Fotografia: cortesia da Netflix
A atriz Kaya Scodelario, tal como as mulheres que interpreta, não encaixa em nenhum molde que lhe queiram impor. Numa vida em frente às câmaras, tem sabido escolher papéis complexos que a desafiam, que lhe trazem ensinamentos, até que a refletem na sua força. Susie Glass, de The Gentlemen, é um ótimo exemplo.
Poder-se-ia colocar a série da Netflix em mute e ainda assim conseguiria perceber que The Gentlemen é uma produção britânica: os padrões típicos do guarda-roupa do english countryside apresentam a nobreza da família Halstead ainda antes sequer de se conhecer a sua linhagem, mas nem por isso denunciam os padrões de comportamento expectáveis da classe alta, aqui completamente desviados para um storyline que tem tanto de drama como de humor (inglês, claro) — afinal, não são todos os aristocratas que cultivam marijuana sob o terreno da sua propriedade e gerem um negócio multimilionário (e perigoso) em torno dessa mesma plantação.
Estreada em 2024 e protagonizada por Scodelario ao lado de Theo James (Eddie Halstead), setembro dá às boas-vindas a uma segunda temporada cuja antecipação bebe do sucesso da season 1: na linguagem incontornável do realizador Guy Ritchie (se gostou de Snatch — Porcos e Diamantes, de 2000, vai amar este The Gentlemen), Kaya é a aparentemente inabalável Susie Glass, filha do gangster que é a mente por trás deste lucrativo empreendimento e que, enquanto o pai está na prisão, faz as vezes de diretora executiva da “empresa” da família.
Eddie, o herdeiro arrastado para este submundo após a morte do pai, é o protagonista que luta por manter o poder aristocrático da família enquanto tenta equilibrar a dualidade moral que encerra em si e que é obrigado a enfrentar agora que é um (poderoso) peão da máfia inglesa. Os novos episódios de 2026 agudizam, em certa medida, o dark side de Halstead, apresentando-se de uma maneira geral mais sombrios que a temporada de estreia. “Queríamos incrementar a intensidade”, concorda Kaya Scodelario, numa conversa via Zoom no início de julho, a simpatia e a eloquência a confirmarem-se traços que não a abandonam.
“Que tem um pouco a ver com os negócios e a relação de Eddie e Susie. Queríamos realmente colocar pressão sobre eles e testá-los desta vez. Acho que ainda temos os nossos momentos de humor e a leveza que as pessoas adoram na série. Mas as nossas jornadas específicas, as missões, as suas demandas estão muito mais focadas desta vez. E os obstáculos que enfrentam são maiores e mais assustadores. E acho que isso é algo que queríamos ativamente inserir na segunda temporada. Para que continuem com este ritmo na série.”
Essa intensidade soturna é particularmente notória no protagonista masculino, mas isso quer dizer que há uma certa renovada suavidade em Susie Glass, para contrabalançar este lado ambicioso de Eddie? “É mais o que achei interessante explorar”, corrige a atriz. “A razão pela qual a Susie está onde está nos negócios é porque se equilibra entre o implacável e a serenidade, além de ser calculista.
E o Eddie está a evoluir para esta nova versão de si mesmo. Ainda não descobriu em que momentos precisa de se controlar. Definitivamente, desenvolvi-a um pouco mais. E senti-me mais aberta a mostrar esse lado quase maternal dela para com ele. E está a tentar perceber se vai conseguir controlá-lo ou não.
Acho que, no final de contas, o objetivo da Susie é que o Eddie seja uma mais-valia para ela e para o negócio. Ele não é um amigo: eles estão a desenvolver uma amizade e trabalham muito bem juntos, mas ela está sempre de olho no prémio. E se ela não consegue controlá-lo, perde esse poder.” E acrescenta, sobre a construção de Glass: “A minha principal motivação para a Susie era garantir que ela fosse uma personagem completa. Ela não deve ser apenas a porta de entrada para a experiência de Eddie. Ela precisa de ter as suas próprias experiências também.
