Fotografia de Jamie Nelson. Editorial Addicted to Vogue, da edição Addicted to Vogue da Vogue Portugal, publicada em outubro de 2019.
Lábios não são só para serem beijados, são livros abertos para quem os sabe ler.
Odiava ser uma celebridade. Não pela fama e pelo dinheiro — oxalá que esses cheguem o mais rápido possível — mas pela constante pressão pública. Já não basta que os ricos e famosos sejam seguidos (ou até mesmo perseguidos) para onde quer que vão, mas agora já nem as suas conversas são privadas. Desde o advento do TikTok, um estilo particular de vídeos tornou-se extremamente popular. Na rede social para vídeos curtos, clipes de celebridades à distância são complementados com vozes alheias que enunciam as palavras demasiado distantes para serem ouvidas. Só na semana passada, fui sujeito a vídeos da Sarah Jessica Parker a ter os seus lábios lidos quando aparentemente disse: “What? She’s coming here? Oh God!” (leia-se, “Como? Ela vem aqui ter? Ó Deus”). Assim como um vídeo da Kylie Jenner e do Timothée Chalamet nos Globos de Ouro a ter uma conversa à mesa, a Anne Hathaway a abordar os seus fãs, a Ariana Grande numa passadeira vermelha, entre tantos outros.
Não ignoro que a culpa de ser confrontado por tantos destes clipes seja minha. Os algoritmos seguem os nossos gostos e interações online e eu não sou nada senão uma velha fofoqueira à janela a ver o que os vizinhos andam a fazer — é o sangue ribatejano! Ainda que o TikTok a tenha popularizado, a arte de ler lábios não é proveniente desta geração, é uma parte essencial da comunicação humana. É uma componente importante de como aprendemos a falar e uma das formas como pessoas com dificuldades de audição entendem o mundo à sua volta. Claro que, com muito desgosto de vários TikTokers, a exatidão da técnica é questionável e a sua capacidade de entender o que é de facto dito possa ser tão reduzida como 30%. Este é um facto a considerar para as histórias que se seguem, episódios em que a leitura dos lábios foi protagonista.
Mary, Queen of Scots
No pátio do Fotheringhay Castle, o ambiente era pesado. Condenada por conspiração contra Isabel I, Maria da Escócia subiu ao cadafalso sob os olhos de nobres, oficiais da corte e guardas. Acusada de apoiar a tentativa de assassinato que visava substituir a rainha de Inglaterra por si própria, Maria subiu ao palco perverso vestida de negro por fora e de vermelho por baixo, simbolizando o martírio católico. Quando subiu para a sua morte, diferentes relatos detalham a sua boca a mexer-se. O ambiente era ruidoso: murmúrios do público, movimentos de guardas e o barulho do castelo tornavam impossível ouvir claramente as suas palavras. Os relatos da época indicam que alguns dos presentes, posicionados mais perto, fixaram os olhos nos seus lábios para confirmarem que rezava em latim. A escolha da língua e da oração tinha significado político e religioso: afirmava a fidelidade à fé católica até ao seu fim e reforçava a narrativa de mártir perante aliados católicos na Europa. Ainda que pensemos na leitura dos lábios como meramente superficial, aqui torna-se catalisador de documentos históricos. O episódio espalhou-se pelos círculos diplomáticos e religiosos da época. Se nos é permitido o anacronismo, tornou-se viral séculos antes do termo nascer. Até aos dias de hoje, é um dos casos mais relevantes do fenómeno que hoje vemos em celebridades quando abrimos os nossos smartphones.
Barack Obama e Dmitri Medvedev
Março de 2012, Seoul. A Cimeira de Segurança Nuclear reunia líderes mundiais num momento delicado: as relações entre Washington e Moscovo, historicamente tensas, encontravam-se particularmente sensíveis num ano eleitoral nos Estados Unidos e sobre negociações sobre defesa antimíssil. As câmaras estavam ligadas, os fotógrafos atentos, os microfones distantes o suficiente para captar apenas generalidades diplomáticas. Num momento agora infame, Barack Obama inclinou-se para o primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev. A postura mudou: ombros próximos, mão a proteger a boca, isto é, a linguagem corporal de quem não quer ser ouvido. Claro que tal mudança só cativou mais quem os observava. O áudio do que foi dito era fraco, quase inaudível nas primeiras transmissões. Mas o vídeo era cristalino. Antes mesmo da gravação sonora completa circular, começaram as análises. Especialistas em leitura labial foram convidados por canais de notícias e tablóides. Estes reportaram que Obama teria dito algo como: “This is my last election. After my election, I have more flexibility.” (leia-se, “Este é o meu último círculo eleitoral. Após a eleição tenho mais flexibilidade.”) Medvedev respondeu que transmitiria a mensagem a Vladimir Putin. Quando o áudio integral confirmou a essência da frase, a polémica já fervilhava. Republicanos acusaram Obama de prometer concessões ocultas à Rússia após garantir a reeleição. A Casa Branca insistiu que se tratava de margem negocial técnica sobre sistemas antimíssil. Mas o dano mediático já estava instaurado. Mesmo quando a política é feita a meia-voz, basta um olhar para incendiar um escândalo.
