Editorial Htrae da edição Uma questão de Gosto da Vogue da Vogue Portugal, publicada em agosto 2019.
É entre um “era uma vez” e um “vitória, vitória, acabou-se a história” que se tecem os mais fascinantes contos de fadas. Mas, em pleno movimento de empoderamento feminino, a questão que se coloca é a seguinte: o que é que acontece quando uma feminista se apaixona? Será a procura pelo mítico príncipe encantado um objetivo inabalável da experiência humana ou o inimigo número um de uma luta que perdura há gerações?
“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro possuidor de uma grande fortuna necessita de uma esposa”. É assim que Jane Austen dá início a Orgulho e Preconceito — e é também assim que decido começar este texto. A verdade é que acho que é uma frase genial, já que, num jogo de palavras satírico que subverte o expectável (leia-se, a procura incessante da época, por parte das mulheres, por um matrimónio favorável), a autora convida-os a refletir sobre o facto de, tal como para dançar o tango, para uma relação, quiçá feliz e duradoura, são necessárias, pelo menos, duas partes. Ao longo de séculos, a experiência feminina regeu-se por um fascínio por contos de fadas onde reinam as princesas, as histórias de amor e os finais felizes. São inúmeros os episódios de programas como Say Yes to the Dress ou os plots de comédias românticas que permeiam os anos formativos de grande parte das mulheres que me rodeiam — eu inclusive. Como uma bola de neve, este tipo de conteúdo dá origem a moodboards infinitos, cujas escolhas explicam o icónico armário da protagonista de 27 Dresses, tudo em nome da fantasia do casamento perfeito. É um reflexo de um panorama maior, no qual é fácil perceber que a narrativa que a história teceu durante anos pinta as mulheres como (apenas) donas de casa in the making e, consequentemente, secundárias ao homem. Com o tempo, o movimento feminista conquistou para as mulheres uma crescente diversidade de direitos que revolucionou os valores sociais que fazem o mundo girar. Ainda assim, os casamentos e as relações amorosas não foram a lado nenhum, e a saúde do mercado que opera em histórias com finais felizes está bem e recomenda-se. Em que é que ficamos? Será o empoderamento feminino um entrave às mais poéticas histórias de amor ou é possível que ainda sonhemos ser salvas por um príncipe encantado e pelo seu cavalo branco?
Enquanto pesquisava por respostas para escrever este texto, parti numa aventura pelo reino dos porquês. Vamos por partes. No seu livro Tudo do Amor, bell hooks defende que não nos tornamos plenamente humanos até nos entregarmos uns aos outros em amor. A autora teoriza que vemos no amor uma espécie de promessa de vida eterna, já que, quando amamos, vivemos de forma autêntica e vulnerável. É um ato tão enigmático quanto puro, já que não nascemos com o conhecimento de como o fazer e é à medida que crescemos que vamos acumulando diferentes definições de como amar alguém, incluindo a nós próprios. Ainda assim, é importante referir que, de acordo com o trabalho de hooks, o ato de amar é também um ato de vontade que equaliza intenção com ação: não somos obrigados a amar, mas é quase inevitável que o escolhamos fazer. Decidi questionar o porquê, e a verdade é que, tal como nos diz Rafaela Rolhas, psicóloga clínica, “os seres humanos são seres sociais, estamos programados para procurar vínculos com outras pessoas. Qualquer ser humano, seja de que género for, beneficia de relações saudáveis e felizes, sejam elas familiares, de amizade ou românticas”. A especialista acrescenta que os parceiros românticos são “uma fonte de intimidade emocional, sexual e física, sendo que uma sexualidade positiva e satisfatória tem um grande impacto na relação e saúde mental dos membros do casal”. Além disso, “a intimidade física ajuda a reduzir o stress, a aumentar a sensação de proximidade e também a dar resposta às [nossas] necessidades emocionais e sexuais”. Mas estar numa relação não é uma receita infalível para o mítico final feliz que todos parecemos desejar (apesar de parecer meio caminho andado). Rolhas admite que nem todos os casais são iguais e que os benefícios de ser parte integrante de um casal dependem de uma multitude de fatores, como diferentes níveis de investimento, qualidade de comunicação ou até partilha de valores e objetivos. “Da mesma forma que uma relação tem a capacidade de contribuir positivamente para a saúde mental das pessoas, uma relação não satisfatória pode ter um papel ativo muito negativo, com impacto nos níveis de stress e ansiedade, na autoestima, no humor e na forma como nos sentimos”, conta-nos.
