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Tendências 8. 3. 2019

Não é preciso queimar os soutiens, podemos só deixá-los em casa

by Patrícia Domingues

 

Chegou a hora de lavar roupa suja. Acione o programa de lavagem para assuntos delicados e, em caso de opiniões difíceis de tirar, adicione um aditivo à base de “o meu corpo só a mim me diz respeito” 

Fotografia de Jamie Nelson. Realização de Jordan Grossman 

Soutiens com copas. Só o nome me arrepia. Mas por que raio andava eu a comprar peças de roupa almofadadas? É uma pergunta retórica. Sei perfeitamente porque o andava a fazer. Cresci com o ideal de Beleza que, no que toca a seios, mais é mais e, claro, a Moda tinha a solução 1, 2, 3 para dar a mulheres com mamas pequenas como eu um pequeno boost (e na altura estava tão inebriada por passar de uma copa A a duplo B que talvez até tivesse terminado esta frase com um “de confiança”). Aff, push up – até o nome envolve algum esforço.

Ainda me lembro do meu primeiro soutien, aos 11 anos, algo mais semelhante a um modelo desportivo (em tons de azul-bebé e com um ursinho no meio) do que às opções ao estilo Victoria’s Secret que ocuparam mais de metade da minha adolescência e que, engavetadas, foram abafando com arrogância os outros modelos mais “simplórios”. Com renda, copas preenchidas com um gel para aumentar o “conforto”, alças cobertas com pequenos cristais e outros, em formato caicai, que vinham com uma multiplicidade de alças, incluindo as de silicone (sim). Não é que me tenha tornado uma desapaixonada por lingerie, nem sequer tenha desenvolvido algum tipo de argumento anti-soutien, mas a verdade é que de há uns cinco anos para cá a minha gaveta de roupa interior tem vindo a reduzir para metade, quer em quantidade quer em tamanho. Os bocados de tecido de renda que uso de vez em quando (chamam-se bralettes) ocupam tão pouco espaço que por vezes me esqueço de os usar. Outras, nem sequer me apetece. É a primeira vez que estou a pensar sobre o assunto, mas na verdade acho que experienciei dois ritos de passagem: o do primeiro soutien e o de não usar soutien. Se ao meu eu de 16 anos na fila da porta do Coconuts lhe tivesse surgido a aparição do eu de hoje a correr pela Avenida da Liberdade com o mamaçal tão livre e solto e bagunçado (e pequeno!) quanto a hora a que devia ter chegado ao trabalho nesse dia, havia de ter colapsado. “Como assim, tornaste-te uma mulher que chega tarde ao trabalho e que não usa soutien? Estás louca?” Temos de dar ao passado o devido desconto. Afinal, não era só o BI que era falso na altura. Era também o decote.

Esta recém descoberta do braless não foi uma decisão política, embora todas as decisões que envolvam uma mulher determinar o que fazer com o seu corpo, e fora da norma, sejam comumente associadas a statements. 

Mas poderei afirmar que este “ups, esqueci-me de trazer soutien” é uma decisão assim tão pessoal, tendo em conta os dias #freethenipple que vivemos, tendo em conta as mulheres que incendiaram de tal forma o debate sobre o uso do soutien em 1968 que até hoje se fala em queima ou tendo em conta Kaitlyn Juvik, que quando foi chamada à atenção pelo diretor da escola por estar sem soutien, fez do uso de soutien um hot topic no já quente verão de 2014? Tem a ver com conforto, sim, tem a ver com amadurecimento – tenho 30 anos, o Coconuts já fechou e as minhas mamas são como são. Ou como diz a minha colega Ana Caracol, assegurando-me de que chega a confiança com a idade, “estamos todos a parar de fingir”. Mas sem esta rede de suporte, não em mim mas à minha volta, sem toda a discussão em torno da positividade do corpo, sem ver outras mulheres fazer o mesmo, talvez nunca tivesse abandonado o meu soutien almofadado (e todas as inseguranças que repousavam confortavelmente nas almofadas dele).

"O problema é que a mulher sem soutien – peito a balançar, mamilos apontados - é demasiado sexy? Ou é porque não é sexy o suficiente – porque, sem os adereços, os seus seios são notoriamente pouco redondos, murchos, e de tamanhos diferentes?” 

