Opinião   Editorial  

Editorial dezembro 2020 | Love

05 Dec 2020
By Sofia Lucas, diretora da Vogue Portugal

O Amor - na sua beleza e brutalidade - pode desfazer-nos completamente. Mas essa mesma força tem, também, o poder de nos regenerar, de nos recriar, de nos refazer.

“The world is violent and mercurial. We are saved only by love — love for each other and the love that we pour into the art we feel compelled to share: being a lover; being a parent; being a writer; being a painter; being a friend. We live in a perpetually burning building, and what we must save from it, all the time, is love.” - Tennessee Williams

© Jamie Nelson | Vogue Portugal
© Jamie Nelson | Vogue Portugal

O Amor - na sua beleza e brutalidade - pode desfazer-nos completamente. Mas essa mesma força tem, também, o poder de nos regenerar, de nos recriar, de nos refazer. Dos primeiros laços, que nos formam e moldam, aos grandes amores da nossa vida, as relações são aquilo que semeia o nosso crescimento, o laboratório da invenção e reinvenção de nós próprios. Segundo investigações na área da Psicologia, realizadas acerca do impacto do amor na reconfi guração do cérebro, quem somos e quem nos tornamos depende, em parte, de quem amamos. Mas quem amamos depende, igualmente, de quem somos, e de quem queremos ser. O Amor, como o Tempo, é uma função nossa tanto quanto nós somos uma função dele. Talvez por isso seja tão difícil, ou impossível, materializá-lo em estudos, menos ainda em palavras, em que nunca vai caber.

Quando falamos de amor, voltamos ao início, como se precisássemos sempre de assinalar onde tudo começou. Uma mãe está além de qualquer noção de começo. Isso é o que a torna uma mãe: o facto de ser quem começa a nossa história, ainda antes de nós. As pessoas que mais amamos tornam-se uma parte física de nós, enraizadas em nós, nos caminhos onde as memórias são criadas. Nesta edição dedicada ao Amor, nas suas mais variadas vertentes, era impossível não incluir o Natal - “aquela altura do ano.” Aquela que, como que por magia, parece entrelaçar-se com o amor, e acende todo o tipo de luzes, das mais quentes às mais frias, mesmo as que passaram o resto do ano adormecidas. Aquela altura em que o mundo parece ficar mais sensível e solidário, mesmo que com prazo de validade. Pedimos a toda a equipa que partilhasse uma história pessoal relacionada com o Natal e, ao pensar nas minhas histórias de Natal, todas começavam, e terminavam, na minha mãe.

A minha magia do Natal sempre foi ela, mesmo que durante anos não o tivesse percebido, e tivesse tomado por garantida uma alegria e uma felicidade que não entravam pela chaminé, mas sim pelo amor e pelo coração de mãe que só nos queria ver e fazer felizes, a mim e à minha irmã. Os pinheiros enormes, cheios de luzes, fitas e bolas, que nunca condiziam, e que nos deixava decorar à nossa vontade, os chocolates Imperial, em forma de Pai Natal, joaninhas e pinhas, com que nos podíamos deliciar - com um, e apenas um, por dia. Eu não guardava para o dia seguinte o chocolate que podia comer logo, no imediato, já a minha irmã tinha uma arca dos tesouros, onde escondia todos os que ia amealhando. A família toda, junta e barulhenta, à volta da mesa, para o jantar de Natal cozinhado pela minha mãe. O sabor desses chocolates, o cheiro desses dias e dessas noites, impossíveis de reproduzir hoje, continuam nítidos como se tivessem acabado de acontecer. Acho que me lembro de todos os Natais, desde que tenho memória. Com exceção de um, no ano em que o meu pai morreu, quando eu tinha nove anos. Provavelmente, nesse ano, nem a minha mãe, nem todo o seu amor por nós, conseguiram fazer o Natal acontecer. As luzes não se acenderam em nenhuma de nós... daí o apagão total da minha memória.

© Lara Alegre | Vogue Portugal
© Lara Alegre | Vogue Portugal

A luz da minha mãe nunca mais foi a mesma, mas no Natal algo se voltava a iluminar nela, por nós. E continuava a cozinhar para toda a família, como sempre fez questão. Mesmo nos piores momentos da sua vida em que, destroçada e sem dinheiro, passava noites inteiras acordada a fazer, às escondidas, os nossos presentes de Natal. Esses são os presentes que guardo até hoje: numa caixa e no melhor canto da memória, reservado à felicidade, essa que sentia ao abrir os embrulhos e descobrir um estojo feito em tricot, cheio de lápis de cor, um guarda-roupa completo - camisas de noite e roupão incluídos, taylor made, para a minha Nancy (aquela boneca de cara sinistra, que era “a boneca" que toda a gente tinha, destronada pela Barbie nos anos seguintes). Os Natais passaram, a família foi crescendo, eu e a minha irmã casámos, as ceias continuavam a ser cozinhadas com todo o amor e dedicação, cada vez para mais gente, sempre sem se desviar um milímetro das suas receitas, que a minha mãe não é pessoa que improvise ou goste de experimentar algo novo. E começaram a chegar os netos. A minha mãe, tímida, introvertida, pouco dada a máscaras, achou que aos netos não bastava dizer que o Pai Natal existia e que deixava os presentes enquanto dormiam, como fez connosco. Ele tinha de aparecer, com o saco vermelho e as barbas brancas. E assim foi. A minha mãe, franzina e com menos de um metro e meio de altura, mais uma vez costurou magia, e fez um fato completo de Pai Natal, com que se vestia religiosamente e saía de casa, para tocar à porta, à meia noite e meia noite em ponto, no auge do nervosismo das crianças, para entrar na sala a arrastar um saco vermelho maior do que ela, abarrotado com os presentes dos netos. Carregado com um amor maior que ela.

E os Natais passaram e os netos cresceram à medida que minha mãe diminuía. Vestiu-se de Pai Natal até há cinco anos, quando a mais nova dos quatro netos, já com nove anos, lhe confessou que já sabia quem era o "Pai Natal". Continuou a cumprir milimetricamente as suas receitas perfeitas por mais um ano ou dois. Hoje tem 80 anos, e a demência roubou-lhe a luz do Natal e todas as memórias recentes. Mas não lhe roubou as passadas, nem tudo o que (nos) liga nessa luz, que não tem tempo nem distância: o Amor. Porque o amor não tem de ser entendido nem explicado, só precisa de ser sentido. E mesmo que não saiba que dia é, ou onde está, vai sempre sentir-se em casa, e protegida, por quem a ama. Os Natais vão continuar a passar, e mesmo não sabendo como serão os Natais do futuro, da minha filha, dos meus sobrinhos, dos filhos deles, sei que vão ser o que nunca teriam sido, se não tivessem sido tocados pelo amor, e pela magia, de todas as pessoas com quem tiveram o privilégio de crescer.

© Lara Alegre | Vogue Portugal
© Lara Alegre | Vogue Portugal

*Editorial publicado originalmente na edição Love da Vogue Portugal, de dezembro 2020.For the english version, click here.

Sofia Lucas, diretora da Vogue Portugal By Sofia Lucas, diretora da Vogue Portugal

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