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by Sofia Lucas

 

“Aqueles que viajam com a corrente sempre sentirão que são bons nadadores; aqueles que nadam contra a corrente podem nunca perceber que são melhores nadadores do que imaginam.” Shankar Vedantam

Fotografia de Branislav Simoncik. Realização de Alba Melendo

Com o tempo tendemos a otimizar e a padronizar as nos- sas respostas para o que a vida nos traz. Cada um de nós desenvolve a sua própria maneira abreviada de inserir e processar experiências quotidianas e resolver problemas – no fundo, adaptarmo-nos. Mas a fronteira pode ser ténue, entre o que são os hábitos e a capacidade de adaptação necessários, num lado prático da vida, e o rendermo-nos a uma dormência que nos torna mecânicos, entorpecidos e, sobretudo, perdermos a capacidade de estar realmente vivos: assistir, sentir, pensar e agir de maneira deliberada e livre, fiéis a tudo o que realmente acreditamos.

Muitos são os preconceitos a que somos permeáveis, que de forma sub-reptícia penetram na nossa consciência, na nossa boa personalidade e nas nossas mais elevadas convicções racionais, e se alojam entre nós e o mundo, entre a nossa humanidade imperfeita e as nossas aspira- ções, entre quem acreditamos que somos e como nos comportamos.

Os preconceitos inconscientes sempre nos perseguiram, mas são vários os fatores que os tornam especialmente perigosos nos dias de hoje. A globalização e a tecnologia e as linhas de raciocínio cruzadas do extremismo religioso, agitação económica, mudança demográfica e a migração em massa amplificaram os efeitos de preconceitos ocultos e afetam toda a forma de lermos o mundo. E todas as nossas ações já não nos afetam só a nós mesmos, mas todos os que nos rodeiam, próximos ou distantes, ou até gerações ainda não nascidas. Enquanto dissermos que o movimento das asas de uma borboleta pode causar um furacão no mundo não passa de uma construção teórica, as nossas ações e movimentos podem criar tempestades reais na nossa e em muitas vidas.

Pessoas boas não são aquelas que não têm falhas, os bravos não são aqueles que não sentem medo e os generosos não são aqueles que nunca se sentem egoístas. Pessoas extraordinárias não são extraordinárias porque são invulneráveis a preconceitos inconscientes. São extraordi- nárias porque simplesmente escolhem fazer algo sobre isso. E se por um lado é fácil, e talvez tentador, deixarmo-nos levar pelas correntes pré-estabelecidas, lutar contra qualquer forma de corrente pode exigir de nós, muito mais do que muito, tudo.

Quando lutamos contra a corrente, a maior certeza que temos de ter em nós é que o fazemos pelo motivo certo, e não porque ser contracorrente é estar “na moda” ou ser politicamente correto. A tarefa de chamar as coisas pelos seus nomes verdadeiros, de dizer a verdade com a melhor das nossas habilidades, de saber como chegámos aqui, de ouvir particularmente aqueles que foram silenciados no passado, de olhar a História e ver como tudo se encaixa, ou se separa, de usar qualquer privilégio que tenhamos recebido para desfazer privilégios seletivos é também o nosso papel. É como fazemos do mundo, mundo.

 

Editorial originalmente publicado na edição de março 2019 da Vogue Portugal. 

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