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Editorial 6. 12. 2022

Editorial | "The Velvet Touch", Dezembro '22/Janeiro '23

by Sofia Lucas

 

"All of us, every single one of us, deserves a hug. I’ve learned that every day you should reach out and touch someone. People love a warm hug, or just a friendly pat on the back.” - Maya Angelou

Depois dos últimos anos, atípicos do ponto de vista social, regressamos ao glamour dos grandes eventos presenciais, sejam eles mais mediáticos ou familiares. Designers, marcas e lojas espelham e respondem a uma necessidade transversal – dress codes elaborados e assumidamente festivos. Pelo menos, durante esta época, os eventos digitais e o leisurewear vão ficar decididamente em stand by. Esta edição celebra também esta altura do ano, que se desdobra em eventos festivos, maioritariamente os natalícios e de final de ano, sob o tema THE VELVET TOUCH, que não é apenas uma alusão literal ao conforto e glamour das texturas aveludadas, mas sobretudo uma viagem a um mundo caloroso e de conforto, pelo qual todos ansiamos e do qual tanto precisamos. O conforto e o calor do toque – o toque humano, bem mais precioso de todos, que nenhum tecido ou matéria-prima, por mais nobre que seja, poderá alguma vez substituir. E nunca o mundo precisou tanto dele.

Estudos científicos demonstram como a necessidade do toque é vasta e essencial. Experiências feitas com macacos (Harlow & Harlow, 1965) são talvez o exemplo mais famoso de investigações que apontam para a primazia da necessidade de toque. Harlow criou dois tipos de mães substitutas, inanimadas, para macacos bebés. Umas feitas em tecidos fofos e macios e as segundas feitas apenas em arame, mas com alimento para os bebés. O estudo, monitorizado com câmaras, revelou que os macacos criaram um laço e passavam a maior parte do seu tempo aninhados no conforto das mães em tecido do que com as mães feitas em arame, embora estas fossem a sua fonte de alimentação... A comida pode ser necessária para a sobrevivência, mas o toque é o que nos sustenta e nutre emocionalmente.

Depois das experiências de Harlow, a ciência descobriu um número surpreendente de maus resultados para a saúde que ocorrem quando somos privados do toque humano. A correlação entre ansiedade, depressão e stress e a conexão humana é grande, e inversamente relacionada. O toque acalma o nosso sistema nervoso e desacelera o batimento cardíaco, reduz a pressão arterial, bem como o cortisol, a hormona do stress, e desencadeia a libertação de oxitocina. Outros estudos comprovam que o cérebro acalma em resposta ao stress quando a mão de uma pessoa é segurada. O efeito é maior quando a mão que se segura é a de um ente querido, mas funciona mesmo que seja a mão de um estranho (Field, 2010). Até mesmo a nossa resposta imunológica parece ser um pouco governada pelo toque e afeto físico - aqueles que são privados do toque têm maior probabilidade de sofrer de doenças do sistema imunológico. É irónico que, durante uma pandemia em que o nosso sistema imunológico esteve mais débil, sejamos privados precisamente de algo tão essencial.

A maior parte de nós toca num dispositivo digital centenas de vezes por dia. Quantas vezes temos contato físico com outro ser humano? Parece que, à medida que a sociedade se torna mais dependente da tecnologia, o nosso foco no contato humano diminui. Um artigo recente do The Washington Post mencionava a história (verídica) de um homem idoso, na China, que se colocou para adoção para que pudesse ter contato humano nos seus últimos dias. O nosso uso crescente de tecnologia resultou em menos comunicação cara a cara, e em comunicação de pior qualidade. Parece que estamos diante de um dilema moral – mas acredito que é mais amplo do que isso. Dar prioridade, ou não, à conexão humana, pode determinar o tipo de mundo que deixamos para os nossos filhos (conetado e humano ou desconetado e egocêntrico), bem como a nossa saúde mental e física. O poder do toque humano está enraizado na nossa natureza, como indivíduos e como seres sociais.

Na impossibilidade de um abraço, em meu nome e de toda a equipa da Vogue Portugal, desejo que se sinta abraçado por esta edição, que a possa tocar, olhar e ler no lugar que lhe for mais confortável. 

Feliz ano novo. 

Publicado originalmente na edição The Velvet Touch, de dezembro 2022/Janeiro 2023.
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