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Entrevistas 19. 12. 2018

Emily Ratajkowski: "Para mim, tentar controlar as mulheres é o oposto de feminismo."

by Monica Bozinoski

 

Os ponteiros do relógio aproximavam-se da uma da tarde quando nos sentámos com Emily Ratajkowski na intimista Maison Souquet, em Paris. A convite da Paco Rabanne, que escolheu a modelo e atriz como rosto da fragrância Pure XS For Her, o país da Liberdade, Igualdade e Fraternidade assumia um contorno especial para uma conversa sobre aquilo que, hoje, significa ser feminista e mulher. Para Emily, que olha para o feminismo como uma liberdade, esta discussão pertence tanto ao passado como ao presente, e tem tanto de pessoal como de político. Mas, como a própria partilhou no dia anterior ao nosso encontro, é algo que se pode resumir em poucas palavras: acreditar nas mulheres.

© Paco Rabanne

Já foi o rosto de diversas campanhas no passado. O que torna esta aventura com a Paco Rabanne tão diferente?
É a primeira vez que sou o rosto de uma fragrância, por isso é um passo muito importante para mim, e a Paco Rabanne é uma marca realmente especial. Como temos visto nas últimas semanas, muitas destas etiquetas que têm uma história tão rica, têm alguma dificuldade em traduzir a sua herança para a mulher moderna. Penso que a Paco Rabanne conseguiu fazer isso de uma forma brilhante. O modo como a marca pensa sobre as mulheres, a roupa que cria e as ideias que a motivam são algo que vai ao encontro daquilo em que eu própria acredito.

O que é que o conceito de Beleza significa para si?
Acho que a Beleza, de certa forma, significa e consegue representar muito mais do que a Moda. Para mim, falar sobre Beleza é falar sobre individualidade, sobre aquilo que torna alguém único.

Qual foi o melhor conselho de Beleza ou de bem-estar que já recebeu?
De um modo geral, cuidares de ti própria. Aproveitares os momentos que tens para ti, pensares menos na tua aparência, e mais na tua atitude, e tirares todo o tempo que precisares para te sentires bem contigo mesma.

Tem algum ícone de Beleza?
Adoro a Sophia Loren! Acho que ela tem um look de assinatura, algo que é dela e de mais ninguém. Também adoro a Bianca Jagger. É mesmo cool, uma mulher incrível.

Os visuais da campanha de Pure XS For Her são um manifesto poderoso de confiança, feminilidade e sensualidade, um estado de espírito que muitas mulheres lutam para conseguir alcançar. O que a faz sentir poderosa, confiantee feminina na sua própria pele?
Quando realmente me ouço a mim mesma. Sou uma pessoa que tem muitos moods. Há dias em que me apetece usar um vestido mais sensual, e outros em que quero vestir um casaco oversized, sabes? Acho que os momentos em que me sinto melhor comigo mesma são aqueles em que tenho liberdade para me sentir como quero.

© Paco Rabanne

Sente que ainda tem alguma batalha para superar nesse sentido?
Claro que sim. Imagina o que é seres fotografada todos os dias, é uma loucura [risos]. Tens momentos em que olhas e pensas, “uau, estou fantástica”, e outros em que vês uma fotografia e a tua reação é, “oh meu Deus, odeio isto, não acredito que vai ficar na Internet para sempre”. Fui aprendendo a ser melhor pessoa comigo mesma, e saber dar um “desconto” a mim própria. Acho que todas as mulheres podem beneficiar deste conselho.

Tem sido uma defensora ativa dos direitos das mulheres nos últimos anos. O que é que o conceito de feminismo significa para si, neste momento? Sinto que as pessoas ainda não conseguiram compreender o seu verdadeiro significado.

Sem dúvida, as pessoas continuam a não conseguir perceber. Neste momento, nos Estados Unidos da América, existem muitas questões fundamentais sobre o bem-estar e a saúde das mulheres, que estamos a lutar para conseguir proteger e garantir. Entre muitas outras, essa é uma das discussões que me preocupa bastante. Mas, de um modo mais abrangente e conceptual, acho que o mais importante é que as mulheres sejam as autoras da sua própria narrativa. Que tenham controlo, que não sejam negadas ou rejeitadas so porque são multifacetadas, e que sejam celebradas por serem as mulheres que são, e por serem as pessoas que são.

