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Agenda 7. 3. 2019

O melhor do pequeno ecrã no feminino

by Irina Chitas

 

Há séries que nos confrontam, nos atormentam, nos validam. Fazem-no como podem, quando podem, quando conseguem que os papéis para mulheres não sejam menosprezados, não sejam minimizados. Quando o conseguem, saem com tudo. Saem de mãos dadas. Saem do pequeno ecrã para nos falar de irmandade, para nos falar de amor. Estas são as séries, estas são as mulheres, estas são as amigas que nos dizem que mesmo quando corre tudo mal, vai correr tudo bem. 

GLOW ©Netflix

Se repararmos bem, esta lista não é longa. É claro que não é completa, é claro que faltam alguns títulos mas, ainda assim, não são assim tantos. Isto porque os papéis para mulheres, e ainda mais para protagonistas femininas, também não são assim tantos. O que é estranho, só pode soar-nos a estranho, porque a amizade é dos fenómenos mais belos e metafísicos em que podemos acreditar – caramba, até os morcegos-vampiro fêmea cultivam relações próximas e partilham refeições sanguíneas quando as suas amigas não estão bem. A amizade torna-nos maiores, torna-nos melhores, aproxima-nos dos nossos iguais.

Um estudo da Universidade da Califórnia mostrou vídeos a vários estudantes – vídeos tão vastos como o comportamento da água no espaço, Liam Neeson a tentar fazer comédia de improviso ou os perigos de desportos violentos – e observou que o cérebro de amigos próximos reagia de forma incrivelmente similar. Faz sentido: quando somos realmente próximos de um amigo, partilhamos a escova de dentes, o tempo, o abraço, os sapatos, a vida e as ondas cerebrais. Vai na volta e ainda partilhamos as mesmas séries, aquelas cuja verdadeira protagonista é a amizade, crua, visceral, curativa, bonita porque real.

I Love Lucy


Estávamos em 1951 e Lucille Ball era a protagonista de uma série que não tinha precedentes em sucesso. Uma mulher estava à frente de uma grande produção, com um papel principal irrevogável, e ainda que I Love Lucy tenha, ao longo das suas seis temporadas, expressado em cada episódio os clichés do que era ser uma dona de casa da época, também caracterizava Ball como uma mulher com garra, com criatividade, com ganas de não se aborrecer. Ao seu lado estava Ethel. Os maridos iam para o trabalho e Lucy e Ethel tornavam-se pequenos monstros com bicho-carpinteiro, sempre à procura da próxima aventura, sempre juntas. Lucy era a destemida, Ethel a voz da razão, e nunca este equilíbrio foi posto em causa porque a amizade era incondicional e o sentido de equipa muito à frente do que a televisão tinha oferecido até então. 

The Golden Girls


Ou Sarilhos Com Elas (1985-1992), na versão portuguesa, mas o título original é tão melhor que nunca ninguém se lembra da tradução. Para quê, na verdade, quando Dorothy, Blanche, Rose e Sophia são muito mais miúdas douradas do que sarilhos com elas, as verdadeiras pioneiras do grupo de quatro arquétipos de amigas que a cultura pop sempre nos entregou de bandeja – a libertina, a simples, a cínica e o centro. O que é que elas nos contaram? Que as amigas – até as chatas, as impossíveis, as com dores nas costas, as que não pedem desculpa, as que perderam qualquer sentido de politicamente correto – são sempre a nossa família. Em qualquer idade. Acima de qualquer problema. Blanche precisa de um afrodisíaco? “Usa vodka e roupa interior preta, como toda a gente”, responde Dorothy. Mas homens para quê, quando há cheesecake

Absolutely Fabulous


A amizade é uma coisa fantástica, darlings. Aqui estão duas mulheres que, durante dez anos, mediram a sua amizade pelo que sentiam e não pelo número de likes que a sua selfie tem no Instagram. E deixem-nos dizer-vos: isso é extremamente refrescante. Patsy e Edina não se julgavam, não tinham medo de arriscar no que quer que fosse – do trabalho ao que vestiam, passando muito pela quantidade de álcool que conseguiam ingerir – e estavam sempre a obrigar-se a tentar. Também nunca tinham medo de estar sozinhas: tinham-se, sempre, uma à outra. O melhor que Patsy e Edina nos deram foi a ausência de receio. Viviam a sua vida tão ao extremo que parecia que iam morrer amanhã e foi assim que conseguiram tornar uma amizade imortal.