O que quero dizer é que sinto as minhas costas quentes. O braless, descobri dias depois, tem sido muito falado (e quando digo muito é muito, ao nível de 100 mil posts no Google no espaço de uma semana). Há uma série de vídeos sobre o tema, artigos de publicações sobre o que se sente quando nos “tornamos” braless (spoiler alert: nada) e múltiplas notícias de mulheres, muitas delas celebridades, a oficializar os seus mamilos. Agregados a estes resultados, estão estudos que concluíram que os soutiens são uma falsa necessidade e que as mamas não beneficiam anatomicamente com eles. Jean-Denis Rouillon, professor de Medicina Desportiva na Universidade Franche-Comté, em França, esteve 15 anos a analisar os seus efeitos e concluiu que “os seios fortalecem-se quando não se usa soutien porque isso obriga o músculo em volta a desenvolver-se”. Ouviu isto? Foi o som de todos os colchetes do mundo a estalarem. 

O soutien inventado no século XX é uma reinvenção do espartilho que as mulheres usavam desde 1500, nascido para dar às mulheres mais liberdade de movimentos, mas reapropriado para usar ou disfarçar os seios, conforme os padrões de Beleza de cada época. O soutien nasceu da necessidade e como uma necessidade subtilmente imposta – e também nunca me tinha passa- do pela cabeça isto antes. Foi uma colega braless do The New Yorker a colocar esta questão e outra, que achei muito pertinente: “Sempre me interroguei sobre o estigma associado a retirar um soutien. O problema é que a mulher sem soutien – peito a balançar, mamilos apontados - é demasiado sexy? Ou é porque não é sexy o suficiente – porque, sem os adereços, os seus seios são notoriamente pouco redondos, murchos, e de tamanhos diferentes?” Somos nós que damos aos objetos o seu valor simbólico. E também somos nós que definimos padrões de Beleza. Por exemplo, se eu escrever num browser Victoria’s Secret a descrição do site é: “The world's best bras. The sexiest panties & lingerie. The most beautiful Supermodels.” Tudo isto é discutível. Para mim, este slogan é o maior turn off que há e, no entanto, fomos nós que parámos durante várias vezes as nossas vidas para assistir ao desfile da marca e elegemos aquelas mulheres como o arquétipo de perfeição. Nada contra os anjos, mas hoje o meu conceito de Beleza vai muito além de um rosto bonito e um corpo aparentemente flawless. Além disso, a ideia de usar o que quer que seja só para me tornar mais “sexualmente” atraente dá-me um nó no estômago (atualmente, digo). “Precisamos de estar confortáveis para a resistência”, escreveu outra fellow braless na caixa de comentários do site Man Repeller num artigo sobre este mesmo tema. Mas e enquanto queremos estar confortáveis queremos também fazer um statement? 

Muitos dos resultados online associam o braless à geração millennial – basicamente, como tudo o que há de novo e que ainda não sabemos muito bem explicar. Mas elas sabem. Onde? Onde acontece tudo o que é millennial: no YouTube. “É apenas uma escolha do dia a dia [não usar soutien ou usar apenas bralettes]. Não tem um papel enorme na minha ideologia. É mais um protesto silencioso”, diz a poeta Savannah Brown de 19 anos, num vídeo no YouTube intitulado Sav’s Guide to Going Braless. Stella Era, outra youtuber de 17 anos, tem um vídeo sobre o tópico “porque é que eu não uso soutien”, explicando que começou “como uma coisa de conforto... nunca pretendi que fosse uma discussão ou algo”. A verdade é que não há um motivo único para deixar de usar soutien. Os argumentos – de todas as idades – vão do anticonsumo (basta pensar no preço das peças) a razões culturais ou tamanho de peito.

 

Usar ou não usar soutien, julgo não ser essa a questão. Tem a ver com a opção de o usar, se assim entendermos, e de não o usar, sem que isso seja manchete num jornal ou motivo de comentários que envolvem mamilos e Lua. Todas as mamas são normais. Todos os tamanhos são normais. Todas são, na minha modesta opinião, bonitas. Nenhum seio é “inapropriado”, nenhum mamilo é digno de censura. Mas alguma vez pensou porque é que a primeira coisa que veste de manhã é o soutien? É por conforto? É para tapar alguma coisa? É porque gosta de lingerie? Ou porque é um hábito?

Não há muito tempo, nos anos 70 (ironicamente a época dos hippies e do free love), foi criado um “teste” para perceber se deveríamos usar soutien ou não: o teste do lápis. Basicamente, colocava-se um lápis por baixo do peito e se este se mantivesse lá significava que teria de usar um soutien. Peitos descaídos não são uma condição médica. Os soutiens não são prescritos por doutores. Este teste do lápis servia única e exclusivamente para se perceber se as nossas mamas continuavam empinadas o suficiente para as leis da atração. 