Gostava de falar consigo sobre algo que li em 2016 e que me marcou bastante – o seu ensaio para o Lenny Letter, intitulado Baby Woman. Escreveu-o há dois anos, num discurso direto onde falava sobre sexualidade feminina, celebrarmos o nosso corpo e quem somos. Sente que ainda há um longo caminho a percorrer para que as mulheres possam ser o seu verdadeiro eu, sem medo ou preconceito?
Sim, acho mesmo que sim. Quando penso nisso, penso especialmente nas mulheres mais jovens, sabes? Porque quando chegas a um certo ponto da tua vida, em que tens mais maturidade, consegues ter outra perspetiva. Já és capaz de pensar, “certo, não quero saber, eu vou sentir-me bem comigo mesma de qualquer maneira”. Mas acho que as mulheres mais jovens, seja na escola ou no local de trabalho, ainda não conseguem ter este tipo de pensamento. Gostava que as coisas mudassem nos próximos dois anos, mas acho que vamos precisar de muito mais tempo. Ainda assim, sinto-me muito feliz por existir uma discussão sobre estas questões neste momento, de não culparmos as mulheres e a forma como elas se apresentam por coisas que lhes aconteceram. Para mim, pensar o contrário é uma loucura. Sinto que não estávamos a ter esta conversa há dois anos, e agora estamos.

Muitas pessoas defendem que, se te definires como feminista, não podes ser uma mulher sensual, e muito menos sexual. Sente que a sociedade ainda tem este estigma?
Sim, sem dúvida, e não faz qualquer sentido. Para mim, o feminismo significa liberdade para as mulheres. É uma questão de escolha. Existem mulheres que escolhem tapar-se por completo, e isso é o direito delas, é a escolha delas. Talvez seja por influências que retrocedem ao tempo dos seus avós, ou é algo com que se sentem confortáveis. Mas se essas mulheres se sentem bem assim, e enquanto isso for uma escolha pessoal, eu não vou questionar a decisão que tomam. Acho que o pensamento é o mesmo quando imaginas o cenário oposto, mulheres que decidem ser sensuais, que escolhem a nudez ou que optam por fazer dinheiro com o seu corpo, seja em que capacidade for. Essa decisão é delas, e se for uma decisão delas e de mais ninguém, porque é que eu haveria de lhes dizer o que devem fazer? Para mim, tentar controlar as mulheres é o oposto de feminismo.

Tem mais de 20 milhões de seguidores no Instagram, uma plataforma que tem uma influência colossal nos dias de hoje. Sente que as redes sociais podem ajudar a mudar mentalidades neste sentido?
Sem dúvida. As discussões e a forma como acontecem tão rápido – por exemplo, ontem foi um dia muito importante nos Estados Unidos, por causa do Kavanaugh e do testemunho, e isso gerou imensas reações nas redes sociais. Antes de termos acesso a estas plataformas, claro que existiam outras formas de comunicar, as pessoas escreviam-se umas às outras, conversavam sobre o que se passava. Mas, agora, conseguimos observar que, na mesma plataforma onde normalmente se publicam vídeos engraçados de cães ou selfies, também existem ideias importantes que estão a ser espalhadas, e constrói-se uma comunidade de pessoas que partilham ideias. Acho que é uma ferramenta mesmo muito importante.

© Paco Rabanne

"Quando começas a dar demasiada importância aos comentários positivos, também começas a preocupar-te com os mais negativos."

Pessoalmente, qual é a história que quer contar, ou a mensagem que quer transmitir, através das suas plataformas sociais?
Acho que existem muitas mensagens e muitas histórias. Penso que uma parte é divertida e sexy. Imagens que gosto de fazer de mim mesma, como se fosse uma espécie de autorretrato. Do outro lado, acho que estão os ideais por trás das publicações mais fortes e mais políticas que faço. Talvez sejam mais raras, mas penso que as ideias são sempre consistentes, e transmitem esta noção de as mulheres se celebrarem a si mesmas, de não sentirem vergonha, de estarem bem com o seu corpo e com a sua vida.

As redes sociais têm este lado positivo de que falávamos, mas também têm um lado negativo. Como é que lida com a pressão e com as críticas que tão frequentemente se propagam nas redes sociais?
Acho que existem duas questões, e reflito muito sobre elas quando penso nas pessoas mais jovens que se movem nas redes sociais. Eu cresci antes do Instagram existir, a única coisa que tinha nessa altura era o MySpace. Primeiro, acho que tens de te lembrar que aquilo que as pessoas estão a dizer nas redes sociais, seja negativo ou positivo, diz mais sobre elas do que sobre ti. Se elas se estão a esconder atrás de um computador, e têm a coragem de dizer coisas que nunca diriam pessoalmente, isso diz muito sobre a felicidade delas e sobre a vida delas. Acho que é importante saber separar isso. Mas, do lado oposto da questão, acho que também é importante não te sentires demasiado lisonjeada pelos elogios. Porque quando começas a dar demasiada importância aos comentários positivos, também começas a preocupar-te com os mais negativos. Acho que é essencial saber separar o feedback, e perceber que as redes sociais não são a vida real. Claro que é maravilhoso receber elogios, mas temos de ter a noção de que nada, nunca, será apenas positivo – é importante relembrarmos aquilo que é real, e aquilo que não é.

