Artigo Anterior

Editorial | "Pink Mood": maio 2021

Editorial 5. 6. 2021

Editorial | The Music Issue: junho 2021

by Sofia Lucas

 

"If I should ever die, God forbid, let this be my epitaph: the only proof he needed for the existence of God was music." - Kurt Vonnegut

 

Qualquer tentativa de traduzir o verdadeiro poder da música em palavras está praticamente fadada ao fracasso. A música não é apenas um dos fenómenos mais surpreendentes e misteriosos de todo o universo, ou do que dele conhecemos, tem também o poder de tocar todos os nossos recantos emocionais e físicos, porque, por natureza, está ligada aos fundamentos da existência humana. Da pura sensação à intuição da beleza, do prazer à dor, do amor e da paixão ao êxtase místico e à morte – todas as coisas que são fundamentais, todas as coisas que, para o espírito humano, são mais profundamente significativas, só podem ser experienciadas, sentidas... dificilmente verbalizadas. “O resto é sempre o silêncio. Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.”, escreveu Aldous Huxley, no ensaio The Rest Is Silence.“ Quando o inexprimível teve de ser expresso, Shakespeare largou a pena e apelou à música. E se a música também falhasse? Bem, havia sempre o silêncio a que recorrer. Para sempre, sempre e em toda parte, o resto é silêncio.”

Talvez porque sentimos a música com todo o nosso ser, de corpo e alma, é impossível considerá-la apenas como um som. Tal como a luz, parece ser tanto partícula quanto onda, um recipiente, uma forma, um espaço para descobrir quem somos e o que ansiamos - uma linguagem para a nossa essência, um pilar narrativo da nossa identidade. Quando me pediram que falasse sobre a música da minha vida, para o artigo que reúne as músicas da vida de cada pessoa da nossa equipa, senti-me incapaz. Quase ao ponto de preferir não ter aprovado entusiasticamente a ideia, na reunião de redação*. A impossibilidade de uma só música e não de uma extensa banda sonora tão diversa como as emoções e memórias de que uma vida é feita fez-me sentir que não havia páginas suficientes. E não há. A sensação de quase injustiça em eleger um tema ou álbum, em detrimento de outros tantos, fez-me regressar ao nervosismo com que escolhi o primeiro vinil da coleção do meu pai para, pela primeira vez, poder manusear o seu precioso gira-discos. Tinha 5 ou 6 anos e ele achava que eu já era merecedora da sua confiança, depois de uma breve lição sobre a imensa fragilidade do braço, da agulha e, sobretudo, a dos próprios discos. Ainda não sabia ler e a minha cultura musical resumia-se à Rua Sésamo.

Escolhi o meu primeiro LP pela capa. Foi a flor no cabelo que me atraiu. Com toda a solenidade, e medo de riscar, tanto o disco como o voto de confiança do meu pai, pousei a agulha no vinil, e sentei-me ao som dos estalidos das primeiras rotações até que a voz de Billie Holiday me despertou os sentidos e um arrebatamento que ainda não conhecia, com um “Don't know why there's no sun up in the sky...”. Stormy Weather foi a minha primeira incursão no mundo do jazz e blues, que me levou a explorar e a ouvir repetidamente, ou compulsivamente, o resto da coleção de blues do meu pai. Summertime, por Ella Fitzgerald, álbuns de Ella e Louis, Nina Simone, Chet Baker... tudo o que sentia, continuou a fazer sentido, mesmo depois de entender as letras. E a vida foi acontecendo, bem como todas as inevitáveis descobertas e novas adições musicais. Da compra do meu primeiro single em vinil (Angie, Rolling Stones) às mixtapes da adolescência. Quase todos os estilos musicais, dos clássicos aos vanguardistas, muitas centenas de músicas foram as músicas da minha vida, no momento que vivia, e na memória para sempre interligada ao som.

Porque razão a música pode permear as nossas memórias mais profundas, arrebatar-nos em prazer e paixão, embalar-nos no sofrimento ou até salvar as nossas vidas? A música destaca-se de todas as (outras) formas de arte. Não lhe reconhecemos, de forma consciente, a base matemática, a repetição, a aritmética na natureza do som. Uma linguagem inteiramente universal, numa ordem cósmica ou padrão geométrico divino que é a antítese do nosso caos emocional.

Esta edição da Vogue é sobre o poder do som e da música, numa partitura escrita em palavras e imagens... a banda sonora que acompanhará a leitura fica do seu lado. A escolha pode ser uma ou as várias músicas da sua vida, ou simplesmente o som do silêncio, interrompido apenas pelo som do virar de cada página.... Porque o resto é sempre o silêncio.  

* Pedimos à redação para nomear a música das suas vidas. Não gostaram da pergunta difícil, mas responderam em Banda sonora para a eternidade, na p. 248.

Editorial originalmente publicado na edição The Music Issue da Vogue Portugal, de junho 2021.
Click here for the english version.