O Sexo e a Cidade


Não estivéssemos limitados em caracteres e escreveríamos uma tese – risque-se – uma carta de amor a estas quatro mulheres que, recentemente, têm vivido debaixo de fogo. Porque Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte foram protagonistas de uma série cujo elenco não tinha qualquer diversidade, cujo argumento não abraçava nenhuma causa política e tratava os direitos humanos apenas de forma superficial e porque, no fim do dia, pareciam todas muito independentes mas o que queriam mesmo era encontrar o amor. Então. Será que ficámos assim tão cínicos e estamos mesmo a exigir em retrospetiva que um programa de televisão que começou há exatamente 20 anos lute pelo que lutamos hoje? Esse seria o mundo ideal mas, como não é, talvez possamos ficar agradecidos pelas barreiras monumentais deitadas abaixo por estas mulheres calçadas com Manolos. O que aconteceu há 20 anos não existia em televisão. Quatro mulheres que não pediam desculpa por ser confiantes. Que eram tão bem-sucedidas como qualquer homem. Que diziam a verdade umas às outras, mesmo que doesse, mesmo que fosse extremamente inconveniente. Que assumiam o feminismo como parte integrante do senso comum. Que falavam abertamente sobre sexo, sobre o período, sobre amor, sobre traição. Que mostraram que é okay ter um filho e continuar a trabalhar, tanto quanto é okay deixar de trabalhar para ter um filho. Que é okay decidir não ter filhos. Que fizeram de tudo para manter a sua amizade que é perfeita por ser tão imperfeita, que não se curva a nada nem a ninguém. Que descobriram que eram almas gémeas.

Gilmore Girls


Entra o novo século e o que poderíamos considerar mais uma comédia dramática familiar com base numa pequena vila dos Estados Unidos. Que fofos, nós, a tentar reduzir Gilmore Girls a esta caixa. Qualquer pessoa que tenha vivido com Lorelai e Rory foi absolutamente arrebatado pelo genial argumento de Amy Sherman-Palladino (que entretanto se tornou especialista em séries que dão espaço a mulheres fascinantes) que trouxe a relação entre uma mãe e uma filha e todas as suas amizades e romances periféricos para um nível que o espectador não conhecia. Gilmore Girls revelou-se uma série, ao contrário de tantas contemporâneas, absolutamente generosa com a diversidade do casting e bondosa na forma como retratou as mulheres. Nenhuma delas nos é apresentada como vítima – mesmo nas situações mais penosas, as protagonistas encaram os problemas como consequências das suas escolhas, assumem-nos, resolvem-nos, tomam-nos como inteiramente seus. Relações entre mulheres – veja-se Rory e Paris – que começam por ser competitivas têm sempre a benevolência do seu lado e crescem, transformam-se, evoluem para algo melhor. Isto é simplificar ao máximo dos máximos: não há palavras que possam descrever o amor magnânimo entre mãe e filha, a amizade e a admiração e o respeito e milhares de referências culturais que têm o altruísmo de partilhar connosco. É uma honra ser testemunha de um produto assim. 

Girlfriends


Absolutamente underrated, Girlfriends nasce em 2000 e abre espaço a um grupo de amigas que, em Los Angeles, tenta lidar com a vida no geral. Parece O Sexo e a Cidade, mas mais a sul? Poderia ser, se estas mulheres não fossem negras. Se era difícil encontrar papéis para mulheres, que dizer para mulheres cuja raça não fosse ariana? É aqui que Girlfriends importa. É uma série leve e sincera, relatable do início ao fim e tem Tracee Ellis Ross, o que é sempre o maior bónus de todos.

Anatomia de Grey


Vai na 15.ª temporada mas o que nos interessa mesmo são só as dez primeiras. Isto porque o grande pilar que sustentou (mais) uma série de médicos foi a amizade entre Meredith e Christina. A sério, tudo o que temos dito até aqui é mesmo bonito, mas que outra amizade é que sobreviveu a tentativas de suicídio, casamentos falhados, bombas, tiroteios, a queda de um avião e a quantidade de ressacas depois daqueles shots de tequila e maratonas de dança desconjuntada? Meredith e Christina diziam “pausa” a meio do ato sexual se a outra lhe enviava uma mensagem urgente. Ignoravam se mais alguém estava na cama e enfiavam-se dentro dos lençóis para debater a bosta da vida ou então ficavam só caladas a olhar para o teto porque bosta da vida. Nem tudo era fácil, discutiram centenas de vezes porque bosta da vida. Mas são as duas personagens infinitamente complexas e bem construídas, que se aceitavam na sua totalidade. “You’re my person.” 