Sente que as redes sociais e a indústria da Moda têm o poder de ser irmandades, e a capacidade de aproximar e unir influenciadoras digitais e modelos, ou o cenário é o oposto disso?
Acho que é um pouco dos dois, tal como na vida real. Penso que as mulheres, infelizmente, foram educadas a competirem entre si. Gradualmente, vejo que a situação está a mudar, e existem momentos em que consigo sentir este ideal de comunidade com outras atrizes e modelos. Acho que isso se deve, em grande parte, ao Instagram, porque me faz sentir ligada às suas vidas e às suas carreiras. Acabamos por nos apoiar umas às outras. Pode parecer estranho, mas o simples facto de gostares de uma fotografia, ou de deixares um comentário, é uma boa forma de começar uma comunidade. No entanto, tens de ter cuidado e não deixar que se torne numa situação de grupinhos. Pessoalmente, tento focar‐me mais nas pessoas com quem vou construindo relações.

Além do seu trabalho como modelo e ativista, tem construído também uma carreira como atriz. O que a inspira na área da representação?
Na verdade, foi como tudo isto começou para mim, através da representação, Sempre me senti atraída pela performance, mesmo quando era muito nova. Adoro a experiência e o foco que a representação exige, é quase como se fosse um exercício de meditação, onde estás a fazer o outro acreditar em algo. Trabalhar com pessoas que estão ali para te ajudar nesse processo é uma sensação fantástica.

Gostava de falar um pouco sobre a sua marca de swimwear. Quais são os seus objetivos para a Inamorata Swim?
A Inamorata é o meu bebé, é muito criativo e divertido. Adoro ver as raparigas a usarem o meu swimwear. Acho que acaba por ser uma extensão da marca Emrata, mas agora existem mesmo peças, existe um lifestyle e uma atitude que sempre adorei. Eu cresci no Sul da Califórnia, mas passo imenso tempo na Europa, e penso que existe espaço para uma marca feminina, positiva e sexy, mas ao mesmo tempo empoderadora, crescer neste momento.

© Paco Rabanne

"O mais recompensador é ver que as pessoas percebem aquilo que eu quero transmitir."

Imagino que também queira usar esta marca como uma forma de incentivar a mudança de pensamento sobre as mulheres, e sobre os vários tipos de corpos e de beleza que existem...
Sim, sem dúvida. Acho que a marca Emrata é algo mais pessoal, e sinto que as pessoas vão a essa página para ver aquilo que eu faço. Mas, às vezes, pode ser difícil separar o estilo de vida das ideias que estão por trás dele. Penso que é isso que a Inamorata está a fazer neste momento. É um espaço onde todas as mulheres são celebradas, independentemente de terem ou não o meu tipo de corpo, e onde todas as mulheres se podem sentir confiantes, bonitas e sensuais.

Qual foi a maior recompensa que o seu trabalho lhe proporcionou?
Penso que são os momentos em que consigo sentir que as pessoas olham para mim por aquilo que sou, e percebem o que eu quero dizer, as ideias que eu quero transmitir. Sei que esses momentos são especiais, porque sinto algo muito verdadeiro. Quando as pessoas me dão feedback, especialmente mulheres mais jovens que vêm falar comigo – por exemplo, o facto de teres dito que o meu ensaio para o Lenny Letter foi marcante –, é muito importante e gratificante para mim. Diria que o mais recompensador é isso, ver que as pessoas percebem aquilo que eu quero transmitir, porque existem muitos momentos em que isso não acontece, em que as tuas ideias são rejeitadas. Mas sinto que isso torna os instantes em que alguém me diz “adorei o que fizeste aqui, ou adorei o que disseste ali” ainda mais especiais.

O que a motiva a continuar a trabalhar em todos estes mundos?
Honestamente, as pessoas que me tentam deitar abaixo, e a negatividade. Por mais cansativo que isso possa parecer, é algo que me dá imensa força e ainda mais vontade de provar algo. Quanto mais sinto esse fogo dentro de mim, melhor! [Risos]

“É isso que realmente importa, repensar a forma como olhamos para as mulheres.” Esta citação é de Paco Rabanne e data de 1968. Olhando para estes 50 anos que passaram, é verdade que percorremos um longo caminho, mas ainda existe muito por conquistar. Enquanto mulher e feminista, qual é o seu conselho para todas as mulheres, especialmente para aquelas que sofrem com a pressão irrealista da sociedade?
Confia em ti mesma e nos teus instintos, e dá a ti própria todas as pausas que precisares. Percebe que muito do feedback que recebes não é algo pessoal, mas antes sobre ideais e questões maiores, que recuam a períodos históricos mais negativos para as mulheres. À primeira vista, pode não parecer tão claro, e olhas para tudo isto de uma forma muito pessoal – na tua cabeça, pensas que estás a ser ignorada, rejeitada ou até mesmo insultada, porque és tu que estás a sentir. Mas, no fim do dia, tens que te lembrar de todos os fatores e do peso que têm. Quanto mais conseguires separar estas questões, e quanto mais conseguires tornar‐te a pessoa que realmente és, mais força vais ter para conseguir lutar, em geral. Acho que o pessoal e o político, na realidade, caminham na mesma linha.

 

* Artigo originalmente publicado na edição de novembro de 2018 da Vogue Portugal. 

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