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Editorial | Celebrate Yourself: fev. 2022

by Sofia Lucas

 

"Celebrate life
Through the music
Through the spoken word
Through the splatter
Of colour on paper
Or wood or iron
Or canvas
But celebrate your life
Celebrate your ability to
Feel joy and sadness
Celebrate your ability to feel!"

- Tupac Shakur, The Rose That Grew from Concrete

Count your blessings

Vivemos numa era em que sinto estar a perder-se o poder da celebração. Em vez de celebrar, a maioria das pessoas procura diversão ou entretenimento. Ser entretido é um estado passivo, é receber prazer ou aproveitar uma alegria pré-fabricada. A celebração, por seu lado, é um estado ativo, uma forma de expressão de gratidão, de respeito, de apreço. Celebrar é dar um significado mais profundo, ou até transcendente, aos momentos e ações que vão moldando a nossa vida.

O constante jogo de comparação em que vivemos impede-nos, muitas vezes, de nos celebrarmos a nós mesmos. Impede-nos, além disso, de celebrarmos os outros. Todos nós conhecemos aquela sensação de tentar invocar uma alegria genuína pela boa sorte ou pelo feito de outra pessoa, quando na verdade estamos a julgar-nos por não termos o mesmo êxito ou não conseguirmos o mesmo sucesso. E isso é, em si, o ponto principal. Quanto perdemos porque não nos vemos, primeiro, a nós próprios? Quão melhores poderíamos ser se fôssemos ensinados, desde cedo, a fazer isso?

À medida que envelheço, aprendo que muitas pessoas se sentem assim — nessa constante busca pelo equilíbrio. Se não chegamos a determinado lugar, até determinado momento, começa a ser uma frustração permanente e destrutiva. Mas o que é esse lugar ou esse tempo certo? Quem inventou todas essas regras? Falamos muito sobre sermos felizes, sobre termos o poder de decisão na nossa vida, sobre sermos diferentes e superarmos limites, mas muitas vezes, inconscientemente, voltamos à mentira que paira sobre todos nós: de que a nossa vida tem de parecer de uma certa maneira para que estejamos bem connosco — e, por consequência, com os outros. Mas quando é que a vida deixou de ser uma aventura de descoberta e curiosidade? Quando é que se tornou não aceitável questionar o status quo

As redes sociais, com todas as suas mais valias, desde o facto de nos conectarem a poderem ser uma excelente fonte de inspiração, são também uma plataforma que vende imagens e ideais que, na maior parte das vezes, não são os nossos (nem os de ninguém…), antes referências e clichés de felicidade. A imagem da vida perfeita acaba por nos fazer acreditar na “mentira” dos outros, esquecendo-nos da nossa própria realidade — que, mesmo não sendo perfeita, é real e única. Devemos celebrar-nos mais e mais vezes. Sem estarmos tão preocupados em o registar para, posteriormente, o partilharmos. O verdadeiro prazer da celebração vem de dentro, e não o contrário.

Devemos festejar as pequenas vitórias, mesmo que não seja a vitória final. Uma amiga minha tinha o hábito de nunca festejar porque, como não podia prever o futuro, não sabia se aquilo que num momento lhe parecia bom não seria, mais tarde, algo mau. Quando abriu o seu pequeno atelier, não festejou o seu primeiro projeto, porque ainda era cedo para festejar, podia correr mal.

Há um ditado espanhol que diz “e agora que nos tirem o que já dançámos.” Com a idade aprendi que devemos ir festejando o que a vida nos traz de bom, mesmo as pequenas coisas, especialmente as pequenas coisas. Afinal são elas que tornam a vida tão especial.

 Publicado originalmente na edição Celebrate Yourself da Vogue Portugal, de fevereiro de 2022.
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