Coleção outono/ inverno 2026 da Béhen. Fotografia de João Janot. Cortesia Béhen.
Há memórias que se escrevem, outras que se sentem. No ateliê da Béhen, bordam-se e vestem-se. A marca de Joana Duarte é uma ode à portugalidade que vive à flor da pele, mas também a prova que o futuro da Moda nacional está bem entregue e assenta na tradição.
Quando se pensa em Moda, pensa-se em grandes ateliês, passerelles internacionais e uma indústria tão fascinante quanto elusiva. Pensa-se em tendências passageiras, arrependimentos estéticos e, na pior das hipóteses, no lado negro do consumismo desmedido que tem definido as últimas décadas. Mas a Moda pode (aliás, deve) ser muito mais do que isso. Na Moda, é possível criar Arte, contar histórias e viajar no tempo e no espaço. Nesta versão da indústria, preservam-se técnicas artesanais e cria-se uma bolha criativa que olha para a tradição como um refúgio. E é precisamente aqui que brilha o trabalho de Joana Duarte, fundadora da marca portuguesa Béhen.
Entre os seus incontornáveis vestidos Catita ou Starry Night, a designer tem tecido um percurso que eleva o artesanato à base da essência do guarda-roupa português. A Moda da Béhen é política, na medida em que é um ato de resistência que visa defender o que torna a estética tradicional portuguesa tão apetecível e irreplicável. Mas o cunho criativo da designer assenta num ADN enraizado na forma como cada coleção veste narrativas e impulsiona discussões fundamentais — do papel da mulher na sociedade às vias de extinção do saber-fazer nacional. Acima de tudo, a Béhen é uma carta de amor que se veste; é uma ode à portugalidade que vem do ato de apreciar o que se faz bem cá dentro, mesmo quando partimos de fora.
É também um reflexo da singularidade de Duarte, cujo primeiro contacto com a Moda passou por frequentes idas à capital francesa para visitar os seus avós. “Do lado da minha mãe, a minha família vive em Paris, por isso, as idas a exposições de Moda sempre fizeram parte da minha realidade”, conta-nos. “Lembro-me de, muito nova, ir a um workshop no ateliê de Sonia Rykiel, e de, todos os Natais, me oferecerem cadernos para desenhar roupas”. Sempre foi claro que este era o caminho que queria percorrer, ainda que os pais tenham tentado sugerir caminhos profissionais ligeiramente mais seguros do que a Moda, como a arquitetura ou o design. “A única questão é que o plano foi sempre estudar para [depois] ir para fora trabalhar numa marca — nunca tive o objetivo de criar a minha própria marca ou empresa. Talvez seja por isso que a marca não tenha o meu nome”, confessa.

Joana Duarte, fundadora e diretora criativa da Béhen.
Fotografia de Mariline Alves. Cortesia Béhen.
Após a licenciatura na Faculdade de Arquitetura, a criadora rumou a Londres para fazer o mestrado na Kingston University. “Londres permitiu-me perceber a realidade da indústria [da Moda] a uma escala internacional”, diz Duarte. “Em Portugal, ainda há pouca proximidade com os standards, o ritmo e a exigência do que se faz lá fora”. Passou também algum tempo na Índia, “numa altura em que já não tinha a certeza de que o design de Moda, no sentido mais tradicional, fazia sentido para mim”, conta. “Não me imaginava a trabalhar numa grande marca. Sentia-me muito mais ligada às técnicas artesanais e ao trabalho manual”. A designer descreve a Índia como um contexto único, tanto pela riqueza das suas técnicas têxteis como por todo o conhecimento que existe à volta do fazer. Foi o início do mindset que acabou por dar origem à Béhen. “Percebi que era possível construir um percurso na Moda de outra forma. Que não era obrigatório sonhar com Paris, com as grandes maisons ou com os desfiles”, reflete. “Há espaço para uma abordagem mais próxima do território e das pessoas”.
Mas foi o seu projeto final de mestrado que, de forma ingénua, como descreve a designer, viu nascer a Béhen. “Na altura, estava a trabalhar com têxteis antigos que eram da minha avó e de vizinhas, e passei algum tempo em Portugal a desenvolver essas peças”, diz. “Lembro-me de ouvir, mais uma vez, o discurso de que ninguém queria aquelas toalhas bordadas, que já ninguém bordava e que aquilo acabaria por ir para o lixo. Cresci a ouvir isso, mas, depois de viver fora e de estudar em Londres, onde a pesquisa e a identidade são tão valorizadas, essas palavras da minha avó tiveram outro impacto”, admite. “Sem grandes planos ou expectativas, queria apenas mostrar que era possível criar peças contemporâneas a partir daqueles materiais ou técnicas”. O projeto foi ganhando forma, derivada dessa vontade e procura de criar ligações. Em hindi, a palavra Béhen significa “irmã”, e serve como uma homenagem às mulheres com quem Duarte se cruzou na Índia — mas também às suas próprias irmãs e à irmandade feminina que acredita existir para lá da língua, da cultura ou da geografia.

Cortesia Béhen.

Cortesia Béhen.