E desenvolvemos isso bastante na segunda temporada. Vemos Susie mais vulnerável, a apaixonar-se, a explorar um relacionamento e o que isso significa para ela. Vemos a sua vida fora do mundo dos negócios. E acho que o interessante nela, e isto aplica-se a muitas mulheres, é que grande parte da sua identidade vem do trabalho, dos negócios, do pai. E vemos este momento em que ela decide sair disto. E isso é realmente assustador em qualquer idade. Mas é interessante ver uma mulher a fazê-lo.
Não é uma adolescente rebelde, mas sim alguém na casa dos 30 a decidir que quer fazer as coisas de forma diferente agora. E eu admiro muito isso nela. E era isso que eu queria trazer para a personagem. Mas ela é maravilhosamente complexa. Sempre gostei muito disso nela.”, admite, provando que gosta de romper com padrões, nos seus papéis.
A complexidade com que constrói Glass não é nova para Kaya. As personagens redondas sempre foram uma espécie de recreio para ela, desde que entrou na indústria com a infame Effy Stonem, em Skins (2007-2013). Tinha apenas 14 anos. Desde então, acumulou mulheres que lhe trouxeram vivências que não são suas, mas que passaram a fazer parte dela; também depositou essas aprendizagens nas personagens que lhe foram surgindo, cruzando a fronteira entre o argumento e a vida real de forma simbiótica.
“Aprendi algo com cada uma destas mulheres.” De Effy a Susie, interpretou mais papéis femininos incontornáveis em séries como Spinning Out (2020) e Senna (2024), mas também em filmes como Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales (2017) e na trilogia Maze Runner (2014 - 2018). “E o incrível no meu trabalho é que consigo viver essas outras vidas através dessas personagens. É por isso que sempre me senti atraída por personagens interessantes.
Não acho interessante apenas o ato de se apaixonarem. Acho interessante a dor de um coração partido. Acho as complicações interessantes. E todas elas me deram algo. Há coisas práticas: aprendi a nadar e a patinar no gelo. Mas também a vivê-las emocionalmente. Não considero que seja uma atuação. Eu tento realmente tornar-me aquela pessoa. Ter empatia por ela. E guardar essa emoção e essa energia dentro de mim. Afeta-me.
Tecnicamente, já tive o coração partido umas 50 vezes. Mas há uma beleza em poder ter todas estas experiências. Há tantas mulheres incríveis a passar por tantas coisas diferentes. E ter a oportunidade de me colocar no lugar delas... Todos elas me ensinam algo, com certeza.” E como se lida com essas múltiplas vivências, na vida real, indago, curiosa sobre como se entra e sai de uma espiral emocional, tecnicamente? “Acho que quando era muito nova, era difícil”, admite. “É muito difícil distinguir, porque a química do cérebro e do corpo não sabem quando algo não é real.
Portanto, aos 14, 15, 16 anos, se estivesse a gravar uma cena muito emotiva, o meu corpo reagia organicamente. Os neurotransmissores no meu cérebro libertavam essas substâncias, e eu achava isso muito extenuante. Ficava muito vulnerável depois e demorava muito tempo até voltar a sentir-me eu própria. Mas, à medida que fui envelhecendo e descobrindo os benefícios da terapia, de comer bem e de dormir o suficiente, estabeleci uma rotina.
Tenho muita sorte em ter um grupo incrível de amigos que nunca me deixariam ser outra coisa que não eu própria. Por isso, quando termino um trabalho, geralmente priorizo ver os meus amigos. Algo muito simples: ou preparo o jantar em casa ou vamos a um pub que frequentamos sempre. Não quero estar numa passadeira vermelha. Só quero normalidade.
