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Tendências 28. 2. 2019

Espelho vs realidade: o abominável mundo da auto-percepção

by Beatriz Teixeira

 

Sei perfeitamente qual é o meu aspeto quando estou a escrever, a sentar-me no metro, a atravessar uma passadeira, a carregar no verde quando compro um novo par de sapatos de que não preciso. Ou acho que sei? Pegámos no espelho e refletimos sobre a imagem que ele nos mostra em oposição à que só existe na nossa cabeça.

 

©Getty Images

Não consegui ainda vasculhar suficientemente bem o meu cérebro para entender qual foi o momento exato da minha vida em que passei a descrever-me como gorda e a desejar ter outro corpo, não um qualquer, mas o de tantas outras mulheres, da televisão, das redes sociais, da vida. Talvez não o consiga precisar porque não foi o mundo que mo disse, não houve aquele momento de viragem em que o cosmos me maltratou e nunca mais esqueci. Fui eu própria que decidi assim: gorda, baleia, disforme, fora da norma.

Tenho 25 anos e pelo menos dez deles foram passados encolher a barriga e a saltar entre dietas. Recusei hidratos, só comi saladas, experimentei viver plena com a decisão de só ter uma cheat meal por semana, tentei ser vegetariana para me obrigar a comer mais verdes, lanchei cubos de queijo magro para alimentar o rato faminto que vive no meu estômago, descasquei cenouras aborrecidas e cortei-as em palitos enquanto imaginava batatas fritas, fiz jejuns intermitentes, só comi sopas durante semanas, pesquisei sobre a dieta da papa de bebé, a dieta da Beyoncé, a dieta daquela pessoa que perdeu dez quilos num mês.

E, pelo meio, detestei todas essas refeições e fiz piadas. Piadas em voz alta sobre a minha barriga que podia ser a de uma grávida de gémeos, sobre o meu rabo que se arrasta pelo chão, sobre como uma gastrenterite vinha mesmo a calhar para me ajudar a chegar ao verão com um aspeto muito mais aceitável. E todos rimos, juntos, “és tão engraçada”.

Até que esqueci momentaneamente essas dietas todas e comi, comi, comi. Comi tudo, com culpa e sem culpa e com culpa outra vez. E depois voltei às dietas uma e outra vez, comparei-me a outros corpos e diminui o meu com outros nomes, outras piadas, tão criativas quanto punitivas, enquanto permitia aos outros que também as fizessem sobre mim, sobre o meu corpo. E todos rimos, juntos, “és tão engraçada”. Até que deixou de ter piada. Até que deixei de me rir e percebi que andávamos todos a fazer o mesmo.

“Só que, de repente, começamos a competir na área do autoconceito e já não queremos só fazer melhor e ser melhor, queremos ser os outros.”


Crescemos viciados em comparação, daquela saudável, que em jeito de competição nos vai dizendo ao ouvido que podemos fazer melhor, que podemos ser melhor. Começa com os pais, os irmãos, os primos, depois acontece com os amigos, os amigos dos amigos, os colegas de trabalho e as pessoas que seguimos no Instagram. Tudo à nossa volta alimenta essa comparação, e até nós próprios, e que bom que é ver toda a gente tentar ser melhor. Só que, de repente, começamos a competir na área do autoconceito e já não queremos só fazer melhor e ser melhor, queremos ser os outros.

“Começamos a achar que somos inferiores, insignificantes e esteticamente inadequados e começamos a não gostar de nós porque nos consideramos diferentes, para pior, dos modelos de comparação que seguimos”, diz Helena Morais Cardoso, terapeuta de amor-próprio. E aí, o nariz proeminente, a ruga de expressão, as estrias, a borbulha, o peito descaído, o rabo com celulite, tudo isso passa a ser visto com uma espécie de lupa de aumento, porque é preciso arranjar um bode expiatório que explique o porquê de estarmos tão longe da perfeição. “Focamo-nos nesses pequenos pontos de diferença e aumentamo-los, projetamos neles a nossa frustração de não sermos como gostaríamos, de estarmos longe do tal padrão de comparação, do nosso ideal.”

E, como o defeito nem sempre desaparece, ele lá vai continuando como alvo a abater e de um ódio sem igual, enquanto o universo nos continua a dizer, em cochichos, que é preciso ser-se perfeito para se ser feliz.  Só nos esquecemos que essa treta da perfeição não existe. Não, pelo menos, no mundo real. “Quando olhamos à nossa volta, para as mulheres que existem à nossa volta, podemos verificar que a normalidade são pessoas como nós. A normalidade é a imperfeição.” Seja essa imperfeição o nariz proeminente, a ruga de expressão, as estrias, a borbulha, o peito descaído ou o rabo com celulite. Mas porque é que nos custa tanto vê-lo? Não andará o espelho a fazer o seu trabalho? Anda pois, se o encararmos apenas como uma forma de garantir que não saímos à rua com a camisola ao contrário. É que o espelho devia ser só isso: um objeto utilitário que reflete uma realidade e permite compor a imagem.