Durante séculos, as relações românticas assentaram em moldes inflexíveis, quase inquebráveis. Historicamente, “os modelos de relacionamento têm estado enraizados em estruturas patriarcais, sendo frequente enfatizarem papéis de género rígidos, dependência económica e dinâmicas hierárquicas”, diz Fatima Noor, num estudo publicado em 2003, no Journalism Politics and Society Journal. A investigadora argumenta que, tradicionalmente, as relações posicionam os homens como provedores dominantes e as mulheres como cuidadoras. O estudo reforça a ideia de que o conceito de família nuclear é visto como um ideal que força expectativas normativas em torno do casamento, da monogamia e da heterossexualidade. Expectativas essas que, até ao movimento feminista, nunca tinham sido questionadas e, muito menos, contestadas. No seu cerne, o feminismo é um movimento sociopolítico e filosófico que desafia sistemas de desigualdade com base no género e tem como objetivo defender a igualdade social, económica e política de todos os géneros. O seu nome deriva do seu foco em abordar as desvantagens sistémicas enfrentadas pelas mulheres ao longo da história e, tal como se pode ler no estudo de Noor, “as suas principais diretrizes incluem autonomia, empoderamento e reconhecimento da interseccionalidade — ou seja, a forma como a desigualdade de género interage com outras formas de opressão, como raça, classe, sexualidade e capacidade”. Ao longo de décadas, o feminismo dividiu-se em diferentes ondas, cada uma caracterizada por objetivos e impactos sociais distintos. Atualmente, encontramo-nos na quarta onda do movimento — cuja luta se concentra no consentimento, identidade de género, autonomia sobre o corpo e mudança sistémica através de uma lente interseccional — e as normas sociais em torno das relações amorosas, casamento, intimidade e papéis de género reformularam-se, alterando irreversivelmente a forma como nos relacionamos uns com os outros. Como o estudo de Noor alega, o feminismo permitiu que as mulheres tivessem uma participação cada vez mais ativa no mercado de trabalho, acesso ao divórcio e a cuidados de saúde reprodutiva e também a uma maior aceitação de identidades sexuais e de género fora da norma. Mas afinal, hoje em dia, o que é que, de facto, acontece quan- do uma feminista se apaixona? Estará uma mulher empoderada ainda à procura do seu príncipe encantado ou será o feminismo a antítese dos contos de fadas?
Ainda sem uma resposta na ponta da língua, é aqui que entra a questão do conceito de patriarcado e das suas implicações para a vida das mulheres e a forma como criamos relações. É fundamental considerar que este é um sistema que privilegia a dominação masculina e que, ao longo da história, tem moldado as relações íntimas de uma forma que normaliza a desigualdade e perpetua a dependência. Se, historicamente, este pensamento atribuiu a homens e mulheres papéis e hierarquias distintas, o feminismo desafia este mindset e argumenta que os papéis de género limitam a liberdade individual. Não é por nada que hooks, também no seu livro Tudo do Amor, defende que, apesar das mulheres serem incentivadas pelo pensamento patriarcal a acreditar que devem ser mais afetuosas, “isso não significa que estejam melhor preparadas emocionalmente para realizar o trabalho do amor do que os seus pares masculinos”. Ao rejeitar a ideia de que, nas relações amorosas, os papéis devem ser ditados pelo género, o feminismo questiona normas e promove uma sociedade em que ambas as partes podem expressar vulnerabilidade e contribuir de diferentes formas para o bem estar de uma relação. Ainda assim, durante muito, a investigação sociológica olhou para o feminismo e o romance como dois campos em conflito, com a psicóloga Wendy Hollway a afirmar em 1993 que “o amor é uma palavra ausente do discurso feminista” e a vertente mais radical do movimento a comparar as relações românticas heterossexuais como “dormir com o inimigo”.