Girls


Oh, Girls. Tanto já foi escrito e amado e odiado e repugnado pela série que nos fez amar e odiar e repugnar Lena Dunham. É engraçado, porque cada pessoa que já deu a sua opinião sobre Girls é exatamente o tipo de pessoa que é retratada em Girls. Millennial. #Woke. Político. Ativista. Socialmente consciente. Tudo isto existe em Girls, embrulhado numa amizade puramente disfuncional entre quatro mulheres que nem sequer encaixam nos arquétipos que a cultura pop nos foi alimentando durante décadas. Imagine-se: estas mulheres, que horror, não ficam lindas e maravilhosas durante o sexo. Blasfémia! Na maior parte das vezes, ao contrário do que Hollywood nos ensinou, chegam até a tirar o soutien e a esborratar a maquilhagem. Estas mulheres não têm dinheiro para Manolos e nem sequer têm tempo para as tretas umas das outras, apesar de continuarem com a consciência de que são maiores juntas do que separadas. Chegam a odiar-se mas nunca deixam de voltar porque o que as une é tão maior que o egoísmo com que regem a sua vida. Girls não foi uma série feita para ser fácil, e é extremamente difícil porque ergue no pequeno ecrã um espelho do mais mesquinho que somos e nós não estávamos preparados para isso. Tal como não estávamos preparados para mulheres reais. Para Hannah, Jessa, Marnie e Shoshanna. É por isso que precisamos delas.

Orange is the New Black


Uma prisão onde mulheres têm de lidar umas com as outras 24 horas por dia, sete dias por semana só podia ser o lugar onde nascem personagens complexas, com nuances, com evoluções, onde crescem conversas sobre representatividade, sobre raça, sobre relações, sobre género. Só podia ser o lugar onde se quebram barreiras e se criam ligações tão fortes que nem a liberdade pode desmanchar. Vejam-se Taystee e Poussey que carregam nos ombros um amor fraterno complicado como tudo, manchado com todos os problemas e cores de um arco-íris, mas que são ligadas como que por um cordão umbilical de admiração. A sério, #friendspiration.

Broad City


Os homens vão e vêm e Abbi e Ilana estão lá. Broad City é uma amizade, perdão, uma série fresca, doce, libertadora, provocadora. Sabe a casa. Porque fala de vulnerabilidade e vulnerabilidade é casa e é força. A série não só tem duas protagonistas absolutamente hilariantes – e não costumamos dizer isto facilmente – como nos faz dar por nós a acenar afirmativa ou negativamente para a televisão quando se fala de sexo, ou feminismo, ou racismo, tantas vezes de forma séria, outras tantas absolutamente satírica. Há idealismo, há solipsismo e, adivinharam, uma amizade do caraças. 

Insecure
 


Nada é real até que se conte aos melhores amigos. Literalmente, não aconteceu. No centro está Issa (a perfeita Issa Rae), ao seu lado estão Molly (especialmente Molly), Kelly e Tiffany, sempre prontas a dar opinião, especialmente quando ninguém lha pediu. É um retrato da amizade entre mulheres negras, num ambiente predominantemente masculino e branco, que não é falado apenas como uma ligação emocional mas como uma necessidade para a sobrevivência da sanidade mental. Se Insecure é alguma coisa de novo? A tentação é dizer que não. Não quebra mais barreiras nem aborda mais assuntos nem choca mais púdicos do que as séries que a precederam, mas Issa Rae tem um talento brutal para o diálogo e consegue fazer de Insecure um marco inabalável na cultura moderna.

Big Little Lies


O entusiasmo à volta de Big Little Lies, além de ser uma produção feita à medida do talento feminino, começou por ser à volta do casting. Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Laura Dern, Shailene Woodley, Zoë Kravitz. É difícil de igualar. Mas depois a série começou. E desenvolveu-se nos laços entre elas, na competição, nos gritos, no silêncio. Foi preciso uma temporada inteira para que o magnífico arco narrativo de Big Little Lies nos fizesse sentido: no choque, no drama, no sufoco, as mulheres deram as mãos. Todas as mulheres deram as mãos. 

GLOW


É engraçado que seja uma série sobre wrestling a abordar o fim de uma relação de amizade. A rutura entre as duas protagonistas de GLOW, Ruth e Debbie, é-nos presenteada como se falássemos de um amor romântico, é-nos elevada acima de todas as outras narrativas do argumento. E também é engraçado que não consigamos tomar um partido. Ruth é ambiciosa, pretensiosa e ridícula, mas é vulnerável e corajosa e neurótica e bondosa. E Debbie é mimada, privilegiada, cheia de comiseração, só que é poderosa, é forte, é lutadora. À volta das duas, está um casting de outras mulheres que se unem e que combatem as suas inseguranças, que se aninham no abraço de um objetivo comum, que saem de si mesmas, que crescem. Que assistem ao fim da relação de Ruth e Debbie e estão lá. Quer recupere, quer não. Elas estão lá.

Artigo originalmente publicado na edição de novembro 2018 da Vogue Portugal.

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