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Editorial julho/agosto | "The Madness Issue" (and the madness around it)

Editorial 31. 8. 2020

Editorial setembro 2020 | "The Hope Issue"

by Sofia Lucas

 

“It's really a wonder that I haven't dropped all my ideals, because they seem so absurd and impossible to carry out. Yet I keep them, because in spite of everything, I still believe that people are really good at heart.” - Anne Frank

Ter esperança em tempos difíceis não é um romantismo tolo. Nasce do facto de que a história humana é uma história não apenas de crueldade, mas também de compaixão, sacrifício, coragem, bondade... amor. Tal como nas nossas histórias pessoais. O que escolhemos enfatizar nesta história complexa determinará as nossas vidas. Se virmos apenas o pior, destruímos a nossa capacidade de acreditar, de fazer algo. Se nos lembrarmos dos tempos e lugares – e são tantos – onde as pessoas se comportaram de forma magnífica, a energia para agir é inevitável, e a possibilidade de mudança uma realidade.

Não é por um futuro utópico que devemos esperar. O futuro é uma sucessão infinita de presentes, e viver agora como pensamos ser correto, desafiando tudo o que há de errado ao nosso redor é, já em si, uma vitória maravilhosa.Os últimos anos têm sido verdadeiramente notáveis para a construção de movimentos, mudanças sociais e mudanças profundas em ideais, novas perspetivas e reestruturações globais – e, claro, as respetivas reações contrárias, como em todas as mudanças. Os últimos meses têm sido especialmente vertiginosos, em tudo o que se refere a mudanças, nas que nos são impostas e nas que buscamos nós por tudo aquilo em que acreditamos e defendemos.

É importante pensar no que a esperança não é: não é a crença de que tudo foi, está, ou ficará bem. A evidência está à nossa volta, e infelizmente, estamos rodeados de demasiado sofrimento e tremenda destruição. A esperança que importa é sobre perspetivas amplas com possibilidades específicas, aquelas que convidam ou exigem ação da nossa parte. Também não é a narrativa colorida do "vai ficar tudo bem”, um contraponto à narrativa negra do "não há futuro possível.” A esperança encontra-se nas premissas de que não sabemos o que vai acontecer e que, no espectro gigante da incerteza, há espaço para agir. Quando reconhecemos a incerteza, reconhecemos que podemos influenciar os resultados – sozinhos ou em conjunto com algumas dezenas ou vários milhões de outras pessoas. A esperança é abraçarmos o desconhecido, uma alternativa para a certeza dos otimistas e receio dos pessimistas. Os otimistas acham que tudo ficará bem sem o nosso envolvimento; os pessimistas assumem a posição oposta; no fundo ambos se afastam da responsabilidade.

É a crença de que o que fazemos importa, embora como e quando possa importar, a quem e o que isso pode impactar, não sejam coisas que possamos saber, e controlar, de antemão. Podemos até nunca vir a conhecer a verdadeira dimensão dos nossos gestos, ou do seu impacto no futuro, mas eles têm exatamente a mesma importância. A História está cheia de pessoas cuja influência foi mais poderosa mesmo depois de partirem.

Esperança e fé estão entrelaçadas, e são o poder maior, o que move as montanhas inabaláveis que, por princípio, nem todos acreditam poderem ser movidas.

Viver o dia a dia é insuficiente para o ser humano; precisamos de transcender, de escapar; precisamos de significado, compreensão e explicação; precisamos de perceber os padrões gerais nas nossas vidas. E precisamos de liberdade para ir além de nós mesmos, seja com telescópios e microscópios e a nossa tecnologia sempre crescente, ou em estados de espírito que nos permitam viajar para outros mundos, para superar os nossos arredores imediatos. Precisamos de amor, de um maior que nós. Precisamos de esperança, um sentido de futuro. É precisamente nas maiores dificuldades que a esperança é tão precisa. É também nos momentos de maior desespero e colapso que a esperança nos parece impossível de viver, mas basta uma gota de esperança, para mudar tudo. Em nós. E no mundo.

Editorial originalmente publicado no Hope issue, de setembro 2020.
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