Mas os anos passam e a sociedade evolui. Como Noor argumenta no seu estudo, hoje em dia, as gerações mais jovens, a par e passo com os direitos conquistados para as mulheres por via do feminismo, “questionam cada vez mais os modelos tradicionais de romance e compromisso, demonstrando uma maior abertura à diversidade relacional”. Nestes novos moldes, as mulheres procuram parcerias regidas pela vulnerabilidade e respeito mútuo, onde reinam a honestidade emocional e a escuta ativa de ambas as partes — tudo em nome da comunicação colaborativa e empática que o feminismo incentiva. As relações feministas — termo que, até recentemente, era considerado paradoxal — priorizam o trabalho emocional, o consentimento, a individualidade, a autonomia e o crescimento mútuo. Acima de tudo, promovem uma aceitação social de um maior leque de possibilidades relacionais, defendendo a ideia de que o amor, o apoio e o cuidado podem manifestar-se de muitas formas diferentes. “Se há uns anos se fechava os olhos a muita coisa (porque foi isso que foi observado e para o qual [as mulheres] foram condicionadas e porque o papel da mulher era outro), nos dias que correm, a tolerância para determinadas questões está completamente diferente”, afirma a psicóloga clínica Rolhas. “Na realidade, as mulheres estão menos tolerantes àquilo que foi, durante muito tempo, tolerável”, acrescenta. Apesar deste novo caminho não ser completamente incompatível com as relações amorosas, a psicóloga explica que se está também a criar um fenómeno de excesso de requisitos numa relação. “As mulheres passam a procurar um parceiro ideal de forma pouco razoável e a ter uma lista de 20 itens não negociáveis. Passam a encarar os dates como entrevistas de emprego, reconhecendo, ao mesmo tempo, a dificuldade em encontrar alguém”, diz. A especialista sublinha que é impossível encontrar alguém que preencha todos os nossos requisitos: “Não existe uma pessoa perfeita, por vezes, temos de ceder naquilo que achamos ser importante para nós. É ótimo existirem requisitos e critérios mas quando a lista é interminável e inflexível, podemos estar a sabotar-nos mais do que a ajudar-nos a encontrar alguém”.
Ainda que os standards relacionais estejam perto de atingir níveis insustentáveis, o fascínio pelo amor e os seus contos de fadas é algo puramente humano — e, consequentemente, impossível de fugir. As histórias onde o romance nos convida a descobrir um final feliz têm sucesso (quase) garantido, basta olhar para os resultados de bilheteiras e streaming de comédias românticas ou para os livros que enchem as prateleiras de best-sellers nas livrarias. Num artigo de 2025 no The Guardian, a jornalista Ella Risbridger apelida este fenómeno de Romance Index, comparando-o à teoria do Lipstick Index de Leonard Lauder, filho de Estée Lauder, que dita que as pessoas compram mais batons quando o mundo à sua volta parece estar a desmoronar-se. Na mesma lógica, com os alicerces tradicionais a sucumbir perante uma revolução social, as pessoas olham para os finais felizes como uma forma de escapismo e uma luz ao fundo do túnel na procura por ligações amorosas e interpessoais. “Os finais felizes são sobre acreditar na fantasia e esperar que esta se reproduza nas nossas vidas, mas também de que é possível alcançar um estado de felicidade inalterável”, explica Rolhas. “É ótimo vivermos com esperança e fascinados sobre o amor, e é totalmente válido que o queiramos sentir na primeira mão, só não devemos fantasiá-lo e criar expectativas irrealistas para a nossa vida”, acrescenta a psicóloga.
Com todas estas questões postas em ci- ma da mesa, torna-se um dado adquirido afirmar que as relações românticas estão a mudar — e que o movimento feminista é um dos grandes intervenientes dessa trans- formação. No seu essay viral para a British Vogue, Is having a boyfriend embarrassing now?, Chanté Joseph declarou que, durante muito tempo, as mulheres eram recompensadas pela sua capacidade de encontrar e manter uma relação; que vivíamos no que se pode chamar de Boyfriend Land: “um mundo em que as identidades online das mulheres giravam em torno da vida dos seus parceiros, algo que raramente se via ao contrário”. Agora, que as relações estão a mudar, verifica-se uma mudança na forma como as pessoas partilham e expõem a sua vida em casal (uma fotografia de uma mão no volante aqui, dois copos de vinho acolá... tudo indícios de que o soft launching é o método predileto para oficializar uma relação amorosa no digital). Pondo os pontos nos is, na procura do parceiro para partilhar o mítico “e viveram felizes para sempre”, uma coisa é certa: o feminismo não é um entrave ao amor nem às relações amorosas, mas é impossível negar que, tal como Joseph argumenta, estar numa relação deixou de ser visto como uma conquista ou sinal de feminilidade para uma mulher. A psicóloga clínica Rafaela Rolhas acredita que “existe uma maior liberdade para as pessoas viverem as relações como querem, com quem querem e para adotarem os papéis que quiserem”. A especialista acrescenta ainda que “existe uma maior consciência daquilo que é importante num relacionamento e uma maior clareza sobre aquilo que as mulheres procuram”. Na aventura que visa encontrar um príncipe encantado, a mulher de hoje tem direito à escolha de assumir o papel que quiser dentro da relação que quer. Afinal, como Joseph diz no seu essay, “não há vergonha nenhuma em apaixonarmo-nos. Mas também não há vergonha em tentar encontrar amor e falhar — ou não tentar de todo”. Até porque o empoderamento feminino é feito, acima de tudo, do direito à escolha.
Originalmente publicado no The Naif Issue, a edição de fevereiro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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