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by Sofia Lucas

 

“Family isn’t always blood. It’s the people in your life who want you in theirs; the ones who accept you for who you are. The ones that would do anything to see you smile and who love you no matter what.” Maya Angelou

Bette Frank, Ilja Cornelisz, Lucas Cornelisz e Boris Cornelisz. © Fotografia de Frederico Martins. Styling de Michele Bagnara

Nascemos e aprendemos - ou desaprendemos - a amar através dos nossos padrões formativos de apego, modelados e cultivados na família, padrões que imprimem a nossa identidade emocional e moldam os ideais segundo os quais nos ligamos, sejam eles na dor ou na felicidade. A história familiar é inseparável do nosso sentido de identidade e, embora possamos (e devamos) recriar os nossos próprios padrões de amor por meio de novos relacionamentos e um enorme trabalho por conta própria, nunca nos podemos desalojar completamente dessas afeições formativas, que estão entrelaçadas no fio misterioso que faz de nós e da nossa infância a mesma pessoa.

Há ainda as famílias que escolhemos, que formamos nós ao longo da vida: nos amigos de quem nos rodeamos, nas relações que criamos, nas paixões que abraçamos, nos lares que construímos, nos filhos que amamos e educamos, onde o porto seguro, a paz e a felicidade que procuramos num lar não passa pela perfeição dos filmes de Hollywood - e muito menos nas imagens felizes e sorridentes das redes sociais, porque não existem famílias perfeitas -, mas sim pelo ato de estarmos presentes com amor e entrega, para o melhor e para o pior.

A dureza de uma travessia no deserto que a vida se encarrega de nos por à frente, pode unir muito mais do que umas férias de sonho num destino paradisíaco. É nos momentos mais difíceis que os laços mais fortes se estreitam. Que um abraço nos protege ou salva, mesmo quando menos o merecemos. Que a palavra certa ou um silêncio cúmplice nos apazigua, e é sobretudo no saber das nossas fraquezas e defeitos, na tolerância e no perdão, que o verdadeiro amor, a verdadeira família, residem. Seja a dois ou em famílias numerosas, embrulhados num laço de amor - e não de sangue, porque é o amor que nos deve correr nas veias. E depois há a família com quem partilhamos a maior parte do nosso tempo, as pessoas que nem sempre podemos escolher, mas com quem temos de partilhar os nossos dias, na nossa vida profissional.

Jessica Athayde e Oliver. © Fotografia de Branislav Simoncik. Styling de Nelly Gonçalves.

Há mais de duas décadas, enquanto fazia uma entrevista de trabalho a uma pessoa, disse-lhe que para mim o lado humano é tão, ou mais, importante que os skills profissionais e o curriculum, porque na verdade passamos mais tempo juntos com as pessoas com quem trabalham do que com a nossa própria família. A expressão chocada na sua cara, porque era algo em que nunca tinha pensado, transformou-se depois num sorriso, e começámos a trabalhar juntos pouco tempo depois. Crescemos juntos, no trabalho, na amizade, na cumplicidade, e, passados mais de 20 anos, somos sócios e criámos juntos a Lighthouse Publishing, que edita a Vogue e a GQ em Portugal. A empresa que fundá-mos, como quem funda uma família, movida pelos nossos ideais artísticos de manter vivo o papel e pela nossa paixão por revistas, mas também pelo espaço de trabalho feliz, profissional e emocionalmente, que sempre quisemos para nós próprios e para com quem partilhamos os nossos dias.

José Santana, o meu sócio, o meu melhor amigo, é com quem tenho a sorte, e o privilégio, de partilhar memórias do passado e os planos de futuro, bem como os projetos artísticos e editoriais que nos unem a toda a família Lighthouse, que vive cada dia com a mesma paixão e entrega, tanto nos momentos mais difíceis e desafiantes, como nos momentos de festa e celebração. Somos uma família de 34 pessoas, o mais diversa possível, em idade, experiência, estilos e gostos, a viver no mesmo espaço e, mais uma vez, partilhando mais horas diárias do que as que passamos com as nossas próprias famílias. Um espaço que sentimos mais como uma casa do que como um escritório. E como em qualquer casa, e em qualquer família, as discussões existem; as divergências, as personalidades diferentes ou parecidas, os dias de melhor ou pior humor, mas acima de tudo existe um sentido de comunidade, de partilha, de paixão pelo que fazemos, que nos liga a todos da mesma forma e que nos faz saber que estamos cá, uns para os outros, nos melhores e piores momentos.

Acabámos de celebrar mais uma edição dos GQ MOTY Awards, uma gala internacional de uma dimensão que só é possível pela coragem e determinação do diretor da GQ e de toda uma equipa que move montanhas contra todas as adversidades, que é realizar um evento destes em Portugal. Meses, dias e noites de trabalho árduo, muito dele invisível, mas que é feito com o brio e uma dedicação incríveis. A cumplicidade entre as pessoas faz com que não existam fronteiras entre a equipa Vogue e a GQ. Na noite que antecedeu o evento, quase todos os membros das duas redações ficaram pela noite dentro, a ultimar detalhes, a preparar os shootings. Houve uma altura em que parei e fiquei a observar, as pessoas “de fora”, a forma como se moviam, se riam e se ajudavam, a solidariedade de uns que já tinham terminado as suas tarefas e que, com um sorriso no rosto, iam acalmar o outro ou ajudá-lo a resolver algum problema. E é em momentos como este que, olhando de fora, se sente por dentro que os laços familiares, sejam eles quais forem, são a base de tudo, e que Natal é mesmo quando um Homem e uma Mulher quiserem. Nada tem mais valor, ou sabor, do que celebrar seja o que for, em conjunto, em família ou com quem se ama.

Feliz Natal.

 

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