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Entrevistas 27. 4. 2022

Sónia Balacó: "O Poema Sou Eu"

by Sara Andrade

 

Falar em Sónia Balacó é saber que a sua imagem vale mil palavras. Aquelas com as quais gosta de brincar para fazer valer o seu maior amor: a sua liberdade de expressão. 

Vestido, Maria Carlos Baptista. Botas, Mango.

E fá-lo em múltiplas vertentes artísticas, da representação à moda, mas nenhuma a caracteriza tanto como a arte de escrever. Não é à toa que (re)clama que "o poema sou eu". Mas é também prosa e crónicas e opniões e citações que levamos connosco para a vida, percebendo que Sónia é como uma personagem redonda de um romance literário: há muito mais camadas do que aquilo que se vê à superficie em pequenos e grandes ecrãs ou em páginas de revistas. Há todo um mundo de ambições que quer por em papel, em prática, em tinta. E é por isso que, a acompanhar uma edição em banca totalmente dedicada às mais emblemáticas citações e ao poder da literatura, passamos a palavra a Balacó.

A escrita, mais do que fulcral na tua vida, é parte de quem és. Como é que começou esse amor pela palavra? Sempre o tiveste ou acreditas que houve um momento em que te sentiste mais inspirada a ler e a escrever?

Não consigo separar a minha existência do acto da escrita, e em particular da escrita de poesia, o que faço desde que aprendi a escrever, na infância. Não me lembro de existir sem o fazer, foi sempre uma coisa natural e inata estar sozinha no meu canto a brincar em cadernos e folhas, e a caixa de chocolates em que os guardava era a coisa mais importante do mundo para mim. Com dez anos fiz uma compilação dos poemas que achava melhores num caderno e fi-lo chegar a um familiar distante que já tinha publicado poesia. Ele devolveu-mo há uns anos com uma carta bonita. Os poemas são absolutamente ingénuos e infantis, mas impressiona o facto de já nessa altura ter a vontade agregadora de fazer um objecto, um livro. 

Corpete e calças, Maria Carlos Baptista. Camisa, Cos.

Porque é que a palavra é tão importante?

No meu caso, a escrita é a minha tábua de salvação, a minha companheira, a minha maneira de perceber a vida e de olhar para mim de fora. É também uma esperança de ponte até ao outro, de conseguir traduzir essa coisa interna infotografável e fazê-la chegar a outros. Vem de uma vontade de proximidade e entendimento, de uma necessidade absoluta de partilha, e de uma inescapável vontade de me cumprir e de estar ao serviço para que o poema se concretize no plano da matéria. Em geral, acho que a poesia tem a capacidade de nos devolver a dimensão mágica da vida e a sua escrita é um acto de subversão e brincadeira eterna.

Ao longo dos anos, deves ter acumulado inúmeras citações que te marcaram. Não vou ser cruel ao ponto de te pedir apenas uma, mas posso pedir-te para mencionares um top 5 das que te dizem mais?

Algumas destas estão coladas na parede lá de casa, lembretes para a vida:

"E pelo poder de uma palavra/Recomeço a minha vida/Nasci para te conhecer/Para dizer o teu nome/Liberdade" - Paul Éluard

"Se à primeira não me encontrares, não desanimes,/Se não estiver num lugar, procura-me noutro,/Algures estarei à tua espera." - Walt Whitman

"Tomar decisões/é a melhor forma/de prever o futuro" - Luiza Mussnich

"O teu silêncio seja tal/que nem o pensamento/o pense" - José Tolentino Mendonça (in "A Papoila e o Monge", maravilhoso livro-meditação e que é um dos meus favoritos)

"Isso de querer ser/exactamente aquilo/que a gente é/ainda vai/nos levar além" - Paulo Leminski (in "Toda Poesia", outro dos meus livros favoritos)

Colete e calças, Maria Carlos Baptista.

Fala-nos de um livro que tenha mudado a tua vida...

"Autobiografia de um Yogi", de Paramahansa Yogananda. Apesar de a biografia estar longe de ser um género que eu adore, neste relato na primeira pessoa temos acesso à vida de um mestre iluminado e o meu coração acende cada vez que abro este livro, a que recorro muitas vezes para ler passagens soltas e que está sempre na minha mesa de cabeceira. Tudo nele ecoa em mim como verdade, chorei muito a lê-lo e alimenta a minha esperança de que há um caminho para acender em cada um de nós o divino por ser. A transcendência não é uma ideia abstracta, é uma possibilidade à disposição de todos.

...e partilha connosco uma imagem que adores e que vale por mil palavras?

Lançaste Constelação, um livro de poemas - que há muito pede uma sequela, mas também já escreveste crónicas e outras prosas. A Sónia Balacó é mais poema ou mais prosa? Ou os dois?

Acho que não há dúvida de que "o poema sou eu", ainda que me interesse explorar outras formas e práticas, não só dentro da literatura. Mas a raiz de todo o meu trabalho é a poesia e sou poeta em tudo o que faço, porque ser poeta não tem só a ver com o verso na página mas também com a maneira de ver, de sentir, de estar no mundo.

Qual é o teu poema preferido do Constelação?Uff, a pergunta mais difícil do mundo. Acho que vai variando. Mas hoje diria que talvez seja "venero/o que a palavra/por mais que tente/não agarra".

Colete e calças, Maria Carlos Baptista. Botas, Mango.

Fala-nos do(s) projeto(s) que tens neste momento entre mãos - tem a ver com a escrita, correto?

Sim, para além de poesia (e do prometido segundo livro), estou a escrever e a desenvolver outras coisas na área do audiovisual, que é algo que quero fazer há muito tempo. Haverá notícias sobre isso até ao final do ano. Para além disso, em 2022 deverão também estrear alguns dos filmes em que tenho estado envolvida como actriz. "Amo-te Imenso", de Hermano Moreira (com distribuição da Paramount Films no Brasil), o próximo filme do Gabriel Abrantes, e o telefilme da RTP "Serpentina", realizado pela Laura Seixas e que faz parte do projecto "Contado Por Mulheres", são alguns deles.

Vestido, Mango. Corpete, Maria Carlos Baptista.

O que é que ainda te falta escrever, se o tempo não te faltar?

Sinto que ainda está tudo por fazer, e talvez vá ser sempre assim. As ideias chegam mais rápido do que lhes consigo dar concretização, vão ficando à espera de tempo e, às vezes, de que chegue o resto da ideia. Neste momento, há três grandes projectos a que estou dedicada. Há também muita vontade de me experimentar em práticas artísticas novas. Sem medo e sem complexos, o que em Portugal é visto com muita desconfiança. Mas falhar a vida por causa do medo dos outros não é uma opção para mim.

Uma citação by Sónia Balacó que queiras deixar connosco para fechar esta entrevista...

Talvez a frase que termina a resposta anterior.

Fotografia: Andy Dyo.
Styling: Ruben de Sá Osório.
Make up e cabelos: Joana Espargo.
Estúdio: Playground.

Vestido, Mango. Corpete, Maria Carlos Baptista.

Há mais palavras no The Quote Issue, da Vogue Portugal, publicado em abril 2022.