A passadeira vermelha do Festival de Cannes 2024
Em Cannes 2024, a protagonista inesperada não usava Alta-Costura, nem tinha nenhum filme em competição, mas nem por isso deixou de ser a pessoa mais fotografada do festival. Era uma agente de segurança colocada no topo da escadaria da passadeira vermelha, incumbida de uma tarefa simples: manter a fila a andar. O problema encontrou-se na diferença entre as suas expectativas de eficiência e a realidade do cenário. A passadeira vermelha não é conhecida pela sua rapidez. Aliás, atrevemo-nos a estimar que esta é uma das superfícies onde o caminho é feito mais lentamente. A cada passo, uma nova pose, uma nova câmara, um novo detalhe para ser analisado. Os sonhos de eficiência da agente de segurança, cujo nome foi praticamente apagado da Internet pela quantidade de atenção negativa que recebeu, entraram em colisão direta com mais que uma celebridade. O primeiro vídeo viral envolveu a cantora Kelly Rowland. Enquanto posava, a agente aproximou-se com um gesto firme. Nas imagens, Rowland vira-se, aponta discretamente o dedo e parece dizer algo curto e incisivo. Leitores de lábios no TikTok garantiram: “Don’t talk to me like that.” (“Não fale comigo nesse tom.”) Outros sugeriram uma versão ainda mais direta. Sem áudio claro, multiplicaram-se as interpretações — todas com milhões de visualizações. Dias depois, Dominique Fishback foi filmada numa troca igualmente tensa. Um especialista citado por tablóides afirmou que a atriz repetia “I’m coming” com uma expressão frustrada enquanto a segurança insistia com “This way, please.” Já Massiel Taveras protagonizou talvez o momento mais teatral: ao ser apressada enquanto exibia a cauda do vestido com uma imagem de Jesus Cristo estampada, parece ter dito “It’s the dress, wait!” A sua expressão não parecia apenas revelar que estava a posar, mas que necessitava de assistência para se mover devido ao tamanho do vestido. A agente, sempre composta, tornou-se meme. Cannes, ao celebrar a sétima arte, ofereceu um espetáculo paralelo: a leitura labial como entretenimento global.
Chelsea vs Manchester City
Se este caso não provar o meu fascínio com o fenómeno de ler lábios, não sei o que provará: até me pôs a falar de futebol. Não finjo entender muito do desporto, mas felizmente este caso não envolve regras. Relato um episódio que ocorreu a 8 de dezembro de 2018, durante o jogo entre o Chelsea F.C. e o Manchester City F.C., a contar para a Premier League, em Stamford Bridge, Londres. Sterling jogava pelo Manchester City e aproximou-se da linha lateral para recuperar a bola quando um grupo de adeptos do Chelsea, na primeira fila, começou a gritar na sua direção. As câmaras de transmissão captaram o momento em grande plano. O áudio do estádio não permitia perceber o que estava a ser dito, mas o vídeo mostrava vários adeptos a gritar de forma agressiva. A mera quantidade de vozes abafava o seu significado. Dada a suspeita de insultos racistas, o caso foi imediatamente comunicado às autoridades. A Polícia Metropolitana de Londres abriu investigação e analisou as imagens. Para determinar com precisão as palavras utilizadas, foram envolvidos especialistas em leitura labial (note-se, não os mesmos que vemos no TikTok). Quatro adeptos foram identificados e interrogados. Em fevereiro de 2019, o Chelsea anunciou que três destes seriam banidos do estádio. A investigação policial concluiu que não havia provas suficientes para instaurar processo criminal por crime de ódio, mas confirmou o uso de linguagem abusiva. O caso teve impacto público significativo. Sterling já tinha denunciado tratamento discriminatório na imprensa britânica dias antes do jogo, o que intensificou a atenção mediática. Por fim, a leitura de lábios é usada para fins inegavelmente positivos.
Originalmente publicado no The Kiss Issue, a edição de março de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
Most popular
Relacionados
Kiss Me | To Be Continued: Beijos que ficaram para a história
07 Mar 2026
