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Editorial Janeiro 2020

Editorial 5. 2. 2020

Editorial fevereiro 2020 | Cinema

by Sofia Lucas

 

“What is the essence of the director’s work? We could define it as sculpting in time.” Andrey Tarkovsky

 Taylor Hill fotografada por Morelli Brothers, com styling de Alba Melendo

Conta-se que, na China Antiga, o imperador possuía o Tempo - para todos os seus súbditos, o tempo deles não era deles, mas dele. Ele podia definir o calendário como quisesse, tornar as horas ou os dias tão curtos ou longos quanto quisesse. Na primavera de 1872, um homem fotografou um cavalo, e fez com que o tempo parasse. Um magnata ferroviário americano encomendou ao fotógrafo inglês Eadweard Muybridge um estudo sobre o galope dos cavalos, a fim de determinar se existia algum momento em que as quatro patas não tocassem o chão. Como os cavalos galopam a uma velocidade que ultrapassa a perceção do olho humano, era impossível discernir sem congelar o movimento numa imagem parada. Muybridge colocou 24 câmaras fotográficas ao longo da pista de um hipódromo e registou em 24 imagens sequenciais todos os movimentos do cavalo. Uma década antes da invenção do cinema, as técnicas de desenvolvimento de Muybridge fundiram engenharia e química de ponta para produzir mais e melhores fotografias em alta velocidade. Pela primeira vez, os estudos de movimento de Muybridge capturaram o que T.S. Eliot mais tarde chamaria "o ponto imóvel do mundo em transformação".

O fotógrafo capturou aspetos do movimento cuja velocidade tornara invisíveis e, ao mesmo tempo, encontrou uma maneira de colocá-los de novo em movimento, com as suas experiências e a criação do zoopraxiscópio, um dispositivo para projetar os retratos em movi- mento, que seria o precursor da película de celulóide. Como se ele tivesse agarrado o próprio tempo, o fizesse ficar parado e depois o fizesse correr de novo, uma e outra vez. O tempo estava sob o seu comando, como nunca havia acontecido antes. Um novo mundo abriu-se para a ciência, para a arte, para o entretenimento, para a consciência. Tecnologia e consciência sempre se moldaram, talvez em nenhum lugar mais evidente do que na nossa experiência do tempo - desde o momento em que a invenção do relógio de Galileu provocou a contagem moderna do tempo até à brutalidade com que os cronogramas das redes sociais nos cercam com uma sensação esmagadora de urgência. Mas a década de 1870 foi particularmente fértil na transformação tecnológica como uma prática, uma técnica ou um dispositivo para alterar o mundo ou a experiência do mundo. E o Cinema foi apresentado como a sétima arte.

 

 
 
 
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Em 1926, quando o Cinema era ainda jovem e mudo, Virgínia Woolf sentiu-se tão cativada quanto preocupada com a sétima arte, e escreveu um ensaio, The Movies and Reality, onde explorava os seus perigos e as suas promessas. "Os olhos absorvem tudo instantaneamente, e o cérebro, agradavelmente excitado, acomoda-se para assistir aos acontecimentos sem se esforçar para pensar." Segundo Woolf, uma distância enorme separa a experiência de observação da realidade e a vivência da própria realidade. Por mais arrebatadora que seja a cena, e por mais intensa que seja a emoção que desperta em nós, sabemos que aquela chuva torrencial não nos vai molhar, que aquele leão numa savana africana não nos vai atacar ou que aquele edifício não vai desabar em cima de nós.Tal como os suspiros românticos pelo beijo de Scarlett O'Hara e Rhett Butler, em E Tudo O Vento Levou, nunca nos fariam imaginar o mau hálito de Clark Gable, que Vivien Leigh mais tarde confessou numa entrevista. Mas, no fundo, é essa a magia do Cinema, a capacidade mais profunda de reproduzir todo o tipo de emoções e envolver-nos no nosso desejo eterno de escapismo, entretenimento e autoexpressão.

Um século nos separa dos primórdios do Cinema, e das reflexões de Woolf, e hoje a sétima arte é cada mais imersiva, mais rica e poderosa, técnica e criativamente. Por mais que a realidade virtual, a que nos rendemos, também tenha o poder de nos fazer refletir e tantas vezes questionar a vida real, a beleza cinematográfica de um drama, de uma comédia, de uma paixão, do medo ou até da dor estará sempre ao abrigo da Arte que imita a vida. A grande questão é como "realizamos" ou escrevemos os guiões da nossa própria vida. O Cinema reproduz todo o tipo de padrões e comportamentos humanos, criando role models nos personagens que imortaliza, sejam eles os vilões ou os heróis. Mas, como diz o meu melhor amigo, se soubéssemos que no final da nossa vida ela se iria transformar num filme, será que mudaríamos o personagem que somos? Transformarmo-nos em espectadores da nossa própria história provavelmente transformaria tanto, ou até tudo, na forma como conduzimos a nossa vida. Dos pequenos aos grandes gestos, das menores às maiores decisões da nossa vida, escolheríamos ser o cobarde ou o herói? Não para uma audiência, mas para nós pró- prios, à luz dos nossos próprios olhos. Provavelmente traríamos muito mais significado e sentido aos nossos gestos, sentiríamos a falta da beleza cinematográfica que no fundo procuramos na Arte que nos rodeia, para a passar a viver em pleno, e com a consciência do papel principal que temos e somos. Todos os dias.

Uma curta-metragem onírica, do cineasta Drew Christie, sobre a vida de Eadweard Muybridge, o pioneiro do Motion Picture, contada do ponto de vista do seu filho abandonado, e exibida através de Mutoscópio, dispositivo cinematográfico inventado pelo pioneiro da animação, Winsor McCay. 

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