Cortesia Béhen.
Coleção após coleção, a marca tornou-se uma espécie de manifesto de portugalidade. Mas, na verdade, esta essência sempre esteve presente no trabalho de Duarte. “Desde os primeiros projetos da licenciatura, em 2013, que recorro a materiais ligados à minha infância, à casa dos meus avós, às tradições portuguesas e às silhuetas do vestuário tradicional”, partilha. Já durante o mestrado, entre 2016 e 2018, continuou a trabalhar com têxteis antigos e a colaborar com artesãos. A criadora reflete que todo este processo se desenrolou de forma muito orgânica, e que nunca partiu de nenhuma tendência ou decisão estratégica — “simplesmente, não saberia fazer design de outra forma”, esclarece.
Ao longo do seu percurso académico na capital britânica, sentiu-se constantemente desafiada a pensar no porquê das suas escolhas enquanto designer, assim como na responsabilidade que o design tem em responder a problemas reais e tangíveis. “Essa forma de pensar fez-me perceber que o meu contributo não passava por criar mais um produto, mas por encontrar formas de valorizar técnicas, materiais e saberes que estavam a desaparecer”, diz-nos. É uma filosofia que vai contra a corrente e desafia o panorama atual do consumismo que se faz sentir na Moda, independente- mente do setor.
E talvez seja por isso que é tão necessária e tão bem recebida quando entregue por via de silhuetas Béhen. Afinal, as propostas assinadas por Duarte defendem o valor do tempo (e da importância da lentidão quando toca a criar). “Quando se trabalha com processos manuais, o tempo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição”, explica. “Obriga-nos a respeitar o ritmo de quem faz e a perceber que nem tudo pode, nem deve, ser acelerado”. “Ao mesmo tempo, não é uma realidade simples”, continua, “quanto mais conhecemos a indústria, mais percebemos a complexidade destas questões. Hoje, vemos muitas marcas a valorizar o artesanato e as técnicas tradicionais, mas a maioria continua a produzir em países onde o custo da mão de obra e o tempo têm outro valor. É muito difícil competir — não só em preço, mas também nos prazos”. Duarte escolhe ativamente acreditar que existe outro caminho, e assume que continuar a produzir em Portugal, trabalhar com artesãos locais e preservar técnicas pode nunca ser a opção mais fácil ou mais rentável. “Mas é a que faz sentido para a Béhen. Para mim, é importante sentir que existe intenção por detrás de cada peça e que, de alguma forma, estamos a contribuir para que este conhecimento não desapareça”, defende.
A Moda da Béhen é política, na medida em que é um ato de resistência que visa defender o que torna a estética tradicional portuguesa tão apetecível e irreplicável.
Introduzir contemporaneidade em técnicas seculares é como viajar entre o passado e o futuro, mantendo um pé bem assente no presente. No que diz respeito ao universo da Béhen, esta abordagem é feita através de um trabalho contínuo de pesquisas — em arquivos, referências antigas ou colaborações com artesãos. “É muito importante perceber a parte técnica, como é que as coisas são feitas e, acima de tudo, as pessoas que as executam”, explica Duarte. “Tento sempre não misturar elementos de forma aleatória. Existe uma responsabilidade em respeitar a linguagem de cada técnica e a sua origem, e, muitas vezes, é até a própria técnica que acaba por ditar o design da peça. Não é algo que é adicionado como decoração”, continua.
No ateliê da Béhen, é imperativo nutrir uma ligação real com quem executa as técnicas artesanais, o que é algo que a designer acredita exigir tempo, compromisso e continuidade. “Implica investimento e é complexo; se não fizer parte do núcleo da marca, dificilmente se mantém esse compromisso”, sublinha. Até porque, como a criadora afirma: “aprendi que o conhecimento artesanal não é, de todo, valorizado”. “Em Portugal, parte do discurso (...) de serem técnicas tão presentes no nosso quotidiano e de quase todos termos alguém na família que sabe bordar, fazer croché ou tricotar. Isto é, frequentemente, dito sem qualquer noção da complexidade técnica e da mestria envolvida”, acrescenta.
Além disso, a criadora refere que existe também uma ligação muito forte ao universo feminino — “o facto destas práticas terem sido historicamente vistas como menores ou apenas domésticas contribuiu para que não fossem reconhecidas como formas de saber altamente especializadas. Trabalhar de perto com estes artesãos fez-me perceber a profundidade e a exigência destas técnicas”, conta-nos. É precisamente esta batalha que Duarte trava através dos seus designs, assumindo a missão de mostrar às novas gerações que “não se trata apenas de ‘saber tricotar’ ou ‘saber bordar’, mas sim de um conhecimento técnico muito complexo, que merece reconhecimento e preservação e que pode ser aplicado a nível contemporâneo”.

Coleção outono/ inverno 2026 da Béhen.
Fotografia de João Janot. Cortesia Béhen.