E preciso apenas de cinco minutos perto dos meus amigos, que já estavam comigo antes de tudo isto acontecer — eles estão muito mais interessados nas fofocas propriamente ditas do que nos filmes que estou a fazer. Depois, é voltar ao familiar. Pode ser algo tão simples como dar um passeio pela natureza ou sair para me divertir à noite, com muita cerveja e karaoke. Tudo o que me afaste do glamour deste mundo ajuda-me a reequilibrar.
Esse glamour é, no entanto, indissociável de Susie Glass, e não se desliga com a facilidade com que Kaya o faz atrás das câmaras. A presença da personagem faz-se também da sua pose — e do seu guarda-roupa, algo que Scodelario admite, até a ajuda a vestir o papel de forma ainda mais verosímil: “Acho que há sempre um momento específico na construção de uma personagem”, explica-nos.
“Por vezes, é uma observação do realizador antes do início das filmagens. Outras vezes, é durante os ensaios com o outro ator. Aí percebes o que queres que seja a tua personagem. Por vezes, é o cabelo e a maquilhagem. E depois percebes: ‘Pronto, aqui está ela’. Com a Susie, foi de imediato o figurino. Na primeira reunião com a nossa figurinista, Loulou Bontemps, ela já sabia — queríamos garantir que todas as suas silhuetas eram uma mistura interessante de masculino, mas incrivelmente feminino ao mesmo tempo. Há uma estrutura na alfaiataria.
Tendemos a usar acessórios maiores. Ignorámos a regra de tirar uma peça ou outra [para simplificar]. Acho que, com a Susie, a regra é acrescentar mais. Mas tudo isto contribui para a sua força, embora seja muito feminino e cuidadosamente elaborado. Há sempre algo que não intimida, mas há uma energia masculina que emana daí. Porque ela é tão aberta, é assim que se apresenta. Ela tem muito orgulho no seu estilo, na forma como se comporta num ambiente.
Falámos muito sobre como ela adapta o seu estilo consoante o ambiente em que se encontra. E nós exploramos muito isso. Quando se trata de estampados, especialmente. Sempre que a vemos num ambiente campestre, está a usar muito tweed. É um uniforme que identifica imediatamente o interior de Inglaterra. Quando vai a Itália, é completamente diferente, começamos a usar Dolce&Gabbana.
É imediato. Padrão de leopardo. Lenços de seda na cabeça. Ela brinca realmente com o ambiente em que está. E isso ajuda-me muito porque me faz compreender a personagem. Significa que está crucialmente consciente de quem está a tentar impressionar. Ou quem está a tentar encantar. Ou quem está a tentar destruir. E ela está a usar a moda para os desarmar e intimidar ao mesmo tempo. Acho uma manobra muito inteligente da parte dela. E acho que é assim que as mulheres se apresentam ao mundo também. O guarda-roupa dá-nos poder.
E a forma como nos vestimos retrata e transforma o que sentimos e o que queremos mostrar ao mundo.” E esse vestir também tem uma voz, que ajuda Scodelario a contar um pouco não só o que a personagem é, mas também de onde vem. No caso de Glass, é aquele sotaque cockney, típico operário, mas com um toque de classe. “Ela fala à sua maneira. Faz parte da identidade dela.
Mas, ao mesmo tempo, sabe quando precisa de passar uma mensagem clara. E isso também ajudou a elevar a personagem, garantindo que tem a bagagem cultural, mas que também se consegue desenrascar em diferentes ambientes.”
O incrível no meu trabalho é que consigo viver essas outras vidas através dessas personagens. É por isso que sempre me senti atraída por personagens interessantes. Todas elas me deram algo.
Kaya Scodelario
Mais ou menos como Kaya tem feito a sua vida toda, graças ao seu background multicultural, seja aquele que o seu CV ajudou a construir, seja aquele que a própria vida lhe trouxe: a mãe brasileira trouxe-lhe alguns dos costumes transatlânticos que a atriz ainda mantém hoje como parte dos seus hábitos.
