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Entre a obra a e o artista

14 Jul 2021
By Margarida Oliveira

Michael Jackson, Picasso ou Polanski, conseguimos separar a obra do artista?

Michael Jackson, Picasso ou Polanski, conseguimos separar a obra do artista?

Michael Jackson © Getty Images
Michael Jackson © Getty Images

Leaving Neverland, em português Deixando a Terra do Nunca, o documentário expõe a história de duas crianças alegadamente abusadas por Michael Jackson. O que significa isto para o legado da estrela do pop? Uma questão difícil de responder tão próxima do acontecimento, mas colocamos uma outra questão: o que significa isto para Thriller? A mais famosa música do artista, um clássico instantâneo, de que forma foi esta música afetada pela vida do artista?

A relação que temos com os nossos artistas atualmente ultrapassa a intimidade da partilha da obra, quase como que uma relação doméstica. Se houve uma altura em que o artista existia apenas enquanto uma figura distante, quase divina, hoje podemos saber o que Leonardo Dicaprio comeu ao pequeno-almoço. Neste sentido, aliada à proximidade que temos desenvolvido, temos também uma exigência na relação, uma relação que deixa de ser de admiração e passa a ser de partilha. Mas o que significa isto para a produção artística? Ou para a criatividade?

Pensemos as musas, as fontes de inspiração de Pablo Picasso, ou até mesmo o conceito de musas – mulheres cuja energia se materializa através das mãos do artista. A musa dificilmente será ao foco de quem pensa a arte, a musa existe apenas em relação com o artista, sem o artista deixa de existir. Picasso produz uma musa, dela retira a energia criativa que necessita para concretizar a sua obra, mas ninguém produz energia ilimitada, e a quantidade de suicídios que rodeiam o artista é perturbadora. Mas o que significa isto para Guernica? Não poderá a obra ultrapassar o artista? Não será Guernica agora um símbolo de Espanha, da guerra e do sofrimento de um povo oprimido para além de uma obra de Pablo Picasso? 

Guernica © Getty Images
Guernica © Getty Images

A história é documentada por historiadores, profissionais científicos que analisam dados e nos apresentam uma cronologia de acontecimentos, mas não será possível compreender a história sem cultura. Guernica de Picasso e Por Quem os Sinos Dobram de Hemingway retratam a guerra civil espanhola como nenhum documento oficial, da mesma forma que A Liberdade Guiando o Povo de Delacroix e Um Conto de Duas Cidades de Dickens retratam a revolução francesa. Há, entre a documentação histórica e a criação artística, uma diferença entre ter conhecimento de um acontecimento e compreender um povo. Qual seria a nossa perceção dos loucos anos 20 sem Fitzgerald? De Nova Iorque sem Woody Allen ou de Itália sem Fellini? 

O filtro com que selecionamos os nossos artistas está atualmente fundido com o filtro que utilizamos para as nossas relações pessoais. Mas coloca-se aqui a questão da independência da obra. A obra de arte, quando exposta, deixa de pertencer exclusivamente ao artista para passar ao domínio público. Arriscando afirmar o óbvio: tudo foi feito por alguém. A necessidade de confirmação da legitimidade pessoal de cada inventor para o aproveitamento da sua invenção pode provar-se inimiga da evolução. Será talvez mais fácil a uma mulher compreender a aceitação de uma realidade imperfeita - ser mulher é aceitar um passado historicamente opressor e um presente de esperançosa evolução. Que a democracia nasceu na Grécia Antiga, onde a mulher não era sequer pensada enquanto um ser humano, mas aceitamos a criação e trabalhamos com ela – em princípio. 

Em I Am a Killer ouvimos confissões de assassinos em série, vemos Tiger King e Making a Murderer obsessivamente, mas devemos abster-nos de olhar para um quadro de Pablo Picasso, ouvir uma música de Wagner ou ver um filme produzido por Harvey Weinstein? Não poderá haver um momento em que a obra ultrapassa o criador?

Margarida Oliveira By Margarida Oliveira

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