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Palavra da Vogue 15. 7. 2020

To be continued: Utopia

by Ana Murcho

 

“A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de loucos.” Assim escreveu Erasmo de Roterdão no magnífico Elogio da Loucura, publicado pela primeira vez em 1511. Nesse ensaio, o filósofo faz uma apologia da loucura enquanto algo intrínseco, e necessário, a todos os homens. É a partir da sua análise que lançamos a questão, hoje mais relevante do que nunca: o que aconteceria se cada um de nós abraçasse, sem reservas, o seu lado louco?

© ADELAIDE KHALED

Agora parece uma coisa banal, quase prosaica, mas, para a época - estamos a falar do muito longínquo século XVI - foi algo totalmente abrupto. O Elogio da Loucura, publicado  pela primeira vez em 1511, foi concebido numa semana. Dois anos antes, o seu autor, Erasmo de Roterdão, sentou-se a escrever durante sete dias, numa torrente vertiginosa, e sem filtros, permitindo-se expurgar uma série de inquietações que há muito o incomodavam. E que ele, homem de língua afiada, não se coibia de partilhar com quem quer que fosse. Só que Erasmo, nascido Desiderius Erasmus Roterodamus, era um homem da academia, estudioso de teologia e da vida humana, e todas as suas dúvidas colidiam com o mundo em que vivia, e com o seu próprio passado. Em tempos chegou a abraçar o sacerdócio, que logo abandonou, por ser contrário à vida monástica e às “características que julgava negativas na Igreja Católica.” Mas O Elogio chegou e tudo isso ficou para trás: Erasmo, habituado às críticas, era agora “ligeiramente louco” aos olhos dos seus pares. Só que os dogmas, que tantas noites de insónias lhe causaram, foram definitivamente enterrados, pelo menos para ele e para uma franja da população.  Primeira moral da história: o livro teve um êxito surpreendente e até o Papa Leão X achou a obra “divertida.”

Claro que demorariam anos, séculos talvez, até que a mensagem de Erasmo chegasse tal qual ele a pensou - não imaginamos O Elogio da Loucura em cima de uma mesinha de vime no período da Inquisição Portuguesa - e como ele a construiu. Tão avançado era o seu pensamento que a personagem principal do ensaio é, adivinhou, a loucura. A loucura, que vem fazer um elogio de si própria. Na primeira pessoa. Isso bastaria para estabelecermos com ela uma certa empatia. Afinal de contas, de loucos todos temos um pouco (esta frase poderá ser mais problemática hoje do que há cinco séculos atrás, mas vamos arriscar escrevê-la). Mas a genialidade do autor consiste, acima de tudo, em fazer-nos pensar sobre a loucura a partir de todos os seus prismas. Porque é que a loucura é má? Porque é que a loucura é boa? Quem é que decide o que é a loucura - e, já agora, quem é que é louco? E porque é que é X é louco e Y não é? E é aqui que ela entra em cena, vangloriando-se, como que dizendo, num vocabulário ultra-moderno: “Eu sou mais eu.” Já que ninguém lhe tece elogios, ela congratula-se a si própria. “Parece incrível que, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o elogio da loucura”, escreve Erasmo. E acrescenta: “Cada momento da vida seria triste, fastidioso, insípido, aborrecido, se não houvesse prazer, se não fosse animado pelo tempero da loucura.” 

O ser humano habituou-se a considerar “loucura” qualquer coisa que lhe seja estranha, incompreensível, absurda, incomum. Tudo o que fuja ao seu conceito de moral, à sua definição de “normal” ou “anormal”, tudo o que vá contra o escape que encontrou para suportar o dia a dia, é “uma loucura”. Há quem diga que secar o cabelo depois das onze da noite é um ato insano - o mesmo é dizer, “uma loucura.” Ou que beber leite quente é coisa de “malucos.” São coisas miudinhas, que não implicam em nada no funcionamento do mundo. Mas e o resto? As pessoas que dançam livremente numa pista de dança vazia, os braços contorcendo-se em êxtase como se a alma lhes saísse do corpo, em união com o espaço e com a música? Loucas. Os jovens que decidem deixar de estudar porque querem dar a volta ao mundo e descobrir, por si, o que pretendem da vida?Loucos. As mulheres que, na “terceira idade”, deixam casamentos infelizes, porque aparentemente perderam o direito a amar, a desejar, a sonhar? Loucas. Os homens que de repente ganham coragem e decidem bater com a porta a empregos que detestam, depois de 20, 30 anos a sentir o peso do mundo às costas, com medo de arriscar e ser aquilo que sempre quiseram, desde que se lembram? Loucos. As pinturas, os filmes, as séries, os livros, as esculturas, as revistas, que põem o dedo na ferida e pensam fora da caixa, que rasgam a caixa, que imaginam um mundo que pode até não ser admirável mas facilmente poderia ser novo? Loucas. Mas e então? Não seria uma bela utopia?

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