“Tal como outros brasileiros, a comida é uma parte muito importante. Eu viajo muito para o Brasil”, revela. “Tento voltar sempre que posso. Os meus filhos são muito ligados às suas raízes brasileiras. Têm muito orgulho nisso, o que me deixa orgulhosa também. O meu filho pratica capoeira há seis anos, por isso é algo que tento manter vivo. Comemos comida brasileira umas três ou quatro vezes por semana. Portanto, este é definitivamente o aspeto mais importante.
A maior parte da nossa alimentação é composta por comida brasileira. Cozinho praticamente de tudo. Faço as minhas próprias coxinhas. Faço bobó de camarão, na abóbora. Eu dedico-me mesmo. Feijão, arroz e carne três vezes por semana. Não sei se sou muito boa a cozinhar, mas adoro fazê-lo”, partilha, intercalando o inglês do UK com o português do Brasil com facilidade.
A entrevista poderia, até, ter sido feita em português, tal é a destreza. Mas talvez, tendo em conta a altura, fosse arriscado: "Bem, neste momento, por causa do Mundial, estou a dizer muitos palavrões em português. Tenho de ter cuidado perto dos meus filhos. Mas sempre que vejo um jogo de futebol, viro imediatamente brasileira. O meu inglês desaparece. Mesmo quando estou a ver Inglaterra jogar. Não sei porquê. Algo se ativa e começo a dizer palavrões sem parar e a ser muito rude.
Esse tem sido o principal problema nos últimos tempos. E são palavrões muito fortes”, remata, recusando-se, entre risos, a repetir. O vernáculo colorido é algo que emerge pontualmente, não é um padrão da sua vida, mas que outros padrões de comportamento consegue reconhecer em si? Já que estamos a abordar o tema, nesta Vogue: “Tenho uma característica interessante.
Considero-me bastante desajeitada socialmente e não necessariamente confiante. Mas adoro receber visitas. Não sei se isto vem da minha infância no Brasil ou se é algo que me deixa mais à vontade quando reúno um grupo de pessoas, principalmente os meus amigos. E não o faço de uma forma superorganizada, sabes? Mas encontro paz e encanto nas pessoas que se reúnem e partilham um momento.
E a comunidade que escolhi é muito importante para mim. Eu escolhi a minha família. Eu coloquei estas pessoas na minha vida. Por isso, o meu padrão é sempre tentar reunir estes diferentes grupos e partilhar uma refeição. Não sei se é a mesma coisa em Portugal. Mas eu ponho toda a comida na mesa. Os ingleses servem-no diretamente do forno. Nunca percebi isso. Quero tudo em belas taças.” Isso é muito português, afianço. As raízes de samba de Kaya Scodelario iriam dar-se bem com o nosso fado.
O que torna ainda mais inacreditável quando confessa que a única vez que esteve em Portugal foi para uma entrevista e produção na Lighthouse Publishing, em 2024. “Eu quero mesmo voltar. Depois do nosso maravilhoso momento no escritório, fui dar uma volta e havia uma pequena feira na Avenida. Passei umas três horas a caminhar por lá. Por isso, adoraria explorar mais o país. Estou a planear levar os meus filhos de férias, porque me senti muito conectada. E estou entusiasmada por conhecer mais lugares.”
Fazer de Portugal um destino regular nos seus planos, além do Brasil, pode facilmente tornar-se padrão na vida da atriz, desconfiamos, depois dessa prometida visita. E ratificamos todos os outros hábitos comportamentais que a fazem estabelecer uma comunidade de amor em seu redor.
Mas de resto, também somos apologistas de que continue a romper com padrões e a ser disruptiva nas suas personagens, que tanto a ensinam a ela, mas também a nós, com lições que nos inspiram também a quebrar e a criar, em igual medida, padrões — de comportamento, de vida, de modos de estar, de guarda-roupa — que nos fazem evoluir, crescer, amadurecer. Com a mesma assertividade de Susie Glass. Ou melhor, de Kaya Scodelario.
Originalmente publicado no The Patterns Issue, na edição de setembro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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