenho e desenvolvimento de coleções e venda do produto final). A forma como ultrapassarmos as dificuldades desta crise será, seguramente, um grande contributo para o reforço de um selo único da Moda Nacional, o qual se deverá basear na sustentabilidade, qualidade e controlo vertical de todo o negócio.

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