A não ser que vivamos em função dele. “Depender de um espelho retira-nos a capacidade de aproveitarmos, de saborearmos a nossa autoimagem”, diz Luís Gonçalves, psicólogo e diretor clínico da Psinove. Especialmente se observamos esse espelho com um filtro de expectativas, supostos padrões de Beleza e comparações. E aí o problema não é a realidade que o espelho reflete, mas a forma como se interpreta e lida com essa imagem refletida.

 “Quando olhamos à nossa volta, para as mulheres que existem à nossa volta, podemos verificar que a normalidade são pessoas como nós. A normalidade é a imperfeição.” 


Helena Morais Cardoso explica-o, comparando a perceção que temos da realidade a um par de óculos. “Se o meu par de óculos for fruto de um amor-próprio saudável, eu vou ver-me de forma mais positiva, menos crítica e com mais aceitação e, claro, vou aceitar melhor a minha realidade no espelho. Se o meu par de óculos for de inferiorização e de comparação negativa, eu vou percecionar-me como insuficiente e, consequentemente, a minha relação com o espelho também não será muito positiva.”

E na mesma medida em que não acreditamos naquilo que o espelho nos diz, insistindo em ampliar as “imperfeições” que ele reflete, não acreditamos também naquilo que nos dizem as pessoas que nos são próximas. “Isso é porque me vês com olhos de amor”, diz-me uma amiga minha sempre que a elogio, e eu digo-lhe o mesmo quando ela me elogia a mim, e continuamos nisto de ter o nosso par de óculos com dioptrias a menos.

Diabolizámos o espelho, seja porque o evitamos ou porque dependemos demasiado dele – ou porque vimos demasiados contos de fada da Disney com madrastas tão malvadas quanto espelho-dependentes, que invejam a beleza e a juventude das suas enteadas. Mas o espelho é, na verdade, aquilo que fizermos dele. “Pode ser um inimigo diário, quando a perceção que temos da nossa aparência é a de que não somos suficientemente bonitas; pode ser uma ferramenta de utilidade diária sem que haja qualquer carga emocional associada; e pode ainda ser uma fonte de amor-próprio e autorreconhecimento, mesmo com a existência de ‘imperfeições’”, diz Helena.

A última às vezes só se consegue com um empurrão de terapia e, nesse caso, Helena aconselha, entre outras coisas, exercícios de espelho baseados no método de Louise Hay (autora motivacional e uma das primeiras a falar de autoajuda nos anos 70), que consistem em dizer palavras encorajadoras, carinhosas e de incentivo em frente ao espelho. Um “eu aceito-me” genuíno repetido quantas vezes forem necessárias pode ser um ponto de partida. Outro é ganhar consciência da forma como nos expressamos sobre nós próprios e substituir os comentários negativos e desproporcionados por afirmações não punitivas. Porque um “sinto-me gorda” racional, mesmo que numa perspetiva de vontade de mudança, não pressupõe nunca o elemento castigador de um humilhante “sou uma baleia” ou outra coisa qualquer mais criativa – somos peritos nisso.

“Diabolizámos o espelho, seja porque o evitamos ou porque dependemos demasiado dele (...) Mas o espelho é, na verdade, aquilo que fizermos dele.”


E depois há a parte que nem sequer inclui espelho, porque gostar de nós é muito mais do que gostar da nossa aparência. A psicóloga Catarina Lucas fala na importância de desviarmos as atenções da imagem física e de alimentarmos a nossa realização pessoal e autoestima com outras coisas, como as amizades, os projetos profissionais, as aprendizagens que vamos fazendo ao longo da vida.

“Aceitando que não somos perfeitos, que nunca seremos iguais a ninguém, que somos pessoas com características e valores próprios, porque ser diferente de alguém ou do que já fomos em tempos não é mau”, garante a psicóloga. Mais, adianta, “só quem gosta de si como um todo, consegue gostar de si fisicamente; alguém que se foque apenas na imagem corporal, jamais terá uma boa autoestima”. Até porque é impossível consegui-lo todos os dias (será que a Beyoncé consegue?) e, numa perspetiva contrária, até eu, a pessoa que se tem autointitulado gorda, baleia, disforme e fora da norma, tem dias em que gosta do que vê.

É por isso que, sem menosprezar o movimento body positive, talvez beneficiássemos mais com a ideia de body neutrality, uma vertente mais moderada que investe na autoaceitação antes do amor-próprio, e que nos diz que não faz mal se não conseguirmos gostar da celulite que temos nas pernas, se conseguirmos abstrair-nos do reflexo automático de o encarar como algo mau, de o descrever com repulsa e ódio. É mudar o chip de “tenho de amar o meu corpo” para “este é o meu corpo e é OK”, que é como quem diz: pare com esse maldito overthinking.

Estamos há demasiado tempo concentrados em destetar as nossas ancas largas, há tanto que nos esquecemos do nosso valor, da diferença que podemos fazer no mundo, tudo porque metemos na cabeça que as pessoas “feias” não vão longe, não são felizes para sempre (mais um ensinamento de conto de fadas). Mas elas vão e elas são. Com ancas largas e tudo.

Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro 2019 da Vogue Portugal.

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