Coleção outono/ inverno 2026 da Béhen.
Fotografia de João Janot. Cortesia Béhen.
Numa infinidade de opções, escolher uma técnica favorita é quase como nomear um filho predileto, e Duarte assume que tenta “não explorar novas técnicas de forma contínua sem garantir que [é possível] assegurar alguma continuidade das experiências desenvolvidas”. Atualmente, o bordado com vidrilho, tradicional do Minho, é o saber mais utilizado na Béhen; “aliás, tive de aprender a bordar por necessidade, numa altura em que já havia muito pouca mão-de-obra disponível para este tipo de técnica”, revela a designer. Outras técnicas que mar- cam presença assídua nas suas coleções são o bordado da Madeira, o bordado de Viana ou o bordado de Nisa. Fora das coleções, quando a Béhen colabora em projetos mais específicos, na área do teatro, por exemplo, o ateliê consegue explorar técnicas mais complexas ou menos viáveis para produção regular — “precisamente porque não estão tão dependentes de escalabilidade ou de custos de produção”, explica Duarte.
Já em época normal, as coleções da marca nascem sempre a partir de um nome que, por sua vez, surge através de uma pesquisa em bordados, objetos ou arquivos. “A nível conceptual, o processo [nunca] muda muito porque a Béhen já parte de um universo muito rico”, diz. “O que muda em cada coleção é o objeto ou a referência inicial que abre um micro-universo e que nos leva a focar mais em determinadas técnicas do que noutras”, continua. “Há técnicas que acabam por estar sempre presentes, variando apenas o grau de destaque consoante o tema de cada coleção”.
Mas, como tudo, produzir peças à mão tem os seus prós e os seus contras. “Acho que, no nosso caso, uma das maiores recompensas é podermos acompanhar todo o processo de uma peça, algo que muitas marcas que produzem em contexto industrial acabam por não vivenciar”, conta-nos a criadora. Entre o desenho do bordado, aos testes de cor, amostras, moldes e protótipos, até chegar à peça final, “existe um envolvimento muito contínuo e é um processo que exige uma equipa muito próxima”. Por outro lado, como reflete Duarte, não é um processo fácil. “São projetos que requerem muitos recursos humanos em simultâneo e, à medida que a marca cresce, torna-se um desafio manter essa dimensão mais pessoal e direta em todas as etapas”, explica. De qualquer forma, “todas [as técnicas] têm o seu grau de complexidade, mas é precisamente esse processo de desenvolvimento que torna tudo tão interessante: no final, acaba sempre por compensar”, afirma a designer.
Trabalhar de perto com artesãos fez-me perceber a profundidade e a exigência destas técnicas.
Joana Duarte, fundadora e diretora criativa da Béhen.
Mesmo com amor à camisola (e à tradição), o panorama da Moda nacional continua aquém do que se vive fora das nossas fronteiras. “[Viver da Moda em Portugal] é bastante desafiante, até porque não existe propriamente uma cultura de Moda muito enraizada cá”, revela Duarte. “Ainda assim, sinto que houve uma mudança no comportamento do mercado. Mesmo em Portugal, as pessoas procuram, cada vez mais, peças únicas, com história e com uma carga emocional mais forte”, continua.
A criadora partilha que estar em Lisboa acaba por se refletir numa onda crescente de oportunidades, pois sente que há muita gente a visitar a cidade. “Recebemos visitas no ateliê de stylists, artistas e profissionais internacionais, e tentamos sempre tirar o máximo partido dessas visitas”, diz a designer. “Ao mesmo tempo, as redes sociais também nos permitem chegar a outros públicos, o que tem sido fundamental para a evolução da marca e ultrapassar algumas limitações do mercado local”, acrescenta. Contudo, quando olha para tudo o que construiu até agora, é da sua equipa que Duarte está mais orgulhosa, de “ter conseguido construir esta rede de pessoas e de contactos que partilham o universo da Béhen”.
No futuro, e sob a missão de “levar a Béhen e o enxoval a conhecer novos mercados e contextos fora de Portugal”, a criadora pretende continuar a desmistificar as ideias preconcebidas que se desenvolveram em torno do artesanato, da sustentabilidade e do panorama da Moda em Portugal. “Acho que existe a ideia de que a Moda nacional ou as marcas pequenas são automaticamente sustentáveis, e isso nem sempre corresponde à realidade”, diz-nos. “Claro que a escala é menor e, por isso, há menos desperdício em termos de produção, mas se não houver um cuidado real na escolha de materiais e uma intenção clara no porquê de cada peça, isso não significa necessariamente sustentabilidade”.
Relativamente ao artesanato, a designer acha que a própria palavra tem uma conotação injusta, que “não reflete o verdadeiro valor de quem o pratica, [por isso], quero desconstruir a ideia de que os artesãos são apenas pessoas mais velhas ou que não é possível viver desta área. Claro que é difícil”, admite Duarte, “sobretudo porque, a nível de valores e reconhecimento, ainda não é uma indústria suficientemente atrativa para quem trabalha nela. Ainda assim, acredito que é possível mudar algumas coisas e melhorar a realidade atual, dando mais visibilidade e valor a este conhecimento”, conclui. E é precisamente isso que Joana Duarte, através da Béhen, tem feito. Bordado após bordado, coleção após coleção.
Originalmente publicado no The Portuguese Summer Issue, a edição de julho/agosto de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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