“Tens muita sorte em poder não usar soutien”, dizem-me as minhas amigas com copas com que sonhei toda a minha adolescência (e graças a alguns daqueles soutiens almofadados consegui ter, como a Mamarela que terminaria o feitiço à meia-noite). Para as minhas amigas mais “avantajadas”, chegar a casa e tirar o soutien é o seu momento mais confortável do dia. Mas para fazer o seu dia a dia com o mínimo de conforto seria impensável não usar soutien. Aliás, de acordo com um estudo do Australian Institute of Sport, uma copa B sem suporte pode balançar até oito centímetros durante o exercício – uma duplo DD uns 19. E o que é que acontece quando o nosso maior desejo é não usar soutien mas temos de o fazer?

“Feminismo é sobre dar escolhas às mulheres. Não é um pau que usas para bater nas outras mulheres. É sobre liberdade, é sobre libertação, é sobre igualdade. Não faço ideia o que as minhas mamas têm a ver com isso. É muito confuso."

Os soutiens tornam-se o mais confortáveis possível. Basta entrar numa loja de lingerie como a Intimissimi para comprovar o que estou a dizer. “Os soutiens sem aro foram introduzidos nas coleções Clássicas e Moda inicialmente para acompanhar uma tendência do mercado. Com base no feedback tão positivo das clientes foi decidido expandir o leque de modelos triangulares. Este tipo de modelos vai ao encon- tro de uma mulher que gosta de um efeito natural e que aprecia o conforto. Para chegar a uma vestibilidade perfeita destes modelos, como marca temos em conta antes de mais a tipologia de tecido que melhor se adequa, por exemplo microfibra, renda e algodão e elasta- no e a máxima envolvência através das copas diferenciadas. Fatores diferenciadores são ainda a tipologia de alça, a forma do decote e da altura do cós”, respondeu-me a marca quando questionada sobre o que chegou primeiro, se a tendência, se a necessidade. (Foram as mamas. As mamas chegaram primeiro.) 

Resumidamente, há muita coisa dita sobre mamas. Já li artigos que consideravam o regresso das mamas grandes, outros o triunfo do peito pequeno, como se houvesse uma batalha entre copas ou se fosse possível alterar o tamanho do peito com base nas tendências. Os meus preferidos são os que lançam uma notícia para a mesa sempre que uma celebridade “se atreve” a fazer uma aparição pública sem soutien. Porque é que ainda tem de ser sobre as mamas ou sobre o cérebro? Porque é que Angelina Jolie, atriz e embaixadora das Nações Unidas, não se pode encontrar com o arcebispo de Canterbury num campo de refugiados sem que os seios dela sejam título e lead? Porque é que não podes ser Emma Watson e mostrar o peito ao mesmo tempo? “Feminismo é sobre dar escolhas às mulheres. Não é um pau que usas para bater nas outras mulheres. É sobre liberdade, é sobre libertação, é sobre igualdade. Não faço ideia o que as minhas mamas têm a ver com isso. É muito confuso”, disse a atriz à Reuters depois de um shooting para a Vanity Fair se ter tornado uma destas “notícias”.

Descompliquemos. Não vestir soutien não tem nada de novo (aliás, nascemos todas assim, lembram-se?). Mas como a maioria das “tendências”, estamos de volta ao início do ciclo. E também ao seu fim. Segundo Susan Brown- miller (jornalista e ativista feminista) todas as vagas de feminismo se afundaram na questão da reforma do vestuário. “Assim como as primeiras feministas que formaram as fileiras da primeira vaga se quiseram demarcar do uso da saia-calção, outras mulheres assistiram e viveram outras revoluções nos modos de aparecer em público e nas modas ligadas ao vestuário e à apresentação e à representação de si”, escreve Cristina L. Duarte em Moda e Feminismos em Portugal – O Género como Espartilho. “Esta saia-calção do século XIX já faz parte do museu (do traje). O espartilho que nos serviu de dimensão icónica também.” O meu eu de 16 anos preferia soutiens com aros. O meu eu de 30 tem apenas dois moods: com bralette ou sem nada. Talvez o meu eu de 60 anos compre bilhete para a exposição Soutien: o adeus aos constrangimentos. Talvez esteja de collaints adelgaçantes e cinta. Muito honestamente, será como me sentir melhor. 

 

Artigo originalmente publicado na edição de novembro de 2018 da Vogue Portugal.

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